Agridoce
5 Quando Annabel Aprende A Matar

I keep asking myself, wondering how
I keep closing my eyes but I can't block you out
Wanna fly to a place where it's just you and me
Nobody else, so we can be free
(t.A.T.u – All The Things She Said)
Annabel acordou ansiosa. Tomou um banho, finalmente lavando seus enormes cabelos pretos e se sentindo muito melhor por isso.
Ela não gostava de se olhar no espelho. Achava-se toda imperfeita, apesar de arrancar suspiros e olhares de garotos (e garotas) desde muito tempo atrás. Mas quem tinha que gostar de seu corpo era ela, não os outros. E Annabel não gostava de si mesma, por isso evitava espelhos.
Ela também gostaria de evitar a vida como evitava seu próprio reflexo. Não é que Annabel fosse suicida ou depressiva, é só que, se um caminhão estivesse para lhe atropelar, ela não desviaria. Não acreditava mais no amor nem no afeto, mas sim no interesse e na maldade. Tudo de ruim que vivenciou serviu de lição para sua vida atual, serviu de motivo para sua frieza.
Após parar de procrastinar e decidir apenas prender seus cabelos, Annabel vestiu algumas roupas aleatórias e finalmente desceu as escadas de sua casa, dando de cara com sua tia na cozinha, lendo uma revista de fofocas qualquer, despreocupadamente.
– Bom dia, Belle! Onde vai? – disse Trish, usando seu melhor sorriso e o apelido carinhoso que costumava tratar Annabel, enquanto mastigava um pão com manteiga. Não tinha sentido nenhum ela dizer “bom dia” e comer coisas de café da manhã as três da tarde, mas a garota relevou.
– Boa tarde, tia. Vou à casa de Bert, espero que não se importe. Quer que eu compre algo no mercado? – ela sempre era prestativa e simpática com a tia, pois a mesma não merecia saber a sobrinha terrível e errante que possuía, assim como não merecia o fardo de tê-la adotado por ser a única parenta viva.
– Não precisa, querida. – Trish recusou a oferta com outro largo sorriso, sempre tão simpática, não mostrando nenhum tipo de descontentamento por Annabel estar ali, morando com ela e fazendo-a ter despesas. Bebeu mais um gole de seu café preto antes de voltar a falar. – Divirta-se!
Ah, é claro que ela iria se divertir.
Annabel levava um bolo de dinheiro escondido dentro de seu casaco, uma pequena parte de toda a herança que ela recebera quando sua família morreu. Um pouco atrasada, ela caminhava rápido, adentrando o bairro calmo onde Bert morava. Aquele lugar era cheio de paz, muitas casas eram elegantemente ajeitadas, com suas belas fachadas e flores no jardim. “Uma morada estranha para um traficantezinho de drogas de meia tigela”, pensava Annabel, caçoando do trabalho ilegal do próprio amigo. Deu de cara com a casa de Robert, simples e convidativa, aconchegante.
– Você está dez minutos atrasada, senhora pontual. – disse Bert, sorrindo e chegando para um abraço. Annabel nunca poderia definir como ela amava todo o bom humor e sarcasmo do melhor amigo. – Okay, você pode me soltar agora. – ela percebeu que estava estendendo muito aquele contato e se afastou. – Sorria e respire fundo. Nós vamos matar alguém hoje.
– Yep. Melhor dizendo, Ethan vai. – Annabel sorriu, espremendo os olhos pequenos de meia-lua e cobrindo sua visão por duas fileiras de cílios.
– Nossa, você está mesmo interessada nesse cara, até gravou o nome dele. Eu nem lembrava mais. – depois de cinco anos de convivência, Robert sabia muito bem como provocá-la.
– A sua memória é ruim, Bert. Sempre foi. – a garota riu, desviando o assunto.
– Olha só quem está falando de memórias... – argumentou Bert, fazendo-a rir novamente, mais alto. – Vamos lá? – Annabel assentiu com um aceno nervoso de cabeça, deixando o amigo tomar a frente do caminho.
xXx
– Annie, quer parar de estralar os dedos desse jeito? – repreendeu Robert, irritado com a atitude repetitiva da garota. – Daqui a pouco você desloca um!
– Eu to nervosa, porra! Argh... – replicou ela, agitando as mãos para tentar se livrar da mania, mas logo se distraiu novamente e voltou a estralá-los.
De supetão, a porta na frente deles se abriu.
Annabel esperava tudo. Um terrorista árabe de turbante, um cara que fosse mais velho, qualquer um que ao menos parecesse com um assassino. Mas aquele garoto de olhos castanhos estava fora dos estereótipos.
Ela não iria dizer que estava atraída, nem apaixonada, porque isso soaria totalmente estúpido. Mas Annabel encontrou algo familiar em Ethan. Algo que a fez suar frio e tremer apenas ao sentir o olhar penetrante daquele garoto de, no máximo, vinte e um anos. Ela se identificou com algo que nem sabia o que era; talvez a frieza que ele possuía ou o sentimento de culpa que ela sabia que o garoto carregava.
