Além da superfície.
4 Boas surpresas.
Notas iniciais
Santana agradeceu por seus pais estarem viajando, assim não precisaria responder nenhuma pergunta sobre sua amiga. Quinn adormeceu tão pesado em seus braços, que a latina resolveu se aconchegar ali mesmo no sofá. Ela puxou o corpo da loira pra ela, segurando-o protetoramente e também adormeceu. Quando amanheceu, a sala se iluminou, acordando Quinn, que gemeu de dor de cabeça. Ela abriu os olhos, se lembrando de onde estava e tudo o que aconteceu no dia anterior. As duas estavam acordadas, mas nenhuma queria se mexer, presas em seus próprios pensamentos.
Por Quinn
Sinto meus olhos arderem só em lembrar o que eu vi no braço de Rachel. Ela não pode estar fazendo isso. Vai ver que ela realmente caiu e se arranhou. Certo, ela não precisaria ter reagido daquele jeito, mas ela é Rachel Berry, afinal: A rainha do drama. Suspiro, cansada. Eu sei que isso tudo já deixou de ser um grande drama faz tempo. Santana começa a mexer no meu cabelo, mostrando que também está acordada. Enterro minha cabeça em seu pescoço, agradecida por tê-la comigo.
– Onde está Brittany? – Pergunto, estranhando a falta da dançarina.
– Na casa dela, eu espero. – San ri falso e eu levanto os olhos, para encará-la. – Nós discutimos, mas não foi nada demais.
– Discutiram por quê? – Pensar nas duas brigando é algo... Surreal.
– O de sempre. – Suspira, frustrada.
– Ela quer que você assuma o namoro publicamente. – Arrisco. Ela assente. – E quando você fará isso?
– Em breve, Quinn. – A latina se afasta, para sentar no sofá. – Eu quero saber o que aconteceu com você.
Respiro fundo e começo a contar tudo, desde quando eu cheguei na casa dos Berrys, passando pelos ensaios e conversas agradáveis, até chegar na parte em que a blusa de Rachel baixou, revelando cicatrizes estranhas. Eu estremeço com a lembrança, sentindo o bolo na garganta voltar. Santana encara o chão, com uma expressão vazia no rosto. Ficamos em silêncio por alguns minutos.
– Você acha que... – Limpa a garganta. – Que ela se machuca? – Pergunta temorosa. Eu mordo o lábio, assentindo.
– Foram várias cicatrizes diferentes, San. – Choramingo. – Pensa comigo, por que ela estaria usando aquelas blusas de mangas compridas esses últimos dias, não se importando quão quente estava?
– É Rachel Berry, Quinn. – Santana fala com raiva. – A anã que nós tentávamos irritar, que jogávamos raspadinhas, mas nós quem acabávamos irritadas, porque ela sempre levantava a cabeça e mostrava que era superior a nós. Ela não se machucaria de propósito.
Eu assinto, querendo acreditar nisso com todo o meu coração. Nós ficamos em silêncio mais uma vez. A latina esconde o rosto entre as mãos, suspirando pesado. Eu coloco meus braços por cima dos ombros dela, puxando seu corpo contra mim.
– É isso que ela faz no banheiro? – Sussurra, me pegando de surpresa. – Por favor, me diz que não.
– San...
– Não, Quinn! – Ela levanta, eu seguro seu punho, prevendo o próximo movimento da latina. Santana gosta de quebrar coisas quando está chateada. – Isso é muito sério. Nós... Eu...
– Nós vamos ajuda-la. – Garanto.
– Nós vamos... Como, Q? – Murmura.
– Eu preciso que você chame Brittany. Tudo bem?
– Tudo... –Responde fraca. – Por quê?
– Ainda não sei, mas ela tem boas ideias. Três cabeças pensam melhor que duas.
Por Rachel
Escuto as batidas na porta do meu quarto. Abro os olhos, confusa, percebendo que adormeci no chão do banheiro. Ainda bem que eu tranquei de chave. Gemo com um pouco de dor em meu braço, passo água, antes de cobrir novamente e abrir a porta pra quem quer que fosse. Leroy aparece com uma sobrancelha levantada. Ótimo.
– Por que trancou a porta, mocinha?
– Porque vocês demoraram a chegar, fiquei com medo de dormir com a porta aberta. – Minto. A expressão no rosto de meu pai suaviza.
