Akai Ito (Fio Vermelho) - Primeira Temporada
2 Capítulo 2 – Verdadeira amizade
Notas iniciais
Quando os primeiros raios tocaram a alvorada, a pelejava bravamente entre a tênue escuridão, em uma pequena e precária cabana, um gatinho espreguiçou. Seu rabo branco chicoteou pelo ar, suas pernas esticaram e seus braços estenderam, mas com descuido bateu as pequenas mãos contra a velha cabeceira da cama.
— Ita... — Ele choramingou balançando as mãos no ar a fim de amenizar a dor. Ainda que sem coragem e tentando ignorar o frio da alvorada, ele levantou dispensando o quentinho cobertor que havia ganhado de seu melhor amigo, e sentou na cama.
Uma de suas mãos coçaram os olhos ainda sonolentos e a outra coçou a cabeça. Com os cabelos desgrenhados, as roupas amassadas e gastas e o cansaço tomando posse de si, Nanami levantou seguindo ao minúsculo banheiro, mas que servia para fazer as suas necessidades.
Devido o frio matutino, não ousou tomar banho, mas garantiu fazer xixi, escovar os dentes e lavar o rosto. Logo dispensou suas roupas gastas, mas confortáveis para dormir, e escolheu uma Yutaka curta na cor azul opaca. Primeiro ele vestiu o short preto, enfaixou a fita branca de algodão em volta de seu peito e vestiu o jaleco da Yutaka, esticando bem o tecido e enrolando uma faixa marrom na cintura.
Sabia que aquela roupa era para alguém de dez anos, mas considerando que era menor do que alguém de sua idade, ela servia muito bem... Um pouco curta, mas vinha a calhar. Não querendo chegar atrasado dessa vez, ele correu para calçar as sandálias trançadas quase nos joelhos, e depois enfaixou a fita preta nas mãos – a fim de protegê-las. Nanami deixou para arrumar os cabelos por último, e então fechou os olhos se concentrado e fazendo por mágica as orelhas e o rabo sumirem. Ele preferia mantê-los longe dos curiosos olhos.
O pequeno neko esfregou o estômago quando a fome lhe bateu, ele correu até a cozinha – que não era longe – e procurou por algo para comer. Achou um pedaço de pão e uma maçã, que tinha sobrado de ontem...
— Como no caminho! Hoje chegarei a tempo! — Nanami afirmou para si mesmo. Apressadamente ele saiu da casa, mas voltou um passo atrás para a limiar da porta e fechou os olhos ao que uma das mãos segurou o pingente de coração. “Obrigado papai pela noite de sono, e esteja comigo ao decorrer desse dia. Te amo”, ele disse em pensamentos para o pai que carregava no seu amor, visto que o perdera a muito tempo atrás.
Com sorriso radiante, ele fechou a porta de madeira e saiu correndo. Ele pretendia chegar no horário aquele dia para as entregas, diferente dos outros 29 dias no mês. Ele não tinha culpa, sempre saia no horário de casa, mas algo no caminho sempre o distraia.
A escuridão ainda disputava com os raios solares quando ele saiu de casa, considerando que tinha um tempinho, ele seguiu comendo o seu meio-pão, e ao terminá-lo, partiu para a maçã. Ele a comeu bem lentamente, assim não terminaria tão rápido.
Até então tudo seguia bem, mas quando Nanami terminou seu humilde café da manhã, que jogou o resto – quase nada – da maça fora, ele parou diante do pequeno miado. Curioso seguiu para dentro de um beco.
Ele buscou não fazer barulho, mesmo que chutar uma lata não cooperava a tal feito, mas com sorte chegou à fonte do miado. Com zelo retirou o jornal, somente para ver uma pequena caixa com dois filhotes de gatos, mas não eram Were Nekos, mas sim gatos domésticos comuns.
