Eu não me cortava há quatro dias, mas ainda não conseguia dormir. Minha mente estava tão pesada quanto meus olhos. Eu precisava sentir aquela dor. Liguei o abajur do lado cama e comecei a observar os meus braços, todas aquelas cicatrizes. Lindas. E havia lugar pra mais algumas.

Pulei da cama procurando freneticamente minha faca no quarto escuro, mas não a encontrei. Abrindo a porta, desci as escadas arrastando os pés pra não fazer barulho. Mesmo com as luzes apagadas, consegui ir direto até a gaveta da cozinha.

_Procurando o que, Gerard? – a voz estrondou atrás de mim no mesmo momento em que a luz se acendeu. Balancei a cabeça até as lágrimas caírem dos olhos e me virei.

Mamãe me olhou com os braços cruzados, esperando resposta.

_Água.

_Na gaveta?

_Estava me apoiando até chegar à geladeira pra pegar a água que eu vim pegar aqui na cozinha. Porque eu sei que a água fica na geladeira. – ela descruzou os braços, mostrando que eu havia a convencido. – E a senhora, o que fazia?

_Vendo um álbum de fotos de quando vocês eram crianças.

Ela me levou até o escritório, que tinha a luz muito baixa e sacou um livro de cima da mesa.

_Olha aqui, você e o Mikey – ela apontou pra uma foto desfocada, que ocupava uma página inteira do álbum. Nela, uma árvore de natal fazia fundo pros irmãos Way. Um dos baixinhos usava óculos com aro azul claro e abraçava o outro, que sorria de canto a canto segurando uma bola.

_Foi o meu primeiro natal com vocês.

Sorri passando a pagina. Nessa, uma foto de Mik segurando um baixo maior que ele.

_Ele sempre quis ser músico. – disse.

Ela sorriu.

Em uma das divisórias, ela pode alcançar uma folha de papel que passou por suas mãos, depois minha mãe a segurou perto do peito, com os olhos brilhando. Até passá-la pra mim.

_Se lembra disso? – olhei pra ela, que observava com atenção minha expressão – Abre, Gee.

Uns rabiscos ao redor de uma letra mal formada, onde se lia: “Tia Donna, amo você. Gerard”

_Você guarda isso? – disse com vergonha colocando o desenho de onde ele havia saído.

_Pensou que eu tinha jogado fora? – ela apontou pra uma caixa e eu peguei – Agora abra.

Umas quinhentas folhas de papel rabiscadas. Algumas até muito bem feitas. Uma delas, apresentava a caricatura de Mikey. No verso da mesma, o “Caprichei no biquinho. Não me mate. xoxo, G.” na minha letra, era seguido pela resposta de meu irmão, “Não tente parecer engraçado as minhas custas, até porque sou bem mais bonito que isso.”

Lá dentro, uns boletins do ensino fundamental se misturavam aos meus desenhos e as músicas que Moik escrevia.

Bons tempos.

_Lembra da música que Michael fez no seu aniversário de dez anos? Ele apostou com Tom que te deixaria estressado, mas quando você começou a rir... Ele desmoronou e perdeu todas as bolinhas de gude.

Ela não se importava com as lágrimas. Nem eu.

_ Se lembra da letra? – ela fez que sim e eu comecei a cantar baixinho, fazendo-a rir. – Oh, oh,Gerard é um fantasminha diferente e tem o nome esquisito, oh, oh... – me interrompi – Esse era o refrão. Eles sempre tentaram me deixar com raiva, mas quase nunca dava certo.

_Nunca deu. – ela me abraçou — Sempre tão bonzinho, meu bebê.

Pronto! Eu não queria me lembrar de nada que o Frank houvesse dito ou feito. Nada o traria pra mim. Eu queria ficar no meu passado, onde ele não existia. Porque Frank não cabia no presente, eu não cabia no meu presente.

_Obrigado, mamãe. – sussurrei — Eu te amo.

_Te amo mais.

Ela me observou ir embora e eu não pude apanhar a faca.

De volta ao meu quarto, sentia pessoas murmurarem “Frank”, nos meus ouvidos. Eu tentava sussurrar “não” pra elas, que insistiam em dizer o que eu não queria ouvir.

Eu não podia dormir, eu não tinha faca, não tinha ele.

Meus olhos embaçados não viam nada além da luz vinda da cabeceira da cama.

“Gerard, a lâmpada.”

