Ainda assim, Amar
8 Capítulo 7 - Entre o Medo e a Escolha
Notas iniciais
Entre uma aula e outra, Isabella estava sentada no banco do corredor da universidade, o caderno aberto no colo e o celular na mão. Esperava Alice para irem almoçar.
Tentava revisar a matéria, mas a mente insistia em dispersar.
Então, quase por distração, começou a rolar as notícias.
Economia.
Mercado financeiro.
Empreendedorismo.
E então viu a foto.
O ar sumiu.
O nome completo estava ali, em letras firmes, abaixo de uma imagem que ela conhecia bem demais.
Edward.
Não era alguém parecido.
Não era coincidência.
Era ele.
A reportagem falava sobre expansão internacional, sobre contratos milionários, sobre um empresário que havia construído tudo do zero. Um homem reservado, estrategista, implacável nos negócios.
Ela sentiu o estômago virar.
Aquele homem era o mesmo que ficava em silêncio ao lado dela.
O mesmo que a olhava como se estivesse sempre à beira de dizer algo importante.
— Bella? — a voz de Alice a trouxe de volta.
Isabella levantou os olhos devagar e virou o celular na direção dela.
Alice leu. Piscou. Leu de novo.
— Esse… é o seu Edward?
Isabella assentiu, mas parecia não estar inteira ali.
O peito apertou.
Ela começou a ligar os pontos.
As ausências repentinas.
O cuidado exagerado em não falar do trabalho.
O prédio que ele mencionava vagamente.
Ela não estava apenas surpresa.
Ela se sentiu traída.
Não pelo dinheiro.
Mas pelo silêncio.
— Você vai falar com ele, não vai? — Alice perguntou.
Isabella respirou fundo. As mãos estavam frias.
— Eu preciso saber se ele estava brincando comigo.
Alice segurou o braço dela.
— Então eu vou com você.
— Não precisa.
— Eu sei. Mas eu vou.
E dessa vez Isabella não discutiu.
O prédio era maior do que ela imaginava.
Vidros espelhados. Mármore. Pessoas que pareciam pertencer àquele ambiente.
Isabella sentiu a diferença pela primeira vez de forma quase física.
Ela com sua bolsa simples no ombro.
Ele dono daquele império.
Elas se aproximaram da recepção.
— Boa tarde — Isabella disse, reunindo o pouco de firmeza que ainda tinha. — Eu quero falar com Edward.
A recepcionista ergueu os olhos lentamente.
O crachá dizia: Melissa.
O olhar percorreu Isabella dos pés à cabeça. Demorado. Avaliador.
Um meio sorriso discreto surgiu.
— O senhor Edward não recebe sem agendamento.
O tom era profissional. O olhar, não.
— Diga que Isabella está aqui.
Melissa arqueou a sobrancelha.
— E a senhorita é…?
A pergunta foi leve demais para ser inocente.
Isabella sentiu o rosto esquentar.
— Ele sabe quem eu sou.
Melissa nem tocou no telefone.
— Infelizmente não posso interromper uma reunião importante sem informações adequadas.
Alice deu um passo à frente, indignada.
Mas Isabella já estava tirando o celular da bolsa.
— Tudo bem.
Ela digitou o número que conhecia de cor.
Chamou duas vezes.
Três.
Ele atendeu.
— Bella?
Só ouvir a voz dele fez algo dentro dela tremer.
— Estou na recepção do seu prédio.
Silêncio.
— Por que ninguém me avisou?
Ela desviou o olhar para Melissa, que agora parecia desconfortável.
— Aparentemente eu não tenho informações adequadas.
A voz dele mudou.
Ficou fria.
Controlada.
— Me passa para a recepcionista.
Isabella estendeu o celular.
— Ele quer falar com você.
Melissa hesitou antes de pegar.
— Senhor Edward, eu apenas—
A voz dele atravessou o pequeno espaço entre elas. Não dava para ouvir tudo, mas o tom era inconfundível.
Firme. Irritado.
