Agridoce

2 Quando Annabel Aprende A Destruir


Notas iniciais
Oi de novo

'Cause I've spent the night dancing

I'm drunk, I suppose

If it looks like I'm laughing, I'm really just asking to leave

(My Chemical Romance – The Sharpest Lives)

Annabel não pensava no que fazia.

E foi o que aconteceu naquela tediosa noite de sexta-feira, ela não pensou. Em um momento estava lá, no sofá velho da sala de Trish – sua querida tia e mentora, talvez a única pessoa que se importava com ela de verdade, e da qual Annabel fazia questão de esconder seus desvios de conduta – e de repente ela não estava mais, estava rumando ao centro da cidade atrás de um lugar para se divertir.

Isso poderia ser coisa de qualquer adolescente, querer sair numa sexta-feira, mas Annabel não era qualquer adolescente. Tudo que ela fazia acabava provocando estragos, como se o universo realmente a odiasse e movesse todas as forças possíveis para a sua vida dar errado. Para Annabel, o universo e ela eram como rato e gato. O rato era ela, o gato era o universo. E assim ela continuava, sendo perseguida pelo gato gordo e enorme, enquanto se limitava a aceitar sua condição de ratinho medíocre e sujo, proveniente de um esgoto qualquer. Tudo o que ela podia fazer era correr, afinal. Deveras injusto.

Ao adentrar o beco na esquina da grande casa noturna que costumava frequentar, checou o bolso da calça a procura de sua identidade falsa. Annabel não achava justo que apenas maiores de idade pudessem se divertir de verdade, mas o que poderia fazer? Só podia dar seu próprio jeito.

– Ora ora, se não é a minha princesa! – reconheceu automaticamente a voz de Robert, que se escondia na penumbra do beco sem saída. Ele era seu melhor amigo, ela o conhecia desde quando havia se metido naquela vida. Era a única pessoa na qual confiava mais que Trish, ele sabia tudo sobre ela. – A que devo a honra de sua presença?

– Oi, Bert. – notou a presença de outro garoto ali e estremeceu. – E olá... – virou a cabeça de lado, franzindo o cenho, enquanto encarava a silhueta sombreada e quase invisível, percebendo que o garoto estava fumando. Robert nunca andava acompanhado por aquelas bandas; era somente ele, o rei das coisas ilícitas, e o beco, seu pequeno reino particular.

– Anthony. – Robert respondeu, enquanto Annabel continuava encarando o garoto encostado na parede. – Vamos, venha até aqui, querido. – ele deu dois passos, alcançando a outra parede do beco estreito e emaranhando seus dedos tatuados no cabelo do menor, então se inclinando para sugar seu pescoço com avidez.

– Ei, eu ainda estou aqui, se não perceberam. – reclamou Annabel, observando o tal Anthony largar o cigarro longe para enlaçar a cintura de Bert e puxá-lo para si, então finalmente colidindo seus lábios com o do maior. Ela revirou os olhos; sabia há muito tempo que Robert era gay, fato que descobrira da pior maneira – se apaixonando por ele. Mas o que poderia fazer? Ele fora seu primeiro cara e ela também fora a primeira garota dele, a garota que o fez repensar sua heterossexualidade na época. Quando ele desabafou seus verdadeiros sentimentos sobre o ocorrido, Annabel se sentiu a criatura mais errada e inútil do mundo. O único cara da vida dela virara gay logo depois deles terem transado! Antigamente isso fora motivo para uma grande mágoa, mas hoje em dia só causava risadas.

– Hm, me desculpe, querida. – Bert se aproximou dela novamente, segurando seu rosto com as duas mãos e deixando um beijo molhado em sua bochecha esquerda. Annabel deu de ombros, limpando a têmpora com a manga de sua jaqueta surrada e decidindo apressar tudo aquilo.

– Ok, eu vou direto ao ponto. Tô afim de mais umas daquelas que você me deu da última vez, sabe... – sussurrou, na esperança de que Anthony não ouvisse, o que foi em vão. Mas não importava, ele devia saber muito bem o que Robert fazia da vida, ou então não estaria se envolvendo com ele.

