Against The Death
9 Samantha Black
Notas iniciais
Nossa, que luz bonita... Espera, está chegando perto demais. Oh não, não, não, não! Ele vai me!... Queimar? Hm, mas ela é tão quentinha e confortável...
Ei, o que é isso? É o meu... Antigo trabalho? É sim, é o laboratório do sr. Cornway! Mas, o que eu estou fazendo aqui? E por que tudo parece tão calmo e tranquilo? Será que essa cidade não foi afetada? Ei, aquela garota ali não sou eu...?
Ah, sim, eu estou num sonho. Caraca... eu quase tinha me esquecido como era essa rotina: entrar, bater o ponto, vestir o jaleco e os óculos e ir para aquela maldita sala para ficar furando pobres ratinhos doentes. Ei, espera... Por que eu não estou indo para a minha ala? Parece que eu estou indo para... Ah, sim, eu me lembro desse dia. Se não me engano, é o dia em que eu fiz os testes com o vírus da raiva, e também o dia em que eu fui pega... É, é sim, eu estou entrando no laboratório. Tinha feito pesquisas na noite anterior, e estava louca para testá-las. E lá vou eu, pegar as amostras escondida. Mas... Por que eu liguei a luz? Eu sempre a deixo desligada para o caso de alguém suspeitar que tenha alguém dentro. Ah, então foi por isso que o sr. Cornway entrou na sala antes do horário. Nossa, eu sou muito retardada.
E essa foi uma das broncas mais épicas que eu já leve em toda a minha vida. "Você é uma louca irresponsável!", disse o sr. Cornway. "Não tinha permissão para entrar aqui. Poderia acabar contaminando a todos! Uma louca psicopata, é o que você é!". Esse cara era realmente um pé no saco. Ele tinha razão em ficar puto comigo, e querer trovejar em mim o quanto quisesse. Mas no meio do corredor? Para todos verem? Aí, sim, eu acho que faltou profissionalismo nele. Mas quem sou eu pra falar alguma coisa?
"Olha só o que a estranha fez...!", "Nossa, que perigo... Acho que ela deveria estar nas jaulas, e não os animais", "Nós poderíamos ter pegado uma doença terrível! Ela é mesmo louca! Quer matar a todos manipulando vírus ao seu bel prazer!", era o que as pessoas sussurravam. Por que eu fui sonhar justo com esse laboratório de merda? Todos aí me achavam louca, ou no mínimo psicótica. Pelo menos, tive bons momentos fazendo descobertas sobre os vírus. Ai, ai, bons tempos.
E agora eu estou... Ah, sim, na sala do interrogatório. Foi engraçado ser "entrevistada". A única coisa que eu conseguia pensar era em como o meu currículo ia ficar mais merda do que já estava. E a mídia? "Mulher mal-amada tenta matar colegas de trabalho com vírus perigosos". Oh, meus pais iam ficar tão desapontados...
Foi aí que o cara disse, não foi?... Há, acertei. O cara do governo falou que tinha um "trabalho especial" para mim, e escutar isso foi quase como me dar ar para respirar de novo. "Faço burrada e ainda ganho um trabalho no governo, meu carma bom finalmente está aparecendo". Olha só para a minha cara! Eu sou muito retardada, nem consegui conter o sorriso idiota de empolgação. Não, espera, você não vai fazer isso... Não acredito, eu realmente abracei o interrogador. Ah, isso é tão eu... Deus se esqueceu de adicionar a dose de semancol quando me criou.
E aqui estamos, o dia em que eu tive a primeira reunião com os meus "chefes". Nossa, o Adam estava tão ridículo, tentando fazer pose de fodão, cruzando os braços e tentando olhar por cima de todos em seus plenos 1,73 metros... Mas, tenho que admitir, eu achei fofo. E o Alex, todo nervoso, batendo o pé repetidas vezes no chão, numa mania compulsiva que guarda até hoje. Aprendi a me acostumar com o ritmo de suas batidas e, não vou mentir, o som é reconfortante e familiar.
Em uma sala extremamente sem graça, um bando de velhos cientistas e políticos com cara de contrabandistas se reuniram para discutir o destino do mundo com apenas uma bomba. Investimentos com números assombrosos, expectativas de resultados favoráveis aos planos militares e, consequentemente, mortes de inocentes foram especulados como se fossem ações bancárias. Eu, ingênua, decidi me colocar em posição de ignorante e abstrair tudo o que escutava daquelas bocas sanguinárias. "Se eu pensar demais nas consequências disso tudo, vou acabar desistindo do trabalho. Eles pagam uma grana boa, e... Seu eu não fizer, alguém vai fazer. Melhor eu do que outro!"
Quando meu pai me falava que a ignorância era assassina, eu não compreendia. Devo acrescentar mais isto na minha lista de arrependimentos: "Não ter guardado um tempo para pensar nas coisas que os meus pais me falaram".
E então eu, menina, assinei os papéis concordando finalmente com o trabalho. Assim o fizeram Alex e Adam, ambos tão apavorados e desnorteados quanto eu. Não vou fingir que não me incomodava o fato de que eles escolheram cientistas muito jovens para esse trabalho. Perguntei-me a mesma coisa por uma semana, até que, no dia em que eu finalmente me reuni com o Adam, Alex e outros cientistas que nos auxiliariam, eu acabei por perguntar quais os critérios usados para a escolha do pessoal. A resposta foi simples e direta: "Jovens não tão jovens assim, que desafiem a comodidade das descobertas já feitas. Queremos pessoas ousadas, e esses velhos que temos aqui não ousariam questionar leis antigas!", disse o senhor, sorrindo. Isso só aumentou as minhas dúvidas, mas não me incomodei em tirá-las.
E cá estamos nós, sentados na bancada de um enorme laboratório. Ah. os meus olhos brilhando com a imensidão das possibilidades experimentais... Certamente, aquilo tudo foi caro. E imagino que nos custará caro se não obtivermos os resultados almejados. A reunião dos "chefes" me veio à mente, com destaque para a banalização explícita da vida humana presente na conversa, e eu me imaginei em inúmeras formas desses caras me matarem. Ah, nada como trabalhar com a corda no pescoço.
"Vocês já devem saber que chamamos vocês aqui devido às descobertas feitas por todos aqui presentes a respeito do vírus da raiva", disse o velhinho simpático com quem eu falava. "E esse será o desafio de vocês: como fazer esse vírus se tornar tão mortal quanto o da gripe espanhola, mas sem perder a possibilidade de controlá-lo com uma cura".
Mãos suadas, hiperatividade e T.O.C. com as mãos: eu estava parecendo uma terrorista antes de explodir a bomba amarrada em minhas costelas. O Alex parecia extremamente desgostoso, torcendo o nariz e cruzando os braços, e vendo-o de novo nessa situação, entendi porque o achei meio gay logo de cara. O único que parecia estar realmente mais calmo depois da reunião era o Adam, que aparentava estar e bem confiante. E essa foi a imagem que ele passou por meses. "Mas, senhor, por que justo o vírus da raiva?"
O velhinho sorriu, um sorriso ambíguo, com segredos pelos cantos cínicos de sua covinha aprofundada pela idade e olhos que brincavam com as expressões de inquietação. "É simples, meu caro", disse ele. "A raiva é controlável, mas mortal por uma característica peculiar no vírus: ele ataca o cérebro, mesmo que indiretamente, e isso o deixa muito mais fácil de torná-lo ainda mais mortal. E, mesmo que não mate, duvido que um soldado continue a lutar com sequelas."
"Ele ataca o cérebro"...
"Ainda mais mortal"...
"Continuar a lutar com sequelas"...
"Cérebro"... "Mortal"... "Sequelas"...
– Puta que pariu – foi a primeira coisa que disse assim que abri os olhos.
Meu corpo inteiro latejava, e a minha cabeça rodava um pouco. Algumas imagens do sonho atropelavam-se no meu subconsciente, e isso tornava as coisas mais difíceis. Tentei me levantar umas duas vezes, mas não foi a melhor ideia que eu tive na vida. Meu pulso direito ainda doía pelo murro que dei no Joe, e meu antebraço esquerdo doía pelos arranhões do infectado.
Ah, não, o infectado! Senti todo o meu sangue entrar em combustão naquele momento, e as ideias mais absurdas passaram pela minha cabeça. Será que eu vou me transformar?! Puta merda, por que isso foi acontecer? Por que eu saí da cabana naquele dia? Será que o grupo vai me matar? Não... Se eles quisessem isso, já teriam me matado, e com certeza não gastariam as poucas gazes que tinham para enfaixar as minhas feridas, não é? Parei de me agitar em agonia e respirei fundo, pensando no que ia fazer agora.
