Agente
13 Act13: White Memories
Notas iniciais
A cabeleira azul apareceu em seu campo de visão até que pudesse distinguir os olhos e os óculos. Abria e fechava os olhos sem saber para onde olhar, como se acabasse de acordar de um desmaio muito forte.
E, conferindo com suas suspeitas, Lass entreabriu os olhos azuis vendo-se em algum lugar fechado, todas as paredes iguais e na mesma cor, o silêncio e o cheiro de algo estranho.
-H-Hm.
-Não faça força. Continue deitado, Isolet-sama.
A mão tocou gentilmente em seu ombro forçando-o para baixo. Atendendo ao pedido, Lass manteve-se imóvel, tentando acostumar sua visão embaçada com o ambiente e a assimilar melhor a voz de Mari que parecia ainda mais inexpressiva.
-Está ouvindo?
A voz calma foi respondida com baixo “Sim”, mas Lass mal ouvia a própria voz, fazia as coisas por instinto. O escuro que estava tentando tomar seus olhos o deixava zonzo, mas lutava contra ele, seus braços doíam, sua testa queimava.
-Está me vendo?
“Onde você está, Mari...?” perguntou virando o corpo com a voz mole, como se estivesse entorpecido.
-Estou bem aqui na sua frente. Aqui. –ela tocou a mão em seu rosto, só aí Lass sentiu a temperatura morna, batidas de coração passando pelas veias imperceptíveis e ultrapassando seus nervos. Lass sentiu uma dor alucinante partir de onde ela tocava e subir até sua mente, onde uma dor gradual teve início.
Sua cabeça parecia que ia explodir. Ele estava se contorcendo sem saber, para Lass ele estava repousado com febre, mas na realidade Mari e mais algumas pessoas desconhecidas lutavam para imobilizá-lo.
-AHHH!!! –seus olhos opacos lacrimejavam e sua boca escorria sangue.
Em sua mente, memórias que flutuavam num quadro negro. Olhava tudo indiferente. Crianças que sorriam, que apontavam. Mulheres que comentavam sobre seu cabelo e seus óculos. Homens que apontavam e diziam coisas sobre os deveres dos “agentes”. Rapazes que lhe mandavam beijos e depois saíam com olhares pervertidos. Tudo vago, mas parecia ver tudo a partir dos olhos de Mari, as lembranças dela, não as suas.
Enquanto isso, um dos homens presentes que aplicava um sedativo no albino olhava para Mari, esta paralisada.
-MARI, MARI ACORDA! Meu Deus, ele absorveu demais! Segurem ele!
Enquanto os berros daquelas pessoas e os gritos de Lass se misturavam dentro daquela sala branca, Mari estava inalcançável. Seus olhos também doíam.
Lass estava descontrolado à sua frente... E ela não podia fazer nada. Ela tentou fazer com que ele voltasse à consciência, pois era bem claro que naquele momento ele poderia ter morrido, e tocou-o, mas Lass absorveu demais sua personalidade e agora, para voltar, ela precisava ter as memórias de volta. Em sua cabeça eram todas memórias cortadas pela metade, tudo incompleto.
-MARI! –os berros chegavam em câmera lenta e a azulada via os olhos de Lass perdendo a cor, o sangue começava a escorrer dos canais lacrimais, ele parava de gritar e em seguida desabava.
-LASS! –seu grito atravessou sua garganta e lentamente suas memórias foram se completando. Sua visão desembaçou num instante e ela se viu gritando enquanto estava abraçada ao corpo mole e frio. O som pareceu vir distante e assumir seus ouvidos com tanta brutalidade que Mari notou que seu grito fora tão histérico que fez todos se afastarem.
Piscou os olhos se sentindo ofegante, olhando os lados e depois olhando para o corpo em seus braços. Lass estava mesmo daquele jeito assustador...
Os olhos ainda abertos e parecendo sem vida. Tinha pulso, respirava, mas parecia em um transe lunático.
Mari mordeu os lábios e tocou o rosto de Lass. As bochechas macias que perdiam a cor lentamente. Um arfar mais alto do rapaz o fez lentamente piscar os olhos e depois mostrar um pouco de consciência. Moveu sua mão, elevando-a até a testa e fechou os olhos, devagar, respirando com lentidão e recuperando-se aos poucos.