Num baque silencioso, joguei o abajur no chão e ouvi a lâmpada se quebrar. Com as mãos, procurei os caquinhos de vidro. E quando encontrei, deitei-me sobre eles, me contorcendo para que eles penetrassem nas minhas costas já desnudas.

Quanto mais forte e fundo os pedaços da lâmpada cortavam, mais baixo as vozes diziam o nome dele pra mim. Até que elas pararam.

A sala estava mais barulhenta que o normal. Quase ninguém percebeu o homem que entrara na sala e escrevia “Bryar” no quadro.

Frank estava calado e pensativo na carteira da frente. Usava uma camisa preta de gola baixa, no pescoço, um curativo. “Mikey fez um bom trabalho? Acho que sim.” Ri amargamente.

_Bom dia a todos! – a sala se calou quando o homem de barba e cabelos loiros gritou – Bom, sou o novo professor, da também nova matéria de vocês. Alguém sabe qual? – ele puxou uma agenda da bolsa – Quem é Gerard Arthur Way?

Levantei a mão, mas não corrigi a postura, até porque as costas iriam doer, e, ultimamente, a dor me lembrava de um nome.

_Os seus professores anotaram pequenos avisos sobre cada um aqui presente nesta agenda. Alguns me chamaram muita atenção.

_Opa! – Ray chegou atrasado, parando ao ver o novo professor.

_Muito prazer, sou Bob Bryar. E você?

Era difícil saber quem sorria mais.

_Ray Toro.

O professor espiou na agenda, riu e leu auto pra toda sala:

_Hiperativo. – voltou-se para o garoto com cabelos cacheados e macios – O senhor concorda?

_Não. Sou o melhor aluno da sala. Deviam ter anotado isso aí.

_Vai pro seu lugar. Seu jeito espontâneo vai ser bem útil nas nossas aulas, Ray. – o menino veio sorridente para o meu lado, orgulhoso de si mesmo – Tive uma ideia! Vou chamar pares de alunos aqui na frente e pedir pra representarem alguma coisa. Pra quem ainda não percebeu... – Ele passou o giz pelo quadro negro até que as palavras “aula de teatro” se formassem.

Grandes merdas.

_Pra começar, Gerard e... Franklin Iero.

Quando eu comecei o processo que me arrancaria da cadeira, o garoto já estava parado na frente do quadro.

Bob nos fez ficar frente a frente. O sorriso de Frank era, ao mesmo tempo, a coisa mais linda e mais horrível pra se ver.

_A situação é: vocês são amigos de infância que descobrem um amor um pelo outro, e tem que se declarar. Algum problema no fato de serem dois garotos?

_Pra mim não. – ouvi a voz animada de Frank, mas não consegui descolar meus olhos do chão.

_Não. – falei.

_Certo, garotos, podem começar.

Levantei a cabeça quando o baixinho pegou em minhas mãos. Estiquei a coluna e senti os cacos da lâmpada, ainda, dentro de mim. Enquanto isso, minha garganta apertava.

Soltei-me dele, mas isso não foi pela cena, e sim, pra não chorar.

_Sei que sempre fomos bons amigos. – ele começava, levantando o queixo para olhar nos meus olhos – E queria que ouvisse uma coisa agora.

_Pode falar. – a voz saiu vacilando.

_Eu sinto mais que amizade por você. – Frank deu uma olhada para Bob, mas eu não me mexi – Gostaria que me dissesse que nada mudará entre nós.

_Coisas precisam mudar entre nós.

_Acho que te amo.

Nesse momento meus olhos se esvaziaram e senti alguma coisa, que desceu pesada e rapidamente pelo meu rosto.

_Eu te amo. E sei que amo.

E era verdade.

Ainda na encenação, nos abraçamos. Quando ele passava as mãos pelas minhas costas cortadas, eu não sentia dor nenhuma, e toda dor, no mesmo segundo.

O professor bateu palmas, e toda sala o acompanhou. Sequei meus olhos e vi Frank bater palmas também.

_Você é muito bom, Gerard. Muito bom. – Bob apertou minhas mãos. – Uau! E você também, Frank.

_Obrigado. Tentei parecer verdadeiro. – ele olhou pra mim.

_Professor, posso sair por um minuto? – falei.

Ele me acompanhou até a porta e quando a sala voltou a fazer barulho, ele me disse.

_Sabe o que estava escrito sobre você na agenda?

_Não, senhor.

_Que você é brilhante, mas tem dificuldade em se expressar. Eu acabei de ver o brilhante. Você conseguiu fazer todos os seus colegas verem um ator de verdade.

