Agridoce
4 Quando Annabel Aprende A Planejar
Write me off, give up on me
'Cause darling, what did you expect?
I'm just off, a lost cause
(Fall Out Boy – A Little Less Sixteen Candles, A Little More “Touch Me”)
– E eu acordei no hospital, na tarde de ontem. Isso foi tudo. Tudo que presenciei, tudo com que posso colaborar.
Annabel estava cansada. Estivera naquela sala de interrogatório desde as nove da manhã, e já eram cinco da tarde. Não tinha nada que quisesse mais naquele momento que sua cama quentinha. Mas ainda tinha assuntos para resolver depois que saísse daquele lugar imundo.
Alguns segundos após terminar seu exaustivo depoimento, pode ouvir o escrivão bater a última tecla de seu computador. Ao mesmo tempo em que ele batia teclas, Josh, o detetive investigativo sentado a sua frente, estendia as palmas das mãos na mesa, em uma forma de demonstrar que aquilo tudo havia enfim acabado.
– Senhorita Jackson, está dispensada. Agradecemos por colaborar.
– Eu não tive muita escolha mesmo. – ela rebateu, sem medir as consequências de seu sarcasmo.
– Veja bem, senhorita. Meu trabalho aqui já acabou, assim como o seu. Então, se quer tanto ir embora, está livre para ir. Ou prefere ser indiciada por desacato a uma autoridade? Eu sinceramente não estou no meu melhor dia hoje, então, por favor, seja um pouco caridosa. – vociferou o homem, arrancando uma gargalhada desvairada de Annabel.
– Ah, por que eu seria caridosa com você? Não tenho nem um mísero motivo. Aliás, motivos eu só tenho pra sair daqui, e é o que vou fazer agora. Passar m... oh, bem, passar bem. – despediu-se ironicamente, soltando um sorriso que não era o seu verdadeiro. Levantou da cadeira, arrastando-a e produzindo um ruído alto no chão mal cimentado. Sem dar tempo para nenhuma reclamação escapar da boca do detetive, ela se dirigiu a porta e girou a maçaneta, saindo da sala e voltando a andar pelo corredor de saída da delegacia.
Ah, como Annabel havia mentido. Havia mentido muito. Não que ela não estivesse acostumada a isso, nem que não soubesse como fazê-lo, mas mentira tanto que achara incrível não ter se contradito em nenhum ponto de seu depoimento.
Ela não fazia a menor ideia do motivo de, num caso como aquele, um incêndio “acidental”, haver um detetive investigativo. Mas Annabel tentava não pensar nisso agora; precisava se concentrar em pegar o caminho certo para ir até a casa de Bert.
xXx
– Annie, que bom que veio! – trinta e poucos minutos depois, a garota estava parada na porta da casa de Robert, com o mesmo enlaçando sua cintura num aperto forte e distribuindo beijinhos por todo seu rosto.
– Bert, eu já te pedi pra não fazer isso, seu meloso. – ela reclamou.
– Ah, me desculpa. – o mais alto soltou-a gentilmente, pegando em sua mão e a puxando pra dentro da casa. – Vem, entra.
A casa de Bert tinha um cheiro de poeira e mofo, um cheiro que Annabel já estava acostumada e lhe parecia até familiar. Ele havia herdado-a de seus pais, que também morreram num acidente de carro. Foi assim que eles se conheceram, foi a primeira coisa em comum entre eles. Naquela época, os outros adolescentes costumavam se aproximar por estilos e bandas que gostavam, mas os dois o fizeram pelo luto, a solidão e a rejeição que compartilhavam.
A mente de Annabel voou longe, desenterrando lembranças confusas.
31 de outubro de 2006
Era noite de Halloween. Todo ano, ela viajava com a família para a casa de seus tios, para que passassem a data em família. Aquele feriado não era uma coisa muito familiar, mas ela nunca contestou, porque amava viajar.
Ela estava no carro com seus pais, seu irmão e sua pequena cadelinha. A cidade de seus tios não era muito distante de onde ela morava com sua família. Mas especialmente naquele dia, chovia forte e as estradas estavam escorregadias e mal iluminadas. Nenhum dos quatro se deixou abater, muito pelo contrário. Viajavam alegremente, cantarolando cantigas engraçadas e conversando.
Nenhum deles esperava aquela batida. Nenhum deles esperava que, de supetão, um caminhão de carga invadisse a pista contrária e atingisse em cheio o carro, que capotou violentamente penhasco abaixo.