— Oh, que lindinhos. Quem os deixou aqui? — Perguntou como se esperasse que a dupla respondesse, mas tal resposta nunca veio. Ele abaixou diante da caixa e pegou-se brincando com os pequeninos.
— Meow... — Um dos filhotes miou. Os mesmos eram todos brancos, mas um deles tinha uma mancha negra na patinha esquerda e o outro na ponta do rabo.
— São tão lindos! Os queria para mim... — Nanami disse pegando os mesmos e apertando contra seu corpo, balançando de um lado para o outro, mas logo parou com rosto tristonho. — Ah... Mas, eu mal tenho comida para mim... Como vou alimentá-los?
— Meow... Meow... — Os pequenos arrulharam como se respondessem.
— Verdade! Posso pedir a Sayuri! Sabe, ele é um príncipe lindo... E bondoso. Aposto que amará vocês como eu... Isso, ele será o papai de vocês e eu a mamãe... — Nanami disse com os olhinhos brilhando. Ele voltou abraçar os pequenos, para então os coloca na caixa e a aconchegou no cantinho. — Fiquei aqui, não saiam... Depois fazer as minhas entregas volto para vocês... Ah! — Ele gritou. — As entregas! Estou atrasado! — Ele beijou o topo da cabeça de cada gatinho e depois saiu correndo pela avenida da cidade de Masao. Não tinha jeito, seriam 30 dias atrasado.
–oo0oo-
O jovem abriu a porta de estilo Washi, que era as feitas de tela com papel translúcido e decorado, que eram de correr, estilo medieval. A mesma permitia a passagem de luz numa sala completamente dividida sem fazer qualquer área escura quando a iluminação é dividida no outro lado da divisória.
Em primeira estância foi à cabeleira ruiva que surgiu, os fios lisos e longos que encontravam presos em um penteado perfeito, sem nenhum fio fora do lugar. Quando o príncipe garantiu que não havia ninguém a vista, ele saiu inteiramente do seu quarto, e correndo sutilmente sobre suas sandálias de madeira, ele seguiu pelo seu caminho secreto.
Sayuri já tinha prática de fugir do castelo, e em todas as situações que resolveu sair, nunca havia sido pego, e esperava que continuasse assim. Normalmente seu pai incentivava as suas amizades, mas com os filhos dos outros nobres, conselheiros ou samurais, mas todos eram chatos e metidos. Sayuri duvidava que seu pai fosse aceitar sua amizade com um Were simples, mas necessariamente aquele que era julgado fruto do mal, devido às atitudes de seus pais.
Andando com graça e elegância sobre as sandálias de madeira e com o seu kimono de seda azul e florzinhas brancas, Sayuri seguiu pelo jardim, embrenhou por entre algumas árvores até que chegou ao limiar do muro. Mesmo sendo alto ele tinha suas falhas. Ele levantou as abas do kimono e os amarrou em volta da cintura, e agora com as pernas á mostrarem, e em movimentos livres, ele deixou seu lado meia-lua aparecer, e logo a cauda e as orelhas ruivinhas surgiram. Suas orelhas moveram graciosamente e o rabo serpenteou no ar, e assim o gatinho com agilidade escalou a árvore e logo chegou ao topo do muro.
Sayuri pulou do outro lado – muitos teriam medo ou considerariam que se machucaria – mas o gato caiu perfeitamente em pé. O príncipe ajeitou de volta o Kimono, alisou de forma que não houvesse nenhuma dobra, e seguiu o seu caminho.
Na noite anterior havia combinado com Nanami que o encontraria para o almoço no lugar secreto deles, e uma boa conversa. Sayuri amava as horas que passava com o amigo.
O príncipe tentou seguir pelo trajeto menos movimentado, apesar de amar o seu povo, não queria ser parado por ninguém para conversar ou ser paparicado. As vezes isso o irritava, pois se não fosse da realeza, duvidava que seria assim.
Quando finalmente chegou ao mercadinho, saltitante ele seguiu até a boutique. Ficou maravilhado com quantas gostosuras tinham para vender.