– Oh, perdão, estrela. – Ele me abraça e eu controlo o impulso de virar os olhos. – Foi uma reunião de negócios, tínhamos muito o que resolver.
– Eu entendo.
– Você está bem? Está um pouco pálida. – Sério que ele resolveu prestar atenção em mim justo agora?
– Estou, papai. Só acabei de acordar, preciso de um banho.
– Ah, sim. – Sorri. Tão fácil... Suspiro. – Corra, você vai se atrasar para a primeira aula.
Ele sai do quarto. Eu encosto a cabeça na porta pensando em alguma desculpa para faltar à aula de hoje. Talvez eu possa apenas não ir, meus pais não precisam saber, precisam? Eles nem mesmo vão notar. O banho já não dói mais como antes. Acho que estou acostumada com a dormência que a água causa quando entra em contato com os cortes. E isso é bom. Qualquer dor física é bem vinda, é melhor que as humilhações, melhor que o ódio que todos têm por mim.
Dirijo um pouco, evitando chegar tão cedo no colégio. Eu sei que já faltei muito, não quero que liguem para minha casa e isso me cause um problema. Estaciono, esperando que o sinal soe e eu possa entrar. Quando eu escuto, conto mais alguns minutos e saio do carro. Respiro aliviada por ver os corredores vazios, sem raspadinhas, por enquanto. Inferno, não acredito que a primeira aula é essa...
– Rachel Berry, você está atrasada. – A professora diz fria.
– Sinto muito, eu peguei transito.
Sento na cadeira, sem olhar para os lados. Mas, sinto os olhos de três meninas em mim. Eu suspiro frustrada. Por que elas estão fazendo isso? Quando Quinn vai levantar e gritar para todo o mundo que o que viu ontem? Santana já deve ter inventado algum apelido maldoso, que vai ser espalhado como uma epidemia. E Brittany... Ah, Brittany vai apenas rir.
– Espero que você preste mais atenção dessa vez. – A professora fala outra vez. Eu engulo a raiva.
– Sim, senhora.
Tudo calmo demais. Assim que eu coloquei o pé fora da sala, dois jogadores me acertaram uma raspadinha de laranja. Fechei os olhos, sabendo o que viria depois. E então, as risadas ecoaram pelo corredor. Meu corpo começa a tremer. Raiva, vergonha, nervosismo. Ouço algumas vozes murmurarem “perdedora”, “manhands”, “insuportável”. Mas, aí uma voz conhecida, falando algo diferente.
– Saiam daqui. Vão arrumar uma roupa para lavar, inúteis. – Abro os olhos, incrédula por ver Santana afastando todo mundo.
Antes que ela venha falar comigo eu corro em direção ao banheiro. Que diabos? Quinn está plantada na porta. Mudo minha rota, indo para o auditório. Silêncio e vazio. Suspiro, aliviada. Tiro uma toalha que carrego na bolsa, limpando meu rosto do líquido frio. Para minha sorte, não caiu muito em meu cabelo. Entro em um dos camarins e troco de blusa, lamentando por ter pegado uma tão quente. Sento no banco do piano. Eu não quero cantar, eu não sinto mais vontade de fazer isso. Minhas mãos começam a tocar as teclas, me expressando através do som do piano. Meu coração começa a bater rapidamente. Eu só quero pegar a lamina na minha bolsa e aliviar essa dor. Mas, eu preciso me controlar. Ao menos hoje. É muito arriscado. O auditório é arriscado. Termino de tocar e escuto passos atrás de mim. Merda! Limpo as lágrimas, que eu nem senti caírem, depressa.
– Bonita música. Mas, eu senti falta da sua voz. – Fecho os olhos com força. – Por que você parou de cantar?
– Porque eu não sinto mais vontade, Britt. – Sussurro, ainda de olhos fechados.
– Isso é ruim. – Pela sua voz, eu sei que ela fez uma careta. Sorrio fraco, encontrando seus olhos. – Eu gosto de sua voz, Rach.
– Certo. – Ri irônica. – Obrigada.
– Falo sério, Rachel. – Vejo sinceridade em seu rosto e estremeço. Brittany sempre foi simpática comigo, mas infelizmente, se deixa levar pelas Cheerios. – Um dia, Lord Tubbington me perguntou qual era a voz que eu mais gostava do Glee Club. Eu respondi que era Santana, porque eu amo a voz da San e amo tudo que ela faz.