– Estas aqui? – o garoto na frente dela tirou um pequeno saquinho do bolso e levantou-o no ar; este continha quatro das pílulas brancas de LSD, muito bem conhecidas por Annabel. Ela, por sua vez, tentou pegar o embrulho transparente, sem sucesso, pois Robert mudava bruscamente seu braço de posição e altura a cada vez que Annabel estava quase alcançando. – Vai me pagar quando? – ele distraiu-se ao perguntar, deixando uma brecha no momento para que ela alcançasse o pacote e enfiasse-o rapidamente no bolso traseiro da calça. Annabel franziu o cenho, surpresa; Robert nunca tinha pedido-a para pagar as drogas que fornecia.

– Te pago agora... em sexo. – brincou ela, substituindo a expressão confusa por um falso sorriso malicioso, enquanto imobilizava os braços de Robert na parede do beco estreito.

– Muito ousado da sua parte, mas terei que recusar. – riram juntos, enquanto Annabel largava os pulsos do amigo e se despedia com um aceno e um sorriso simpático. – Tenha uma ótima noite, princesa! – Bert sorriu-lhe de volta, lançando um beijo no ar.

Annabel seguia para longe das sombras do beco, estalando seus sapatos enquanto virava a esquina e dirigia-se a porta da casa noturna que costumava ir. Tocou seu bolso traseiro esquerdo, tirando de lá a identidade falsa, que provava sua maioridade inexistente. Ao parar na porta do grande espaço, mostrou seu documento para um segurança, aparentemente recém contratado, pois ela já conhecia todos dali. O homem enorme encarou o documento plastificado e Annabel, desviando os olhos de um pro outro umas cinco vezes, até devolvê-lo e abrir a porta para que ela pudesse passar.

Ela aspirou o ar fresco da noite profundamente antes de adentrar o espaço grande e barulhento. Ao ouvir a porta enorme sendo fechada atrás de si, respirou o ar quente da boate, contaminando seus pulmões pela primeira das muitas vezes naquela noite.

Annabel encaminhou-se até o balcão, onde sorriu e tratou de pedir “o de sempre” ao barman que já conhecia de muitos verões. Quando sua bebida chegou, ela retirou do bolso duas das pílulas que Robert a havia entregue. Agradeceu o melhor amigo mentalmente enquanto sentia os comprimidos descerem, arranhando sua garganta, banhados em seu drink preferido. Após esvaziar o copo, apressou-se para pedir mais uma dose, e outra, e até arriscar mais duas, até que perdeu a conta da quantidade de álcool que havia ingerido. Saiu de perto do balcão, tirando mais uma das pílulas brancas do bolso e engolindo-a a seco, enquanto rumava até a pista de dança e sumia em meio a todos os adolescentes e adultos que ali havia.

E dançou. Sacolejava-se de um jeito estranho e deveras engraçado para os que decidiam observá-la por um segundo. Pulava, jogava os cabelos, rodava em seu próprio eixo por direções diferentes, até perder o equilíbrio, cair, levantar, dançar mais um pouco.

Até quebrar o salto.

– Ah, merda. – Annabel pensou alto, saindo com dificuldade do meio de todas aquelas pessoas que colidiam seus corpos suados entre si. Rumou para o toalete, cambaleando por conta de seu maldito salto quebrado e também pela bebida, até que decidiu parar perto da porta do banheiro para tirar os calçados. Isso poderia ser um erro e ela iria machucar seus pés, mas não deixaria um sapato estragar sua noite que só estava começando. Agachou-se, em uma posição nada favorecedora, tentando abrir a fivela de suas sandálias de salto, até que recebeu um forte tapa em sua bunda.