A minha falta de mobilidade irritava-me profundamente. Tentei gritar por alguém, mas isso me lembrou da última vez que eu estava sozinha e barulhos estranhos começaram. É, deixa pra lá, eu me viro. Apoiei-me no meu braço esquerdo, cujo estado era menos crítico, e me estendi até ficar sentada com, pelo menos, o tronco ereto. Minhas costas doíam e me espreguiçar não parecia ser uma ideia mais inteligente do que tentar me levantar de uma vez. Para eu estar naquele estado, ou tomei uns remédios bem fortes, ou dormi bastante. Analisando a minha situação e recuperando aos poucos a minha memória dos últimos acontecimentos, eu poderia estar pior. O que é bom, tratando-se de mim. Por sinal, tenho que agradecer muito ao Adam e ao Alex por me ajudarem.
Ah, e por falar em ajuda...
Finalmente o Joe está de volta, mas eu não sei se devo considerar isso uma boa notícia. Esse bastardo saiu sem falar uma palavra com a gente, aparece do nada e fica tirando pose de fodão. Mas, ainda assim... Ele salvou minha vida, e me sinto extremamente aliviada por tê-lo por perto de novo. O Joe é um eterno paradoxo, e eu simplesmente não sei como lidar com ele.
Assim como qualquer homem que eu conheço.
Ah... Por que eu sou tão ruim lidando com o sexo oposto? Talvez eu seja um eterno paradoxo, e não eles.
– Pelo visto, o toco de gente acordou — uma figura masculina entrou no meu quarto improvisado com um prato de comida. Não precisei analisar muito para reconhecer aquele rebolado único.
– Eu até te daria uma boa respostada, mas se tem comida, tem minha amizade, Lexy.
– Mesmo completamente debilitada, você só pensa em comida. Depois fica ai reclamando que está gorda. E Lexy o caralho, eu sou um homem, não uma prostituta de esquina — esse sotaque de Wisconsin era inconfundível, sem falar que só existe um único homem que tem a coragem de me chamar de gorda. Ou melhor, um homo.– E por falar em debilitada... Menina, você está acabada!
– E o que você queria? Que eu acordasse pra tomar banho?
– Seria uma ideia interessante.
– Alex, você é um sem noção.
– Sem noção? Faz ideia do cheiro de putrefação em que este quarto se encontra?
– Homem fresco. Isso é, se eu posso chamar de homem.
Alex me fuzilou com os olhos e eu sorri satisfeita.
– Vejo que você está ótima. Vou dar esse prato de carne cozida uma pessoa mais necessitada — e se virou, levando com ele o prato mais cheiroso que eu já vi (o que a quase-morte não faz com uma pessoa?).
– Não! Você é macho! Muito macho! Deixa Chuck Norris sem testosterona! — Falei tudo ao mesmo tempo, sem me importar com o que iria sair da minha boca.
Por mais que tenha sido uma mentira grande — e das boas -, o Alex pareceu extremamente satisfeito, e trouxe a bandeja com a comida para o meu colo.
– Você é uma péssima mentirosa, sabia disso?
Assim que eu pus a primeira garfada na boca, eu ignorei tudo. Ignorei a dor, o enjoo, a dor de cabeça, a confusão, o meu sonho bizarro... Tudo. E olhe que a comida nem estava tão boa assim: o feijão parecia uma sopa de pedrinhas, o arroz estava mais grudado que arroz de japonês e a carne... Não parecia ser Friboi. Mas quem disse que eu me importava?
Essa é a melhor comida que comi em toda a minha vida.
– Sabe, eu tenho pena de você. — Minha espinha gelou. É só alguém falar que tem pena de mim, independente da situação, que eu explodo. — Desde a nossa fuga do posto de triagem, você foi a única que não comeu nada.
– Tinha mesmo que usar a palavra "pena", não tinha? — Falei entre garfadas.
– É porque você ainda não viu o seu estado, querida. — Seu tom era de nojo, ou até mesmo desprezo.
Estava pronta para retrucar, até que eu parei para pensar no que o Alex falou. "Desde a nossa fuga do posto de triagem..." Nossa, é mesmo, eu quase me esqueci de toda aquela confusão.
– Ei, Alex, — abaixei o garfo e olhei fixamente para um ponto qualquer, tentando me lembrar dos fatos ocorridos na noite da fuga — o que você acha que realmente aconteceu no posto?
Alex olhou para mim com certa cautela, até que se levantou e foi pegar um balde cheio d'água e um pano limpo. Trouxe-os até mim e começou a esfregar de leve a minha testa com o pano umedecido.
– Está tendo alucinações, Sammy? Você sabe o que aconteceu, aqueles... Aqueles... Monstros nos atacaram.
– Os infectados?
– Não, os militares! — Dava para ver ele se exaltando. — Aqueles brutos eram exatamente os que estavam nos barrando da primeira vez que chegamos lá, e eles não pareciam muito felizes conosco desde o primeiro segundo!
Alex irritado com algo (ou alguém) é simplesmente a coisa mais fofa e engraçada que alguém poderia ver. Seu rosto, geralmente pálido, torna-se rosado, o azul dos seus olhos fica mais intenso e a sua postura ganha mais rigidez. Ele parecia uma menina de dez anos falando do menino chato que puxava o seu cabelo na escola. E eu amava isso nele.
– Nossa, você detesta mesmo aqueles caras — falei meio que ao vento, me divertindo com a moça torcendo o pano no balde.
– Mas é claro, Sam! Eles tentaram matar a gente! — Ele disse, indignado, achando um absurdo eu não concordar com ele.
Não que eu não concorde, mas chamar uma pessoa de monstro a essa altura do campeonato não me parece ser o julgamento mais coeso a se fazer. Se bem que... Quem sou eu pra falar alguma coisa, né?
– Mas os zumbis estão constantemente tentando matar a gente, e você nunca os chamou de nada parecido.
– Zumbis... – Praguejou baixo, pousando os olhos no balde e na água que lá se mexia. — É diferente. Eu não fiz nada para aqueles bárbaros me atacarem. Já os infectados... Eles não podem controlar as suas ações, são movidos pelo instinto. E, mesmo se tivessem plena consciência do que fazem, eu não os julgaria se viessem atrás de mim. Eu fiz isso para eles, e eles não fizeram nada para merecer a praga que os foi rogada. Isso é uma maldição, para eles e para mim — ele continuou imóvel, enquanto as suas palavras martelavam em minha cabeça...
"Isso é uma maldição.”
Pensei em dizer que, ao transformar entes queridos dos militares em sacos se carne ambulantes, nós fizemos algo para eles também. Mas decidi calar a minha boca e não gerar uma crise existencial no Alex.
Analisando-o agora, parado, ele estava mais mudado do que eu pude notar. Fletcher não tem a sua masculinidade duvidada à toa; ele é o homem mais charmoso, bem-vestido, arrumado e radiante que conheço. Sempre emanou uma presença graciosa, sutil e agradável que me confortava quando eu precisava. Mas agora parece que a luz natural que ele tinha foi se apagando aos poucos. Seu estado físico quase precário mostra o quão desgastado ele estava, e isso sem falar do seu rosto — abalado e nebuloso.
– Alex... Não foi culpa sua, eu qu...
Ele me interrompeu levantando a palma de sua mão direita para mim.
– Samantha, basta. A última coisa que eu quero ouvir é "não foi culpa sua, foi culpa de todos nós. Vamos dividir ela?"
– Na verdade, eu...
– Eu não quero saber. Fim de papo! — Alex deu dois tapinhas no rosto, pegou o pano molhado e tornou a esfregá-lo, agora em meus braços, mas sem metade da graciosidade anterior.
– Ai! Para uma lady, você esfrega bem forte.
– Lady, é? — Ele esfregou com ainda mais força, e eu pude sentir a minha pele esfolando.
Mesmo com os meus protestos e gemidos de dor, ele continuou.
– Isso é para você aprender a me respeitar! — Grunhiu para mim.
– Vai precisar de mais que um pano molhado para isso! — Repliquei.
Por fim, ele enrolou a toalha e começou a me "chicotear" com ela, mas não tão forte.
– Seu grosso! É assim que você trata seus pacientes?
– É assim que você trata seus médicos?!
– Hm... Touchè, milady.
Sorri como uma criança levada, fazendo com que ele me encare com os olhos semicerrados e com ar de negação.
– Você não toma vergonha na cara mesmo, não é?
Ambos rimos e, depois, deixamos que um silêncio confortável pairasse no ambiente. Eu tinha muitas coisas para pensar, e uma delas era o que aconteceu no posto de triagem.
Depois que eu e Joe escutamos a conversa entre os dois oficiais, que não gostaram da nossa chegada, eu me senti um pouco tensa. Ainda mais quando o Joe sumiu... Tantas coisas passaram pela minha cabeça, até mesmo que ele poderia estar morto. Dava para notar que o nosso ruivo não era o membro mais bem-vindo pelos militares, e não me surpreenderia em nada se ele fosse o primeiro a ser caçado.
