Agente
14 Act14: The Agency
Notas iniciais
Boa Leitura!
-Nós vamos dizer. Mas vamos limpar tudo antes. –Luka se pronunciou, acompanhado de Mari e das outras pessoas em batas brancas. –Nós somos a Agência.
...
Foi aquilo que o Andreani disse. Foi um pouco assustador para todos os presentes, isso não fosse mais ignorância do que “medo”, já que ninguém tinha medo daquele cara. Ele parecia ser muito inocente para ferir alguém.
Lupus observou o irmão desacordado com um pouco de impaciência. Quem eram aquelas pessoas e o que queriam? Eles, com aqueles jalecos brancos e cabelos azuis, olhos bicolores e expressões tão assustadas quanto às deles mesmos, pareciam muito com as pessoas que cuidavam de Lin no Japão.
-Desculpem por isso. -Mari se pronunciou, arrumando os óculos e encarando o chão.
O homem mais alto de roupa branca virou-se para ela, absorvido no momento vivido. Lass permanecia caído ao peito do irmão, completamente exausto e com os resquícios de sangue escorrendo pelos olhos e boca. Não estava nada bonita aquela cena.
Os rapazes da banda mal conseguiram manter os olhares fixos, olhando tudo em volta, os sedativos, as seringas, a maca desarrumada, os pingos vermelhos no chão. Era uma cena um pouco forte considerando que mais parecia uma sala de hospício.
Lupus apertou o corpo de Lass, sendo observado de perto por Aoki, que ajeitava os olhos, a expressão mais fria do que o comum.
-Não importa mais. Mari é uma boa pessoa e Luka é confiável. Eles nos dirão. No momento o mais importante é cuidar da saúde do Lass. Para que ele continue são e senhor de si mesmo. Quando ele acordar vamos ter uma conversa. -Aoki se decidiu, tocando o ombro de Lupus com calma.
Como se confortado pelo toque, o moreno se levantou, lançando um olhar feroz para aquelas pessoas ali. Seja lá o que for que estivessem tentando fazer, que tomassem cuidado. Ninguém mexia com seu irmão mais novo!
Aos poucos todos foram saindo. Arme, ainda ficou uns instantes olhando o local do centro com uma expressão triste. Ela o tempo todo ficou sendo observada pelas pessoas desconhecidas da Agência. Como se ela fosse uma figura curiosa naquele meio, ela tocou com a ponta do dedo indicador o sangue na maca.
-A-Arme, cuidado. Não sabemos como isso pode reagir-... -mas Mari fora interrompida pela criança.
-Lass-nii não tem culpa. Quanto mais medo tiver, mais ele vai se sentir mal. Seu eu puder mostrar que eu o amo ele vai, com certeza, ficar bem. -ela sorriu levemente, virando-se e alcançando Jin, que a esperava.
Assim que Arme deu as mãos para o irmão, ela deu um sorriso calmo para Mari. Ela era uma criança distinta.
-Tudo bem mesmo em ir e deixar as coisas como estão, Aoki? -perguntava Sieghart com o tom de voz baixo, o que era raro.
Todos muito abalados com o que tinha acontecido não pronunciaram-se em nenhum momento, preocupados com o estado do empresário e especialmente do cantor debilitado.
-Só espero que as coisas ajeitem logo. O evento está chegando... -Aoki segredou para os garotos, arrumando os óculos com os olhos apertados.
Se passaram duas horas. Lupus tinha arrumado tudo no apartamento, tinha dado um banho no irmão ainda desacordado e arrumou lugares, mesmo naquele pequeno espaço, para Sieghart e Ronan que decidiram dormir por lá uns tempos.
-Vocês realmente não se importam em ficar e ajudar? Me desculpem. Eu tenho trabalho e não posso realmente parar com tudo e cuidar do Lass. -explicava o moreno com a expressão triste.
Lass estava bem repousado e protegido. Estava quase noite e o dia todo tinha se passado em puro medo.
-Lupus... O que aconteceu? Você ligou dizendo que o Lass tinha desmaiado e depois o que houve? -perguntou o azulado, totalmente desconfiado e perdido naqueles acontecimentos repentinos.
Lupus respirou fundo coçando a cabeça. Quando entreabriu os lábios para falar eis que a porta abre e adentra uma figura num pijama extragrande.
-Lin, você acordou. Está bem?
-Uhum. Yoo... -sorriu sonolenta acenando de forma desajeitada para os dois visitantes.- Nii-san... E o jantar?
-Lupus, você vai cozinhar? -sorriu o moreno arrumando a mochila em cima de um futon perto da cama do albino adormecido.
