Agendamento
1 Primeiro contato
O celular toca.
– Alô?
– Bom dia. — cumprimenta uma voz feminina — Estou falando com Alineide?
A moça logo imagina outra oferta de telemarketing: — Ela mesma, diga logo o que quer vender.
A mulher do outro lado ri: — Não querida, não estou vendendo nada. Estou agendando. Você quer ter um caso com meu marido, o Júlio. Vejamos,daqui a duas semanas, dia 18 de setembro, está bom pra você?
Alineide já em choque, logo se descontrola: — Escuta aqui, se pensa que vou desistir dele está muito enganada. Ele...
– Sei sei... ele te ama você ama ele, etc. — a mulher concorda por educação — Tudo bem dia 18 então? Porque dia 17 ele tem de encontrar com a Fabiana. Se fica ruim, sobra o dia 19. Depois só no mês que vem.
– Mês que vem? — Alineide ri — Vadia, eu fico com seu marido todo dia.
– Eu não consideraria ficar esbarrando com ele no serviço como ficar — a esposa retruca um pouco pensativa — Mas estou ficando velha, e esse negócio de ficar é algo meio esquisito pra gente de minha idade. Não, acho que você não entendeu. Transar demanda mais tempo, querida. E na boa, ficar olhando e esbarrando nele no trabalho eu não consideraria aceitável. Não preenche nem os níveis mínimos de um bom relacionamento. A Maricléia faz a mesma coisa e...
– Ma-maricléia? — estranhou Alineide.
– ... como eu estava dizendo, a Maricléia faz a mesma coisa e só vai valer alguma coisa depois do dia 16 de outubro, daqui a um mês, porque ela não pode dia 18 nem 19 agora. Ah, é mesmo, o Júlio comentou que vocês são amigas. É aquela mocinha assistente do auxiliar administrativo da fatura.
– Espera um pouco — Alineide pediu.
–Claro, querida- a esposa concordou — É bom lembrar de respirar, porque antes você ficou ofegante, mas agora não está fazendo mais isso por uns bons vinte segundos. Em geral, as pessoas que param de respirar costumam morrer.
– Você é a dona Janaína — Alineide continuou.
– Pode me chamar de Jane, querida — Jane pediu.
– Jane... — Alineide repetiu como um papagaio — e está me ligando para...
– Agendar seu horário, querida — Jane confirmou — Afinal, esse é o grande momento, não? Quando for para os finalmentes, oba-oba, vamo-que-vamo, uhuuuu...
– Mas é o seu marido, caralho! — Alineide explodiu.
– Sim, é meu marido, e definitivamente estamos agendando o caralho dele — Jane confirmou.
– Você não fica com ciúmes? — Alineide estava quase gritando — Não tem medo que eu roube seu marido, porra?!?
– Bem — Jane pareceu pensativa, tentando se lembrar de algo enquanto folheava algo — eu teria de confirmar com a Jussanara se tudo bem você passar na frente dela.
– Jussanara? — Alineide ficou surpresa — Mas ela é...
– Você sabe como ela é esquentada — Jane explicou — Ela não admite que passem ela pra trás. Lembro que o Júlio teve de apartar uma briga dela porque...
– Mas ela é casada e evangélica!! — e desta vez Alineide gritou mesmo.
– Shhhh, querida! — Jane pediu — Vocês estão em horário de trabalho, e ela pode te ouvir. Na verdade, todo mundo pode te ouvir, e ela vai te matar se ficar falando em voz alta. Você saber tudo bem, mas se ficar falando alto pra todo mundo, aí o marido vai descobrir, o pastor, o filho...
– Não tou entendendo mais nada — Alineide desabou na cadeira.
– Como não? — Jane ficou surpresa — Eu achei que estivesse explicando direitinho para não haver mal-entendidos. Nada poderia ser mais simples. Estou te telefonando — ainda bem que quem vai pagar essa conta é o Júlio, não eu — para agilizar a efetivação do intercurso sexual. Ou seja, para vocês treparem.
– E você não liga pra isso? — Aline tentou mais uma vez encontrar alguma pegadinha, algum truque escondido dessa mulher.
– Não. Por que eu ligaria? — Jane respondeu.
(continua)
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