Mas por que estávamos sendo caçados? Nós somos a única chance de achar a cura, não faz sentido querer nos matar! A menos que... Sim, eles podem estar atras da gente por termos começado essa porcaria de infestação. É indiscutível que a epidemia deixou os EUA mais vulneráveis a ataques inimigos, e esse é um bom motivo pra querer nossas cabeças penduradas em praça pública. Isto é, se ainda houvesse praças.
E é muito estranho... Quando fomos abordados pelos militares, foi exatamente o momento em que houve uma crise nos infectados dentro da triagem. A sincronia chegou a ser assombrosa, só não parei para analisar a situação direito porque estava muito ocupada salvando a minha pele.
Desde então, o nosso "pequeno grande" grupo vem tentando escapar da considerável horda que está no nosso pé desde o posto. E foi aí que eu caí e me quebrei toda, porque, claro, eu tenho um porte super atlético. E uma coordenação motora de dar inveja. Ao menos o meu pulso parece estar melhor, já que ele se move. Dói como a peste, mas move. E a minha perna... Bem, digamos que esteja na mesma situação.
– Prontinho, agora você parece mil vezes mais apresentável — disse o Alex, terminando de arrumar o meu cabelo em um rabo de cavalo. Sua voz parecia meio falha, e então eu decidi olhar para trás para ver se ele estava bem.
Alex estava com as bochechas e o nariz corados, um ar de choroso, porém terno. Olhava para mim com muito carinho enquanto passava a mão pelo meu cabelo.
– Lex, tá tudo bem?
– Oh, Sammy! — Ele desabou em um abraço bem apertado. — Nunca, nunca mais faça isso comigo!
Por essa eu não esperava.
– Mas... O que foi que eu fiz? — Talvez ele realmente tenha ficado chateado com o "lady".
– Nunca mais faça nada estúpido e acabe quase morrendo, você só faltou matar a gente de susto! — Disse num misto de indignação e preocupação.
– Eu não sei se você ficou sabendo, mas isso só faltou me matar também!
– Então por que fez, sua burra?
Mas... o que?! Antes que eu pudesse retrucar, ele me soltou, sentou no chão e arfou pesarosamente.
– Depois que você desmaiou, esse lugar virou um verdadeiro inferno — a sua voz era vaga, e ele olhava para todos os cantos, menos pra mim. — A cada hora que passava, a Nat ficava mais assustada e insistia mais na possibilidade de... bem, de matar você.
Me matar...? Não, você só pode estar brincando, Alex, a Nat nunca... Se bem que ela foi a primeira a sugerir o meu "sacrifício". Eu não acredito... Nós éramos um time, e ela queria me abandonar!
Alex provavelmente notou a minha agitação, e completou antes que eu pudesse abrir a boca para amaldiçoar aquela cobra da cabeça aos pés.
– Sam, não leve isso para o pessoal...
– Como não levar isso para o pessoal, Alexander?! Essa vadia louca me queria morta! — Gritei um pouco mais alto do que eu queria.
– Samantha, compreenda a linha de raciocínio dela! Você estava desacordada, febril, e sangrando muito. A chance de você se transformar era absurdamente grande, e você sabe disso. Ela só não queria ver você se transformar naquelas coisas horrorosas...
– À porra que Shilabtz se importava com a minha aparência, ela se importava é com a pele dela!
– E isso também! Pelo amor de Deus, mulher, estávamos todos com medo! — Esbravejou.
Eis um lado do Alex que eu não conhecia: o lado mais puto. Seu cabelo estava desgrenhado, seus gestos e voz estavam mais agressivos e sua feição estava contorcida em uma face dele que eu até então desconhecia. Tremi com aquela visão. Podia não ser a pessoa mais assustadora do mundo, mas é tão incomum ver o Alex puto assim que chega a te deixar um pouco perturbado.
Percebendo o meu silêncio incomum — já que estávamos em uma discussão, coisa em que eu sou geralmente boa — Alex suspirou e pressionou o indicador e o polegar na ponte do nariz, tentando recuperar a calma.
– Sam, faz ideia do quão difícil foi sentar todos em uma mesa e discutir quem te mataria caso se transformasse?
É, por essa eu não esperava.
– Então... Vocês realmente estavam planejando me matar?
– Estávamos tentando estar preparados para tudo! Samantha, qualquer coisa podia acontecer, e tudo era muito aterrorizante. À noite, você gemia alto, chegando a ranger os dentes, e isso fazia a Avery chorar. Não dormimos, só cochilamos um pouco quando as coisas se acalmavam. A cada hora que passava, você parecia afundar mais nas cobertas, sem dar sinal de que ia acordar. Não tínhamos equipamento nenhum para manter você nutrida se continuasse a dormir por mais tempo. E o Adam já estava ficando louco! Quanto mais morta você aparentava, mas dele parecia morrer junto...
Ei, espera aí...
– O Adam... Ele estava mesmo tão preocupado assim?
– Há, você só pode estar brincando! — Disse em um tom irônico. — O Adam era um dos que estavam mais desesperados, e isso só deixava a Natasha mais louca. Eles tiveram uma DR brutal, e só voltaram a se falar hoje de manhã porque "se via necessário", como o próprio Adam disse.
Wow. Eu sabia que era amiga do Adam, mas acho que não tinha total consciência do quanto eu importava para ele.
Não vou mentir e dizer que essa notícia não me deixou feliz — ele se importa comigo! -, mas também não vou mentir e dizer que isso não me preocupa.
E daí? Ele se importa comigo.
É, mas, querendo ou não, eles são um casal, e se eles terminarem agora com certeza deixará um clima pesado no grupo. Sem falar que precisamos estar completamente unido se quisermos sobreviver.
Então... não importa se ele se importa comigo?
Isso mesmo, Samantha, não importa.
Enquanto eu tinha uma séria discussão moral comigo mesma, Alex falava loucamente, sem notar que eu não prestava atenção.
– Entendeu tudo, Sam? — Perguntou, nervoso, me puxando pelo braço.
– Hã?
– Pronto, agora é só botar na sua cabeça e viver com isso.
– Isso o que, Alex? — Ele já segurava a maçaneta da porta quando eu me agarrei à parede e o obriguei a parar de me puxar e olhar pra mim — Alex, me explica isso direito!
– Samantha, não temos tempo! Avery escutou você falando! — Ele parecia assustado, mas... Só por isso?
– E o que é que tem? Eu sei que não sou a maior fã de crianças, mas dela eu até gosto e...
– Não, Sam, calada! Você não está entendendo! — Ele se agitou todo, e ai eu escutei uma manada de passos vinda em nossa direção.
Que merda é essa?! , pensei enquanto me libertava das mãos de Alex e recuava alguns passos. Alex se virou para mim e fez aquela cara de "Corre, vadia", mas... Para onde?! No auge do meu desespero, a porta se abre e cinco corpos entram atropelando tudo pela frente, inclusive o Alex. A única coisa que eu escutei foram gritos desesperados, e eu nem gastei meu tempo tentando entender a cena, apenas me virei e corri para o lado contrário. Choquei-me contra a parede, me encolhi e fechei os olhos, cobrindo a cabeça com os braços e pus-me a gritar e a chorar. Puta que pariu, velho, eu acabo de me recuperar de um ataque pra sofrer outro!
Demorei uns cinco minutos naquela posição, encolhida, até notar que tudo em volta estava silencioso, exceto pelos meus gritos. Fiquei em silêncio por mais um tempinho. O que... Mas... Eu jurava que um amontoado de corpos invadiu o quarto...
Aos poucos, fui abrindo os olhos. Mesmo lugar onde parei.
Tirei os braços da cabeça e os examinem. Inteiros.
Mas... Como pode ser? , me perguntei enquanto olhava para trás. E então eu vi...
...Adam, Natasha, Joe, Avery e Carter, todos olhando para mim num misto de felicidade e espanto. Tentei pensar em algo bom para confortá-los, mas o melhor que consegui foi:
– Oi...?
– SAM! — Gritaram todos, em uníssono.
A sincronia se foi em questão de segundos, e todos começaram a fazer perguntas ao mesmo tempo. "Como você está? ", "Acordou bem?", "Tá com vontade de me morder?", tudo ao mesmo tempo. Só que, com esse rápido acesso de adrenalina proveniente do susto, meu corpo não respondeu muito bem. Na verdade, estava quase não respondendo mesmo. Fechei os olhos e tentei respirar fundo, e fui sentindo o corpo mais pesado, mas distante. A última coisa que eu lembro foi a sensação de braços me envolvendo e me tirando do chão.
Acordo menos tonta do que da primeira vez. Uns fiapos de luz indicavam que o dia já estava chegando ao fim, e que dessa vez eu não dormi tanto, ou então que o dia estava apenas começando, e que eu dormi mais do que esperava. Meu corpo ainda estava moído, mas eu já me sentia mil vezes melhor. Espreguicei-me e levantei com um pouco de dificuldade. Minha cabeça latejava de leve, mas nada muito diferente do que sempre acontece quando eu durmo à tarde. Com certa moleza, tentei colocar-me de pé, mas fui impedida por um braço grosso e forte, que segurou o meu pé.