É estranho quando você gosta de tudo em uma pessoa, assim, de cara. Para Annabel, por exemplo, isso nunca tinha acontecido e ela achava que era besteira. Todas as amigas que já tivera na vida lhe diziam sobre essa tal “pessoa certa”, que iria mudá-la e fazê-la tremer dos pés a cabeça, sentir borboletas flutuarem pelo estômago e fazer de tudo por aquele sentimento ridículo que era o amor. Mas, no momento, aquilo tudo parecia se aplicar, apesar de piegas. Ela media cada centímetro do corpo perfeito do rapaz a sua frente, que também fazia o mesmo com ela. Concentrados apenas no fascínio e desejo incomum que compartilhavam, eles se encaravam, como se pudessem trocar mensagens telepáticas que expressariam o quanto gostariam de se tocar naquele momento. Os dois exalavam química e compatibilidade de longe, e naquele momento foi como se o tal cupido finalmente tivesse acertado sua maldita flecha no lugar certo.
A situação estava ficando desconfortável. Ethan encarava Annabel como um animal obsessivo por sua presa e ela permanecia chocada, paralisada, em um misto de encanto e incredulidade. Bert usou seu melhor sorriso sarcástico, percebendo o jogo de sedução que ocorria entre o frio jovem criminoso e sua frágil melhor amiga.
As três pessoas ali tinham vontades diferentes. Duas delas nem sabiam que o mundo ao redor de si existia, de tanto que estavam imersos nos profundos olhos um do outro. Os dois de cor igual. As feições de um remetiam ao outro. Como se fossem... irmãos.
– Uhm, eu acho que nós podíamos começar logo a reunião de negócios... – disse Bert, tirando Annabel do transe.
– Yep... Digo, entrem e se acomodem. Quem quer um café? – Ethan disse, ainda meio abobalhado, tentando ignorar o fogo que acendia em seu interior com todo olhar que ele recebia daquela garota estranha e indo preparar sua máquina de cafés.
Annabel continuou quieta, sentada ao lado de Bert no sofá, esperando seu café. Se alguém a perguntasse algo ela não conseguiria responder, estava absorta em pensamentos. Aquilo não era amor a primeira vista. Ela apenas estava certa de que conhecia Ethan de algum lugar. Mas não daquelas festas que ela costumava ir. De antes.
– Pronto! Eu fiz dois chococcinos, porque eu não sei as preferências de vocês, mas espero que gostem. – ele estava certo. Annabel amava chococcinos.
– O-obrigada. – ela disse, nervosa.
– Por que está tão apreensiva? Não é nem você que vai matar aquele cara... – Bert riu, cheio de sarcasmo.
– M-mas é meu desejo, sou eu q-que vou pagar pra alguém matá-lo. É m-minha culpa. – Annabel incrementou, tentando fazer seu queixo parar de tremer e sorrindo nervosamente enquanto tomava um gole de seu café.
– Ei, eu não sou “alguém”. Eu sou o melhor assassino dessa cidade! – Ethan reclamou, tentando forçar uma expressão raivosa, mas sem conseguir conter seu sorriso de divertimento.
– Ok, ok, desculpe! Eu vou pagar para o melhor assassino dessa cidade para matar um estuprador nojento. – ela reformulou a frase. – Posso acender um cigarro? – Ethan concordou, tirando um do bolso e acendendo ao mesmo tempo. Os dois trocaram um sorriso cúmplice. Tragando calmamente o fino cilindro branco que apoiava entre seus dedos, Annabel já se sentia mais calma. Tinha que se lembrar de agradecer a deus por ter inventado a nicotina.
– Agora tá certo. E... eu ouvi direito? Um estuprador? – Ethan tinha deixado seu café de lado, agora comia um cookie enquanto fumava. “Ele não parece nada com um criminoso...”, pensou Annabel.
– É. Ele me agarrou no banheiro de uma festa, eu fui me defender com um isqueiro, mas o derrubei e tudo começou a pegar fogo. – ela explicou.
– Espera aí! Todo o fogo naquela boate sexta-feira... Foi você que causou?
– Uhm... sim. – ela soltou a fumaça lentamente para cima, como era seu costume. O garoto a sua frente retesou, observando aquela cena inocente, mas que lhe parecia tão sensual. – Mas a culpa foi daquele cara! – Annabel cobriu seu rosto com as mãos, envergonhada.
– E agora você quer que eu o mate, certo? – o jovem criminoso sorriu, mostrando uma fileira de dentes brancos e alinhados e causando um arrepio na garota a sua frente. Bert estava mais quieto do que seu normal, olhando para seus pés enquanto ainda saboreava seu café.
– Wow, você é rápido pra captar as coisas. – Annabel sorriu de volta, compartilhando da mesma animação.
– Você só precisa me dizer o nome dele, endereço ou contato... Ou me dizer como achar isto.