— Bom dia Sayuri-sama! E bom tê-lo aqui! Vai algo em especial hoje? — O dono da loja perguntou.
— Bom Dia! Eu vou querer alguns e de preferência...
— Rosa! Como sempre! Chegou alguns novos e frescos, e temos tortinhas e bolinhos de feijão doce. — O mesmo disse. Já conhecia a mania do príncipe em comprar os doces.
— Quero dois de cada! — Sayuri disse docemente.
O vendedor separou os doces mais lindos e os colocou em uma caixa de papel decorada e obviamente rosa. Ao terminar, entregou ao príncipe, e quando Sayuri estendeu o dinheiro para pagar, recusou.
— Não! É um presente!
— Não seja bobo, estou levando doces caros, devo pagar como todos. — Disse sério. Não queria retirar proveito de quem trabalhava o dia todo para sustentar sua família.
— Mas Oji-sama... Ok! Mas leve ao menos uma tortinha em formato de lua como presente. — Disse indicando o doce.
Sayuri o achou lindo e considerou que Nanami amaria. Acabou afirmando com a cabeça, e depois de pegar todos os doces e despedir-se do vendedor, ele voltou para o seu caminho.
Tão feliz com sua compra, o ruivinho não reparou que alguém conhecido o havia visto na loja, e estranhando sua presença fora do palácio, resolveu segui-lo. Aquele homem gostava de retirar proveito em tudo que havia, e não perderia a chance de ter um triunfo sobre o pequeno e belo príncipe.
Sayuri andou tranquilamente pelas ruas apertadas de Masao. Ele estava tão alegre com o que levava para Nanami. Dar presentes para o seu melhor amigo loirinho era uma de suas atividades preferidas, apesar de que ele não fazia tão frequentemente. Mas nada o fazia tão feliz como ver aquele sorriso inocente e belo no rosto do pequeno gatinho.
Ele admitia, tinha algo dentro dele que clamava para estar perto de Nanami. Seus olhos automaticamente olhavam para o pequeno, e Sayuri admirava-o. Claro que em silêncio, Nanami não poderia saber de algo assim.
Também não era como se fosse algo tão ruim... Bem, era para ser já que estava praticamente babando pelo menino quando este estava distraído. Sayuri tinha certeza que deveria ser algo de sua fase, talvez normal por estar ao lado de um garoto tão fofo e belo. Não tinha como resistir e não admirar aquele pedacinho de inocência, Nanami era a coisa mais fofa!
Bem... Agora ele precisava se concentrar no caminho, Sayuri tinha uma facilidade em se perder em Masao, o comércio e as barracas eram muito apertados e juntinhas, as ruas formavam labirintos e Sayuri sempre se achava que estava no caminho certo... Pois bem, ele se atrasava algumas horas para chegar aonde deveria.
Deixando de lado sua distração e pensamentos felizes, Sayuri apertou os passos e entrou no bosque. Era perto da casa de Nanami, no bairro mais pobre. Mas era um lugar bem silencioso e ele duvidava se alguém gostaria de entrar naquela floresta. As árvores eram densas e de troncos muito altos, além de copas extensas e que transformavam o que deveria ser sombra em muita escuridão. Era difícil andar por lá, já que raios solares penetravam somente em poucos pontos.
Mas Sayuri sabia aonde era seu ponto de encontro, não era muito longe, mas um lugar que eles tinham certeza que não seriam vistos.
Ham... Talvez ele estivesse enganado. O que na verdade estava.
Havia um pequeno ponto mais a diante, onde havia uma clareira. As luzes solares penetravam com facilidade ali, por isso era um local bem iluminado. Um pequeno riacho cortava o lugar.
Sayuri engoliu em seco e segurou seu nariz quando avistou Nanami se banhar no lago. Como ele era iluminado à água estaria mais quente por ali, diferente do que na própria casa dele.