– Ei, ei...Tem certeza que já pode se levantar? Não queremos que você apague de novo.
Aquela voz rouca, grave e — agora mais do que nunca — reconfortante soou no quarto seguido de um silêncio brutal.
Segui o braço até chegar aonde eu esperava... no rosto de Joe. Ele parecia mais abalado do que nunca; olheiras profundas, rugas mais acentuadas e toda a sua postura demonstrava cansaço. Assim que encontrei os olhos esverdeados, ele sorriu pra mim como um pai sorri para o filho que fez um cartão à mão de dia dos pais. É engraçado como aquele homem, bruto e indelicado, poderia me passar a imagem de um pai gentil e atencioso.
Eu não sei quanto a Laureen, mas eu estaria sentindo muita falta desse cara se fosse ela.
– Um centavo pelos seus pensamentos? — Disse ele, ajeitando-se para ficar completamente de frente para mim.
– Eu dormi por mais dois dias? Caso sim, pelo amor de Deus, deixe-me tomar um banho.
Joe riu, como se já esperasse isso de mim, e eu sorri junto. Não é que o diabo desse cara fez falta? Deus sabe o que faríamos se ele estivesse realmente morto como achávamos.
– Não, você dormiu só o resto da noite. — Ou seja, deve estar amanhecendo. — Por sinal, eu trouxe o seu café da manhã — Joe sentou ao lado do meu colchão inflável, e pôs um prato no meu colo. — Bem, não é exatamente café da manhã, porque isso daqui é feijão enlatado com um arroz mal cozido e algo parecido com uma carne, mas dá pra engolir.
Eu olhei para o prato, depois para Joe. Não estava com fome, mas estava louca para saber o que raios ele estava fazendo durante os dois dias em que sumiu.
– Onde você estava?
O olhar do Joe passou de gentil e caloroso para um sério e frio, até que ele decidiu parar de me encarar. Toda a sua musculatura dos ombros se tencionou e ele passou a mão no rosto.
– Olha, eu ficaria muito feliz em não falar sobre isso.
Sem perceber, sentei ao seu lado e pus a mão em seu ombro.
– Joe, não acha que já deu de fazer-se de "durão"?
– Lá vai você com essa conversa de novo... — Ele se remexeu, livrando-se da minha mão.
Arfei. Acho que é mais fácil lidar com a Avery do que com ele.
– Qual é, Joe, nós dois sabemos que tudo fica melhor depois que você... Divide a tensão com alguém.
– Você não precisa de mais tensão do que já tem — murmurou.
– Mas essa é a ideia de dividir. Você conta comigo, eu conto com você e, assim, nós não nos sobrecarregamos com nossos problemas.
– Ah, claro, essa ideia é brilhante. Além de ter os nossos problemas, nós ainda temos os problemas dos outros — sua voz era ríspida. Ele estava completamente na defensiva, e parecia que estava mirando todas as suas armas em mim.
Mas eu não tenho muita paciência pra isso.
– Tá certo, velhote, vamos fazer do seu jeito. Vamos ambos conviver com apenas nossos problemas e ignorar uns aos outros – disse da mesma forma que ele o fez.
Deitei-me de forma dramática e violenta – coisa da qual eu me arrependi logo em seguida – e virei-me para o lado contrário ao dele, aninhando-me nas cobertas.
– Finalmente você entendeu que... – A sua voz foi sumindo de acordo com que sua cabeça foi virando para encarar-me. – Mas você pode me contar o que quiser.
– Ah, muito justo, isso! – Ergui os braços, mostrando a minha indignação. – Por que eu posso falar e você não?
– Por que eu estou acostumado com situações tensas. Eu sou um veterano de guerra, garotinha, não queira se comparar a mim. — Disse, soando estranhamente compreensivo.
– Bem, você que não queira se comparar a mim! – Acusei-o, levantando-me e pondo o indicador em seu rosto.
Ele olhou o meu indicador, depois para mim, depois para o indicador de novo e o abaixou. Pensei que ele iria estar irritado com a minha "revolta", mas ele estava rindo como se eu estivesse fazendo algo bobo. Bem, quem está irritada agora sou eu!
– E por que eu não deveria me comparar a você, pequena garotinha? Por acaso você tem alguma história mais dramática do que meter o fuzil na cara de mais de quarenta soldados? Esse é um recorde que ninguém da minha equipe conseguiu superar, por sinal.
Uma história mais... dramática? Vish, eu não tinha pensado nisso. Eu teria algum momento mais marcante do que matar mais de quarenta soldados com um fuzil?... Caramba, eu esqueci que eu sou uma nerd de merda que nunca fez nada de emocionante na vida. Hm, talvez não toda a minha vida...
– Eu criei a bomba que transformou as pessoas nessas coisas. Eu sou diretamente responsável por mais de quarenta mortes, com certeza.
Joe arregalou os olhos e me encarou com uma cara de "você tem noção da porra que acabou de dizer?", mas eu ignorei e sustentei a minha pose. Na verdade, eu não pensei muito no que estava falando, eu só deixei qualquer bom argumento sair — como eu sempre faço. Talvez eu devesse começar a usar a cabeça para pensar nas coisas que falo, não só para criar fórmulas em laboratórios... Mas essa é uma discussão para um outro momento.
– Poxa... Acho que essa realmente foi foda. Você deve ser muito forte por aguentar tudo isso, pequena.
– É isso ai, eu... — Interrompi a minha linha de pensamento para focar em um detalhe...
...Eu nunca tinha pensado nisso.
Tudo à minha volta congelou e eu tive quase uma parada cardíaca. Meu Deus, eu sou um monstro...! Todas as imagens dos Doentes começaram a passar na minha mente, os que nos perseguiam, os que devoravam um corpo na rua, os que nós matamos... Eu trouxe infelicidade para inúmeras famílias apenas com um único erro experimental. Eu comecei uma epidemia e nunca tinha parado para pensar nisso. Eu matei tanta gente, seja pela transformação, pelos próprios Doentes ou por mim, matando-os um a um para me proteger. Eu posso ter matado um pai de família. Eu posso ter matado uma porrada de pais de família. Eu posso ter matado o meu pai!
Ah não... Minha família!
– Caralho, caralho, caralho! — Gritei enquanto me jogava de novo na cama inflável e me cobria até a cabeça. — Eu sou um monstro!
– Sam, se acalma! — Joe gritou pra mim, me sacudindo e tentando me descobrir. [hehehe, "descobrir" -v- o Joe não perde uma ♥]
– Um monstro! — Gritei de novo, para ver se ele se tocava do que eu estava falando.
– Samantha, para de gritar!
– Que desgraça, Johhan, eu sou um monstro! Minha família pode estar morta, completamente, e é tudo culpa minha!
Assim que eu terminei de falar, ele me descobriu [hehehe ♥] e tentou tapar a minha boca. Eu comecei a me debater, espernear e a gritar mais ainda. Como última alternativa para me fazer parar de berrar, ele montou em cima de mim, travou-me com as pernas – dez vezes mais fortes que qualquer parte do meu corpo... ou do meu corpo inteiro – e tapou a minha boca com as duas mãos.
– Nunca, nunca, mais fale "desgraça" na minha frente, ouviu mocinha? Nossa, eu odeio essa palavra – praguejou, mais para si mesmo do que para mim. – E pare de gritar. Não perca o controle assim, Sammy, isso só piora quando você ten...
Joe foi interrompido por um barulho de porta sendo aberta – de forma bem rude, vale destacar. Adam entrou no quarto como um raio, e assim que nos encarou, ficou petrificado. Seus olhos se arregalaram e uma máscara de horror se formou em seu rosto. Cara, eu tô tão feia assim? Quando o horror cedeu espaço para a raiva, eu entendi o que ele estava pensando.
Eu estava gritando como uma louca e, quando ele entra para ver se está tudo bem... depara-se com o Joe montado em mim. Que maravilha.
Num piscar de olhos, todo o peso do Joe sumiu, e a imagem borrada de um Adam transtornado voou por cima de mim, derrubando Joe no chão ao meu lado.
– Mas que porra você tá fazendo, seu puto! – Gritou o Adam, em meio a algumas tentativas falhas de socos.
– Eu é que pergunto, moleque, sai de cima de mim! – Gritou o Joe em resposta.
Depois de mais algumas tentativas de soco por parte do Adam, Joe fez um movimento muito estranho com a perna – sério, eu mal vi o que ele fez – e inverteu as posições. Agora que ele estava no controle, foi mais fácil imobilizar o Adam e tentar... Conversar. Se é que o Adam estava disposto a isso.