_Obrigado, m...

_Só queria que me confirmasse uma coisa. Pra você, a cena foi fingir que tudo que você disse era mentira, estou certo? Você gosta mesmo daquele garoto.

Não respondi, porque queria que minha resposta fosse “não”, que Frank não existisse. Saí dali e fui para o banheiro.

Diante do espelho, tirei meu casaco e me virei. A camiseta que estava usando tinha marcas de sangue seco distribuídas por toda parte posterior. Debaixo do tecido, marcas roxas.

_Gerard? – alguém empurrou a porta e eu vesti o casaco rápido.

_Não bate na porta?

_Do banheiro? – um corpinho pequeno e bem esculpindo pousou na minha frente. – Você não voltou pra sala, pensei que estivesse passando mal, ou algo assim.

_Estou bem. – ele dava passinhos para frente – Pode voltar pra classe.

_Você fez isso? – ele revezava em olhar pro meu abraço e olhar pra mim, cada vez mais espantado.

Percebi que a manga do casaco estava dobrada, deixando meu pulso à mostra. Abaixei rapidamente, mas Frank o agarrou com força e arregaçou as mangas de novo.

_Você fez isto?

_Não é fundo.

_É sim.

Arranquei o braço das mãos dele e me afastei.

_Não fundo o suficiente. – Ri amargamente.

_Queria se matar. – foi uma afirmação, ele a sussurrou.

_Não. Só sentir dor.

Ele arregalou os olhos pra mim mais uma vez e abriu a boca, pra dizer algo, talvez. Mas o impedi.

_Se veio até aqui saber se eu estava bem, já viu como eu estou. Pode ir embora e me deixar em paz?

_Não pode me expulsar do banheiro da escola, querido.

Fui em direção a porta, mas uma mão se enroscou na minha cintura, fazendo os pedaços de lâmpada dentro de mim latejarem, e me puxou de volta.

_Me solta, Iero.

“Não solta, me abraça, me abraça, me abraça...” Minha mente gritava.

_Você me mostrou suas cicatrizes, vou te mostrar as minhas. – ele parecia não se importar com minhas lágrimas. Que secavam aos poucos – Essa aqui, — ele apontou pra uma tatuagem no braço direito – mordida do meu cachorro.

_Onde?

_Debaixo da tatuagem.

Ele tinha muitas, que tomavam conta dos braços, até dos dedos. “Halloween”. Sorri observando como ele era lindo.

_Bem melhor. – ele se sentou no mármore da pia. Deixando seu rosto na altura do meu.

_O que é bem melhor?

_Gerard sorrindo. – ele puxou minha cintura outra vez, se agarrou em mim. E, tirando meu cabelo do rosto, olhou diretamente em meus olhos.

_Me solta. –disse rápido, na mesma velocidade em que meu coração batia.

_Cala a boca.

Ele fechou os olhos e inclinou o queixo. Tomei-lhe os lábios perfeitos e quentes. Sua língua pediu passagem e eu concedi, enroscando as nossas.

Quando acabou, eu estava tonto e ele sorrindo. Entre suspiros, perguntei:

_Me diga que Mikey não é seu namorado. Por favor.

_Mikey não é meu namorado, nunca foi.

“Então porque os dois estavam de mãos dadas e andando tão juntos ultimamente?” Foda-se. Eu posso descobrir isso depois. Puxei sua cabeça pra mim, ele cedeu. O beijei devagar e demoradamente. Senti alguma coisa na minha boca, um de seus piercings. Separei-me dele e cuspi o objeto longe, enquanto isso, ele disse:

_Volta e arranca o outro também?

Avancei sobre o garoto, que segurou meu rosto e o beijou com vontade. Primeiro no queixo, depois nas bochechas. Ele fez que vinha para os meus lábios, abri os meus para que ele pudesse encaixar os dele ali, mas Frank se desviou e se dirigiu aos meus ouvidos: “Você quer, Gerard?”. A minha resposta foi um gemido. Ele desceu as mãos até o meu pescoço, permitindo que eu encostasse meu rosto no dele. De leve, se esquivou. Busquei-o outra vez, e outra vez ele se esquivou. Que tipo de jogo Frank queria fazer?

_Acorda. — ele desceu da pia, ajeitou o cabelo, beijou o indicador e o encostou de leve nos meus lábios. – Viadinho.

Notas finais
Gostaram, meus amores?