-A Mari era quem estava fazendo. Mas ela não vai ficar hoje... -disse abaixando os olhos. -AH! Mas não é como se eu não soubesse fazer algumas refeições! Vocês podem ficar tranquilos que...
-Nii-san, eu vou voltar pra cama. Me chama assim que estiver pronto. -ela sorriu acenando para os três e fechando a porta após passar.
-Ok.
-Me deixa fazer então. -Ronan se pronunciou sorrindo. -Aproveito pra fazer alguma sobremesa que o Lass goste. Talvez ele se anime amanhã.
Lupus sorriu fracamente, agradecido por toda a ajuda. Realmente, quando moravam no Japão lá pelos 12 anos de idade, o albino sempre foi o tipo de pessoa antissocial, odiava conversar e não conseguia se expressar bem. Algumas coisas mudaram fazendo com que ele começasse formar amizades, que foi o caso da música. Lupus agradecia mentalmente desde aquela época por Lass conseguir mostrar seus sentimentos de alguma forma e por isso seguiu-o em toda sua breve carreira, para cuidar dele e de seus amigos. O empresário mal conseguiria explicar como se sentiria caso alguma coisa viesse a acontecer com eles e ele não tivesse feito nada. Era muito grato a todos por salvarem Lass de seu pequeno mundinho e por isso sentia-se no dever de compensá-los por não ter conseguido esse feitio.
-Tudo bem. Confio em sua mão de chefe, Ronan. Eu vou precisar ir à empresa... A Rey precisa ficar sabendo das coisas e vamos cancelar todos os compromissos de vocês. Eu realmente sinto muito, mas não tem porque substituir o Lass agora.
O medo dos outros integrantes da banda culparem Lass por não poderem mais se apresentar nos eventos era algo que assustava o profundo de Lupus. Se por algum acaso aqueles jovens cometessem qualquer deslize e fizessem com que Lass ouvisse, era certo de que o irmão iria ter outro colapso.
-Ei, ei... Por que tá pedindo desculpas, Lupus? Nós somos amigos, cara. -Sieghart sorriu para o maior batendo em seu ombro. O jovem de cabelos negros, rebelde como sempre, já se virou pra cama, afagando os cabelos do cantor adormecido. -Esse cara aqui é um laço que prende a gente junto. Foi por causa dele que nós conseguimos subir tanto e estamos aqui hoje.
Ronan concordou também se levantando.
-Verdade. Se pensar bem nós somos muito novos ainda... Eu e os outros sempre queremos tentar outras coisas também. Ser músico não quer dizer que não podemos seguir outros caminhos. Lupus, você sabe desde o começo que essa banda é temporária não é? Nós decidimos que esse evento do Musical Awards será o nosso último.
-Eu sabia. Mas eu pensava que o Lass que tinha decidido isso. -Lupus coçava a nuca meio atrapalhado em ver o quanto estava enganado.
-O Lass é um ótimo cantor. -Sieg falou empolgado, ressaltando o “ótimo” com entusiasmo. -Mas ele é incrível em milhares de outras coisas. Ele é tão quieto e por isso aprende as coisas silenciosamente. Eu fiz amizade com ele de uma forma muito esquisita, mas mesmo assim ele me considerou e me trouxe com ele. Nós ficamos muito amigos mesmo... E ele é assim com todos.
-Talvez eu não o conheça tão bem como parece. -sorriu o mais velho sem graça. Seria muito triste ver Lass acordar e imaginar que uma pessoa tão boa como ele ficaria talvez num hospital o resto da vida. Seus olhos começaram a arder levemente.
-Bobeira. Você é irmão dele, de alguma forma é seu melhor amigo. Assim que são os irmãos não é? -sorriu o azulado apontando-lhe o polegar pra cima.
-Claro!! O Lass normalmente fala de você de um jeito muito rancoroso, só reclama e fala que você não larga do pé dele. Mas sabe... Ele sempre cai na gargalhada depois falando que você é um completo idiota. -Sieghart cruzou os braços rindo discretamente.
Lupus ficou vermelho, suas bochechas ardendo. Suas sobrancelhas juntaram.
-I-Idiota é ele. -cruzou os braços também desviando os olhos dos dois.
O baterista e o guitarrista começaram a rir com a cara do mais velho, fazendo com que os sons da risadas começassem a despertar Lass de seu sono.
Lá fora estava tudo bem escuro indicando que a noite já havia chegado. Estava um pouco frio então ligaram os aquecedores, decidindo o que iriam cozinhar.