E claro que, com toda aquela gritaria, todo o resto dos integrantes desse nosso grupinho super unido veio ver o que estava acontecendo. O primeiro a surgir foi o Alex, que parou ao lado da porta e sussurrou um "Meu Deus" tapando a boca. Depois a Nat, histérica, gritando para os dois pararem com isso. O Carter não disse nada, mas o olhar de desgosto era palpável, quase. E a Avery... Bem, ela estava fazendo o que toda garotinha de nove anos faz quando vê uma briga séria entre dois homens: começou a torcer pelo que estava ganhando – o Joe, no caso.
– Parem! Parem com isso agora! Adam, largue logo esse homem! – Gritou a Nat, num misto de raiva e preocupação.
– Você deveria ouvir a sua mulher, florzinha! – Gritou o Joe, atiçando mais ainda o Adam.
– Vai pra merda, velho brocha! – Devolveu o Adam.
– Brocha? Meu dedo do meio é mais viril do que esse graveto que você deixa guardado na calça, pirralho!
Ok, o Joe pegou pesado. Mas foi uma resposta muito boa.
Pude observar Carter cobrir as orelhas da Avery enquanto sua cara se distorcia mais ainda em desgosto.
– Já chega, vocês dois! Caralho, que saco, não dá pra começar a agir como adultos e dialogar?– Interveio o Alex.
Joe encarou o Adam por alguns segundos com o olhar de "tente alguma coisa e você terá o round 2" e soltou os seus braços, levantou-se e foi para o outro lado da cama. Adam passou o dorso da mão direita na boca, levantando-se com o olhar fixo no Joe que dizia "vai ter revanche". O silêncio dominou o pequeno quarto por alguns segundos.
– E então, quem quer começar a falar? — Perguntou o Alex, pela primeira vez com uma pose de homem que me surpreendeu. O que o caos não faz com um gay?
– Esse desgraçado estava tentando se aproveitar da Samantha! – Gritou o Adam.
Não vou mentir, eu fiquei meio chocada. Quero dizer, eu deduzi que tinha sido isso quando ele avançou no Joe, mas... Não sei, eu acho que eu esperava mais do Adam. Querendo ou não, isso foi meio infantil. De certa forma fofo, porque ele se preocupou comigo, mas ainda assim infantil.
– Desgraçado? Vai se foder, Adam! Você não sabe o que estava acontecendo, então cala essa boca e vai ter outra DR com a russa que a gente ganha mais! – Devolveu o Joe.
Eu tenho a leve impressão – bem de leve – de que o Adam e o Joe discutiram algumas vezes enquanto eu dormia.
– Olha aqui, Heffman – começou a Natasha. Ela usou o sobrenome, isso não tá ficando nada legal... – Eu acho melhor você ficar de boca fechada e pensar duas vezes antes de falar de alguma coisa sobre o meu relacionamento com o Adam, me ouviu bem?
– Relacionamento? Há! Eu diria alguma coisa, se tivesse um relacionamento em questão! – Joe foi muito mais agressivo que o normal, usando muito mais ironia e sarcasmo. E, quando ele começou a rir da situação, eu soube que nós teríamos muitos problemas mais tarde.
Cara... O que raios deu neles? Eu durmo por alguns dias e o grupo já quer se matar?
– Olha aqui, seu... – Ela foi interrompida por Adam, que a puxou pelo braço com mais força que o necessário.
– Natasha, cala a boca. Essa briga não é sua – falou em um tom baixo, mas bem mortal pra mim.
Nat o olhou com espanto. Certamente, ela não esperava que o Adam se voltasse contra ela só porque ela estava o "ajudando", ou assim a Nat pensava.
– Mas, Adam, ele está falando do nosso relacionamento!... – Falou, indignada e com o olhar de vítima que ela sempre faz quando tudo começa a dar errado.
Adam, já bem puto da vida, apenas a segurou com mais força – dava para ver a pele em volta dos dedos dele ficar esbranquiçada – e disse com firmeza:
– Eu não vou repetir. Essa. Briga. Não. É. Sua. – Ele disse bem pausadamente, provavelmente para ver se ela entendia.
Por um lado, eu entendia a Nat. Quando vemos a pessoa que amamos numa briga, é bem natural que queiramos entrar nela para ajudar. Mas, por outro lado, eu entendia o Adam. Ele certamente é muito orgulhoso – demais da conta – e ver a namorada dele entrar numa briga pra o ajudar... Bem, eu acho que o orgulho masculino de nenhum homem iria gostar disso. E vamos adicionar que o cara estava numa briga há alguns minutos atrás. Darei um prêmio pra quem troca alguns socos e depois consegue voltar à racionalidade em um tempo tão curto.
– Acalmem-se, vocês dois – disse o Alex, mais uma vez tentando restaurar a paz. Mas ele parecia bem cansado também, e para ele estar assim... – Eu já vi que tentar dialogar agora não vai funcionar muito bem. Que tal cada um dar uma volta, esfriar a cabeça, e ai depois nós conversamos?
Sabe, nós não éramos tão próximos assim, mas eu não lembro de ver tanta discórdia antes de desmaiar. Eu imagino o que aconteceu nesses dias em que eu apaguei.
Todos começaram a se encarar, quase que se estranhando. Nat, em especial, parecia olhar para todos como se cada um tivesse espetado uma faca nela. E então ela parou em mim e me olhou fixamente. Sério, eu senti um calafrio dos infernos nas minhas costas.
– E você, querida Sammy? Por que não falou nada ainda? – Sua voz era sarcástica, de uma forma que nunca foi antes.
– Porque... A "querida Sammy" está sem palavras...? – E dei de ombros.
Quando ela estava prestes a falar a frase que estava presa em sua garganta, Joe a interrompeu.
– Qual foi a parte do “fiquem calados e vão dar uma volta” que você não entendeu?
– Não fala assim com ela, velho! – Cuspiu o Adam.
– Olha quem fala, príncipe encantado – devolveu o Joe. — Você ainda está fedendo a álcool, garoto. Primeiro, fique sóbrio, depois pense em me dar ordens.
Adam deu dois passos avançando na direção do Joe, mas a Nat o impediu, segurando-o da mesma forma que ele tinha feito.
– Essa discussão não é sua, querido.
Adam arregalou os olhos e puxou o braço com força.
Mais uma vez, a sala ficou em silêncio. Alex suspirou e deu um passo à frente, ficando entre o Adam e o Joe.
– Por favor, vão dar uma volta. Pelo bem de vocês.
Os primeiros a sair foram o Carter e a Avery, sendo que esta estava sendo praticamente arrastada pelo avô. Depois foi a Nat, que não saiu antes de fuzilar cada um dentro do quarto. Depois foi o Adam, que nem se deu ao trabalho de esconder todo o seu desgosto pelo Joe. Assim que os quatro saíram, o Alex foi ate o Joe e deu um beliscão em seu braço.
– Ai, cacete! – Joe deu uma esfregada no local dolorido e mordeu o lábio inferior. – Não pense que só porque você age como uma mulher que eu vou te poupar.
– Há, há. Hilário – Alex revirou os olhos e cruzou os braços. – Agora fale sério comigo, que merda vocês dois estavam fazendo aqui?
Eu e o Joe nos entreolhamos por alguns segundos, até que ele desviou o olhar para o lado contrário a mim. Eu entendi isso como um “faça o que quiser”.
– Bem... Eu falei umas coisas que... Incomodaram o Joe. E também comecei a gritar, mas não foi por causa dele, foi mais por mim mesma. E talvez tenha sido por isso que o Adam tenha ficado tão assustado... – Comecei a mexer no lençol, evitando encarar o Alex. Não que eu tenha feito algo de errado, mas... De alguma forma, me sinto muito culpada.
– Certo, agora pule para a parte que nos interessa: por que o Joe estava montado em cima de você?
Joe bufou, como se estivesse contendo uma risada.
– Ele não montou em mim!
– Verdade, eu só imobilizei a garota – agora que estava mais relaxado, Joe parecia estar achando graça da situação, e com motivo. Esse mal-entendido foi um dos mais ridículos e mais polêmicos que eu já vi. – Não era minha intenção...
– Não era a sua intenção, mas era o que parecia! – Disparou o Alex.
– Ei Lexy, calma...
– Não me venha com “calma”, Samantha! E não me chame de Lexy, principalmente quando eu estou estressado – Alex começou a massagear a ponte do nariz novamente.
Pelo visto, ele não consegue se recuperar de uma discussão em grupo tão rápido quanto o Joe. Mais uma coisa em que o General, aparentemente, tem mais experiência que nós.
Eu dei alguns segundos para o Alex respirar. Como sempre foi uma pessoa tranquila e controlada, ele não está acostumado com conflitos e situações estressantes como essa. Por mais que seja duro, esta talvez seja a melhor forma de aprender a lidar com um grupo caótico: convivendo com um.
– A garotinha estava entrando em crise – soltou o Joe, do nada.
