Akai Ito
11 Viagem em família - Parte 3
Notas iniciais
Um grunhido de desagrado foi ouvido no quarto. A janela aberta deixava que o grandioso mastro iluminasse o local. Sua luz ia diretamente para o rosto dos dois que ainda ressonavam sobre a macia cama.
O farfalhar dos lençóis soou quando se moveram incomodados.
– Fecha a janela. Falou Allen com a voz levemente rouca, escondendo seu rosto no peitoral do moreno.
– Tsc, fecha você. Yuu retrucou.
Um segundo de silêncio foi o suficiente para entenderem a situação. Flashes de memória da noite passada vieram à sua mente. Levantaram-se de rompante, fitaram-se por um longo tempo. A face de Allen enrubesceu completamente, enquanto Yuu ficou levemente desconcertado.
Surpreendentemente o primeiro a reagir foi o albino, que desviou o olhar e levantou de supetão. O rosto totalmente vermelho não escondia a vergonha que sentia por aquela situação. Sem dizer nada caminhou até a porta, destrancando e saindo do quarto apressadamente.
Entrou no banheiro, encaminhando-se até a pia, abrindo a torneira e despejando água em seu rosto. Precisava acordar. Fitou seu reflexo no espelho. E pela larga gola de sua camisa, notou certa parte vermelha. Com certo desespero retirou a camisa. Diversas marcas em seu tronco eram vistas. Algumas mais claras e outras mais escuras.
Quando eles tomaram banho na noite anterior, a coisa que ele menos se importou foi olhar o estado de seu corpo. "Eu vou matar o Kanda!". Uma raiva se apossou de si, e, sem se importar em colocar a camisa novamente, correu em direção do quarto, abrindo a porta com força.
– Kanda! Eu vou mat.. -A voz travou em sua garganta.
A sua frente estava Kanda retirando a camisa, de costas para si. Seus olhos pregaram-se nas marcas vermelhas nos ombros do moreno... Marcas de suas unhas. A raiva passou em um piscar de olhos.
– O que foi, moyashi? O moreno virou-se ao ter seu nome chamado.
– De-deixa pra lá... Eu só tinha lembrado algo, mas já esqueci. Falou o albino, envergonhado, antes de sair novamente do cômodo, deixando para trás um Yuu pensativo, e um tanto confuso.
– Ei Allen! Saudou Lavi. Belas marcas. E riu.
– Que? E a realização que saiu do banheiro sem certa peça lhe veio à mente. Sem esperar nenhuma resposta, correu de volta para o quarto. Quando teve o olhar de Kanda direcionado para si mais uma vez, desviou o olhar. E-eu esqueci a blusa.
Desajeitados, terminaram de se trocar. Um silêncio constrangedor reinava o recinto, e, sem nem ao menos se dignarem a trocar olhares, saíram do quarto. Allen saiu apressadamente na frente, cumprimentou Yusuke e Mana, que já estavam acordados tomando café. Os dois garotos se juntaram à mesa, ainda em silêncio. Yuu pegou apenas uma caneca de chá, bebericando seu conteúdo lentamente, já o albino comia tudo que havia na mesa, mantendo seu olhar fixo na comida. Aquela situação era tão constrangedora!
– Shounen... — Olhou para trás, vendo Tyki apoiando as mãos em seus ombros.
– Hm?
– Yukiko-san quer sua ajuda. Parece que uma pequena princesa está impossível. — Riu. Allen engoliu a comida, sorrindo em seguida.
– Pode trazê-la aqui? Estou tomando café.
– Enchendo o tanque... Entendi. — Bateu fracamente nos ombros do garoto, saindo da cozinha. Tão logo retornou com Yuko em seus ombros. Os olhos negros da garotinha brilharam ao ver Allen; Tyki a desceu, e a pequena Kanda correu em direção ao albino, se jogando em seus braços.
– Aren!
– Você age como se não me visse há dias. — Riu, acariciando os cabelos negros da menina.
– Yuko não viu Aren à noite toda! Hoje quero dormir com você!
– Certo, certo.
Allen terminou seu café. Escovou os dentes e saiu com Yuko.