Quis gemer, mas segurou mordendo seus lábios com a visão do pequeno se banhando. Apesar de quando Nanami usava kimono parecia um garoto magrelo e sem formas, ali Sayuri podia ver completamente que isso não era verdade.
Nanami era pequeno para sua idade, treze anos e ele já era considerado um adulto para sua espécie. Sayuri era apenas um ano mais velho que ele, só que um pouco mais alto e menos infantil.
Não que Nanami fosse infantil demais... Ele era uma gracinha, como uma criança feliz, mas Sayuri sabia que tinha mais do que isso nele. Sua personalidade era forte, ele poderia ser sensível, mas ainda sim forte e valente. Sayuri o admirava em todos os pontos.
Ele não conseguia deixar de olhar para como a pele de Nanami era alva como a neve, ele tinha curvas tão perfeitas, sem uma imperfeição aos seus olhos.
“Não! Pare de pensar essas coisas Sayuri-chan!”, Foi o que pensou internamente, pensando em algo podre para murchar sua ereção, ele não iria aparecer desse jeito para Nanami. Sem falar que era uma desonra, tanto para ele como para seu amigo ficar olhando-o nu em um momento tão íntimo.
Era como uma lei, uma regra e uma questão pura de honra para que Weres Ninshin, não importa a forma animal, eles deviam manterem-se completamente puros até o casamento. Isso normalmente para as esposas ou os Ninshin – sexo masculino que poderiam gerar filhotes.
Respirando fundo e tomando fôlego, Sayuri saiu de trás da árvore em que se escondia e correu saltitante para perto do lago.
Nanami cheirou-o e se virou com um enorme sorriso. — Sayuri-chan! — Ele praticamente rastejou até fora do riacho e correu para abraçar Sayuri, mesmo que ele estivesse nu e todo molhado.
Sayuri por outro lado não iria dar piti se Nanami o abraçou e encharcou sua roupa, afinal o loirinho estava completamente nu e o príncipe sentiu suas mãos coçar para tocar suas nádegas fofinhas. Uuuh, ele tinha as melhores nádegas.
“Nada de pensamentos pervertidos. Hoje não”.
— Olhe só o que eu te trouxe, lindinho. — Sayuri retirou de sua sacola a caixinha rosa com os doces mais lindos e fofos. Nanami fez um “o” com a boca, seus olhos completamente arregalados em surpresa.
— Nã-Não pode ser... — Ele soltou um gemido que mais pareceu um miado baixo e não pode se conter quando a magia revelou-se por sua excitação. Suas orelhas fofas e cauda apareceram e ele saltou sobre Sayuri novamente, enchendo-o de beijinhos por toda a parte.
— Isso faz cócegas! Nana-chan! — Sayuri riu enquanto Nanami montava-o em um abraço de morte. Para um pequeno como ele, realmente tinha força.
— Obrigado! Obrigado! — Ele desceu de Sayuri e abriu a caixinha com a maior alegria, saboreando o primeiro doce e gemendo.
Sayuri teve que se conter, ele tinha sentido seu ‘precioso’ se mover debaixo de seu lindo kimono de príncipe, mas ele respirou fundo novamente e tentou aquela tática de pensar em algo horrendo para destruir a sua excitação.
— Ah, Sayuri-chan! — Nanami chamou-o. — Tem algo muito importante que preciso te pedir!
Só então Sayuri ouviu um miado. Ele olhou ao redor em pânico procurando para ver se alguém o tinha seguido. — O que foi isso? Estamos sendo cercados?!
— Não é isso não, Sayuri-chan seu lindo. — Nanami vestiu-se e se sentou na toalha de piquenique que havia estendido ali, e mostrou a caixa.
Sayuri ergueu uma sobrancelha para ele, achando a caixa de papelão muito suspeita. Ele se aproximou e quando ouviu o miado novamente, não resistiu se ajoelhando em frente à caixa e só assim vendo dois filhotinhos de neko dentro. Os pequeninos eram tão fofos!