Alex levantou a vista para ele, meio confuso, depois olhou para mim. Ele me analisou de cima abaixo, e ter aqueles olhos escuros e afiados lendo-me não foi a melhor sensação do mundo.
– Por que estava tendo uma crise? – Perguntou genuinamente confuso.
– Eu estava conversando com o Joe. De alguma forma, acabamos falando sobre a culpa que carregamos do passado e... – Parei para respirar fundo e acalmar as minhas mãos, que estavam nervosas. – Percebi algo que eu não tinha percebido antes.
Alex franziu o cenho e fez um barulho com a boca, reprovando-me.
– O que? Descobriu que você está simplesmente assassinando um monte de gente com esse novo vírus? Bem, adivinha só? A gente já falou sobre isso antes, e você disse que...
– Não é isso, Alex! – Cortei-o. – Não percebe que podemos ter matado os nossos pais...? – À medida que eu ia falando, a minha voz ia sumindo e lágrimas surgiram nos meus olhos.
Alex ficou em silêncio absoluto, até que se virou e saiu pela porta sem falar nada. Acho que o restante de orgulho masculino que sobrou o impediu de entrar em pânico na frente de outras pessoas.
Depois de um longo suspiro, levantei-me da cama e fui procurar as minhas roupas – não quero nem saber de onde saiu este shortinho flanela e essa camisa incrivelmente folgada.
– Se você quiser, eu...
– Obrigada, Joe – o interrompi, antes que começássemos um diálogo – mas eu tenho quase certeza de que devemos “dar uma volta”.
Ele demorou os olhos em mim e assentiu. Colocou as mãos no bolso da calça e saiu sem dizer mais nada.
Arfei e voltei à procura de minhas roupas. Achei duas calças jeans, uma era skinny e a outra era um pouco maior do que o meu número. Optei pela maior, já que minha mobilidade pode ser crucial em uma fuga. Achei um cinto – ainda bem! – e também uma camiseta de pano grosso que se ajustou muito bem. Por fim, peguei a bota que eu estava usando da ultima vez e completei o meu belo “modelito”. Eu não estava nem um pouco bonita, mas isso não importa mais. Até porque eu não tenho motivos para ficar bonita... né?
Sai do quarto e fui checar como estavam as coisas. Passei na frente de um quarto e encontrei Natasha deitada em um colchonete no estilo futon, brincando de jogar uma bolinha na parede. Ela está tão entretida que eu acho que não vou atrapalhar. Mais adiante estava o Adam na “cozinha”, sentado numa mesa bebendo. Como detesto gente bêbada, simplesmente passei direto. Ele seguiu meus passos com os olhos e, antes que eu saísse, falou:
– Eu fiz toda aquela merda por você e você não disse nada.
Eu não pedi que você mexesse um músculo sequer.
– Desculpa Adam, eu estou tentando levar a “greve do silêncio” a sério – tentei me desculpar e sair.
Adam deu um sorrisinho amarelo e se esparramou na cadeira, completamente zonzo. Tá explicado o porquê de o Adam ter simplesmente partido para a briga com o Joe.
– Ah, fale sério, Sammy. Você? Fazendo greve de silêncio? O tempo que você passa calada é o mesmo tempo que o Alex gasta matando coisas... Vivas — disse, meio embolado. — Vai ter que concordar com o fato de que você é a garota mais fala merda no grupo. E olha que nós integramos uma garotinha de oito anos!
Eu o fuzilei com os olhos, me controlando para não voar em cima dele. Tinha uma resposta muito boa na ponta da língua, e quase a soltei, mas repensei. Eu não ia fazer justamente aquilo que ele estava me acusando de fazer.
Virei-me e fui em direção à porta, mas parei logo antes de sair quando o escutei falar de novo.
– O que foi? Tá irritadinha, é?
Parei e segurei na porta para me apoiar, com mais força que o necessário. Ele está bêbado, Sam.
– Pois saiba que eu tô puto também!
Ok, ele tá bêbado e puto.
– Você ficou só de vadia lá, só assistindo!
O... que?
– E ainda por cima ficou dando uma de touro mecânico pro velhote!
Como é que é?!
– E o Joe lá é cownboy pra saber montar?! Ele não sabe montar! Não tem boi na Europa!
Meu Deus, ele tá muito bêbado.
– Um dia eu ainda vou comprar a Europa! Vou montar em tudo! E vou montar em você também!
Respirei fundo e segui meu caminho, deixando um Adam muito puto com vontade de “montar em tudo”. Inclusive em mim. E na Europa. Como eu disse, ele estava muito bêbado. Ele acha que eu sou o que pra decidir se vai montar em mim ou não?
Saí da cabana e fui dar uma volta, tomando cuidado para não esbarrar no Joe e no Alex, que não estavam lá dentro. Também evitei ir para o lugar que fui atacada da última vez, embora o grupo provavelmente já tenha se livrado dos cadáveres. Achei um lugar bem tranquilo: uma pedra bem grande e lisa no meio de um matinho baixo e, mais afastada, estava a maldita floresta. Deitei em cima da pedra e deixei o sol queimar meu rosto um pouco.
Com os olhos fechados e sentindo o cheiro do mato, quase conseguia me enganar e acreditar que estava no sítio dos meus tios. As lembranças eram tão claras que eu quase podia escutar o barulho do rio correndo, dos pássaros cantando e do sino de vento da minha tia ao fundo. Conseguia escutar as risadas dos meus primos brincando na terra, me chamando para fazermos uma guerra de lama. Lembrava-me do meu tio pescando, e passando sermões sobre paciência e sabedoria, os quais eu sempre ignorava. Das plantações de verduras e frutas, com árvores enormes que eu e meus primos escalávamos.
E foi só abrir os olhos que todas as lembranças iam embora, escorrendo junto com o novo rio que as lágrimas abriam em meu rosto. Esse foi um choro silencioso, assim como tudo ali em volta. Por mais que meu peito já doesse bastante com a ideia de nunca mais ver algum dos meus familiares, eu sempre dou um jeito de piorar a minha situação. Acreditei num raio de esperança, que confortou a minha mente e me fez acreditar que é possível encontrar um de meus familiares – qualquer um – ainda vivo. E é isso que me mata. Pois, se eu não achar, não quero nem pensar em como o meu estúpido coração ficaria. Afinal, é culpa dele por acreditar em coisas impossíveis quando tudo começa a dar errado.
Suspiro alto.
As lágrimas continuam a escorrer, mas da minha boca não sai nenhum som. Do meu rosto não sai nenhuma feição, a não ser o reflexo do vazio em que me encontro. Começo a pensar na última coisa que uma pessoa deveria pensar quando se está na merda: no sentido da vida.
Para quê eu continuo nessa luta? Não há mais o que viver! Olha para o mundo! Você o destruiu, e apenas porque cometeu um único erro. Garota estúpida! Incompetente!
O fluxo das lágrimas aumentava gradativamente. Se eu continuar nessa autocrítica pesada, é bem provável que eu acabe me matando mesmo. E é isso que você quer?
Tentei focar minha mente em alguma coisa, mas nada parecia atrativo. Era como se o mundo fosse o espelho de como eu me sentia por dentro. Com as duas mãos, enxuguei as lágrimas e apertei meus olhos, numa frustrada tentativa de fazer com que aquele choro mudo, bobo, frio, parasse.
Pus-me sentada na pedra e olhei em volta. Algo naquelas árvores era reconfortante. Algo naquele cheiro era nostálgico. Algo naquele silêncio era acalentador. E algo naquela paz era perturbador.
Suspirei mais uma vez, tomando minha decisão. Eu vou viver. Vou viver para concertar toda a merda que eu fiz. Vou viver para acertar as contas com aqueles que morreram por minha causa. E não vou morrer até que eu viva a minha promessa.
Eu me sentia mais forte, mais confiante, só por ter o genuíno desejo de viver. Engraçado como todo o cenário muda quando uma decisão pessoal é tomada. É bom ter um tempo só para você para conseguir colocar as coisas no lugar. E por falar em por as coisas no lugar...
– Nossa, já está escurecendo... – Me espreguicei e pulei para fora da pedra, agradecendo por minhas pernas não estarem dormentes. – Quanto tempo eu passei deitada aqui?
– Tempo o suficiente para voltar a si.
Senti uma mão pousar em meu ombro. Como o esperado, era o Alex. Ele parecia estar bem mais tranquilo agora, e muito mais confiante também. Sorri para ele, num incentivo mudo, e ele retribuiu o gesto.
– Vamos lá para dentro? Tem algumas coisas que nós precisamos acertar.
– Ah, finalmente. Eu preciso muito... – Isso significa conversar com o Adam bêbado de novo?
– Por que está fazendo careta? Não quer ajeitar as coisas?
– Quero sim, é só que... o Adam... – Torci a boca em desgosto. Ele está pior que meu pai em Réveillon.