– Paramédicos, retirem a maca e chequem o pulso!
– Vai ser difícil subir esse morro!
– Façam o possível! Única sobrevivente?
– Ainda não sabemos, mas é a única acordada.
– Retirem todos os corpos! Apressem-se!
O cérebro de Annabel era uma confusão. Ela podia ouvir vozes, sentia os toques em seu corpo, mas não conseguia se mexer, nem mesmo abrir os olhos. Sentiu-se voar longe, desfrutando de uma leveza que nunca havia provado antes.
Então, pela primeira vez na noite, palavras confusas ecoaram em seus pensamentos.
“Única sobrevivente?”
“Ainda não sabemos, mas é a única acordada.”
Sobrevivente de quê? O que porra havia acontecido? Por que ela estava se sentindo assim, como se estivesse fora de seu corpo? Por que não conseguia reagir?
Motivada por essas perguntas, ela usou toda a sua concentração para abrir os olhos. Quando conseguiu, deparou-se com o céu chuvoso, gotas da chuva ácida invadiram seus olhos. Pensou que teria o reflexo de piscar, mas não conseguiu. Seus olhos não fechavam, nada mais em seu corpo respondia suas vontades. Sentiu um movimento abaixo de si, mas não sabia se estava flutuando, subindo, descendo ou apenas sonhando.
Desesperada, tentou falar alguma coisa, enquanto sentia seus olhos arderem forte por conta das gotas da chuva forte. Concentrou-se, até sentir uma dor forte em seu peito, liberando um grunhido rouco. Um dos paramédicos que carregava sua maca móvel se virou, assustado. Quando percebeu que as gotas de chuva atingiam em cheio os orbes da garota desconhecida, ele soltou uma de suas mãos da maca que carregava ladeira acima com a ajuda de mais dois homens, e levou dois dedos até as pálpebras de Annabel, fechando-as delicadamente. Ela gostaria de abrir a boca e agradecer, mas não podia.
Aliviada, Annabel suspirou profundamente, se arrependendo logo quando sentiu a lufada de oxigênio queimar seus pulmões. Quando sentiu que aquela movimentação estranha abaixo de si havia acabado, começou a ouvir vozes desconhecidas novamente, sirenes e buzinas, mas estava cansada demais para prestar atenção a algo. Respirando cautelosamente, ela se deixou cair na inconsciência.
Quando ela acordou, ela estava cercada por todas aquelas paredes brancas. Como se isso não fosse o suficiente, ela não sabia quem ela era. E oh, quem era aquela mulher de aparentemente 30 anos que a visitava todo dia e dizia que tudo ficaria bem?
Eram muitas perguntas, nenhum tempo e nenhuma memória. Quando a bela ruiva lhe contou que seu nome era Annabel, uma tempestade de memórias lavou sua mente. Tudo voltou.
O acidente. Seus pais. Sua vida anterior. Mas Annabel continuou sentindo que algo estava perdido em seu cérebro, algo faltava, como uma peça perdida de um quebra cabeça gigante. E ela estava certa.
Ela não se lembrava de seu irmão.
– Ei, acorda! – a voz de Robert penetrou o escuro que Annabel estava navegando. – Você tá bem? – ele perguntou, gentilmente.
– Não... Ahn, digo, sim. – Annabel respondeu; ela não queria preocupar seu melhor amigo.
– Sério? Você simplesmente apagou em cima de mim. – e aí foi que ela percebeu onde estava: na cama de Bert.
– O que eu estou fazendo aqui? – ela gritou, assustada. “Que porra aconteceu?”, pensou.
– Você desmaiou enquanto conversava comigo.
– O que foi que eu te disse?
– Peraí, são muitas perguntas! Eu sei exatamente o motivo do seu desmaio. – disse Bert, confiante. – Você estava lembrando aquela noite. O acidente. Tudo. – ele sorriu, cheio de compaixão.
– É, você está certo.
– Eu sempre estou. – o sorriso de Bert se engrandeceu.
– Mas não foi por isso que eu vim aqui! Que horas são? – Annabel perguntou nervosamente, suas mãos suavam.
– 9 da noite. Então, me diga o motivo de estar aqui.
– Nós não temos tempo! – ela pulou da cama, cheia de animação. – Nós temos que matar alguém.
– O QUÊ? – Bert gritou, como se fosse a criança mais inocente do mundo ouvindo um palavrão pela primeira vez.