O restante do dia foi passado com a morena e Lavi. Tyki trouxe um notebook, onde, segundo ele, estava preparando algumas atividades para dar em aula. Yuu passou sentado em uma cadeira debaixo do guarda-sol, perto da piscina, apenas observando os outros brincando.
Perto do fim da tarde, a Kanda mais nova alegou sentir sono; Yukiko pegou a menina, indo banha-la e colocá-la para dormir. Lavi e Allen apenas se jogaram nos sofás. Soltando um suspiro, o albino se aconchegou, fechando os olhos, escorregou pelo estofado, não notando que havia deitado sobre as coxas de alguém. Quando sentiu algo tocar seus cabelos molhados, abriu os olhos prateados, pensando que era qualquer um, menos quem realmente seria. Era Yuu. Que parecia perdido em pensamentos, enquanto olhava para um ponto qualquer na parede a frente. Sentiu seu rosto aquecer, e sabia que estava corado. Mordeu o lábio, dividido entre correr para o quarto ou permanecer deitado sobre a perna do moreno.
Olhou ao redor da sala, encontrando somente Lavi que cochilava no outro sofá, direcionou novamente seu olhar para Yuu, corando ainda mais ao ver que este lhe fitava de forma intensa. Entretanto, mesmo constrangido com a situação não conseguia desviar o olhar daqueles belíssimos olhos negros.
Sem perder o contato visual, sentou-se sobre as coxas firmes do asiático.
– O que será de nós dois? — Sussurrou, fechando os olhos lentamente ao passo que seus rostos se aproximavam.
– Nem eu sei. — Seus lábios não tardaram a se encontrarem.
Inicialmente era apenas um suave contato, mas a vontade de ambos falou mais algo, suas bocas se abriram, permitindo um maior toque e as línguas brincarem uma com a outra. A carícia era lenta, como se quisessem apreciar minuciosamente a conexão entre eles. As mãos de Yuu estavam sobre a cintura de Allen, acariciando suavemente o local, enquanto o albino, ao mesmo passo que puxava o elástico que segurava os fios negros em um rabo-de-cavalo baixo, agarrava as mechas sem força, passando as unhas de leve na nuca. Os lábios moviam-se em sincronia, as línguas se acariciando... O ósculo foi apartado, e por poucos segundos fitaram um ao outro, antes de voltarem a se beijar.
Allen abraçou Yuu pelo pescoço, puxando o corpo deste para mais perto, enquanto o moreno apertava às mãos em sua cintura.
Mesmo concentrados na carícia trocada, ouviram o som de um click, e separaram-se, virando o rosto na direção do som, vendo Yukiko com o celular em mãos, e a câmera focada em suas direções.
– Tão lindos juntos!
Allen sentiu seu rosto esquentar absurdamente, quase como se entrasse em combustão, não hesitou em saltar do colo de Yuu, correndo em disparada para o quarto, se trancando neste.
– Moyashi! — Yuu ainda tentou segura-lo, mas estava tão desnorteado quanto o menor.
– Ora, não era para assusta-lo.
– Tsc. — Afundou-se no sofá, cruzando os braços, parecendo uma criança emburrada. Bem, emburrado ele estava, só não era uma criança.
– Vá atrás dele, Yuu.
– Nem adianta, você o assustou!
Irritado, levantou e saiu pisando duro, encaminhava-se para fora da casa. O que teria acontecido se sua mãe não tivesse aparecido? Provavelmente continuariam aos beijos sobre o sofá, mas e depois? Realmente poderia considerar no presente momento o depois? Não, não podia. Não sabia como Allen reagiria, mas com certeza seria diferente se Yukiko não tivesse aparecido.
Deu a volta ao redor da casa, passando então pela janela do quarto que compartilhava com o albino, por sorte esta se encontrava aberta. Apoiou os braços no parapeito, observando o corpo do garoto deitado de bruços sobre a cama, não havia de passado muito tempo, mas provavelmente ele estava tão cansado que dormiu sem perceber. A luz alaranjada do crepúsculo batia sobre o corpo do menino, dando um brilho ao cabelo branco, sua expressão era serena, os lábios suavemente separados, a face ainda corada, quase imperceptivelmente.
