Agendamento
2 Procurando a verdade
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– Não. Por que eu ligaria?
Essas palavras reverberavam na mente de Alineide. Assim como toda a conversa que tiveram depois.
Lembrou-se que sorriu sarcástica, como se Jane pudesse vê-la: — Eu não caio nessa. Você está tentando me desanimar, para eu cair fora. Afinal, se tem mesmo tanta mulher atrás de seu marido, uma de nós já deveria ter conseguido roubar ele de você sua puta velha e chata.
Jane ficou em silêncio por um momento. E suspirou: — Sempre a mesma coisa.
– Em algum momento eu te ofendi? — Jane perguntou retomando sua compostura.
– O quê? — Alineide não esperava que a esposa se recuperasse tão rápido — Não, mas...
– Você então viu minha aparência? — Jane continuou.
– Bem, na verdade Júlio nunca mostrou fotos da família, nem de você — Alineide concordou — mas todo homem atraente de meia-idade sempre está casado com uma velha chata.
– Olha querida, eu te surprendi com todo esse negócio, não é mesmo? — Jane perguntou.
– Sim, foi uma surpresa receber sua ligação — a moça concordou — ainda mais falando em agendar dia pra seu marido transar comigo.
– Acha mesmo que viver com uma pessoa surpreendente é uma chatice? — Jane questionou.
Alineide ficou em silêncio, enquanto Jane continuava calmamente: — Então concordamos que não deve ser chato viver comigo. Vamos para a minha velhice. Tenho 42 anos. Essa é minha idade biológica. Comparado a Diana Nyad no alto de seus 64 anos devo parecer uma criança. Mas ela tem muito mais vitalidade que muitos jovens que conheço, porque ela não desistiu até conseguir atravessar nadando de Cuba até a Flórida.
Eu quero continuar tendo a mesma vontade de viver que Diana para além de meus 90 anos. Então velhice no sentido de ficar sentada assistindo novela não é pra mim. E espero que você não conheça pessoas assim, porque sim, essas pessoas ficam velhas e elas morrem logo.
Alineide engoliu em seco. Sua mãe tinha 39 anos, e só assistia televisão depois de voltar do trabalho. Ela estava ficando com raiva de pensar que deveria considerar sua mãe mais velha que a esposa do chefe.
– Quanto a vadia, bem estamos trabalhando, não estamos? — Jane continuou — pelo menos eu continuo fazendo meu trabalho, enquanto converso com você. Mulheres em geral são multi-tarefa, então acho que você também está fazendo o mesmo, e não apenas batendo um papinho comigo. Pagam-nos para trabalhar, e não para ficarmos batendo papo.
E não Alineide não estava trabalhando. Alineide tinha parado — com o choque — com o trabalho dela. O colega do lado cutucava impaciente seu próprio relógio: se Alineide não terminasse o serviço dela, ele não poderia prosseguir. E isso = ele teria de ficar até mais tarde, porque toda a papelada era para amanhã de manhã.
– Então concordamos que não somos vadias, nem eu, nem você. Em seguida, prostituição.
– Não é minha única alternativa — Jane concordou — mas se for necessário — para conseguir comida para as pessoas que amo, não descartaria essa alternativa. Mas felizmente, eu não sou putinha, no sentido de ser criança que não tem outra alternativa senão se prostituir.
– E finalmente sobre roubar meu marido. Bem, ele não é minha propriedade para ser roubada. Mas se quiser levá-lo (e não roubá-lo), você acertou: muitas outras mulheres já tiveram sua chance de — entre aspas — "roubar" meu marido. Sabe a Elenileia?
– Dona Elenileia? — assustou-se Alineide pois — mas ela é uma senhora de trinta e poucos anos, com dois filhos que já são quase adultos e...
– Bem, ela é mais jovem que eu — Jane interrompeu — E não é tão velha assim, os filhos dela tem o quê, treze e quatorze anos? Claro que antigamente, meninos dessa idade estavam mais ocupados com pipas e games, em vez de encucar por ser boca virgem, mas não são homens, não conseguem sair de casa e pagar o próprio aluguel. Infelizmente concordo que ela está um pouco acabada, mas o que pode-se esperar quando se engravida com dezesseis anos? Porque a vida é dura. Não se ache muito, pois ela também se achava melhor que a Soraide.
– Dona Soraide? — as referências começaram a ficar aterrorizantes — Mas ela, ela...
– Eu sei, se aposentou por invalidez — Jane parecia triste — mas acredite ela é apenas um ano mais nova que eu. Eu te disse a vida é dura. E pensar que Elenileia dava risada da "feiura" de Soraide, criticando que ela não ficaria igual porque ela sim se cuidava. Rindo do alto de seu orgulho de jovem que não acredita estar na mesma rota que os mais velhos. Que isso nunca aconteceria com ela e...
– E por que você se acha tão especial, heim sua biscate? Alineide tentava retomar a ofensiva de forma desesperada.
– Lá vem você de novo me ofendendo — Jane suspirou — E eu nem estou tentando te afastar do meu marido, muito pelo contrário, e parece que não vou conseguir agendar. Como sempre.
– Eu não sou especial — Jane respondeu — só tomei uma decisão diferente de vocês.
– Ah é? E qual foi, grande mestra do universo? — Alineide tentava manter o tom zombeteiro, fracassando e tentando esconder seu rosto avermelhado dos outros colegas.
– Já respondi — Jane respondeu — pra que repetir? Pergunte para todas as suas colegas. Talvez vocês concordem melhor entre vocês. Talvez todas vocês estejam certas, e eu errada. Talvez todas vocês são felizes, e eu sou a infeliz. Mas deixa pra lá.. Se decidir por algum dia, me mande um torpedo para este celular. Eu não atendo ligações, só faço ligações por este telefone. Mas leio os torpedos.
E foi isso que ela fez nas semanas seguintes. Alineide procurou Maricleia, Jussanara, Elenileia... e finalmente Soraide.
Não. Por que eu ligaria?
Essas palavras reverberavam na mente de Alineide. De novo.
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