– Ah, entendo – ele tirou a mão do meu ombro e foi andando em direção à cabana. – Eu também o vi bêbado... Não foi algo muito legal. Mas vai ficar tudo bem, eu fiz ele parar de beber e está mais sóbrio agora... Eu espero – e deu de ombros.
Bem, uma hora ou outra eu terei de voltar, e é melhor ir agora, já que estão todos dispostos a se reunir. Ou algo parecido.
Segui o Alex até a cabana, tentando formular um discurso plausível para justificar o que aconteceu mais cedo, mas não estava conseguindo. Todas as desculpas que eu formulava não pareciam ser muito boas, e eu sempre fico parecendo uma retardada. Talvez seja porque eu sou mesmo uma...
Afinal de contas, por que eu comecei a gritar?
Chegando na cozinha – o maior “cômodo” da cabana – todos já estavam reunidos. Adam continuava sentado à mesa, mas agora sem nenhuma bebida. Parecia estar incrivelmente desconfortável, e seu rosto estava mais avermelhado do que o normal. Natasha estava encostada na parede perto do corredor, no lado oposto da porta, ainda aborrecida e mal-humorada. Joe estava em pé perto da porta, parecendo calmo, mas gélido também. Carter estava na entrada do corredor segurando a Avery pelos ombros, como se ela fosse fugir a qualquer instante. Era estranho... Como o mais velho, é de se esperar que ele tome alguma posição ou assuma o controle da discussão, mas ele estava calado. Velhos nunca ficam calados, eles sempre tentam passar sermão.
– Bem, agora que estamos aqui, podemos finalmente... – O Alex já começou o discurso sendo cortado. Mau sinal.
– Tudo que você fizer vai ser inútil – Nat deu de ombros.
– Será que você não pode simplesmente calar a boca e escutar o que os outros têm a falar? – Retrucou o Joe, mas sem a rudeza de mais cedo. Ele só parecia estar cansado e querendo acabar logo com isso.
Natasha cerrou as mãos em punhos e olhou para o Adam, esperando uma ação dele. Mas o Adam apenas desviou o olhar e apoiou a cabeça na mão sustentada pela mesa.
– Não espere que eu faça alguma coisa, baby, essa briga é sua – respondeu ele, em uma voz vazia, e isso fez com que toda a expressão de raiva da Nat fosse tomada por uma tristeza instantânea.
Carter se remexeu em seu lugar e arfou. Ele estava muito puto, isso era bem visível.
– Dá pra vocês apenas me ouvirem? – Alex disse num fiapo de voz. Foi só entrar naquela cozinha que toda a postura determinada que ele tinha se desfez.
Todos se calaram. Alex arfou e se recompôs, mas ainda assim não parecia nem um pouco disposto a continuar aquela conversa.
– Primeiramente, gostaria de parabenizá-los pela greve do silêncio. Alguns de vocês – Alex encarou o Adam, que apenas desviou o olhar para a mesa – não conseguiram se segurar muito bem. Ainda assim, foi um deslize breve.
– Certo, agora vamos para a parte que me toca – disse o Joe, impaciente, com a cabeça baixa e passando a mão pela nuca.
Alex o encarou com certo desprezo e revirou os olhos. O clima ia de mal a pior, e todos estavam exaustos. O que raios o Alex acha que pode fazer em relação a isso?
– Olha, foda-se. Vocês estão levadinhos demais para ganhar parabéns... se é que o merecem. Querem pular para a parte mais interessante? Certo.
Ele fez alguns segundos de drama, e também para tomar fôlego.
– Fala logo, Fletcher! – Disse um Adam impaciente, segurando a cabeça apoiada pelo braço como se ela pesasse mais de cinco quilos.
Quem mandou beber numa hora como essa, Adam?
– Eu quero que vocês falem tudo o que incomoda vocês – disse o Alex, com total segurança da loucura que estava fazendo. – Aqui e agora.
Todos se entreolharam, incrédulos, até deixares os olhos repousarem em cima do Alex, todos de uma vez. E ele apenas deu um meio sorriso e fechou os olhos, esperando as críticas.
Mas, para a surpresa dele, ninguém se manifestou contra. Todos tinham muita coisa entalada na garganta, e aquele era o nosso limite: todos queriam jogar na cara uns dos outros todos os seus descontentamentos. O que me deixou intrigada foi a pessoa que começou o “processo de reintegração”... se é que posso chamar assim.
– Então... É só falar? E ninguém interrompe? – Carter foi o primeiro a se pronunciar. Foi meio estranho escutar a voz dele depois de tanto tempo calado.
– É... – até o Alex estava surpreso. – É essa a ideia.
– Ótimo – Carter se ajeitou e colocou a Avery do seu lado, deixando claro de que ia se movimentar. – Sinceramente, eu não sei por onde começar. Pensei que vocês eram um grupo sensato, que buscava a sobrevivência. Pensei que encontraria meu filho com a ajuda de vocês. No final, eu acabei o perdendo, e eu não descontei o meu ódio, a minha raiva, em vocês – ele fez questão em destacar. – Eu era grato pelo acolhimento que vocês deram a mim e à minha neta. E agora? Agora, eu acho que pensei tudo errado.
Todos se surpreenderam, mas acho que o que mais se surpreendeu foi o Joe. Querendo ou não, ele estava “liderando” o nosso belo grupinho rumo ao abrigo, e qualquer crítica feita ao grupo é sempre mais impactante para o líder.
Carter se aproximou da Nat, que estava mais próxima, e parou bem à sua frente, com os braços cruzados atrás do corpo. Ele a analisou de cima a baixo, com olhos frios e penetrantes, e eu pude notar que ela se encolheu um pouco, mas sem perder a postura de “menina revolta” que ela tentava manter.
– Natasha Schlabtz – disse calmamente, fazendo-a erguer o queixo de uma forma intimidadora. – Sabe, eu nunca coloquei muita fé em você. Desde que te vi pela primeira vez sabia que você era uma garota mimada, egoísta e orgulhosa. Mas não sabia até que ponto você chegaria, e admito que ainda não sei, já que, com os últimos acontecimentos, você tem se superado. E, sinceramente? Não sei se quero ficar aqui para ver – a ironia era sólida, e ia de frente contra a Nat, como se ele atirasse tijolos na cara dela.
Ela não ficou transtornada, louca, insana, nem descontrolada com o comentário; ela apenas o encarou um olhar congelante, e sua boca fez um tique engraçado, franzindo apenas um lado. Mas, antes que ela vomitasse toda a opinião dela na cara do Carter – que, por sinal, era quase da mesma altura que a russa – o Alex fez questão de lembrá-la de que era para ela permanecer calada.
– Eu não gostei nada do que você falou comigo no dia em que a Black desmaiou – O que?! – mas eu estou tentando muito relevar, já que, aparentemente, eu sou o único aqui que sabe manter o controle para o bem de um grupo — continuou o vovô.
E esse foi um belo tapa na cara de todo mundo.
Carter andou mais um pouco e parou ao lado do Adam, que, assim que levantou a cabeça para encará-lo – com uma cara contorcida pelo desgosto – apenas a abaixou para a mesa de novo.
– Oh, e você, meu caro amigo Huntman! – Disse, numa falsa alegria. – Você não é muito diferente da ruiva. Se bobear, é até pior – vi os músculos das costas do Adam se contraírem, assim como os dos ombros da Nat. – Desde que me juntei a você, não consegui entender o que você queria. Ou será que devo dizer... Qual você queria? – Os dentes da Nat trincaram. – Oh, meu amigo, ninguém aqui é burro, ninguém aqui nasceu ontem. A não ser a loirinha desligada ali – Ele disse, apontando para mim com o queixo, fazendo-me recolher. – Só espero que você entenda que essa sua brincadeirinha de criança de segunda série já não tem mais graça. Não percebe que isso só traz discórdia?
Adam bateu o punho em cima da mesa, ainda com a cabeça abaixada. Carter entendeu que aquele era o limite dele e passou para o próximo: Alex.
– Dr. Fletcher... Eu não vou mentir, eu não gostava muito de você. Parecia ser um homem fraco, indeciso, inseguro... Não era capaz de matar sequer um zumbi – o Alex escutou a tudo calado, sua expressão tão firme quanto uma rocha. – Me perguntava se você realmente seria útil. Agora, eu entendo que você é um membro fundamental nesse grupo – Ele colocou a mão direita no ombro esquerdo do moreno à sua frente e deu um sorriso singelo, mas franco. – Está de parabéns – falou baixinho.
Pude notar o peito de Alex inflar, mesmo que um pouquinho, e seus olhos brilharem. Fiquei feliz pelo Alex ao ver que a sua imposição perante o grupo foi bem aceita... Mesmo que não por todos. Pude ouvir a Nat bufar, e o Joe pigarrear. Fazer o que?
O meu sorriso logo se desfez quando o Carter passou para frente do ruivo com uma feição séria.