Não percebeu quando retirou o celular do bolso de sua bermuda, focando a câmera em Walker. Ele parecia um anjo a ressonar. Observou a foto salva em seu celular, suspirou e deitou a testa em seus braços.
O que era aquilo tudo? Por que sentia que não conseguiria viver sem Allen? Por que era tão ligado a ele? O que eram aqueles sonhos?
Retornou seu olhar para Allen, vendo-o suspirar e murmurar em seu sono.
– Bem vindo de volta, Yuu.
Seus olhos se arregalaram, uma vertigem o assolou; tonto, tentou segurar-se na janela, porém tudo ficou escuro...
"Seus passos, como de um gato, não soavam enquanto caminhava pelos corredores, a madrugada estava alta no céu, o pessoal da divisão de ciências varava a noite mais uma vez. Nada de diferente. Cumprimentou Lenalee que passou ao seu lado, e continuo seguindo seu caminho. Parou na porta de seu quarto, suspirando. Sabia que um certo exorcista albino se encontrava ali, isso se acrescentava ao "nada de diferente". Numa conversa com Lavi descobrira que sempre que saia em missão, e Allen estivesse na Ordem, o garoto passava todas as noites ali, e sempre que chegava se reparava com a mesma cena. Abriu então a porta, já focando seus olhos no albino que dormia tranquilamente, e como todas as vezes, o garoto usava uma camisa sua, enrolado em suas cobertas, enquanto abraçava seu travesseiro.
A luz da Lua brilhou na janela, iluminando a figura angelical sobre a cama. Angelical... Palavra perfeita para descrevê-lo.
Encostou-se na parede ao lado da cama. Nunca se cansaria de observa-lo, suas reações, ao mesmo passo que dormia eram.... fofas? Céus, olhe os adjetivos que estava usando. Suspirou mais uma vez, passando a mão no rosto, jogando a franja para trás. Olhou para fora da janela, fitando o negrume que se estendia pela floresta, levantou o olhar, o fixando na lua. Não tardaria a amanhecer. E estava exausto.
– Bem vindo de volta, Yuu.
E ali estava mais um "nada de diferente", mas, particularmente, gostava deste.
Tornou seu olhar para Allen, vendo este sentado, e não resistiu em soltar uma curta risada ao ver os cabelos platinados bagunçados. Não se importando com isso, Walker levantou da cama, eliminando o pouco espaço entre eles ao abraça-lo, rodeando sua cintura com os braços, encostando a cabeça em seu peito.
– Estou de volta. — Respondeu, correspondendo ao abraço.
Beijou o topo da cabeleira branca, instalando seu perfume.
– Estou feliz que esteja bem. — Ouviu a voz abafada do albino.
– Sempre estarei bem. — "Enquanto esperar por mim." Apertou-o em seus braços.
O menino levantou o rosto, e lhe sorriu...
Allen Walker definitivamente era um anjo."
Quando abriu os olhos estava tudo escuro.
Tentou se levantar, mas sentiu a cabeça latejar. Grunhiu, colocando a mão na testa; sentou-se devagar, notando que estava deitado numa cama.
Como havia parado lá?
Sua atenção foi direcionada para a porta quando está fora aberta. Vendo sua mãe passar por esta com uma feição de preocupação.
– Está tudo bem, Yuu?
– Como vim parar aqui?
– Tyki o achou caído embaixo da janela do seu quarto com o Allen-kun... E o trouxe para cá.
– Hm.. — Sentiu a mão de Yukiko em sua testa. Fechou os olhos com este ato
– Sem febre... O que aconteceu? — Sua voz mostrava sua preocupação, segurou as mãos do garoto, o fitando.
– Aqueles sonhos... Dependendo da intensidade, me faz desmaiar...
– Mas eles não vinham só durante a noite?
– Não. Alguns vem durante o dia... Apenas se uma coisa desencadeia-o. Uma situação, fala... — Suspirou. — Gostaria que isso parasse. — A mulher olhou para seu filho, compadecida.