-Hm...
Lupus levou seus olhos escarlates em direção ao irmão, que bem devagar levou a mão ao rosto e afastou a franja, deitando-se de lado e puxando a coberta um pouco mais pra cima.
-Esse dorminhoco. Essa é uma das poucas coisas que ele não troca por nada. Nem se a gente marcar de sair. Ele não troca o sono por nada. -Sieghart resmungou na beirada da cama vendo a face do albino relaxar e voltar a entrar no sono pensado.
-É. Vamos pra cozinha logo então fazer alguma coisa antes que fique tarde. -Ronan chamou Sieghart, puxando-o pelo braço.
-Vão indo. Vou cobrir ele e fechar as cortinas. -Lupus se levantou pegando as cortinas brancas e fechando-as numa puxada só.
-Lupus... -a voz veio baixinha e grave. Lupus notou-se sozinho com o irmão com os olhos meio abertos.
-O que foi? Tá se sentindo bem?
Lass sorriu levemente.
-To legal. Eu queria falar com a Mari.
Lupus suspirou baixo. Era claro que a Agente não poderia falar diretamente com Lass agora sendo que ela mesma estava numa situação difícil. Sua mão morena pousou na testa do albino e acariciou os fios.
-Só amanhã, Lass. Ela também está mal. Relaxe aí que o Ronan foi fazer o jantar.
A expressão do cantor ficou tristonha e os olhos gordos estreitaram brilhantes. Com lentidão foi se sentando até poder por as pernas pra fora.
-Eu disse pra relaxar, Lass... -Lupus sorriu vendo a teimosia que o irmão tinha em fazer as coisas.
-Eu quero pelo menos sentar na sala. Fiquei com vontade de assistir televisão. -falou baixo, impulsionando o corpo pra cima. Estava vestido com uma camisa folgada branca e um short que parava no meio das coxas, bege.
Não teve outra escolha a não ser ajuda-lo a ir até lá. Os irmãos passaram pela cozinha cumprimentando os dois que lutavam com uma frigideira.
-Yo, Lass!! A gente te acordou?
-Não, claro que não.
-Eu sabia. -sorriu largamente o moreno com uma escumadeira na mão.
Lass piscou os olhos tentando se acostumar com as luzes. Com certeza estar com seus amigos era confortante mais do que nunca. Talvez se ele tivesse esse tipo de atenção o tempo todo ele teria menos desmaios? “Não, óbvio que não.” Lass mordeu os lábios pensando nisso.
Ficou pensando em Mari. Não se lembrava muito bem do que tinha acontecido. Não se lembrava de dor nenhuma. Ele sentia-se até aliviado e mais vívido. Estranho.
-Mas eu preciso falar com ela de qualquer jeito. -Lass comentou com a mão se apertando sobre o peito. Ali sim doía. Batia rápido e tão forte que sua boca começou a tremer. Ele gostaria muito de ver o rosto dela. Muito.
Lupus tomou o controle remoto e ligou em um canal qualquer, vendo inicialmente a figura de um velho baixinho.
-Esse é o Oz. Estão fazendo uma matéria sobre o evento. -Lupus sentou-se ao lado do irmão, pondo uma coberta sobre o colo do menor.
-Ah, sim. Eu deveria mesmo participar nesse estado? -Lass falou quase consigo mesmo, mas foi suficiente para que o moreno se surpreendesse.
-Você ainda acha que vai participar? -falou incrédulo.
-Acho que sim. Eu quero muito me apresentar com meus amigos... Independente de qual for meu estado de saúde. -as mãos pálidas apertaram as cobertas, os olhos fixos na tela de plasma.
Lupus suspirou colocando a mão sobre a cabeça branca.
-Seu idiota. Seus amigos querem que você fique bem antes de tudo, Lass. -Lupus falava cada vez mais confiante que estava sendo realmente um irmão dessa vez. Estava aprendendo a lidar, e superar seus erros.
-Eu ficarei bem!
Lupus arregalou os olhos afastando a mão com a exclamação súbita. Lass estava determinado, mesmo a cor doentia parecia se perder na coloração vermelha em seu rosto.
-Eu só preciso falar com a Mari e então tudo ficará bem. Eu juro. -Lass encostou-se, cobrindo-se até os ombros.
Lupus riu sem jeito. Apesar de tudo, seu irmão continuava super confiante. Se aquela pessoa sumisse em um mundo transparente, como Lupus iria se sentir?
