Ainda é cedo.
20 Capítulo 20: Tipo moderna e independente
Notas iniciais
Manuela
Sai do sofá pisando forte. Eu não estava com raiva pra valer. Não com ele... Estava fula da vida era comigo mesmo! Mas pra que raios eu tinha que ter feito aquilo?
Não acho que rolou nada mas realmente não me lembro e não quero dar garantias que não são concretas. Como eu vou falar que não rolou nada se nem sei o que aconteceu?
Entrei no quarto e catei minhas roupas sujas e desci pra lavanderia, passando reto pelo Edu. O momento afetuoso não durou cinco minutos e voltamos ao nosso estado normal de cão e gato.
Nem separei nada, só joguei tudo dentro da máquina e fiquei lá esperando pelo resto da tarde. De noite, meu celular tocou.
-Manu...
-Nem tenta se explicar Laura!
-Você tem razão de querer me tratar assim, mas me escuta...
Eu já estava tão cansada de ouvir “me escuta!”.
-Lembra que te falei do meu ex? Achei ele na festa, discuti com ele, e bebi algumas doses de tequila... Depois disso, só lembro de ter ido para a casa do Gus, porque eu queria conversar, mas ele não tava em casa... Acabei voltando pra casa mesmo, e aí lembrei de você! Ta, admito que te esqueci! Mas em minha defesa, eu voltei lá e você tinha sumido! Pode me odiar agora. Fui uma péssima amiga e super irresponsável de sair por aí dirigindo depois de beber tanto. Pode me punir, eu mereço!
Depois da minha noite, eu não tinha o direito de odiar ninguém. Quem era eu pra julgar a Laura?
-Quer saber? Esquece... Vamos fingir que ontem não aconteceu?
-Sério? AH COMO VOCÊ É LINDA MANU!
Minha cabeça latejou de novo.
-Não grita – implorei pela milésima vez naquele dia.
-Então já que está tudo bem agora, você bem que podia vir aqui pra casa me ajudar a estudar, né?
Por que eu tinha que ser tão boazinha às vezes?
-Ta, pode vir me pegar...
Na verdade, eu queria ir pra não ficar ali. Sabia que se ficasse em casa e falasse com o Edu, íamos brigar. E eu não tava afim de mais dor de cabeça, em todos os sentidos. Queria poder falar pra alguém o que tinha acontecido sem me sentir culpada. Sabia que a Laura ia entender e provavelmente me contar uma história pior ainda.
Joguei as roupas recém lavadas na cama. Peguei algumas coisas e enfiei na mochila com meus materiais. Ela não demorou e eu desci correndo. Ela cantava dentro do carro, o que só piorava minha dor de cabeça. Eu não estava de bom humor.
Assim que chegamos, joguei os materiais na mesa da cozinha e comecei a explicar a matéria para ela, mas era como segurar areia em uma ventania.
-Não adianta, eu não vou aprender em uma noite o que não aprendi em quatro meses!
-Presta atenção, Laura!
Tentei explicar mais uma vez. E outra. E depois outra.
-Chega, meu cérebro tá fervendo! Vou comer alguma coisa, quer?
-O que é alguma coisa?
-Provavelmente um doce… — meu estômago ressacado reclamou só de pensar na ideia.
-Não, obrigada.
Ela não demorou e voltou com um pacote de biscoito na mão.
-Ah, eu tinha mesmo que ficar um tempo com você pra te contar. O Rodrigo tá chateado.
Meu primeiro pensamento ao ouvir isso foi “Problema dele!”. Mas logo a culpa me domou.
-Ah é? Por quê?
-Ele não gosta do Edu.
-Ótimo! Porque o Edu não gosta do Rodrigo e isso segue não sendo problema meu.
-Eita, tão grossa! O que houve?
-Houve Eduardo e Rodrigo no mesmo espaço sozinhos por dois minutos! Eles ficaram lá discutindo feito duas crianças tolas disputando por um brinquedo. EU era o brinquedo!
-Quando isso rolou? Não acredito que eles fizeram barraco e eu perdi.
-No dia das oficinas lá na faculdade, primeiro o Edu me falou umas coisas, sobre estar gostando de mim, tipo, gostar mesmo! Pela primeira vez na vida, eu me sentia completamente apavorada e derretida. Só que aí, eu saí por um minuto e ele e o Rodrigo começaram a... Sei lá como posso descrever aquilo, foi ridículo! Eles estavam me disputando como um pedaço de carne, falando quem era melhor do que quem, qual dos dois podia me dar uma vida melhor... Me poupe! Eu tava lá, eu tava ouvindo tudo, e eles me ignoraram! E me diz: pra que? Tava tudo tão bem, sabe? Eu cansei de ficar no meio sempre, ouvindo e ouvindo. Ninguém quer saber o que eu quero?