– Eu acho que esses sonhos querem dizer algo.
– É... Eu também acho.
– — -
Com a janta posta sobre a grande mesa, todos comiam. Tyki conversava com Mana e Yusuke; Yukiko e Neah trocavam receitas; Lavi enchia a paciência de Yuu, que se segurava para não soca-lo. Já Yuko recebia comida na boca por Allen que não conseguia resistir a fofura da menina.
– Ah! Mamãe! — Yuko chamou sua mãe, balançando os braços, animada.
– Sim, querida?
– Hoje vou dormir com o Aren e o Yuu-nii-san!
– Mas... querida... seu irmão e Allen-kun...
– Não se preocupe Yukiko-san. — Allen sorriu para a mulher. — Não há qualquer problema.
– Certo... — Yukiko olhou para seu filho mais velho, vendo-o encarar o próprio prato, parecendo pensativo.
O resto do jantar transcorreu de forma tranquila, depois foram para a sala verem algum filme, quando este acabou, cada um se despediu e encaminharam-se para os respectivos quartos. Yuko estava toda radiante, enquanto escovava os dentes com o auxílio de Allen, Yuu aproveitou e ajeitou a cama para que pudessem deitar, quando os outros dois voltaram foi sua vez de encaminhar-se ao banheiro. Ao voltar, encontrou Yuko sentada no meio da cama e Allen do seu lado direito, olhou para os dois e suspirou. Sentou-se ao lado esquerdo de sua irmã, vendo-a sorrir para si, e não pode evitar corresponder ao sorriso. Olhou para Allen, que o fitava ternamente.
Olhara-se por um longo período, até que o moreno se levantou para desligar a luz e logo voltou para a cama. Quando se deitou, Yuko se moveu, puxando seu braço para que fizesse de travesseiro. Não satisfeita apenas com isso, puxou Allen para mais perto, fazendo com que este também se deitasse sobre o braço de Yuu.
– Yuko-chan!
– Não se preocupe, Moyashi.
Virou-se de lado, abraçando tanto sua irmã quanto o albino, ouviu a suave risada da menina. Allen que estava quase roxo de vergonha, ao notar o que o mais velho fazia, participou da brincadeira. Passou o braço da Kanda mais nova, segurando a blusa de Yuu, assim apertaram Yuko, que gargalhou.
– Kyah! Yuko está sendo esmagada!
– Yuko parece ser deliciosa. Acho que vou comê-la. — Yuu mordeu sem força uma das bochechas da menina.
– Não nii-san! Não coma a Yuko! — Sua gargalhada ecoava pelo quarto, fazendo até mesmo Allen rir. O albino passou a lhe fazer cócegas, e, além de rir, esperneava para se soltar das garras do irmão e Walker.
Por fim terminou com os três a rir, claro, Yuu soltava uma risada mais contida, mas isso não deixava de encantar Allen. Quando se acalmaram, ficaram por um tempo em silencio, até notar que Yuko dormia. Yuu novamente estendeu o braço, onde deixou a moreninha deitar, ao notar que Walker se afastava, o puxou para perto com a mão livre, segurou o braço do albino, descendo com uma carícia até chegar na mão, onde entrelaçou seus dedos. Sorriu ao ver que o menor não recuou, correspondendo ao enlace, apertando sua mão suavemente.
Apesar de tudo... Havia sido um bom dia.
– — -
– Aren e Yuu-nii-san parecem um casal.
– Não é mesmo?
– Mas o Aren é da Yuko!
Os orbes negros e pratas se abriram vagarosamente, suas mentes ainda processavam a informação de que estavam acordando.
– Ora, Yuko, vai me dizer que não achou bonita a foto que a mamãe tirou sua, do Allen-kun e do Yuu dormindo?
– Parece uma família! Yuko era a filha!
– Sim, sim.
Ao notar sua situação, Allen enrubesceu, escondendo o rosto vermelho no peito de Yuu, que o abraçava apertado.
– Tsc, fecha a janela, mãe.
– Não se importa nem um pouco em estar abraçado ao Allen-kun?