– O nome dele está em todos os jornais da cidade, na lista de sobreviventes do incêndio, junto com a foto. – ela tirou um recorte de jornal com a foto do velho que a atacou e o nome embaixo, entregando para Ethan. – Com essa informação, você pode procurar o nome dele na lista telefônica, ou usar a internet. – a garota estava orgulhosa de sua decisão, ficando mais e mais empolgada.
– Me dê um prazo pra fazer isto, se quiser. Estou pronto. – Ethan estava só sorrisos, seu ego aumentando por causa daqueles dois estranhos sentados em seu sofá. – Mas antes, nós precisamos falar do pagamento... Mais dinheiro significa trabalho mais rápido.
– Eu tenho isto pra você... Contanto que faça o serviço até amanhã de noite. Como vai fazer não interessa pra mim, mas eu quero ver o resultado. Eu quero ver o corpo dele. – o assassino estava surpreso com a atitude repentina de Annabel. Ela era mais forte que ele podia imaginar. E oh, ela estava segurando um bolo grosso de dinheiro. Isso significava que o trabalho teria mesmo que ser feito rápido.
– Combinado.
xXx
Annabel atravessava todas aquelas luzes da grande cidade, correndo no caminho para aquele antigo edifício alto. Agora ele era apenas uma velha ruína, já que foi condenado por falta de segurança na estrutura quando ainda estava sendo construído, mas ela tinha que assumir que era um lugar perfeito para matar alguém.
Como Ethan instruiu na SMS que mandou mais cedo, ela subiu por aquelas escadas velhas de puro cimento a caminho do último andar, a cobertura. Enquanto subia, seu longo vestido vermelho esvoaçava. Ela resolveu vesti-lo pela primeira vez para aquela noite, digamos, especial. Quando chegou, a cena era terrível: Ethan estava torturando o homem com sua arma, vestido todo de preto, com luvas e uma touca que cobria seu rosto, deixando apenas seus brilhantes olhos amendoados a mostra. Annabel não segurou seus pensamentos: aquilo tudo era incrível. Ele era incrível.
– Parece que nossa querida amiga veio para a festinha... – ele disse, chutando o rosto do homem, que permanecia amarrado e amordaçado na beirada da cobertura. – Venha cá, Annabel! Venha e assista esse filho da puta sofrer...
Quando a garota chegou perto, o homem começou a tremer perceptivelmente. Ele tentou gritar, mas aquilo não era muito fácil com o pano sujo esmagando sua boca e as cordas que apertavam mais a cada mínimo movimento de suas mãos e pés. Se ele se movesse um centímetro para trás, cairia.
– E agora... Como você quer morrer? Escolhe um tiro na cabeça ou um chute daqui de cima? – Ethan segurou o homem pela garganta, levantando-o do chão sem mostrar um indício de fraqueza por sustentar o peso do velho. Este, por sua vez, não teve reação: ele desmaiou, em pânico. – Que idiota... Fracote. É uma pena que eu terei que matá-lo do jeito mais chato. Você quer fazer isto? – ele soltou o homem desacordado e olhou para Annabel, colocando sua arma nas mãos dela e se posicionando atrás de suas costas, mas sem soltar de suas duas mãos, como um abraço estranho. – Vamos... Só puxe o gatilho, faça isto.
– Eu vou. – neste ponto da situação, o garoto estava cego, envolvido pelo perfume natural da pele de Annabel. Seu pescoço, tão branquinho e tão perto... Implorando para ser provado, marcado. Ele não conseguiu segurar e se aproximou, aspirando aquele cheiro e assustando a garota, que quase deixou a arma cair. Ethan beijou a região gentilmente, deslizando seus lábios macios por toda a extensão de sua nuca, até chegar em sua clavícula, onde se esforçou para deixar um chupão avermelhado. Sorrindo contra aquela pele alva, ele teve certeza que ouviu um gemido fraco, e isso o motivou a continuar com as carícias. Fez todo o caminho de volta por aquela pele para poder sussurrar no ouvido da frágil garota, que agora se encontrava arrepiada.
– Vamos... Está na hora. Aperte. – ele soltou da cintura de Annabel para envolver suas duas mãos novamente, ajudando-a a apontar a arma exatamente no coração do homem.
Um. Dois. Três tiros.
– Parabéns. Você é uma garota corajosa. – Annabel soltou a arma no chão e virou-se para encarar o garoto, provocando um roçar intencional de suas bocas. Ethan desfez o enlace para segurar seu queixo com apenas uma mão e arrastar os próprios lábios nos dela novamente, sem selá-los, apenas sentindo o choque elétrico se alastrar por seu corpo enquanto estavam próximos daquele jeito, os ofegos misturando-se. Era viciante.
– Obrigada, eu acho. – ela corou, virando-se novamente para o homem morto. Ethan a soltou, fazendo todo aquele calor da proximidade desaparecer e uma brisa amena congelar-lhe os ossos. Ele chegou mais perto do corpo sem vida, chutando-o para a movimentada avenida que se encontrava sete andares abaixo.
– Vamos sair daqui, minha assassina.
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