-E o que você quer?
-Eu não sei, mas não vou mais ser pivô de competição boba. E o Eduardo também parece que quer, diz que quer, mas não quer pra valer porque só pisa na bola. Eu já tenho muita complicação pra ter que escolher mais uma.
-Manu... Desculpa, mas percebeu que você falou só do Edu? Você sabe o que quer! Você já escolheu, só que fica em negação.
-Não, não sei.
-Então então como pode saber que não gosta dele?
-Porque eu não sei o que é gostar de alguém!
Aquilo fugiu da minha boca. Levantei confusa, andando pela casa. A verdade era que eu nunca tinha sentido algo de verdade por alguém, algo pra valer. Tinha tido meus casinhos na época da escola, um leve coração partido que facilmente superei e zero relacionamentos sérios. Eu não sabia o que eram borboletas no estômago, e nunca me imaginei com alguém pelo resto da vida. Eu era mais do tipo moderna e independente que não precisa de ninguém e vai morrer com 37 gatos. Aceitei esse destino e estava em paz com minha sina.
-Dúvido que não saiba. Acho que é mais uma das suas negações…
-Como eu posso saber se eu gosto ou não?
-Você sabe, só tem medo de admitir. Tem medo de se entregar, de se envolver. Às vezes você é muito racional, minha amiga. Mas é sofrido viver assim. Nem tudo dá pra ser explicado. Nem tudo tem lógica. Se não, como eu poderia explicar minha mãe ter competido a vida inteira comigo quando deveria me amar de forma incondicional?
-Eu sei, mas…
-Se entrega, Manu! – ela abriu um sorriso, tentando me incentivar – Ele não é só mais um… Nós duas sabemos disso.
Eu queria sentar e chorar. Quando o assunto era sentimento, eu era um projeto de aprendiz em andamento que vivia de recuperação.
-Pera – meu cérebro começou a processar tudo que tinha acontecido hoje – Você disse no telefone que saiu da festa pra casa do Gus?
-Foi – ela confirmou corando – Eu... Eu confio nele, e precisava conversar com alguém que não fosse você. Então peguei o carro, e não tinha ninguém na casa dele. Não liguei perguntando onde ele tava, só entrei no carro de novo e vim pra casa.
Ela remexia as mãos, parecendo agitada com o assunto.
-Sabe, eu gostava muito do meu ex... Mas como todos os outros, ele me largou quando eu deixei de ser a loira burra gostosa que ele queria que eu fosse. Ele me via como um troféu para exibir, mas não podia ser um troféu que envolvesse a mínima inteligência para não ameaçar a baixa capacidade de raciocínio dele. E quando a gente tava brigando, eu lembrei de uma conversa que tive com o Gus. Ele... Ele – ela fechou os olhos e um sorriso escapou, como quando se faz com uma lembrança boa – Ele me disse que eu era linda demais pra ficar me jogando nos pés de qualquer um e que eu devia abrir meus olhos e me valorizar. Eu me senti suja quando ele me falou isso e até fiquei meio ofendida na hora. Mas depois fez sentido. E aí, quando eu ouvia aquele babaca lá gritando comigo, era a voz do Gus que ecoava na minha cabeça. Deixei ele falando sozinho e sai. O Gus tem razão, eu sou fácil e não me valorizo. Diferente de você, eu não vou descobrir o que é gostar porque já gostei de gente até demais. Só não gostei de mim mesma.
-Laura…
-Não, tudo bem! Eu nunca tive vergonha do que eu sou, sou assim e pronto, gostando ou não, eu aceito. E acho que por isso, eu acabo aceitando qualquer coisa, entende? E aí alguém vem e me fala “ei, tem algo aí embaixo desse corpo. Eu vejo isso, você pode ver também”. O Gus antes de tudo, é meu amigo, eu sei que se eu precisar dele, ele vai me ajudar. Eu sentia falta disso, de alguém que cuide de mim e não só do meu corpo. Alguém que me pergunte como tô e não “se quero receber um trato”.
A Laura estava ferida, magoada com ela mesma. Me doía ouvir ela falando aquilo tudo.
-Você gosta dele?
-Pergunta difícil... O Gus é bobão, me dá atenção e acho que pelo fato dele não focar só no meu corpo, me faz não ligar pro dele. E daí se ele é gordinho? Gosto dele mesmo assim. Não sei se posso dizer que gosto nesse sentido, mas posso dizer que gosto. Ah, ele me disse que o aniversário do Edu tá chegando...
-Semana que vem.
-Vai dar o que pra ele?
-Tô com uma ideia já...
Ficamos por horas lá conversando, parecendo duas adolescentes idiotas. Mas nem ligamos. Quando os bocejos começaram a interromper as frases, decidimos que era melhor ir dormir um pouco, principalmente eu, que ainda estava com uma bela ressaca.
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