– Não. Está confortável. — Apertou mais o garoto em seus braços, que choramingou de vergonha, escondendo com mais afinco o rosto. Yukiko riu.
– Certo... Vocês têm mais dez minutos. Temos que arrumar tudo, vamos embora hoje.
Carregando Yuko no colo, Yukiko saiu do quarto, fechando a porta suavemente. Allen se moveu no abraço, mostrando seu rosto avermelhado.
– Você é um idiota. — Falou em um muxoxo.
– Bom dia para você também. — Acariciou as mechas brancas, sentindo sua suavidade.
Fitou longamente os orbes mercúrio, brilhantes e expressivos. Confessava a si mesmo que não reclamaria de acordar desta forma todo dia. Desceu a carícia para o rosto, tocando suas bochechas quentes, e com o polegar, desenhou seus lábios. Suspirou, afastou os fios brancos, beijando sua testa.
– Vamos levantar.
Saiu da cama, estendendo os braços, a se espreguiçar; caminhou até a porta, saindo por esta em passos lentos.
Allen, que permanecia estático na cama, corou ainda mais, escondendo o rosto debaixo do cobertor.
– Idiota!
Bateu as mãos em sua própria face, jogou a coberta para o lado e saiu de forma decidida do quarto. Rumou para a cozinha, vendo todos sentados à mesa, sentou-se ao lado de Lavi, sendo a única cadeira disponível. Tomaram café numa conversa descontraída, para logo depois iniciarem a arrumação. Limparam todas as coisas utilizadas, ajeitaram os quartos e fizeram as malas.
Com todas as janelas e portas trancadas, partiram para os carros, da mesma forma como foram, iriam voltar, ou seja, Allen ficaria no carro dos Kanda. O caminho para a volta seria longo, Yuko brincava com o mais novo dos Walker, enquanto Yuu apenas observava os dois. Via o albino rir de alguma bobeira que sua irmã fazia. Era uma cena bonita, admitia.
Suspirou, encostando-se mais ao banco, olhou para fora da janela, tendo a paisagem passando como um borrão pela velocidade do carro. Não podia negar que até que aquela viagem havia servido para algo — agarrar Allen -, mas ainda havia muitas dúvidas em mente. Tinha que repensar no conselho de seu pai.
Repensar muito bem, pois... Sentia que se parasse o que acontecia entre ele e Allen, se arrependeria amargamente. E até mesmo só de pensar nesta possibilidade seu coração se apertava, causando-lhe um mal-estar. Franziu o cenho, respirando fundo.
Após um tempo de viagem, por já estarem perto da hora do almoço, decidiram parar numa lanchonete que havia na estrada; o carro de Mana foi parado ao lado do de Yusuke, logo todos saíram em direção à entrada do recinto. Para a surpresa de todos, o local estava quase cheio, tendo apenas duas mesas para quatro pessoas, uma distante da outra. Decidiram então que os mais novos ficariam em uma mesa, e os mais velhos em outra, ficando apenas Yuko com os pais, pois Yukiko foi firme ao dizer para esta que era para parar de manha e largar um pouco o pé de Allen. O albino ficou compadecido com a menina, mas entendia que não podia se meter, afinal Yukiko estava colocando as rédeas em Yuko. Fizeram seus pedidos e aguardaram a chegada destes.
Allen apoiou o cotovelo sobre a mesa, deitando a cabeça em sua mão, olhando para fora da janela distraidamente. Sentia os orbes negros de Yuu voltados para si, e isso o constrangia de uma forma sem igual... E era tão intenso. Não queria ficar com as bochechas vermelhas, isso o deixaria ainda mais sem jeito.
– Allen? — Virou o rosto da direção da voz, sendo esta vinda de Lavi.
– Hm?
– Tá viajando ai... Enfim. — Arrastou sua cadeira para mais perto do menor. — Ficamos três dias na mesma casa, podemos ter brincado de casinha... Mas você não me deu atenção direito, Allen! Fica me trocando pelo Yuu! — Jogou-se sobre o albino, que por pouco não caiu.
