Ainda é cedo.
2 Capítulo 2 - O fantasma da ex
Notas iniciais
Manuela
-Podemos até tentar começar de novo, mas saiba que não muda o fato de que o apartamento é meu, entendeu?
Uau, que cara agradável!
Por favor, que eu aguentasse um semestre com aquele idiota arrogante! Deuses que ajudam pobres universitárias, colaborem por favor!
Eu me sentia em uma daquelas comédias românticas em que o casal começa se odiando... Mas o fato é: ficaríamos só nos odiando. Ele nitidamente não queria tentar ser agradável nem nada do tipo e eu não estava tão disposta assim também.
Forcei um sorriso falso e peguei minhas malas, puxando atrás de mim enquanto o seguia. Claro que ele não me ofereceu ajuda.
O apartamento não era longe, mais ou menos meia hora. Por mais que eu não seja uma garotinha indefesa e fraca, ele bem que poderia ter ajudado com as malas. Mas não, ele simplesmente tirou a chave do carro e saiu desfilando com os óculos de sol. Pelo menos ele segurou a porta do elevador, que era menos que o mínimo que ele podia fazer.
Subimos até o 7º andar e entramos no último apartamento do corredor. Jogou as chaves no aparador e pegou minhas malas – pelo menos dessa vez. O espaço era bem dividido. Entrávamos direto na sala, que tinha um sofá, uma mesa de centro e uma TV. Da porta, dava pra ver uma mesa com 4 cadeiras e ao fundo, uma pequena varanda. A esquerda, a cozinha americana. O corredor era longo e tinha três portas. A do final era do banheiro e nas duas laterais, reconheci os quartos. O da esquerda com a porta fechada, e o da direita, com a minha mala dentro. Ele literalmente largou minha mala lá dentro e voltou para a porta de entrada. A cada segundo ele parecia ser mais agradável. Que sorte a minha!
-Bem, é isso. Tem uma cópia da chave da porta na bancada da cozinha e a chave do seu quarto está na tranca. Vou sair. Pode ficar a vontade pra comer o que quiser.
-Sim senhor.
Ele bateu a porta ao sair e me apressei para trancar.
“Calma Manuela, vai ficar tudo bem, ele não deve ser tão ruim”.
Positividade. Forcei um sorriso e foquei que era um novo dia na minha nova vida.
Entrei no meu quarto e tranquei a porta. No fundo do quarto tinha outra porta, que quando abri, vi que dava para o banheiro, que tinha mais duas portas além da minha. Presumi que em cada quarto havia uma porta com acesso ao banheiro. O banheiro social era o mesmo dos quartos. Grande jogada imobiliária para vender como suítes, talvez. Mas na prática, é no mínimo, um tantinho perigoso considerando que tinha que me lembrar de trancar as três portas – do meu quarto, do quarto dele e a do corredor – quando estivesse lá dentro. Era estranho, mas procurando locais para ficar, tínhamos visto até apartamentos que tinha o vaso sanitário dentro do box do chuveiro. Sim, você poderia tomar banho sentado no vaso. Não duvidava de mais nada depois disso.
Abri a mala e arrumei algumas coisas, já pegando uma roupa e uma toalha e trocando o forro de cama porque não confiava no que estava ali. Havia convivido insuficiente com o Sam para saber que nem sempre ele trocava os lençois. Após algumas coisas em seus lugares, precisava de um banho.
Tranquei as três portas e deixei a água quente bater na nuca por alguns minutos. Lavei o cabelo e me enrolei na toalha, já ajeitando minhas coisas em um espacinho que achei entre as coisas dele. Só tinha meu sabonete, meu xampu e minha escova de dentes, ele não podia reclamar!
Voltei para o quarto e deixei a roupa suja ainda em cima da cama e voltei a guardar as roupas nos cabides. Meu cabelo é liso, então nem me importei em arrumar ou secar, apenas me vesti – um short florido e uma regata soltinha branca – e calcei os chinelos. Já era quase meio dia e meu estômago reclamou. Que fome.