Lass tocava com a outra mão o braço de Mari, sua boca abriu-se um pouco. Sua voz soou rouca.
-O-O-Onde estou?
Ele abriu os olhos, tentando se acostumar com a claridade. As pessoas presentes entreolharam-se pasmas e sorriram. Lass abriu os olhos... Mari não esboçou nenhum sorriso, não tinha motivos, estava profundamente sem esperanças. Os olhos de Lass agora se cristalizavam devagar, o azul escuro agora começavam a ficar mais claros. Mas ainda não estava “cego”, estava apenas um pouco mais fora da realidade.
-Será que teremos outro fracasso? –perguntava uma moça com a cabeça abaixada e lamentando a cena.
-Não sabemos. Mas isso foi perigoso.
-Ele não vai poder mais sair daqui. –sussurrava um outro homem.
-Não funcionou com nenhum dos outros mantê-los presos aqui. Devíamos tentar alguma outra coisa.
Enquanto falavam sobre o que fazer, Lass conseguia finalmente ver tudo. Olhou para Mari e, sentindo seu corpo todo latejar, teve uma vontade inexplicável de abraça-la e chorar que nem criança. No momento estava sensível a tudo, confuso, abalado. Sem saber em quem devia olhar, com medo e com incertezas demais.
-M-Mari... –ele estendeu a mão na direção da azulada, que o fitava com dor.
Ela arregalou os olhos, sem querer se afastando do albino de acordo com que ele aproximava a mão. Aquela mão iria causar toda a dor novamente, ela não queria, seus olhos ardiam, seus dentes rangiam.
Lass sentia a rejeição aos poucos, sua decepção clara. Ele recolheu os dedos e a mão e se encolheu no próprio corpo, não sabendo de absolutamente nada. Mal se lembrava quem era, apenas sua voz ficou no ar naquele momento e ele viu entre os dedos a figura de um rapaz que entrava no local parecendo chocado seguido de inúmeras outras que tentaram o alcançar.
-Alguém me ajude...
As pessoas gritavam seu nome e lhe estendiam a mão, mas eram afastadas pelas pessoas desconhecidas que o seguraram ali, um rapaz moreno parecia furioso, uma menina de cabelos ruivos batia violentamente nas pessoas, um rapaz de cabelo azul tentava empurrá-los da frente junto com um garoto ruivo e outro de cabelos negros, e uma menininha baixa de cabelos violetas chutava canelas, conseguindo ultrapassar todos.
Assim que ela chegou perto de si o abraçou sem mais. E como aconteceu com Mari, as vozes que pareciam graves e entrecortadas vieram a toda em direção aos seus ouvidos, tomando formas de altos gritos e berros. Lass abraçou o pequeno corpo e conseguiu se lembrar de tudo, absolutamente tudo.
-CALEM A BOCA!!! –gritou com os olhos doendo e o cérebro vibrando com todas as informações recebidas.
Todos silenciaram.
O albino fitou a menininha em seus braços e conseguiu sorrir mesmo chorando de tal forma com tanta dor.
-Lass? –a voz doce ecoou docemente seus ouvidos.
-Oi Arme. –falou baixo afagando seus cabelos. –Obrigado.
Ela sorriu largamente, abraçando-o de novo. As pessoas foram entrando sem entender nada... Mari estava ainda abalada a um canto, Luka estava tocando em sua testa e ombro, tentando fazê-la responder.
Lass sentiu-se muito cansado. Sorriu levemente para as pessoas e fechou os olhos bem no momento em que Lupus o segurou, deixando-se adormecer mais uma vez, seu rosto sobre o ombro do irmão mais velho.
-Eu acho que vocês tem muito o que nos explicar. –falava a moça de cabelos castanhos e óculos ao fundo.
-A Aoki tem razão. Vão dizer? Ou vou precisar quebrar todos? –rosnava Elesis furiosa.
-Nós vamos dizer. Mas vamos limpar tudo antes. –Luka se pronunciou, acompanhado de Mari e das outras pessoas em batas brancas. –Nós somos a Agência.
Continua
Fale com o autor