Against The Death
10 Johann Heffman
Notas iniciais
– Tira suas mãos de mim, filho da puta! – Eu gritei, mas obviamente não iria adiantar de muita coisa.
Algemaram-me, assim como fizeram com cada um de nós. Carter, eu, Alex e Adam estávamos seguindo a mesma fila como fomos obrigados e as garotas estavam seguindo outra logo ao nosso lado. Meu olhar cruzou com o da Sam, foi algo bem rápido, quase imperceptível, mas quase consegui sentir sua aflição dentro de mim. Ver ela assim me fez ficar extremamente puto, e consequentemente... debater-me mais ainda.
Com certeza os desgraçados não gostaram nada disso.
– Joe, fica calmo, não vai adiantar em nada ficar fazendo escândalo – o Alex sussurrou, talvez pra não chamar muita atenção para si, como eu estava fazendo. Admito, não era nem um pouco sensato, mas eu estava cansado de só me foder naquela merda. – Para! Eles estão em maior número e bem mais armados que nós todos... Sem contar que estamos ALGEMADOS – ele fez questão de destacar essa última parte.
Estava quase me acalmando, quando o guarda que guiava a nossa fila se virou para nós e disparou um taser contra o meu peito. Caralho, eu não entendo muito de armas de eletro-choque, mas essa tem volts pra burro. Automaticamente caí no chão e comecei a me debater. Foi horrível, não conseguia controlar os membros e era quase como uma convulsão... Mas bem pior. Na verdade, o pior mesmo foi o olhar de todo mundo sobre mim, uma mistura perfeita de agonia e pena. E eu odeio o sentimento de pena. Queria levantar dali o mais rápido possível, mas o guarda que me eletrocutou se aproximou para remover os dardos do meu peito.
– Espero que alguém não tenha a... – Ele parou como se estivesse procurando por uma palavra apropriada, mas não tinha franqueza em sua voz, ela era impassível. – A mesma ideia brilhante de resistir.
Ele sorriu pra mim com sarcasmo e logo dois imbecis vieram me arrastar pelos braços até dentro de uma van. Eu acho que estava babando, e fiquei aproximadamente uns cinco minutos sem me mover adequadamente. Adam estava bêbado ,então não posso dizer que estava numa condição melhor que a minha, mas o Alex? Esse rapaz estava muito puto.
– Não acredito que você fez tamanha estupidez – ele esfregava as mãos no rosto, quase de uma forma masculina.
Tentei virar pra ele, mas meus movimentos ainda estavam um pouco retardados, então apenas o olhei de canto de olho. Estávamos numa van com o fundo espaçoso, sentados em bancos da parte traseira. Havia dois guardas, um dirigindo e outro no banco do carona, sempre observando o que estávamos fazendo – ou seja, o maldito do White está com as garotas. Eu vou matar aquele desgraçado. A porta estava aparentemente trancada por fora, mas não tinha coordenação motora o suficiente pra verificar.
– Você tem sorte dele apenas ter te imobilizado – Alex parecia um pouco aliviado, senti isso na frase.
– Não seja bobo, Alex – eu pigarreei tentando retomar as funções “manuais” do meu corpo.
Caralho, esse tipo de arma deveria ser ilegal. Se bem que eu acho que ninguém mais liga pra porte ilegal de armas.
– Se eles não me mataram ali... – hesitei pela dor no peito. – É porque precisam de nós pra alguma coisa.
Inclinei a cabeça pra trás encostando-me no metal frio do interior do veículo. Adam estava sentado logo a minha frente, parecia estar voltando à consciência, mas preferiu não abrir a boca pra falar besteira, apenas ficou ali... Me analisando. O que foi pior, porque eu odeio pessoas me encarando por muito tempo.
Alex parecia pensativo, como se digerisse cada palavra que eu havia dito. Carter estava com o rosto apoiado sobre as palmas das mãos, não me deixando ver seu rosto direito, mas deveria estar se perguntando “quando isso tudo vai acabar?”. Eu, na verdade, estou me perguntando isso agora. Não consigo pensar em mais nada. Eu queria poder desistir de tudo e partir dessa pra melhor, só que... Não dá. A Laureen precisa de um pai... A Sam precisa de mim.
Devem ter passado quase três horas de viagem... Eu não sei dizer ao certo, esqueci meu relógio na cabana, e fica mais difícil ainda descobrir quando você apaga totalmente. Só consegui acordar com a parada brusca do carro e o som incomodamente alto das trancas traseiras se abrindo. Quando as portas foram abertas, a luz atravessou o compartimento e me cegou por alguns segundos, e os capangas daquele figura nos arrastaram para fora.