— Eles foram abandonados... — Nanami deixou seu doce de lado. — Eu os encontrei em um beco sem saída, segui os miados deles. Estavam com muita fome, então eu dei o restinho de leite que tinha em casa, e alguns biscoitos que sobraram. Dei água pra eles e então eles tiraram uma soneca...
Sayuri ficou olhando para os gatinhos e então para Nanami. De Nanami para os gatinhos novamente. — Você está pedindo minha ajuda?
Nanami correu para se ajoelhar ao lado dele, fazendo grandes olhinhos pidões. — Sim, sim! Por favor, me ajude! Eu prometo que te dou quantos beijinhos quiser, e te faço um monte das suas massagens. Também posso cantar aquela canção que você tanto gosta...
Com tantas coisas que agradariam Sayuri... E ainda sim ele amava animaizinhos fofos, principalmente gatos.
— Mas você sabe que não posso ter animais no palácio. É proibido, e se eu tentasse escondê-los, se caso meu pai descobrisse, eu não sei o que poderia acontecer com eles...
Nanami estava com os olhos cheios de lágrimas, mas ele segurou. — Não precisa levá-los para sua casa. Só preciso ter comida para eles... Eu quase não tenho para mim, imagine para mais duas bocas. Eu não sei se eles iriam sobreviver.
Sim, Sayuri tinha certeza que Nanami deixaria de comer seu próprio alimento só para cuidar das duas pequenas criaturas. Ele o entendia, o compreendia por completo, pois ele sendo um Were neko de bom coração, faria o mesmo.
— Eu posso conseguir comida para eles. Posso pedir ao meu pai minha mesada do próximo mês, ou pegar escondido alguns alimentos da dispensa. Você sabe que eu não apareço todos os dias... Mas se eu viesse, alguém poderia desconfiar de minhas saídas e descobrir sobre nós.
— Você tem razão... Talvez se você trouxesse alimento para dois dias, ai você não precisaria vir no outro. — Sayuri lhe deu um cascudinho. — Ittai! O que foi?
— Não é assim tão fácil, como eu vou conseguir carregar comida para dois dias. Eu não sou assim tão forte! — Sayuri fez biquinho. — Nós vamos arranjar uma solução, agora eu quero brincar com eles! Kyah! — Sayuri pegou um em suas mãos e o mesmo o lambeu, miando de alegria pelo carinho. — Tão mansinho.
Enquanto a cena acontecia de momentos felizes entre dois melhores amigos inocentes. Bem, não tão inocentes assim por parte de Sayuri. Havia um homem, na verdade um senhor que estava um pouco mais afastado, mas espionando-os com olhos de águia.
— Então quer dizer que é com ele que o Príncipe Sayuri tem se encontrado nessas saidinhas repentinas. Agora eu entendo... — Ele disse a si mesmo e riu malicioso. — O Imperar irá adorar saber que Sayuri tem amizade com um ser de tão baixo nível. Ainda mais aquele traste do filho do traidor. — Virando-se em seus pés, ele voltou para o palácio, completamente alegre e ansioso para encontrar o Imperador. Ele tinha tantos planos.
As pessoas em seu caminho afastavam e inclinavam para frente em reverência, não exatamente por respeito, diria que era mais por medo. Tal homem era conhecido pelo poder, persuasão e firmeza. Poderia se o braço direito do Imperador e de maior força no congresso, mas igualmente poderia se cruel e ardiloso.
Hachiro era um were neko com mais de 240 anos, mas em aparência denunciava uns 45de idade. Um fato peculiar era que os were poderiam viver por mais de quinhentos anos, claro, ainda poderiam morrer de mortes naturais ou serem mortos, mas tinham certas habilidades de cura e longevidade.
