Ainda é cedo.

19 Capítulo 19: Burra feito uma mula sem cabeça.


Notas iniciais
Parte I - Só queríamos estar ali Se você é menor de idade e ta lendo, tia Laia ta avisando que beber assim faz mal. Aviso dado!

Eduardo

-Pernas de matar que ela tem...

Minha vontade era socar a cara do Gus.

-Dá pra deixar de ser idiota por um minuto só?

Ele só ria, como sempre.

-Cara, esquece isso... Você sabe que eu to super afim da Laura também e to aqui de boa. Só tô elogiando, sem maldade.

-É diferente...

-Por que com você é sempre diferente?

Eu não tinha uma explicação pra dar, mas só de envolver Laura e Manuela já ficava óbvio que era diferente.

-Esquece.

Acabou que o Gus capotou assistindo TV no sofá. Fui para o meu quarto e tentei rabiscar alguma coisa. Vários desenhos pequenos foram se formando sobre a folha, preenchendo-a em pouco tempo.

Acabei ficando entediado e indo dormir também.

Acordei por volta das três da manhã com o telefone tocando. Quando vi o nome da Manu na tela, pensei que fosse pra ir buscá-la. Mas não...

-Eduuuuuuu.

Ouvi meu nome cantarolado, sem entender nada.

-Manuela?

-Eu... – a voz dela estava embargada.

Ah não...

-Onde você tá? — me sentei na cama tentando despertar.

Ela riu. Estava completamente bêbada. Mas pelo que eu me lembre, a Manu não bebia e inclusive se gabou disso antes de sair.

-Eu não sei, mas é bonito. Eu estou vendo as estrelas Edu, são tão lindas. Tantos pontinhos que eu até me perco...

Levantei já ligando a luz e vestindo uma bermuda, enquanto apoiava o celular no ombro. Tropecei e acabei derrubando os óculos que estavam na mesinha.

-Você ainda tá na festa?

-Naaaaao, já saímos faz tempo de lá... Eu to num jardim, da casa do Oliver, não é Oliver?

O tal gritou no fundo, algo parecido com "é isso aí!" ou "volta aqui".

Oliver?

OLIVER?

-Quem é Oliver, Manu?

-Um amigo meu. Ele machucou meu joelho, mas eu não te liguei pra contar isso...

Bati o dedinho na perna da cama por me distrair ao escutar que ele machucou o joelho dela. A vantagem foi que a dor afastou todo pensamento maldoso que invadiu minha mente. Pensamento que envolvia a Manu ajoelhada de frente pra esse tal cara.

Não, sem dúvida tem uma outra razão que não envolve ela de joelhos na frente de ninguém!

Pulei até a sala, saltitando com o pé que não latejava. Liguei a luz da sala e acordei o Gus, que me olhou com uma cara de "é bom o mundo estar acabando pra me acordar!".

-Liga para a Laura, vê onde ela tá! – falei sem emitir som, ainda ouvindo a Manu.

-Sabe, eu tava na festa, e virei umas bebidas mas perdi as contas depois do 3. Depois do três vem o cinco ou o seis? — ela riu alto — Descobri uma coisa nova, Edu: eu fico burra quando bebo e olha... Eu to muito doida então tô muito burra! Burra feito uma mula sem cabeça.

A risada dela tomou conta da chamada e eu só conseguia pensar em como ia encontrar essa mulher nesse estado enquanto ela explicava que mulas sem cabeça não tinham cérebro, então deviam ser burras.

-Mas aí eu fiquei pensando... Porque mesmo burra eu ainda penso muito. E fiquei pensando em você. Porra, por que complicar tudo né, Edu? Eu sei o que eu sinto por você, só que eu tenho medo! Eu não quero achar que tá tudo bem pra vida me dar um soco e tirar meu biscoito de novo – biscoito? – E você é um biscoito pra mim Edu! Sabe quantos biscoitos eu já perdi? MUITOS! E a vida sempre faz isso, sabe? E eu sei que ela tá só esperando pra fazer de novo. Por favor, Edu, não deixa ela fazer de novo... Oh vida — ela gritou — DEIXA MEU BISCOITO EM PAZ!

Não entendi nada do papo de biscoito mas talvez fosse fome?

Então ela começou a cantar a própria versão adaptada de "A dor dessa amor" do KLB.