Pode me chamar de maluco, mas tenho quase certeza que eles tinham preferência em me machucar, afinal não foi à toa que eu “tropecei” e caí de barriga naquele asfalto quente, enquanto Alex, Carter e Adam desciam tranquilamente da van. Eu estava quase espumando de raiva novamente quando os capangas voltaram a me arrastar pelos braços. Consegui sentir a lona grossa da minha calça rasgando devido ao atrito com o chão. Logo, logo chegaria na minha pele. Que beleza.
Uma coisa me incomodava, a van das garotas não estava lá.
– Onde elas estão? – Dirigi minha pergunta, mas para ninguém em específico. Claro que eles não iam responder assim tão fácil. – Por acaso vocês são surdos? Eu perguntei onde elas estão!
Os dois que me arrastavam pararam bruscamente, por tempo suficiente, para que eu visse Alex, Adam e Carter passando por mim. Carter e Alex não conseguiram parar de me observar, e eu preferia que eles o tivessem feito. Os dois que me seguravam me jogaram no chão, com o abdômen virado pra baixo e começaram a me chutar bem forte.
– Sinto muito, ruivo, – ele não parece “sentir muito” – mas você não está em posição para exigir nada.
Consegui ouvir alguns passos bem calmos se aproximando, foi então que aquela dupla de imbecis parou. Um par de pernas parou bem à minha frente, infelizmente eu sabia de quem elas eram.
– Como você disse que era seu nome mesmo? – A voz era daquele merda, o tal do “White”. Os capachos me colocaram de pé, ou quase isso, e eu fiquei encarando aquele tosco tirado a galã que estava parado logo à frente, com aquele sorriso malicioso... Esse cara me enoja.
– Eu não disse – cuspi um pouco de sangue, acho que um dos miseráveis chutou meu rosto.
– Bem, acho que esse seria um bom momento para se apresentar – ele coçou a barbicha de leve, ainda com aquele sorriso asqueroso.
Minha única vontade era de voar na cara dele e pisá-lo até não conseguir mais discernir onde termina a boca e onde começa o nariz, mas me contentei apenas em ficar calado. Estava muito cansado pra pensar direito.
– Certo... Então, senhor Queijo Cheddar, vou entrar no seu jogo.
Ele fez um movimento com a cabeça e um dos guardas agarrou Alex pelo pescoço e jogou-o no chão de forma excessivamente agressiva apontando uma escopeta para sua cabeça. Ele me olhou apavorado, esperando que eu fizesse algo.
Que filho da puta doente!
– Johann! – Eu disse rápido para que não fizessem nada com o garoto afeminado.
– Bom começo, — Axel sorriu mais uma vez, mas dessa vez foi um sorriso bem rápido – mas preciso saber seu sobrenome... Não posso apenas chamá-lo de Johann “O homem morto”. Preciso saber do seu sobrenome, entende?
Aquele cara era extremamente irônico, chegava a me dar náuseas.
Ele fez outro movimento, olhando para o guarda que segurava o Alex, ele atirou com um revolver bem ao lado da cabeça do garoto.
– A próxima ele não vai errar... – Ele suspirou, quase que como se sentisse pena. – Então seja breve.
– Johann Heffman Jenkins... – Pela primeira vez, senti desgosto ao falar meu nome.
– E os seus amigos? – Disse ele, como se estivesse interessado.
Eu olhei para o meu grupo logo atrás do infeliz do Axel. Carter parecia preocupado, Adam indiferente, e o Alex tinha acabado de ser levantado e limpava a própria camisa. Olhou pra mim e assentiu com a cabeça, como se me desse permissão para falar seus nomes.
– Alexander Fletcher, Carter Wilkens e Adam Huntman... – Ele me olhou como se estivesse faltando alguma coisa –... Respectivamente.
– Ótimo! – Ele exclamou com um olhar de superioridade que eu achava que só o Adam fosse capaz de fazer. Não sei por que, mas tinha alguma coisa naquele olhar que me deixava puto instantaneamente. – Viu? Tudo fica bem mais fácil quando colaboramos, meu amigo... Joe. Posso te chamar assim?
Ao que me parece, ele era a única pessoa na terra que não poderia me chamar de Joe, mas não disse nada. Ele bateu no meu ombro de leve e fez um gesto com a mão para que seus capangas me levassem. Eu juro que, se não estivesse algemado, ele já teria perdido a mão... Talvez não só a mão.