— Conselheiro! — Um dos samurais do portão principal do castelo disse reverenciando o homem, ao que abriu o portão para que este passasse.
O velho gato não disse nada, apenas seguiu com sua postura altiva. A sua mente trabalhava arduamente, e todas as possibilidades de lucrar com a descoberta passavam por sua mente. De nada valeria uma informação importante se não pudesse usá-la.
Quando o mesmo chegou perante o escritório real, deu dois toques na porta frondosa, e antes que recebesse a permissão, ele entrou. Seguiu até a mesa do Imperador, e inclinou o tronco para frente em reverência.
— Meu Imperador, perdoe-me a demora! — Hachiro disse em uma voz suave que realmente não o pertencia, mas era tática de sedução. Ele muitas vezes agia da maneira que as pessoas esperavam a fim de ganhar confiança. Como uma cobra esperta.
O Imperador Yoshikazu ergueu os olhos do papel que lia tão concentrado e encarou o seu mais importante Conselheiro. Hachiro sempre esteve ao seu lado e nunca teve motivos para duvidar dele. Suas orientações sempre levaram ao êxito e vitória, e ao que indicava naquele grande problema que o Soberano da Vila Masao detinha nas mãos, o Conselheiro seria de grande ajuda.
— Olá Hachiro, chegou em um bom momento. Acabo de recebe uma carta do Clã dos Lobos de Akai! — Podia se ver a amargura na voz de Yoshikazu. Ele nunca escondeu a sua raiva e desprezo pelos Were Ōkami, especialmente os do Clã Akai. A relação entre os dois clãs por gerações era de ódio e guerra, algo que nenhum deles sabia exatamente quando começou... Porém a última Guerra havia deixado marcas e perdas dolorosas para todos, incluindo o Imperador que perdeu a sua esposa e melhor amigo. Sua rainha faleceu e seu melhor amigo tornou-se um grande traidor.
— O que aquela escória do universo quer dessa vez? Desde se recolherem as suas insignificâncias ficam atormentados. — O Conselheiro disse irado, mas não que realmente os Lobos o incomodassem, era mais para atiça o Imperador.
O Imperador acomodou relaxado na poltrona e esfregou sua temporã. A sua cabeça latejava. Eram tantas preocupações.
— Se me permite indagar Vossa Majestade, mas o que tais infames cães fedorentos desejam dessa vez? — Hachiro indagou. Com a permissão de Yoshikazu ele sentou na cadeira em frente à bela mesa feita de madeira de cerejeira e cruzou as mãos sobre o colo.
Yoshikazu ajeitou-se na poltrona e jogou a carta para o seu mais fiel conselheiro. — Os insolentes se dão ao direito de exigirem um sacrifício como símbolo da ‘paz’ acordada após o fim da Guerra. Alegam que saíram prejudicados em tudo e como forma de boa fé que os Were Neko iram manter a paz e desejam uma boa colaboração... Que disponha de um dos meus mais preciosos tesouros.
Hachiro tomou a carta, mas não chegou a ler. Não ousaria tomar mais que seu Imperador dava, ao menos para manter as aparências. — E o que eles ousam exigir meu Senhor?
— Os vermes sarnentos querem o meu precioso filho mais novo. Exigem que doe Sayuri para eles... Para que se case com o atual Líder dos Lobos Akai. — Havia dor e amargura na voz do Imperador, deixando claro que jamais permitira tal atrocidade. — O MEU filho... Meu pequeno e lindo filho. Jamais permitira. Meu pequeno príncipe não irá ser entregue a tais vermes fedorentos. Se eles querem Guerra? Teremos. — O Imperador grunhiu. Ele levantou batendo as mãos em punhos fechados na mesa, e a mesa quebrou ao meio despedaçando.
Hachiro manteve uma calma assustadora, nem mesmo os excessos de raiva de Yoshikazu o atormentou. O Imperador mesmo tendo três filhos, ele detinha uma beleza máscula e sedutora. Os cabelos ruivos eram presos em um penteado perfeito, os olhos mel eram afiados e ferozes e suas expressões masculinas. Poderia se dizer que Sayuri era uma versão sua, porem delicada e pequena.