Parou o que estava fazendo, respirou fundo e fechou os olhos, mordendo o lábio inferior com força. Odiava quando isso acontecia, ainda mais quando era proveniente de um desconhecido. Respirou mais uma vez, abriu os olhos e virou-se calmamente, deparando-se com um velho asqueroso e cheirando a cachaça de longe. Tudo bem, ela também estava bêbada, mas continuava limpinha. Qual seria a grande dificuldade dos adultos em manterem um cheiro agradável após beber? Essa seria uma das principais questões que Annabel faria para Deus ou sabe se lá o que ela encontrasse depois de morrer.

Distraída em seus pensamentos, não percebeu quando o velho asqueroso se aproximou e prendeu-a violentamente contra a parede, em uma tentativa descoordenada de beijá-la. Pessoas saíam dos banheiros, ela podia ver, mas ninguém ligava para a cena que ali acontecia. Quando conseguiu se livrar das mãos que esmagavam sua cintura, empurrou-o com toda a força que pode. Ele, por sua vez, bateu com as costas contra a outra parede do estreito corredor dos banheiros. Annabel ofegava forte e profundamente, em um misto de raiva e susto. Não teve nem tempo para terminar de limpar sua boca com as costas da mão, pois o cara fedido se recuperou do baque e partiu para cima dela novamente, esmagando todas as partes alcançáveis de seu corpo frágil com as mãos. Mas, dessa vez, ela se aquietou. Pois ela tinha um plano.

Em uma tentativa desesperada de se livrar daquela situação, enfiou a mão em seu bolso frontal da calça, tirando de lá o isqueiro que sempre carregava consigo junto com seus preciosos cigarros. Bastou uma deslizada rápida dos dedos e ele estava aceso, mirado na barriga do homem que a agarrava; bastou uma fraqueza rápida da mão e ele estava caído no chão, e o fogo seguia a linha de um fio de luz que estava escondido no canto do corredor e subia pela parede.

Annabel realmente não pensava no que fazia.

A essas alturas, o velho asqueroso já tinha percebido a gravidade da situação; melhor falando, já tinha soltado Annabel e saído correndo pra qualquer lugar bem longe daquele corredorzinho medíocre, quando sentiu o calor estranho se alastrando pelo lugar. E ela continuava ali, atônita, paralisada, com alguma espécie de saliva de velho cachaceiro pairando em seus lábios, pés descalços e olhos arregalados, encarando o fogo que aumentava cada vez mais. Voltou à realidade quando se ouviram barulhos relativamente altos de explosões e algumas pessoas começaram a gritar. Olhou para os lados, inexpressiva, e pode ver um grupo de mulheres correndo de dentro do banheiro. Correu na direção delas, logo se enfiando no meio de todas e saindo da ala dos toaletes, dando de cara com a pista em que estava antes; o globo de espelho pegava fogo, assim como o teto todo, e tudo estava a um passo de ruir acima da cabeça de muitas pessoas, tudo por culpa dela.

Desprendeu-se do meio das garotas do banheiro e saiu correndo em meio à fumaça e ao fogo, que agora também se alastrava pelo chão, muitas vezes quase queimando seus pés desnudos. A fumaça começava a aumentar e ela havia se perdido no meio da boate, as pessoas correndo e passando por ela, seus sentidos se esvaindo lentamente, lágrimas quentes alastrando-se por seus olhos e depois sua face, pulmões congestionados e tosse se tornando constante.

Sentiu-se desmoronar.

Devagar... Lentamente... Como se tudo aquilo fosse um filme passando por entre seus olhos... Como se ela não fosse a culpada de todo aquele estrago. Talvez ela devesse mesmo morrer ali. Talvez devesse apenas deixar-se cair no chão, misturando-se as chamas e virando pó em questão de segundos. E isso quase aconteceu.

A última coisa que Annabel pôde sentir naquela noite foram dois braços fortes e quentes, que ela conhecia muito bem, carregando-a para fora dali, com toda a preocupação e delicadeza de sempre.

E então, ele havia salvado-a mais uma vez...

Mesmo mergulhada na inconsciência, ela sabia que nunca teria como agradecer.