– Certifiquem-se de que nossos convidados estejam em aposentos confortáveis. Ou o mais confortável possível, se é que vocês me entendem. – Ele se retirou, rindo junto com os capangas de uma piada interna que eu não fazia questão de saber.
Até que eu consegui ver onde estávamos: algum lugar remoto dos Estados Unidos, sem nenhum lugar conhecido que eu pudesse utilizar como referência, apenas um enorme... Presídio?!
Mesmo que eu tivesse ficado longe do planeta Terra por mais de vinte anos eu ainda reconheceria aquela merda de lugar... Souza Baranowski, o quinto melhor presídio de segurança máxima do mundo. Não acredito, além de termos sido sequestrados, voltamos para Massachussets... Estamos todos fodidos.
Alex me chamava, mas eu não conseguia olhar pra ele, estava completamente perdido em meus pensamentos. Nós entramos e eles colocaram Carter e Adam numa cela vazia ao lado da minha, e eu estava com o Alex... Definitivamente não era a melhor dupla para aquela situação, mas, como disse o guarda hoje mais cedo, “eu não estou em condições de exigir nada”.
– Merda! – Eu dei um tapa contra a parede do cubículo.
– Joe, calma... – Alex respirou fundo e apoiou a mão sobre meu ombro direito. – Precisamos pensar em algo para nos tirar daqui.
Um longo silêncio imperou. Não sabia por que os presidiários não estavam lá, pelo menos, não a grande maioria, porém, tinha uma leve impressão de que iria descobrir o motivo muito em breve. As celas eram bem fechadas, apenas com uma porta de metal para entrar e uma greta para depositar comida e remover algemas, pelo visto só abria se empurrasse pelo lado de fora... Droga, eu ainda estava um pouco desnorteado pelo choque de mais cedo, eles não podem atirar contra o peito de alguém com uma coisa daquelas...
–Joe... – Consegui ouvir a voz do Adam logo do outro lado da parede. – Eu tenho um plano, mas você vai ter que confiar em mim, quando os guardas chegarem, você vai ter que arranjar uma confusão e empurrar um deles para a porta da minha cela, eu vou tentar arrancar as chaves do fundo da calça dele. – Me parecia um ótimo plano pra falar a verdade, eu estava com receio de tomar outro choque daqueles, não vou mentir, mas talvez fosse a única chance que teríamos.
– Como você sabe que eles vão vir aqui? – Alex disse desconfiado encostando a orelha na parede, talvez para ouvir melhor.
– Eu escutei um deles falando que precisariam do Joe mais tarde... – O Adam parecia pela primeira vez em muito tempo, preocupado.
Eu não sabia que “mais tarde” podia ser tão rápido. Dois guardas, diferentes dos de mais cedo, me agarraram pelos braços e me algemaram de novo e pra minha surpresa, eu não ia sozinho, algemaram o Alex também.
– Joe... – Ele disse como se quisesse que eu fizesse algo, mas não tinha nada que eu pudesse fazer.
Nos guiaram para fora do quarto e assim que nos aproximamos da cela do Adam eu fiz o que me foi pedido, armei o maior barraco que pude.
– Tire suas mãos de mim, acha que eu não sei andar sozinho?! – eu dei um belo chute no abdômen do valentão e fico feliz em dizer que ele definitivamente, não estava esperando aquilo. Ele se esbarrou contra a parede bem ao lado da porta. Droga. – Nunca mais encoste em mim de novo! – Trombei nele fazendo ele cambalear e se apoiar na porta do Adam... Bingo! Dei uma bela cabeçada nele e o espremi contra o metal, por fim vi de relance a mão do Adam puxando a chave para dentro. Minha felicidade não durou muito devo dizer, aqueles caras amavam eletrocutar os outros, quando o filho da puta me empurrou o amigo dele começou a descarregar todo o bastão elétrico dele, em mim. Eu gritei muito, mas pelo menos os choques não foram em áreas vitais, minhas pernas braços e costas estavam dormentes, mas espero que aquilo tudo tenha valido a pena afinal.
– Muito bem, Joe! – Eu consegui ouvir o Alex sussurrar em meu ouvido. – Acho que nem eu conseguiria armar um barraco tão grande.
Acho que se não fossem pelas algemas o Alex estaria me aplaudindo agora.
– Calem a boca vocês aí! – O guarda que eu tinha cabeceado parecia bem puto.
