Agridoce

3 Quando Annabel Aprende A Mentir


We are alive, here in death valley
But don't take love off the table yet
Cause tonight it's just fire alarms and losing you
(Fall Out Boy – Death Valley)

Abriu os olhos. Oh, um teto. Nada mal.

Rolou-os para o lado esquerdo. Uma parede. Uma poltrona. Um Robert.

Um Robert?

– Bert... – falou, abrindo a boca pela primeira vez em sabe-se-lá quanto tempo, sendo interrompida com um acesso de tosse vindo de seus pulmões feridos.

– Princesa! Eu achei que não fosse mais acordar! – Bert saltou da poltrona onde dormia, se aproximando da maca de Annabel em pulinhos animados demais para o estado dos dois.

– O... o que porra aconteceu com as suas mãos? E a porra dos meus pés, por que porra estão enfaixados? Caralho! – esbravejou, após recuperar-se do ataque de tosse.

– Annie, vamos por partes. Teve um incêndio na boate, eu e Anthony vimos a confusão lá da esquina. Corri e entrei lá, encontrando você prestes a desmaiar a poucos metros da saída, não pensei em nada e peguei você nos braços, quando você estava quase caindo no chão. Por conta disso, queimei algumas partes de meus dedos, mas não foi sério. Quando te encontrei você estava sem sapatos, o que foi bem estranho, mas... Enfim, te segurei no colo na frente da boate, observando pessoas tentarem sobreviver e pessoas morrendo lá, foi desesperador... Até o momento que um esquadrão de ambulâncias chegou, trazendo todos os sobreviventes para o hospital. Disseram-me que você teve uma intoxicação respiratória por conta da fumaça, e eu disse que passaria a noite aqui. Dormi na recepção e agora a pouco eles te liberaram pro quarto, então eu vim pra cá. – Robert explicou tudo em um tom triste, encarando as ataduras que cobriam partes dos pés da garota.

E Annabel lembrou-se de tudo. O velho, o isqueiro, o incêndio, o quanto ela correu, o quanto todos correram, labaredas, fumaça... Tudo por culpa dela, por ela ser uma covarde que não soube se defender de um assédio e matara milhares de inocentes. Ela queria contar tudo isso a Bert, mas não seria o momento adequado, não num quarto de hospital.

Ela ainda tinha contas pra acertar, e esperava realmente que isso não demorasse a acontecer.

– Quando eu posso ir pra casa? E Trish... Ela sabe que estou aqui? – selecionou mentalmente as perguntas mais importantes, pois havia milhares rondando sua cabeça naquele momento.

– Não sei, talvez daqui a pouco, talvez daqui uns dias... Isso só o médico pode dizer. Sobre sua tia, eu liguei pra ela e disse que você iria dormir na minha casa, ela concordou e pediu pra falar com você. Quase pensei que tava tudo fodido, mas tive a brilhante ideia de falar que você já estava dormindo e que não queria acordá-la, e ela acreditou. Quando você voltar pra casa vai ter que se virar pra explicar isso aí... – Bert riu. Ele era o único amigo de Annabel que a tia conhecia, pois ela havia o apresentado há alguns bons anos atrás. É claro que Trish não sabia que ele se envolvia com tráfico de drogas, até porque, na época que os dois se conheceram, Robert ainda não fazia isso.

– Eu não sei nem como te agradecer. Por ter me tirado de lá, ligado pra ela, tudo, tudo. É mais uma coisa que eu te devo, e não aguento mais te dever coisas... Ainda mais se essa coisa se trata da minha vida. Nunca é suficiente, mas obrigada de novo. – ela abriu os braços, em um convite mudo, e o maior não demorou a envolver o corpo magro de Annabel em um abraço caloroso. – Eu te amo, Zangado. – se referiu a Bert usando seu apelido de infância, o qual ele ganhara por ser sempre o garoto mais baixo e mais mal humorado de todos os seus amigos. Hoje em dia já não era mais tratado por esse nome, mas Annabel ainda se lembrava de sua existência.

– Também te amo, princesinha.

xXx

Por volta das quatro da tarde daquele mesmo dia, um homem baixo e calvo adentrou o quarto de Annabel, vestido com um jaleco e carregando uma prancheta. Pairou ao lado da maca dela, que dormia, ainda em estado de exaustão pelo acidente da madrugada anterior. Robert estava na poltrona, também ressonando profundamente, até o médico pigarrear alto, acordando-o.

– Ah, olá, senhor... – Robert se dirigiu ao homem, obviamente, um médico, enquanto passava a mão pelos cabelos compridos, em uma tentativa frustrada de ajeitá-los.

– Smith, Dr. Smith. – esclareceu o homem, sem descer a prancheta do nível do olhar, anotando alguma coisa enquanto observava Annabel.

– Ah. O que te traz aqui, Dr. Smith? – indagou-o Bert, ainda um pouco sonolento.

O homem abaixou a prancheta, mas não olhou nos olhos de Robert. Inclinou a cabeça em direção a Annabel, que ainda dormia, observando o tubo de soro que estava preso ao braço fino da garota; parecia fascinado com a visão. Mas quem não ficaria atônito diante de uma criatura tão irreal como ela? Parecia esculpida a mão, como uma ball jointed doll. Pele alva como porcelana, cabelos escuros e volumosos, corpo magro e frágil, rosto delicado e fino, tudo contrastava perfeitamente. O médico balançou a cabeça, piscando rapidamente em prol de afastar os tais pensamentos, e se inclinou sobre a maca para apertar o botão vermelho que chamava as enfermeiras.