– Eu sei. – Sorrio sincera. Todo mundo sabe que essas duas se amam, mas ouvi-la falar assim é... Doce.
– Mas, a minha segunda é você. Você canta com o coração. Isso que é emocionante, sabe? Nós sabemos que a música é sua vida, e quando você canta todo esse amor transborda e contagia a gente. -Engulo seco, desviando o seu olhar.
– Ninguém gosta, Britt. – Minha voz sai embargada. – Eu só estrago tudo.
– Claro que não. – Ela diz firme. – Posso te contar um segredo? – Eu assinto. – Muita gente sente inveja de sua voz. – Eu gargalho. – É verdade. – Diz séria.
– Todos me odeiam, não podem ter inveja de mim.
– Eu gosto de você.
– Por favor, Brittany... – Engulo um soluço. Ela coloca uma mão nas minhas costas, mas eu a afasto. – Me deixe sozinha.
– Eu sei que você não acredita em mim. – Eu sinto um tom de mágoa na sua voz e fecho minhas mãos em punho. – Eu te deixo sozinha, mas quero algo em troca.
– O que? – Franzo a testa.
– Preciso ensaiar uns passos. Você pode tocar novamente?
– Britt, eu não...
– Por favor?
Respiro fundo, fazendo o que a loira pede. Vejo o sorriso aparecer em seu rosto. Ela levanta no ritmo que eu estou tocando. Brittany será uma excelente dançarina. Resolvo tocar rápido, colocando todos os meus sentimentos para fora. Ela acompanha com movimentos exatos. Balanço a cabeça, Britt não precisa de ensaios. Volto para o ritmo lento e sorrio para a loira, que agora dança suave.
– Você toca muito bem, Rachel. – Ela vibra quando eu paro, escondo meu rosto com o cabelo, para que ela não perceba que estou corando.
– Você vai ser grande nos palcos, Britt. – Digo sincera.
– Você também vai. – Rio, negando. – Rach, nós poderíamos fazer isso mais vezes? Eu gosto de dançar quando tocam piano ou violão. É diferente de dançar com cd.
– Pode ser. – Sorrio de lado. Ela me surpreende com um abraço. Eu não consigo corresponder.
– Te vejo mais tarde em Glee.
–---
Rachel senta no seu lugar, separada de todos. Santana levanta, com o dedo mindinho entrelaçado no de Brittany e as duas sentam atrás da pequena. Quinn segue as amigas e senta ao lado dela. Rachel fica tensa na cadeira, sentindo os olhares incrédulos do resto do grupo. Ela não arrisca olhar para Quinn quando a loira fala com ela.
– Você quer apresentar hoje? – Pergunta calma.
– Você se importa se adiarmos para amanhã? – A morena responde, sem encará-la.
– Tudo bem.
Não era isso que ela estava esperando para hoje. Rachel imaginou diferentes tipos de brincadeiras macabras sobre ela. Ou pelo menos várias perguntas insistentes dessas três, principalmente de Quinn. Durante a apresentação de Sam e Artie, ela conseguiu levantar os olhos para a loira. As duas sorriram, compartindo uma piada interna. Os dois estavam cantando Katy Perry. Os aplausos atrapalharam a conexão das duas, fazendo Rachel desviar os olhos para o chão outra vez. Quinn resmungou, mas quando encontrou os olhos de Britt, sorriu novamente.
– Uou, isso vai ser difícil. – Professor Schue vibra.
– Nem fala. – Quinn sussurra e percebe Rachel prendendo um sorriso.
– Mais alguém quer se apresentar hoje? – Todos negam. – Então, até amanhã, pessoal.
A turma saiu da sala. Quando todos estavam fora, Santana deu um beijo rápido em Brittany e acompanhou o resto, deixando a amada sozinha com Quinn.
– Vocês estão bem?
– Sim, já conversamos. – Britt sorri triste. – É só complicado às vezes. – Dá os ombros.
– Você sabe que é difícil pra Santana assumir isso.
– É, eu sei. – Respira funda, encarando a amiga. – É difícil para você também?
– O que? – Quinn a olha, confusa.
– É difícil para você assumir?
– Assumir o que, Brittany? – Franze a testa.
– Assumir que você gosta de Rachel.
– O... Eu... Como... Você... O que?
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