-Vida... Devolva meus biscoitos! Meu sonho de me formar em medicina... Devolva meu cérebro. Sem um lanchinho, meu buchinho fica tão vazio. Os dias quentes são chatinhos e as noites me trazem muita dor no pescoço.

Segurei o riso com sua paródia desafinada. Ela não parecia triste e eu sabia que só estava falando tudo aquilo por causa do álcool. Olhei para o Gus procurando uma resposta, ele só acenou negativo com a cabeça. Ela não atendia o telefone.

-Manu, eu não vou ser um biscoito fugitivo, ok? Vou continuar com você, e se você me falar onde está eu...

-Isso é mentira! — ela me interrompeu — Eu sempre falei: sou encrenca, um problema! Eu tenho carga. E até hoje não achei ninguém que aguentasse isso. Eu sou aquele biscoito quebrado que a gente deixa no fim do pacote. Eles sempre falavam que era exagero meu, nunca acreditaram em mim... Mas eu já ouvi isso, e sabe o que aconteceu? Ele se foi! E me deixou pra cuidar de tudo!

-Manu, me fala...?

-Eu não queria Edu, não queria mas cuidei porque só sou burra quando bebo, acabei de concluir que sóbria eu sou inteligente. Mas aí agora você vem e me aparece, bagunçando toda a barreira que eu fiz contra o mundo por dezoito anos! VOCÊ ESTRAGOU DEZOITO ANOS! Sabe o que é dezoito? É dez mais oito! DEZ MAIS OITO EDUARDO! Você pega dez e junto com oito — ela suspirou e soluçou, rindo em seguida e depois voltou para o tom melancólico — Mas esse negócio de romance dos contos de fada não rola comigo. Eu quero poder ter alguém pra beijar sem ter que mudar meu status no facebook! Será que é tão difícil de entender que não quero ninguém se metendo na minha vida? Me regrando se é cedo ou tarde pra namorar. Mandando em mim? Eu não nasci pra esse negócio, não consigo me imaginar entrando em uma igreja. Não sou a princesa que querem que eu seja. Mas quer saber? Eu estou bêbada, tá frio, meu pescoço ta doendo e meu joelho foi esfolado! Eu sou uma lascada nessa vida. O que importa agora?

-Manu...

-Eu preciso ir. As estrelas são tão bonitas e preciso falar com elas. Talvez elas me digam a resposta das provas dessa semana ou me alimentem. Boa noite, Edu.

Ela desligou. Tentei ligar, mas começou a só dar caixa postal.

Onde aquela doida tava? Não consegui dormir depois disso.


Manuela

Abri os olhos com dificuldade, o sol incomodava e minha cabeça doía. Minha boca seca como o deserto. Olhei todo o espaço ao meu redor mas não reconheci nada. Depois que percebi que não sabia onde tava só pensava que não podia ter feito nada com esse cara. Porque afinal, quem é esse cara?

Tentei levantar mas foi uma péssima ideia já que o mundo começou a dar mais voltas do que eu podia suportar. Engatinhei pela grama com o joelho ralado reclamando, o pescoço dolorido e o estômago revirado. Achei minha blusa perto de mim. Estava dobrada e não parecia suja. Tinham algumas picadas de mosquito pelo meu corpo. Meu rabo de cavalo já tinha soltado e eu provavelmente parecia um panda por causa da maquiagem. Me arrastei um pouco mais e vesti a blusa o mais rápido que pude. Vasculhei os bolsos. Ainda estava tudo lá. Meu celular estava desligado mas eu sabia que não estava sem bateria porque estava completa quando sai de casa. Liguei ele e logo vi várias chamadas não atendidas.

O que aconteceu ontem?

E foi aí que lembrei: o cabelo cor de areia. Era o Oliver. Meu coração pulava de desespero. Eu não tinha feito nada com ele. Ou tinha? Eu não conseguia me lembrar!

Eu vou matar aquele barman idiota!

Tentei repassar a noite na minha cabeça. Tudo começou com uma batida de morango. Certo, depois o Oliver esbarrou em mim e eu caí. Aí a Laura me largou e eu fiquei puta da vida e comecei a beber tequila... Por que? Eu sou idiota por acaso? Na hora eu nem me importei mas agora me parecia tão... Estupido! Lembro de ter começado a dançar e isso explicava a dor no pescoço. Mas como eu vim parar aqui?

O Oliver começou a acordar e eu quase corri. Arrastei meu corpo para longe dele.

-Por que eu to no jardim? – ele colocou a mão na cabeça, tentando se lembrar. Virou a cabeça e enfim me viu – Ué, eu pensei que...