– L-Lavi! Cuidado! — Alertou-o, mas o ruivo não se importou, e apenas riu.
Após esse pequeno teatro de Lavi, o ruivo, Allen e Tyki iniciaram uma conversa. Yuu apenas observava o desenrolar do diálogo. Tão logo a comida chegou, começaram a degustar, ainda num papo descontraído. Em meio a tudo aquilo, duas garotas apareceram, parando em frente a mesa. Os três pararam de falar ao verem que tinham companhia a mais, olhando para as moças, que pareciam querer dizer algo, mas sem saber como iniciar. Allen sorriu gentilmente para elas, as incentivando a falar.
– Em que posso ajudá-las, senhoritas?
– É que... nós... — Uma delas, a loira, corou e olhou para o lado, sem dar continuidade ao que dizia.
– Podem dizer! Não mordemos! — Lavi riu.
– Bem... Nós queríamos o número de vocês dois. — A morena apontou para o albino e ruivo, que olharam surpresos para as duas.
– Nós dois? — Questionou Walker, tendo-se afirmarem. — Não vejo problema... Eu até ofereceria para sentarem-se conosco, mas como podem ver, não ha cadeiras.
– N-não queremos incomodar. — Disse a morena.
– Não seria incômodo algum, uma companhia a mais é sempre bem vinda. Ainda mais de duas moças tão bonitas, não é Allen?
– Mas é claro!
As garotas sentiram seus rostos enrubescerem ainda mais, e o coração palpitar de forma acelerada. Haviam tido tanta sorte... Era o que pensavam.
Tyki e Yuu trocaram olhares, sorrindo maldosamente entre si, aproximar-se dos dois garotos, os abraçando pelos ombros.
– Esses nossos namorados são realmente tão cavalheiros e adoráveis, não é Kanda?
– De fato... Mas eu sou ciumento, Allen, se ficar sorrindo assim vou pensar que quer me trocar.
Ambos os morenos riam internamente ao ver o rosto vermelho dos meninos em seus braços.
– Namorados? Vocês são gays?
– Ahn.. — Lavi, sem falas pela atitude de Tyki, não soube como responder.
– Desculpem por incomodá-los, deveríamos imaginar que eram comprometidos. — Ambas fizeram uma curta reverência, e saíram.
Sorrindo satisfeitos consigo mesmos, Yuu e Tyki bateram as mãos, fazendo Allen e Lavi olharem para os dois indignados.
– O que vocês pensam que estão fazendo?! — Indagou Lavi.
– Apenas... Mostrando a elas que vocês tinham donos.
– Donos?! — Allen se irritou. — Não vejo o nome de ninguém tatuado em minha pele!
– Desde quando se precisa de tatuagem para isso? — Yuu sorriu minimamente, levando sua mão à nuca de Allen, o puxando suavemente.
– O qu- — Seu rosto adquiriu um forte tom de vermelho ao sentir os lábios de Yuu encostar-se aos seus. Foi um toque rápido, mas singelo. Quando o japonês se afastou, encolheu-se, encarando fixamente seu prato como se fosse o objeto mais interessante no momento. Yuu observava o menor, sorrindo vitorioso.
Lavi colocou a mão na boca, e teria rido se Tyki não tivesse se aproximado perigosamente, sussurrando em sua orelha.
– Você não está numa situação diferente da dele, então... Não ria.
"Medo.", pensou o ruivo, que bufou cruzou os braços. Tanto Lavi, quanto Allen ficaram quietos, apenas comendo por quase obrigação. Ao término, pagaram a conta e novamente se dirigiram para os carros, e quando Allen e Lavi alegaram que queriam ir juntos, Tyki e Yuu agarrou cada um dos dois, dirigindo-se para os respectivos carros nos quais estavam anteriormente.
Quando as portas foram fechadas, e o carros ligados, os amigos se observaram pela janela de vidro, fitando a expressão desesperada que cada um tinha. Bufando, Allen virou o rosto, olhando para a direção de Yuu, encontrando este sorrindo de canto, com uma pura faceta de vitória pintada em seu rosto.
Como podia ter se apaixonado por um idiota desses?
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