— …quando ela disser o nome dela, você interrompe qualquer reunião…
— …não é assim que tratamos ninguém…
— …especialmente ela.
O silêncio de Melissa era absoluto agora.
Isabella sentiu algo estranho no peito.
Não era vaidade.
Era… importância.
Melissa devolveu o telefone, o rosto completamente diferente de antes.
— O senhor Edward pediu que a senhorita suba imediatamente.
Sem desdém.
Sem ironia.
Só formalidade rígida.
A diferença foi gritante.
E doeu.
Quando a porta do escritório se abriu, ele já estava de pé.
Sem máscara.
Sem postura ensaiada.
Só ele.
— Bella…
Ela entrou. Alice logo atrás.
A porta se fechou.
O silêncio pesou.
— Você sabia que era eu? — ele perguntou.
— Descobri hoje. Pela internet.
A palavra foi afiada.
— Por que você não me contou?
Ele passou a mão pelo cabelo.
— Porque eu estava com medo.
— Medo de quê? — a voz dela falhou. — De eu não ser impressionável o suficiente? Ou de eu descobrir que você estava me estudando como um experimento social?
Ele fechou os olhos por um segundo.
— Você jamais seria um experimento.
— Como eu posso saber disso? Eu não sabia nem quem você era de verdade.
Agora não era só raiva.
Era dor.
— Eu tentei me afastar de você — ele disse.
Ela ficou imóvel.
— Por quê?
— Porque eu não me acho digno.
O ar mudou.
— Eu falhei com meu irmão. Ele confiava em mim… e eu falhei com ele.
Ele falava baixo. Sem lágrimas. Sem dramatização. Só verdade.
— Depois disso eu prometi ao Edward de seis anos que nunca mais teria tão pouco que nem um pão ele tivesse. Eu construí tudo do zero. Cada contrato. Cada parede. Cada centavo. Eu fiz isso com perseverança. Porque eu tinha medo de nunca mais ter controle.
Ele a olhou nos olhos.
— E quando você apareceu… eu senti que podia perder tudo que realmente importa.
A respiração dela ficou irregular.
— Eu tentei me afastar porque achei que você merecia alguém inteiro. E eu ainda carrego culpas demais. Mas eu não consegui. Você já era importante demais pra mim.
Ela sentiu as lágrimas arderem.
— Eu me senti traída — ela confessou. — Porque eu comecei a sentir coisas por você. E eu prometi a mim mesma que nunca me envolveria com um homem assim.
— Assim como?
— Poderoso. Intocável. Cercado de gente que me olha como se eu fosse pequena demais para estar ali.
Ele deu um passo.
— Com você por perto eu me sinto humano de novo. Não empresário. Só Edward. E se eu te perder… esse prédio, essa fortuna, nada disso importa.
Ali.
Naquele instante.
Ela entendeu.
Não era sobre dinheiro.
Era sobre medo.
— Então fique — ela disse, quase em um sussurro.
Ele a abraçou forte.
— Desculpa. Eu só quero ser o Edward com você.
— Então seja.
Eles quase se beijaram.
— Ahem.
Alice pigarreou.
— Eu não quero atrapalhar, mas muito prazer oficialmente. Eu sou Alice, amiga dessa maluca. E eu só queria sair já que vi que ela está bem e vocês precisam conversar.
Edward agradeceu e pediu que seu assistente Jasper a acompanhasse.
Quando ficaram sozinhos, ele levou Bella até o sofá do escritório.
Ela se acomodou.
— Esse sofá é muito mais confortável que o meu.
Ele quase sorriu.
— Eu te dou se você quiser.
Ela riu.
— Não precisa… mas talvez eu venha mais vezes aqui estudar enquanto você trabalha. Esse sofá é realmente muito bom.
Ele se inclinou.
— Pode vir sempre.
Dessa vez ninguém interrompeu.
O beijo foi lento.
Consciente.
Não era impulso.
Era escolha.
E ali, naquele sofá confortável demais para ser apenas um detalhe, eles deixaram de fugir.
Sem nomear o que estavam construindo.
Mas finalmente, escolhendo ficar.
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