XXX
-A Agência é uma organização governamental que trabalha com estruturas de Laboratórios para desvendar os segredos da Isos. Essa é a doença que a Família Isolet passa de geração em geração. A doença da Troca de Personalidade. A história de como o grupo se formou se resume a um incidente que aconteceu entre uma Isolet e um político do Japão. O caso deu muita repercussão e, sinceramente, os médicos constataram retardo mental o estado do político após o contato.
A voz de Luka se espalhava na sala com seriedade apesar de seu tom ser tímido e calmo. Seus dedos se juntavam e parecia escolher as palavras calmamente. Presentes ali estavam Lupus, Aoki, Lin, Elesis, Ronan, Sieghart, Ryan e Jin acompanhado da inseparável irmãzinha Arme.
-A Agência não é algo que qualquer um pode entrar também. Foram escolhidas duas Famílias especiais e tradicionais da Itália que podem cuidar disso: os Andreani e os Ming Onette. Nós somos treinados especialmente para fazer testes com os Isolet. Somos treinados para resistirmos ao momento da troca. Já foram feitas muitas experiências, a maioria falhas, pois não existe alguém 100% inatingível. O objetivo é descobrir uma cura.
-Mas vocês fazem outras experiências também. Nós sabemos que todas as organizações governamentais sempre dão um jeito de praticar outros tipos de experiências com as pessoas. É tudo pelo bem da Ciência. -Aoki ajeitou os óculos demonstrando-se irritada por não saber exatamente das coisas.
-De certa forma. Pra descobrir a cura, precisamos observar, presenciar e sentir tudo. Mas isso desgasta o portador. Muitos morreram, tanto Isolets quanto Agentes. Eles raramente conseguem controlar a absorção e então acontece aquilo que houve com a Mari. O Agente absorvido quando demonstra alguma emoção fica totalmente vulnerável. Por isso é um problema que um Agente sinta emoções.
Todos ouviam calados e imersos em seus pensamentos. Luka falava tentando ser o mais direto possível. No fundo, ele mesmo estava incerto, estava com medo. Arriscar a vida dessa forma. Mari poderia ter morrido mesmo e isso acabava com suas certezas.
-Quanto ao portador. É estranho, mas parece que ultimamente tem ocorrido casos de que eles estão roubando memórias.
Lupus arregalou os olhos.
-Como se eles começassem a ser outra pessoa. Pode ser que a doença esteja evoluindo durante esses anos a cada novo nascimento. Mari contou pra mim que ela viu coisas sobre o Lass e provavelmente ele viu sobre ela. Logo essas memórias podem começar a se misturar e eles podem não só ficarem sem personalidade como realmente se tornarem outra pessoa.
Os olhos escarlates de Lupus pararam sobre sua irmã. Lin estava impassível. Ouvia tudo como se fosse normal aquelas coisas. Foi quando ela falou.
-Tem tipos diferentes de Isos. -ela falou baixo, mas com um sorriso. Luka levantou os olhos castanhos até a albina. Não negaria: era linda e infelizmente tinha a doença. Luka pensaria duas vezes antes de tocá-la de qualquer forma. Era perigosa de acordo com os relatórios de Mari sobre os três Isolet.
-Você sabe bastante sobre isso, Lin? -perguntou Aoki se aproximando dela.
-Uhn! -assentiu com um sorriso. A moça tinha simpatizado com Aoki em algumas horas, apenas conversando ela se identificou um pouco. -Tem algumas como a minha que identificam as emoções à distância e pode ver as memórias. A do Otouto é pouco evoluída, ele não consegue só “ver”, ele precisa “trocar”. Ele é tão jovem! -sorriu a albina com graça.
Luka coçou a cabeça. Lembrava-se de um documento do Laboratório do Japão que Lin Isolet era fechada e sombria, não falava, fazia o que lhe dava na telha e apenas cantava e dançava sozinha. Se ela sabia dessas coisas mais do que ele... “Ela pode ter todas as respostas que nós precisamos agora. Só precisamos de um jeito de fazê-la falar.” Pensou coçando o queixo.
-Não não, Luka-kun!! -ela sorriu para o Andreani com uma expressão zombeteira. -Não vou contar meus segredos pra você, blééé! -ela riu mostrando a língua e saindo correndo da sala como se estivesse brincando de pega-pega.
Lupus e os outros observaram sem entender, fitando o Andreani. Pasmado e branco, Luka coçou a testa.
-Cuidado com ela. Ela deve saber ler pensamentos também... -Luka suava frio.
Os outros se entreolharam, estranhando totalmente aquela situação. Deveriam ficar atentos com Lass e Lin o tempo todo, ou poderia se tornar algo realmente perigoso.
Continua
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