– Eu não acredito na sua falsa inocência! – a garota riu. – E eu posso pagar muito dinheiro, você sabe. Ligue pros seus contatos e ache um assassino de aluguel! – Annabel jogou o celular em sua direção. Ele continuou paralisado, não acreditando no que sua amiga estava lhe pedindo. – Eu te disse que não tínhamos tempo! – ok, agora Annabel estava realmente brava.
– Tá, eu to indo! To no cami-nhooo! – ele cantarolou, andando até o corredor com o celular na mão.
Annabel estava nervosa, e Bert não ajudava demorando pra voltar. Ela não contou, mas quase cinco minutos depois, ela pode escutar a voz dele ecoando pela casinha. A ligação estava sendo feita, os detalhes sendo combinados. Annabel não podia conter a excitação só em pensar que ela teria vingança daquele velho nojento e aproveitador que a fez, sem querer, atear fogo na boate.
– Encontrei um! – Bert entrou no quarto, orgulhoso de seu feitio.
– Quem? Diga o nome, contato, endereço e tudo mais! – Annabel estava felicíssima, segurando um pedaço de papel e uma caneta que encontrara na escrivaninha de Robert.
– O nome dele é Ethan. Você não precisa do telefone nem do endereço dele, vai saber tudo amanhã. – Bert sorria mais e mais.
– Hã?
– Nós vamos encontrá-lo amanhã, Annie. Vamos combinar tudo. Eu não faço a menor ideia de quem você está querendo matar, mas vou te ajudar, porque é isso que amigos fazem e... – Annabel interrompeu.
– E blá blá blá. Você me ajuda porque é apaixonado por mim, confessa. – brincou ela, pulando em cima do garoto para um abraço.
– Claro que sou. É por isso que sou gay, porque me apaixonei por esse cara gostoso chamado Annabel. – ela riu alto, soltando Bert e indo até a cozinha da casa.
– Se você quer saber, eu quero me vingar daquele cara que me agarrou na boate e que me fez colocar fogo naquele lugar. – Robert paralisou.
– Você... O que? Você que colocou fogo na boate? Como assim, Annabel Marie Jackson? – ele perguntou, incrédulo, enquanto Annabel nem se abalou pela surpresa do amigo, juntando os ingredientes para fazer umas pipocas.
– Ele me agarrou no corredor do banheiro, tentou me molestar e eu tirei meu isqueiro do bolso pra me defender, só que eu derrubei no chão e o fogo acabou correndo por um fio de luz no canto da parede, o que fez o lugar todo desabar em chamas. Foi isso. – o barulho de pipocas estourando ecoava de fundo, enquanto Annabel desenterrava toda aquela história de novo.
– Caramba, Annabel! Por que não me contou isso antes?
– Ontem eu te disse que ia vir aqui hoje porque ainda tinha coisas pra falar, lembra? – ela virou-se para o fogão, desligando a panela de pipocas e despejando-as num saquinho próprio para aquilo, salgando-as em seguida. – Mas enfim, é isso. Eu vou me vingar desse cara, e não importa se ele tem família ou se você tem dó dele. – Annabel sabia ser grossa quando queria, mas era involuntário. A sorte é que Bert estava acostumado.
– Não tenho dó dele, nem imagine isso. Ele tentou te molestar, merece uma morte fodidamente fria. – Robert sorriu.
– É exatamente o que eu pensei. Que tal vermos um filme agora? – Annabel perguntou, indo para a sala com o saquinho de pipocas.
– Eu gostaria muito, princesa, mas não posso. Tenho encomendas pra fazer, lembra? – Bert tirou um saquinho cheio de maconha do bolso, com uma cara de frustrado. Annabel riu e assentiu, voltando em sua direção e dando-lhe um beijo demorado na bochecha.
– Tudo bem. Eu vou pra casa, mas vou levar isso aqui. – ela ergueu o saquinho de pipocas.
– Fazer o que, né... – Bert riu, abraçando Annabel e indo até a porta. – Se cuida. Vem aqui amanhã, as três.
– Tudo bem. As duas e cinquenta e nove eu apareço aqui. – ela brincou com sua própria mania de pontualidade, atirando um beijo no ar para o amigo, que acenou em resposta.
Annabel seguiu pela rua comendo as pipocas, ainda com uma certa dificuldade de andar. Quando chegou em casa, jogou-se na cama sem nem tomar sua típica ducha antes.
Amanhã seria um longo dia.
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