-Você ainda se lembra de mim?

-Malu?

-MANU! Você lembra de alguma coisa de ontem?

-Mais ou menos... Você sabe como viemos parar aqui?

-Depois da terceira dose, eu não lembro de mais nada...

-Bem... Você tomou três doses, e começou a dançar loucamente. Eu já tava meio alto também e disse que ia embora. Ai você disse que eu era responsável por você, já que minha prima tinha te abandonado. Eu não sabia onde morava e nem você soube me dizer, então acho que dormimos aqui.

-Eu acordei sem blusa, nós não...

-Não que eu me lembre... Ah, assim que chegamos você falou algo sobre ligar pra um tal Leonardo...

-Eduardo!

-É, Eduardo! Aí você passou um tempo com ele no telefone e depois deitou com a cabeça na blusa. Desligou o celular e acho que os dois acabaram dormindo.

-Foi só isso?

-Eu só me lembro disso.

Enquanto ele falava, minha mente explodiu de flashes com lembranças. Eu dançava e cantava em voz alta, liguei pro Edu – ai meu deus, o que eu disse? – e tirei a blusa pra usar de travesseiro.

-Você é uma das garotas mais loucas que eu já conheci. Até que tava rolando um clima, mas acho que nós dois capotamos antes de qualquer coisa.

Não sabia o que era pior: a dor de cabeça ou a vergonha.

-E por que você tá sem calça?

-Não faz pergunta difícil garota...

Peguei meus sapatos que estavam jogados na grama.

-Seguinte, vamos fingir que isso não aconteceu, ta? Pode me dizer o endereço daqui?

Ele me falou e eu sai correndo, já discando o número do Edu.

-ONDE VOCÊ TÁ?

-Não grita – implorei enquanto minha cabeça latejava.

Passei o endereço e esperei uns 40 minutos. Crianças passavam correndo por mim, algumas rindo da minha aparência, outras olhando espantadas. Não dava para culpá-las, pois sem dúvida a cena era deplorável: eu, no estado pós bebedeira e noite no jardim, sentada na mureta da calçada, com as pernas balançando sem tocar no chão enquanto segurava os saltos .

Nem deu tempo de descer quando chegou. Ele parou o carro de qualquer jeito na vaga e veio correndo na minha direção. Segurou meus braços como se quisesse conferir que eu estava inteira, passou a mão pelo meu rosto olhando cada pedacinho e me abraçou, respirando aliviado.

Tendo a certeza de que não faltava nenhum pedaço meu, ele mudou de expressão e começou a me dar bronca.

-Qual o seu problema? Você é doida? – ele se revirou nervoso, voltou a me olhar, parecia extremamente aliviado – Nunca estive tão feliz em te ver. Achei que ia te encontrar em uma viela e já tava me preparando pra sua mãe e seu irmão me matarem.

Ele me abraçou de novo e voltou a me olhar furioso.

-Calma Edu, eu to bem...

-Calma? Como quer que eu fique calmo se você me ligou no meio da madrugada, completamente bêbada, sem dizer coisa com coisa, sem saber onde tá e depois sumiu! Você é maluca por acaso?

Ele estava furioso, mas também extremamente aliviado por eu estar bem. Andou até a calçada e sentou, apoiando o rosto entre as mãos.

-Não faça mais isso comigo...

-Desculpa?

-Vamos pra casa...

Ele levantou e andou até o carro sem me olhar mais.

Me sentia tão ingênua, burra, ou qualquer outro adjetivo que poderia me pôr mais pra baixo naquele momento. Mas principalmente, me sentia cansada.

Ele ficou de bico o caminho todo.


Eduardo

Ver que ela estava viva e inteira foi um alívio.

-Vai ficar com esse bico até quando?

Ela perguntou enquanto andava/se rastejava atrás de mim, no corredor do apartamento.

-Até quando eu quiser.

Entramos e eu me joguei no sofá, enterrando o rosto novamente nas mãos. O cansaço da noite preocupado bateu de uma só vez.

-Edu...

Ela falou com a voz arrastada. Incrível como ela ainda ficava de charminho até mesmo quando ela que tinha feito merda.

-Nem tenta, Manu!

Ela bufou e foi para o quarto. Voltou uns quarenta minutos depois, vestindo uma camiseta larga que batia no meio da coxa. Ela secava os cabelos com a toalha, e eu reconheci a camisa tirada da minha gaveta.