— Meu Senhor se me permite dizer, os Lobos nunca viram o Sayuri Oji-sama!
— E o que isso tem haver? Achar mesmo que darei meu precioso filho para ser estuprado e morto por eles? Saber lá a forma que vivem.
— Majestade a sua raiva não está permitindo pensar! A Guerra não é a melhor solução, mas entregar o Príncipe partiria o coração de todos, Sayuri-sama é amado por todos em Masao... Por isso eu tenho uma solução perfeita.
Yoshikazu se acalmou um pouco. Ele sentou na poltrona, não importando com a mesa quebrada diante de si. Ele encarou o seu fiel Conselheiro e buscou a sabedoria para ouvir a sua proposta.
— E o que propõe?!
— Os Lobos não conhecem o Príncipe, e julgo que jamais pesquisaram nada sobre ele, a não ser que exista... Então proponho que aceite o acordo de paz, MAS... No lugar de Sayuri-sama enviarei outro. Sim! Um usurpador.
O Imperador fechou a expressão. — Que quer dizer, tirar o filho de outro e colocar no lugar do meu? Que sacrifique outra pessoa? Jamais faria isso. Ninguém levará tal maldição.
Hachiro sabia que devia levar o assunto com sabedoria. Ele chegou mais para frente. — Não estou dizendo para perder um dos seus, que sacrifique, ou tal atrocidade... Ou que anuncie para todos saberem... Não, faremos na calada. Ninguém precisa saber que renderemos aos Were Okami.
— E quem sugere que usamos como o sacrifício? — Perguntou. A ideia era boa, mas como simplesmente mandar alguém ao matadouro?
Uma sombra maligna brilhou nos olhos de Hachiro. Aquela era uma oportunidade única, a que esperava a anos. Se eliminasse o filho do Traidor, então esse voltaria por vingança e assim poderia apossar de seu maior desejo... Os poderes do Oni.
— Quem melhor do que o filho do traidor de Masao? O povo sempre foi incomodado com a presença daquela criança. Se ele sumir, ganhará pontos com o seu povo e ainda salvará o príncipe.
O Imperador não pronunciou nada, apenas ficou olhando para o neko mais velho, enquanto a sua mente trabalhava. Ele se lembrou do amigo, das promessas feitas e a traição. Doía até hoje em seu coração. Sabia que era contra os seus princípios sacrificar uma criança, porém... Aquele menino era o símbolo de sua dor e perdas... Ele acreditava que ele devia ter morrido junto com o seu pai progenitor, assim teria uma vida menos sofrida.
— Irei pensar!
— Meu Senhor... — Hachiro contestou. Ele precisava que o Imperador aceitasse.
— Eu disse, irei pensar. Logo saberá a minha resposta.
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Sayuri voltou todo o caminho com o coração na mão de alguma forma. Foi como se algo estivesse lhe dizendo de que não deveria sair de perto de Nanami... De que não deveria deixá-lo voltar para sua casa, simplesmente.
Sayuri ficou nervoso consigo mesmo, mas preferiu ignorar este sentimento. O que de mal poderia acontecer com Nanami? Mesmo que o bairro onde ele morava fosse o mais pobre, não era tão perigoso. Sem falar que se fosse roubo, não teria como. Ainda mais que todos faziam questão de não encostar em Nanami por achá-lo imundo, uma criatura suja.
Seus dentes cerraram e sua mandíbula apertou. Sayuri já havia ouvido esse comentário em tantos lugares. Ele se admirava por aguentar e não sair batendo em todo mundo e esmurrando as senhorinhas fofoqueiras.
— Se eles soubessem... — Sim, se eles soubessem como Nanami era na verdade, o quão puro e inocente era o seu coração. O quão lindo era o seu sorriso e o seu rostinho quando dormia...
