Ainda assim, Amar
7 Capítulo 6 - Entre o Medo e o Toque
Não houve promessa.
Não houve definição.
Não houve aquela conversa que transforma duas pessoas em algo nomeável.
Houve presença.
E isso, para eles, já era imenso.
Nos dias seguintes, nada mudou de maneira brusca.
Eles continuaram se encontrando — às vezes por acaso, às vezes não tão por acaso assim.
Mas a atmosfera era diferente.
Não era mais apenas troca de palavras.
Era consciência.
Consciência do espaço entre os corpos.
Do tempo que um olhar demorava a mais.
Do silêncio que não era mais inocente.
Edward ainda tinha medo.
O medo não desapareceu porque ela disse “fique”.
Ele apenas decidiu não obedecê-lo imediatamente.
E isso já era uma revolução silenciosa.
Certa noite, caminharam sem destino definido. A cidade estava morna, o ar úmido, as luzes refletindo nas poças da calçada.
Eles conversavam sobre coisas pequenas — livros, pacientes difíceis, uma discussão banal na faculdade.
Mas havia outra conversa acontecendo.
A que não era dita.
Bella falava com as mãos. Sempre falara.
E naquela noite ele percebeu como os dedos dela eram delicados — firmes, mas delicados.
Ele segurou a mão dela no meio da frase.
Sem anúncio.
Sem pedir permissão em voz alta.
Ela parou de falar.
Não puxou a mão de volta.
O mundo não explodiu.
Nenhuma tragédia aconteceu.
Nada foi quebrado.
Mas algo mudou.
O toque não era mais distraído.
Era escolha.
Depois disso, a proximidade começou a acontecer de forma quase inevitável.
O ombro dele encostava no dela ao atravessarem a rua.
Os joelhos se tocavam quando sentavam lado a lado.
A respiração ficava mais consciente quando estavam perto demais.
Não era urgência descontrolada.
Era tensão.
Contida.
Crescente.
Honesta.
Edward descobriu que desejá-la era assustador.
Porque o desejo não era só físico.
Era querer tocar e também querer ficar.
Era querer a boca dela e também as manhãs.
Era querer o corpo e o que vinha depois.
E “depois” sempre foi o que o apavorou.
A primeira vez que ele a beijou não teve cenário cinematográfico.
Foi no apartamento dela.
A televisão ligada sem som.
Dois copos esquecidos sobre a mesa.
Eles riam de algo que já não lembrariam depois.
Ela ficou em silêncio no meio da frase.
Ele também.
O espaço entre os dois ficou estreito demais.
Ele poderia ter recuado.
Ela poderia ter quebrado a tensão com uma piada.
Nenhum dos dois fez.
O beijo começou hesitante.
Como se ambos estivessem aprendendo a medir força.
Mas não demorou para deixar de ser cauteloso.
Não era desespero.
Era descoberta.
A mão dele deslizou pela cintura dela, sentindo o calor sob o tecido.
Ela segurou a camisa dele com firmeza — não para afastar, mas para manter.
Quando se afastaram, estavam ofegantes.
Não por falta de ar.
Mas por excesso de sensação.
Ele encostou a testa na dela.
— Eu tenho medo de estragar isso — ele admitiu, quase num sussurro.
Ela não fingiu que não tinha medo também.
— Então a gente vai devagar.
Devagar não significava menos intenso.
Significava consciente.
Eles começaram a se explorar como homem e mulher.
Sem pressa.
Sem roteiro.
Descobrindo limites, aprendendo reações.
As mãos dele eram firmes, mas sempre perguntavam sem palavras.
O corpo dela respondia com sinceridade — às vezes tímido, às vezes ousado.
Havia noites em que paravam antes que fosse longe demais.
Não por falta de desejo.
Mas porque estavam aprendendo a sustentar o que sentiam.
O toque virou linguagem.
O beijo virou diálogo.
E cada pequena escolha de permanecer era uma construção.
—
Edward ainda acordava, às vezes, com a sensação de que algo daria errado.
Que felicidade era frágil.
Mas agora havia outra sensação competindo com o medo:
O calor da pele dela contra a sua.
A maneira como ela encaixava o rosto no pescoço dele quando ficava cansada.
O jeito como ela dizia o nome dele sem perceber que dizia diferente.
Não havia rótulo.
Não havia promessa de eternidade.
Havia dois adultos escolhendo continuar.
Não mais só amigos.
Não ainda algo definido.
Mas homem e mulher.
Corpo e presença.
Desejo e cuidado.
E, pela primeira vez, o medo não era a única coisa ocupando espaço dentro dele.
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