Agridoce

1 Prologue


Notas iniciais
Oi, tudo bem? Tá, não sei como começar as primeiras notas iniciais. Mas então, os avisos ESTÃO ALI, a faixa etária recomendada TÁ ALI, então não venham reclamar comigo de traumas posteriores; só queria deixar avisado, porque isso acontece frequentemente. Boa leitura ^~^



Uma piscada demorada, um suspiro longo e lá estava ela. Ainda continuava no mesmo lugar. Esperava conseguir ser teletransportada pra outra dimensão; de preferência uma que tivesse chicletes novos, pois o seu já estava ficando inconsistente.

Revirava aquilo na boca demoradamente, absorvendo o último gosto da goma de mascar, enquanto analisava o lugar ao seu redor, franzindo o cenho ao encarar a lâmpada amarela pendurada sobre sua cabeça, balançando com o vento que entrava pela pequena janela.

Uma tosse. Quem fora o indivíduo cruel e sem escrúpulos que tivera a audácia de chamá-la de volta para a realidade? Seu mundo particular de chicletes de morango e lâmpadas estava mais interessante.

Fora o homem sentado a sua frente que tossira, chamando atenção do outro que estava sentado ao seu lado, e também pigarreou em seguida.

Era hora de encarar os fatos.

– A senhorita ainda não respondeu minha pergunta. – pensou sobre. Quais perguntas? Baixou os olhos, esquadrinhando o homem com desdém, como se apenas seu olhar profundo pudesse transformá-lo em alguma espécie de matéria cósmica.

Chegou com o olhar até o crachá que o homem usava agarrado no bolso da camisa. Josh. Ok, Josh não era um nome tão ruim assim. Pelo menos agora ela poderia se referir a ele como “Josh, o velho chato”, e não só “o velho chato”.

– Que pergunta? – finalmente respondeu, seca, elevando o olhar rapidamente para encarar Josh sobre os óculos de armação vermelha que ele usava.

– Seu nome. Estamos aqui nesta sala há trinta minutos e eu ainda não sei seu nome. – trinta minutos? Ergueu o olhar para o relógio velho na parede. Tique taque, nove e meia.

– Annabel.

– Especifique. – sorriso sarcástico. Tique taque. Velho idiota.

– Annabel Jackson. – estendeu seu chiclete com a língua, até abrir a boca e empurrá-lo para fora, formando uma bola enorme que logo estourou contra seus lábios. Segurou uma risadinha ao observar a cara de impaciência que o homem fez quando percebeu que ela não estava realmente dando a mínima pra aquilo tudo.

Afinal, por que daria? Ela não tinha nada a ver com aquilo tudo mesmo. Bom, talvez tivesse. É, ela tinha. Mas não queria se explicar. Não precisava. Se a polícia fazia mesmo um trabalho tão bom, por que precisariam das meras palavras de uma garota de dezessete anos?

– Ok. Vamos lá, senhorita Jackson. Prefere descrever o acontecimento ou prefere minhas perguntas?

– Então eu posso decidir? – sorriu largo e sarcasticamente, não como uma cópia de Cheshire, mas como ele próprio. Apertou os olhos, enxergando apenas a fileira de seus próprios cílios melados de rímel, mas não desviou o olhar dos óculos cafonas de Josh.

– Pode, é seu direito. – ele rebateu, numa tentativa de ser tão sarcástico quanto Annabel. Mas não conseguiria. Ela era a rainha do sarcasmo e ponto.

“Talvez meu único direito nessa pocilga”, ela completou mentalmente.

– Então eu escolho não falar nada. – e se levantou, produzindo um ranger horrível no chão de cimento mal feito ao afastar a cadeira. – E me deixem em paz. – deu as costas para os dois homens, o escrivão e o detetive investigativo.

– Você pode não querer falar agora, Senhorita Jackson. Mas terá que voltar a esse mesmo lugar, eventualmente, só que arrastada. Ou prefere ir direto para o xadrez por recusar depoimento? – e ela virou-se novamente, largando a maçaneta da porta de saída e olhando para o homem com um desdém maior que o anterior.

– E por que não podem chamar outras pessoas que também estavam no meio daquela tragédia toda? Sabem muito bem que não sou a única sobrevivente. – falou, cerrando os dentes. Algo dentro dela queimava, e era aquela chama novamente. A sede de vingança voltara mais forte agora, enquanto o homem a obrigava a lembrar-se da noite anterior.

– Porque todos os outros se recusaram a prestar depoimento e, coincidentemente, você é a única menor de idade de todos os cinco sobreviventes. De acordo com a lei, vocêé sim obrigada a prestar esclarecimentos. – ela respirou fundo. “Ok, Annabel, você pode fazer isso. Apenas vá, apenas fale”, pensou ela.

Voltou lentamente para a mesa onde estava antes, arrastando a cadeira de modo calmo e sentando-se. Observou um rápido sorriso de vitória serpentear nos lábios de Josh, o velho idiota e agora também persuasor.

– Acho que vai preferir dar o seu próprio depoimento, sem intromissões nossas. – ele voltou a falar e ela sacudiu a cabeça em afirmação. Se falasse qualquer coisa agora, olhando nos olhos daquele homem, acabaria ofendendo-o e seria presa por desacato.

Respirou fundo novamente, abandonando o chiclete em um dos cantos de sua boca, enquanto se preparava para trazer tudo aquilo a tona de novo. Ela mal havia processado todo o acontecido em sua própria mente, não sabia se seria capaz de compartilhá-lo com alguém.

Se encarar seus demônios pessoais já era uma merda, expor eles para um bastardo qualquer era uma merda ainda pior.