Se alguém ao menos tentasse imaginar tudo o que ele tinha que passar todos os dias, que se colocassem em seu lugar. Sayuri tinha certeza que a opinião de qualquer um iria mudar. Mas as pessoas eram cegas, culpavam o garoto por algo que ele não tinha uma gota de culpa.
Sem perceber algumas lágrimas escaparam de seus olhos. Sayuri enxugou-os muito bem quando chegou a sua casa. Ao seu castelo para ser mais preciso.
Tudo estava silencioso, o que costumava ser. As empregadas faziam seu trabalho com esforço e dedicação, e não se atreviam a olhar para o príncipe.
Sayuri não queria que fosse tão restrito assim, ele poderia ter amigos, mas que na verdade ele não os considerava. Filhos de nobres e riquinhos rebeldes, que odiavam o povo e as pessoas humildes. Sayuri nunca foi assim, ele nunca desprezou ninguém, porque na verdade todos eram seus iguais.
Já que não havia nada muito interessante para ele fazer naquele horário, afinal logo seria o jantar. Sayuri decidiu procurar por seus irmãos. Ele os amava grandemente, afinal seus irmãos sempre garantiram sua segurança, seu bem-estar, eles sempre estavam por perto para ajudá-lo. Exceto o seu assunto sobre Nanami, Sayuri escondia isso até de sua própria sombra, ele não queria correr o risco de alguém descobrir e Nanami sofrer por sua causa.
— Sabe onde meus irmãos estão? — Indagou para uma empregada qualquer que estava adiante.
— Estão na sala de treinamento, Jovem mestre. — Informou.
— Obrigado! — Sayuri correu pelo corredor, até a área de treinamento, identificando a sala preferida dos seus irmãos para treinarem, já que haviam muitas. Assim que chegou, seus olhos brilharam ao ver seus irmãos, idênticos de face, duelando com espadas. Ambos com os peitos nus, utilizando somente a calça de samurai.
— Yunsuke, Sayuri chegou! — Shuichi, o mais novo por alguns segundos largou sua espada em qualquer lugar e correu para Sayuri, abraçando-o tão forte para sufocá-lo.
Yunsuke, o mais velho por alguns segundos e o herdeiro do trono, guardou a espada em sua bainha, e seguiu seu irmão, beijando a face de Sayuri quando chegou a ele.
— Aonde você foi Sayuri? Nós te procuramos por todo o castelo, iriamos te convidar para nos ver treinar, como eu sei que você adora nos assistir.
— Sim, eu adoro! Vocês são perfeitos lutando. Só não quero que se machuquem, por favor. — Sayuri fez biquinho e foi apertado nos braços de Shuichi novamente. — Eu estava no jardim, plantando uma nova roseira.
— Ah sei! — Yunsuke não quis comentar, mas ele desconfiava que Sayuri saia escondido. Claro que ele não fazia ideia de para onde ele ia. — Quer ver mais um pouco antes do jantar?
— Eu adoraria! — Sayuri pulou em seus pés e correu para sentar a um banquinho de madeira perto da saída.
Seus irmãos voltaram à batalha, ambos com movimentos precisos e gritos, eles exibiam suas táticas e aperfeiçoavam-nas.
De alguma forma, Sayuri tinha também as suas desconfianças. Ele sabia que havia algo de estranho com seu irmão Shuichi, um olhar indecifrável que este lançava para Yunsuke que permanecia normal.
Não sabia exatamente se estava certo a respeito disso, mas ainda sim, ele tinha muitas dúvidas.
Esquecendo isso, Sayuri estava com o coração apertado, e não parecia um sentimento que o deixaria a qualquer momento. De alguma forma, estava com medo, e dor de que algo acontecesse a Nanami.
Esperava que tudo ficasse bem, mas quem poderia afirmar isto?
Continua...
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