– Boas notícias. – respondeu, finalmente.

– E quais são elas? – Robert pulou da poltrona, batendo palminhas de animação. Uma senhora baixinha e roliça adentrou o quarto e se dirigiu até a maca de Annabel, puxando seu braço no alto e desconectando a cânula do soro. Bert, particularmente, achou a senhora um tanto quanto indelicada para uma enfermeira, mas não falou nada, pois ainda se encontrava extasiado demais com uma possível melhora de Annabel.

– Ela já pode ser liberada. Só precisamos que os pais ou um responsável legal compareçam na recepção para assinar a alta. – sussurrou o médico, percebendo que Annabel acordara após a mini confusão envolvendo suas veias e cânulas de soro.

Robert congelara.

Responsável legal? Como iria explicar isso tudo pra Trish? Não podia mentir por mais tempo.

– Bert? O que aconteceu? – descongelou ao ouvir a voz calma e sussurrada de Annabel. Se pudesse medir o quanto estava fodido na Escala Richter, provavelmente o resultado seria 9,9.

– Nada, Annie. Tá tudo sob controle. – Robert mentiu descaradamente, sacudindo a cabeça em uma tentativa de acordar seu cérebro.

– Eu sei que você tá assustado porque Trish vai ter que vir aqui, eu ouvi. Pois saiba que eu já tenho um plano! – exclamou Annabel, sentando-se na maca com um pulo.

– Mal acordou e já tem um plano? Caralho, essa é a Annabel que eu conheço! – Bert quase gritou. O médico revirou os olhos, provavelmente pensando que ninguém estava vendo, enquanto assinava várias folhas que estavam presas em sua prancheta.

– Mas é claro que tenho! – exclamou novamente a garota, preenchida de uma animação incomum para quem ainda estava numa maca. Dois segundos depois, ergueu os braços e segurou a barra da camisola do hospital, retirando-a e deixando sobre a cama, revelando suas roupas chamuscadas da noite anterior. Pulou da cama, só então se lembrando de seus pés ainda um pouco debilitados, gemendo baixinho de dor.

– Ei, também não é assim, princesa! Vai com calma. – Bert se aproximou rapidamente, empurrando Annabel delicadamente de volta pra maca. – Me conta o plano primeiro.

– É simples. Você liga pra Trish e fala que eu fui descer pra tomar café da manhã e escorreguei nas escadas da sua casa, reclamei de dor no pé e você chamou a ambulância pensando que era algo sério. Ela vai acreditar fácil, de praxe ainda virá buscar a gente aqui. – ponderou, sorrindo orgulhosa de sua mentira bem pensada. Afinal, a melhor coisa que ela fazia era mentir. Considerava isso seu grande – e, segundo ela, único – talento.

– Genial, Annie! Genial! – Robert deu um berrinho e lançou-se em cima da garota, esmagando o corpo magro e frágil contra o dele em um abraço doído.

– Não precisa me esmagar, Robert, a gente não vai conseguir inventar desculpa pra uma coluna quebrada. – brincou Annabel, fazendo o garoto gargalhar e soltá-la delicadamente em seguida.

– Foi mal. Enfim, vou ligar logo pra sua tia, já que você está descalça e não iremos a lugar nenhum assim. – Bert sacou o celular do bolso traseiro da calça, discando o número que já sabia de cor.

Ligação feita, mentira contada, Trish a caminho, Annabel sendo carregada por Robert até as cadeiras da recepção. Tudo estava correndo bem, até o momento.

– Oh, querida, como você está? – indagou Trish, adentrando apressadamente a recepção do hospital na companhia fiel de seus sapatos brancos de salto alto, dirigindo-se a fila de bancos onde a sobrinha se encontrava.

– Estou bem, tia. Bert que é um exagerado. – respondeu Annabel, envolvendo Robert em um abraço torto com um de seus bracinhos branquelos.

– Nada disso, ele fez certo, você podia ter se machucado feio. – Trish bagunçou os cabelos de Bert, sorrindo-lhe amigavelmente, como era de costume. Ela era uma boa pessoa, em seus trinta e poucos anos de vida. Não merecia nenhum tipo de desgosto ou aborrecimento, nada que pudesse machucar seu coração de cristal ou ofuscar seu sorriso de diamante, ambos tão semelhantes aos de Annabel. Era por isso que a garota evitava comentar sobre seus delitos e fazia de tudo para escondê-los da tia. Afinal, ela não tinha culpa de ter uma sobrinha insensível e destruída por dentro.

– Vamos pra casa? Eu quero tomar um banho. – sugeriu Annabel, quase sufocando a cada vez que sentia o cheiro de queimado de suas roupas. Esperava mesmo que a tia não o notasse.

– Claro, mas antes vamos deixar Robert em casa, tudo bem? – a garota assentiu. Bert levantou da cadeira, erguendo Annabel no colo e se dirigindo ao carro. Posicionou-a delicadamente no banco da frente e se acomodou no de trás, enquanto esperava Trish assinar a ficha de alta. Quinze minutos depois a mesma apareceu, sentando-se no banco do motorista e dando a partida até a casa de Robert, conforme ele explicava o caminho pelo que achava ser a quinquagésima vez.

– Obrigada por tudo, tudo mesmo. Quando eu me livrar disso aqui no pé, talvez amanhã, venho até aqui. Ainda temos algumas coisas pra resolver. – sussurrou Annabel, enquanto abraçava o melhor amigo na porta do carro. Fechou a mesma com um baque surdo ao que Trish acelerou, deixando pra trás um garoto de cenho franzido e com muitas perguntas rondando-lhe a cabeça.