Fui até a cozinha separando os fios dos cabelos com as mãos mesmo. Abri a geladeira e comecei minha busca por algo para comer.
Eduardo
Juro que assim que a Suzy voltar, eu mato ela! A garota não parecia ser tão ruim, mas o que me irritou de verdade foi o susto dela ser uma garota e ainda por cima, parecer logo com ela!
As ordens da minha Irmã foram diretas:
“Seja legal com a moça” ela disse.
Como se isso fosse fácil... Disse que ela não parecia ser tão ruim, mas também não parecia fácil de lidar. A típica baixinha de nariz em pé. Quando ela atravessou o portão do desembarque, o que vi não me incomodou. Em qualquer outro dia e situação, eu teria olhado com outros olhos. Ela não usava maquiagem, nem salto ou acessórios. Apenas um casaco e um cachecol por cima da blusa básica e tênis. Os cabelos curtos presos em um daqueles coques malfeitos e o cachecol enrolado na bolsa pousada no ombro. Dava para ver que era básica mas tinha personalidade.
Mas não era nada disso que realmente me incomodava. Era que... Ela era idêntica a Rachel, minha ex.
Passei três anos com a Rachel, até que ela sofreu um acidente com os pais e não resistiu. Já se passaram dois anos e eu senti que podia oficialmente dizer que segui em frente. Digo, não estou chorando por aí nem nada, mas me afetou muito. E agora ter que dividir apartamento com a Manuela só me faz lembrar que a Rachel se foi. Não digo que ela era o amor da minha vida, ela não era. Era perfeita até demais para ser real... E isso às vezes me dava nos nervos. Mas depois de todo o luto e negação, eu sentia que tinha superado de vez.
Como que dizem mesmo? Que todo mundo tem alguem muito parecido perdido por ai ou algo assim. Eu sou facilmente confundível considerando que sou totalmente comum. Não tenho nenhum traço ou característica marcante que valha a pena ocupar sua memoria. Mas elas? Elas têm o mesmo cabelo preto e liso, mesma altura e pude perceber que o mesmo tique de torcer a boca quando é contrariada.
Dei algumas voltas de carro pela cidade, na esperança de esfriar a cabeça. Parei em um estacionamento qualquer, apenas para pensar com clareza.
Senti meu celular vibrar.
-Oi?
-Edu?
-Fala Suzy.
-Tá tudo bem?
Ela parecia meio arrependida por não ter me contado.
-Tá sim.
-E como ela é?
Respirei fundo.
-Igual a Rachel.
Silêncio.
-Ok, é uma descrição específica e estranha. Edu, eu vou ser sincera – eu não respondi, e ela continuou – Eu sei e você sabe que superou a Rachel. Ela não era pra você Edu! E apesar de ser triste o que aconteceu, a vida continua pra você... Agora, a garota não tem culpa de se parecer com sua ex morta, então não jogue sua raiva nela. Me desculpe, mas é isso! Acabou, se foi. Vocês nem estavam num bom relacionamento quando tudo rolou, já estavam prestes a terminar mesmo. Sei que isso não anula seus sentimentos mas não pode continuar bancando o viúvo. Tente pelo menos se dar bem com ela, sem grosserias e sem mau humor. Pelo que o Sam me disse, ela é uma boa garota. Eu não teria concordado com a ideia se não confiasse no Sam. Por favor, me prometa que vai tentar.
-Prometo.
-Por favor, Edu...
-Ta Suzy, prometo que vou tentar me dar bem com ela, ok?
-Não banque o espertinho pra cima da moça, entendeu?
Nem precisa pedir...
-Tá bom.
-E Edu – pude ouvir ela suspirar – Eu te amo.
Então ela desligou. Respirei fundo antes de ligar o carro. Voltei pra casa decidido a me convencer de que talvez uma nova companhia não fosse algo tão ruim.
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