– General... O que houve com você? – Perguntou, sincero. – Você estava controlando tão bem a situação, o grupo... Mas então tudo isso se foi. O que aconteceu? – Ele permaneceu em silêncio por um tempo, até que deu um sorrisinho e disse: — Por favor, conte-me.
– Ah, então eu posso falar? – Disse o Joe, parecendo um pouco confuso. – Bem... – suspirou, continuando a falar, mas num tom bem baixo. Se eu não estivesse tão perto, talvez não fosse capaz de escutar. – Eu acho que, depois que eu me afastei do grupo e... vi algumas coisas, eu perdi meu controle. Me des... – Ele se interrompeu, pigarreando. – Isso não acontecerá novamente.
Carter deu um sorriso de canto e bateu uma continência malfeita. O Joe sorriu com a homenagem e devolveu o gesto, mas impecável como um general deve ser.
– E, por fim, você... – Disse, num suspiro, vindo em minha direção. – Black.
Engoli em seco. Ele estava mantendo uma pose dramática demais para o meu gosto. E, sinceramente? Não sei muito bem se quero mais drama agora.
– Esses momentos de crise foram cruciais para entender cada um de seus amigos – continuou Carter. – Mas você... Bem, você estava dormindo. — E deu de ombros. — Não sei como você reagiria a tanta tensão, então não posso lhe apontar pontos negativos... Por hora – ele fez uma cara séria, encarando-me com o rosto meio abaixado, o que deixou parecendo um traficante ameaçando o seu carrasco. – Mas devo dizer que, se tem algo me incomodando, é justamente não saber quem você é.
Arfei alto e passei a mão pelo meu cabelo, dando-lhe um leve puxão. Bem, é melhor do que os outros provavelmente vão jogar na minha cara...
Dito e feito.
Natasha não se contentou com as palavras de Carter e desencostou-se da parede, devido a agitação.
– Pelo amor de Deus! – Gritou ela, parecendo sufocada. – Essa garota... Essa garota quer nos matar! A todos nós! – E então, terminou a sua bela frase com uma carinha de coitadinha extremamente... fofa.
Respirei fundo, tentando me segurar. O que essa garota tem contra mim? O que eu fiz para ela? Porque, até agora, ela foi a única a me magoar roubando o Adam de mim.
– Para o seu próprio bem, pense antes de falar alguma coisa. – Nem tentei esconder a raiva em minha voz. — Eu estava dormindo, sua anta! Como eu ia mat...
Fui interrompida pelo Joe, que segurou o meu braço e o apertou com cuidado para não abrir mais as feridas que eu tinha.
– Ei, Sammy, fica calma — sussurrou para que apenas eu pudesse escutar. — Perder o controle agora só vai fazer com que você perca a razão também. Natasha tá falando merda, então deixa só rolar.
Nat mudou toda a sua pose de sofrida para uma mais ameaçadora, uma pose de ataque. Provavelmente ela notou que meu semblante falhou ao ver que o Joe que me segurou. Eu o olhei com certo rancor e ele apenas deu de ombros, como se dissesse "depois não reclama". Depois de respirar bem fundo, pedi carinhosamente para que a Nat continuasse. A russa me encarou com dúvida, depois voltou a mascara gélida inicial. Ela olhou fixamente para mim, e eu não fiz questão sequer de piscar.
Vamos ver o que você tem para mim.
– Primeiro você tenta semear a discórdia entre eu e meu namorado – disse a ruiva, num tom bem firme e controlado. – E agora você paga de santa coitada? Tipo, tudo bem, o que você passou foi terrível. Mas isso não diminui o fato de que teve um dedo seu em toda essa briga também!
Segurei-me para não falar nada. Sua gênia, todos aqui têm o seu percentual de culpa. Mas, como tínhamos que deixar todos se expressarem ao máximo...
– E você, Adam?! – Ela deu o olhar mais chocante e expressivo que eu já vi, e aposto que ninguém ali discordava. – Poxa, eu preciso de você agora! Acha que eu não estou com medo? Medo de morrer, medo de perder mais pessoas que eu gosto, medo de te perder?... Ou pior, medo de perder o seu amor?
Adam olhou para ela, pensativo, como se buscasse uma resposta sem nem mesmo saber por onde começar. Nat respirou fundo e continuou:
– Eu te amo, meu amor. Te amo agora, assim como te amei quando nós começamos a namorar. Mas... Você não parece sentir o mesmo. Parece que, a cada dia, eu deixo vocês escorregar mais ainda por entre meus dedos, como se eu não conseguisse segurar você e fazê-lo ficar ao meu lado. Você é a única pessoa que ainda está ao meu lado que eu posso... Que eu posso chamar... – Sua voz ia falhando de acordo com que as lágrimas iam descendo. – Que eu posso chamar de família.
Aquilo foi como uma facada para o Adam, eu pude notar. Ele parecia se sentir muito culpado, e confuso também. Passou a mão pela nuca uma, duas, três vezes, até que se levantou da cadeira e foi até a mulher ruiva, que o encarava com certo medo e receio. E então o Adam a abraçou. Não um abraço forte, estrangulador, nem um de levinho, como se não quisesse tocá-la. Foi um abraço terno, reconfortante, como se quisesse dizê-la “eu estou aqui, meu bem, não precisa mais chorar”. Engraçado como isso só a fez chorar mais.
Joe olhou de canto para mim, mas eu não liguei muito. Estava muito entretida olhando para o Adam e a Nat, e uma pontada se formou em meu coração.
“E o Adam já estava ficando louco! Quanto mais morta você aparentava, mas dele parecia morrer junto...”
“O Adam era um dos que estavam mais desesperados, e isso só deixava a Natasha mais louca...”
“Eles tiveram uma DR brutal...”
Como eu pude ser tão egoísta? Eles se amam. Nat precisa do Adam assim como ele precisa dela – por mais que ele não queira admitir isso. E eu só estive fazendo com que eles brigassem mais. Nossa, você é uma puta amiga, Sammy, pensei comigo. Eu me encolhi no meu canto e desejei que aquela conversa acabasse logo. Eu estava com muita coisa na mente, e não conseguia colocar nada em ordem. Eu não sei por quanto tempo mais eu vou aguentar sem surtar.
Eu precisava sair dali. Eu precisava respirar, eu precisava me organizar de novo. Que merda... Por que eu tive que me apaixonar justo pelo Adam? Justo pelo cara que, com certeza, nunca olharia para mim como “algo a mais”? E vê-los juntos, numa troca de carinhos e desculpas... Ah, eu preciso ir embora.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Num ato meio impensado, apenas dei as costas e segui para fora da cabana. Pude escutar o Joe gritar meu nome, mas... eu não estava com a mínima vontade de falar com ninguém, eu só queria paz...
...E foi assim, descabelada e com a cara vermelha e inchada que eu me esbarrei com um cara alto, de cabelos castanhos bem claros, olhos cor de mel e um sorriso simples e charmoso, mas que escondia alguma coisa que me fazia arrepiar. Eu o encarei por um tempo, enquanto ele me analisava de cima a baixo. Passou os dedos pela singela barbicha, levemente mal cortada, e então fez um gesto de aprovação com a cabeça.
– Tudo bem, não precisa chorar, eu acho que posso te encaixar na minha agenda mais tarde — disse, com um brilho perverso nos olhos, que me fez recuar alguns passos.
– O... O que?
– Vamos, não fique tímida agora. Afinal de contas... – disse, aproximando-se – eu prefiro mais as ousadas
Assim que chegou perto o suficiente para me tocar, mais cinco caras armados – com armamento pesado, devo dizer – saíram dos arbustos que tinham à nossa volta. Um calafrio terrível desceu pelas minhas costas.
– Samantha, que merda, o que você... – Joe se interrompeu assim que viu o sujeito à minha frente. – Você – disse em um tom firme e raivoso.
– Eu mesmo – sorriu o homem, parecendo orgulhoso. – Que bom que me reconhece, seria muito chato caso não lembrasse – disse, dando de ombros, como se essa fosse uma conversa casual.
Joe trincou os dentes e deu um passo em sua direção, completamente puto, mas parou assim que notou que os cinco homens perfeitamente camuflados na mata deram sinal de vida. Olhei do Joe para o estranho algumas vezes, e comecei a me desesperar quando escutei os passos dos outros. Olhei para trás e... Bem, já era tarde demais. Todos estavam em pé, parados atrás do ruivo, tentando entender a situação. A única coisa que me veio à cabeça foi que íamos morrer.
Passei a encarar o estranho de novo, com medo de ele reagir de uma forma mais agressiva devido ao aumento do número de pessoas. Mas, para a minha surpresa, ele parecia genuinamente animado.
O que esse cara quer?
– Que sorte a minha... – Sussurrou ele, como se não acreditasse que ganhou o grande prêmio. – Senhoras e senhores, — anunciou como fazem em shows – é um prazer conhecer a todos. Meu nome é Axel White, e eu estou prestes a sequestrar vocês.
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