-Quem deixou?

Ela largou a toalha no braço do sofá e falou com carinha de inocente:

-Posso tirar se você quiser...

Ela era inacreditável!

-Não vai conseguir me deixar mais calmo me seduzindo.

-Então posso tentar me explicar?

Pulei um lugar no sofá, lhe dando espaço.

-Obrigada – ela sentou e cruzou as pernas — Você sabe que eu não bebo né? – seu tom agora era sério – Digo, não bebia até ontem... Resumindo, eu virei três doses de tequila seguidas praticamente porque tava puta porque a Laura me largou sozinha na festa. Mas saiba que tô me sentindo horrível por isso! E... é de verdade, me desculpa? Não queria te deixar preocupado, eu só meio que quis saber como era jogar tudo pro alto pelo menos uma vez na vida. E aí exagerei... Não foi legal. Admito que foi burrice porque estava sozinha e não quero fazer isso de novo.

-Sabe que me ligou de noite?

Ela fez uma careta.

-Fiquei sabendo sim – outra careta – O que eu disse?

-Sabe, existem vários tipos de bêbado, e você aparentemente é a bêbada sincera.

-Ah que merda, o que eu te disse?

Ela arregalou os olhos e se encolheu quando eu comecei a contar.

-Você começou a gritar e rir muito, ai eu vi que estava bêbada! Disse que estava em um jardim, com um tal de Oliver, vendo as estrelas. Fez uma paródia da música do KLB – ri novamente lembrando – e ai... Me disse que não via razão para complicar tudo, já que sabia exatamente o que sentia por mim, mas tinha medo. Começou a falar sobre algo da vida te dar um biscoito, eu não entendi essa parte, então deduzi que você estava com fome. Ficou explicando como calculava para chegar no número 18. Veio com uma conversa que não queria mais perder ninguém. Disse que eu derrubei tudo que você construiu a vida inteira, e que não quer um compromisso... E desligou porque queria que as estrelas dessem a resposta das suas provas dessa semana.

O joelho tinha um curativo, e ela escondia o rosto. Falando tudo aquilo, não pude evitar de ficar um pouco feliz por ter ouvido dela.

-E agora eu tenho que te perguntar: sabe o que sente? Agora, sóbria!

-Eu não sei se sei... A minha cabeça tá doendo e eu estou tão envergonhada. Me diz que não tá mais com raiva, por favor...

Olhei pra ela ali encolhidinha e se julgando. Abri meus braços e ela se aproximou, aceitando o abraço.

-Tá tudo bem... Todo mundo faz cagada às vezes. O importante é tomar cuidado da próxima vez. É perigoso fazer isso, Manu. Ainda mais sozinha num lugar que não sabe onde é e que não conhece ninguém.

Não olhei, mas sabia que ela estava sorrindo. Senti sua mão no meu rosto, os lábios pressionando minha bochecha num beijo estralado.

Tinha passado a noite agoniado sem saber o que tinha acontecido. E nessas horas, só passam coisas ruins na cabeça. Acho que era porque eu sabia o que podia rolar em certas festas e não queria a Manu no meio. Sentir ela por perto agora era um alívio. Sabia que não podia proteger ela de ter certas experiências, mas querer manter ela ali sempre no meu abraço mostrava o quão egoísta eu conseguia ser.

Virei meu rosto, ela deixou. Fechei meus olhos, senti o gosto do brilho labial dela.

Eu tinha medo de perder mais alguém na minha vida, assim como ela tinha. Nessa hora, entendi que ela também era meu biscoito.

-Não faça isso de novo comigo – falei ainda sem afastar meus lábios dela.

Pude sentir ela sorrindo, e respondeu da mesma maneira:

-Pode deixar.

Ela se afastou, estendendo o dedo para mim. Eu não queria saber de promessa. Puxei seu corpo, colando no meu e virando de lado no sofá.

-Só por favor me diz que não rolou nada com esse Oliver...

Ela me olhava de baixo.

-Por favor, não estrague o momento – choramingou.

-Responde...

-Eu... – ela fechou os olhos – Acho que não.

-Acha?

-Ainda não entendeu que não lembro de nada? Mas é um acho quase certeza! – parecia tentar convencer mais a si mesma do que a mim.

-Quase?

-70%.

-Como não tem certeza disso?

-Olha, eu já to me sentindo uma idiota por não ter certeza, você não precisa fazer me sentir pior.