Fomos levados até um vestiário que ficava de frente para o pátio principal, logo do lado de fora do compartimento de celas, parecia que umas arquibancadas tinham sido improvisadas ali, talvez tivessem tirado da quadra de esportes, a grande dúvida é: por que diabos, aquelas arquibancadas estavam ali. Assim que entramos no vestiário, nos mandaram vestir uma bermuda de linho ridícula e pediram que tirássemos a camisa.
– Pra que, merda, nós temos de tirar a camisa? – Tentei não provocar nada.
– Vocês não vão precisar das camisas aonde vão... – Um guarda se pronunciou, mas não de forma agressiva como a maioria, ele parecia estar se divertindo com aquilo. – Acredite em mim.
Eu não vou mentir, comecei a ficar preocupado. O dia tinha chegado ao fim e eu já conseguia ver o escuro do fim de tarde, os holofotes do pátio estavam ligados para o centro do que parecia ser uma... Arena, eu comecei a achar que queria estar errado sobre o que minha mente estava começando a processar. Pessoas começaram a se amontoar nas arquibancadas, na verdade, fazia muito tempo que eu não via uma quantidade tão grande de pessoas – vivas, vale destacar – em um único lugar. Haviam grades de proteção limitando as arquibancadas e o centro da arena, que era bem extensa por sinal, as pessoas pareciam estar esperando por um espetáculo.
– Até que em fim, as estrelas dessa noite maravilhosa – eu definitivamente odiava aquela voz... Axel White. – Pensei que não iam chegar nunca.
Pelo visto nós éramos o tão esperado “espetáculo”
– Droga, Joe... – Alex sussurrou no meu ouvido. – O que eles querem que a gente faça?!
– É uma boa pergunta, garoto, mas a julgar pela situação acho que...
– Vocês vão ter que lutar pelas próprias vidas. – White me interrompeu com um tom de deboche.
Era o que eu esperava, mas não estava armado ou preparado pra isso, tinha acabado de me recuperar... Ou quase isso, daquele choque de hoje.
– Cadê as armas? – rosnei para o idiota que roubou minha moto.
– Você é hilário... – ele disse, olhando fixo em meus olhos. – Uma pândega, de fato. Vocês lutarão com dois presidiários daqui, quem viver, vai ter uma bela surpresa.
– Surpresa? – Alex indagou desconfiado.
– Ah, ah, ah... – Axel fez um sinal de negação com o dedo indicador para o Alex, tentando conter um riso involuntário. – Se eu contasse, deixaria de ser surpresa.
– Quando eu sair daqui... – Eu disse com a voz mais rouca que o habitual – Eu vou te matar.
Tudo bem devo admitir, eu não esperava por essa, quem em sã consciência ri diante de uma ameaça?!
– Joe... A única forma de você sair daqui é dentro de um caixão... – Ele piscou pra mim. – E duvido que possa fazer qualquer coisa contra mim de dentro de um caixão.
Os segundos passam e eu odeio cada vez mais esse cara.
– Por favor, sorriam, precisam impressionar aqueles dois caras ali no topo. – Axel apontou para uma cabine improvisada construída logo acima da arquibancada, conseguia ver dois homens dentro dela, mas seus rostos estavam embaçados pelo vidro. — Eles são quem manda nessa merda toda aqui, se divertirem eles, vocês divertirão todo o resto... Porém, se não o fizerem, devo dizer que foi um prazer conhecê-los.
Axel acenou para nós e subiu na arquibancada lotada enquanto nós fomos atirados para dentro da arena.
– Senhoras e senhores! – Eu não acredito, além de ladrão, seqüestrador e pé-no-saco, o filho da puta ainda é apresentador?! – É um prazer recebê-los em nossa arena hoje, O Coliseu traz até vocês... Pesando não faço idéia de quantos quilos, ao lado direito, Johann, o meu Thundercat preferido!
Não demorou muito pra que todos começassem a rir. Eu vou matar aquele bobo da corte metido a esperto.
– Ao seu lado, pesando menos ainda! – Ele olhava para Alex, como se estivesse pronto para apontar para nós. – O flamboyant ambulante: Alexander Fletcher!
Mais uma vez o infeliz conseguiu arrancar a gargalhada da multidão.
– Do outro lado, o campeão invicto, temeroso e mortal! – Por que a apresentação desse babaca não é ridícula como a nossa?– pesando pra caralho: Butch “O destruidor”!
Os portões se abriram e um monstro de quase dois metros de altura entrou na arena, ele era forte fedorento e assustador, mas, o pior de tudo: ele estava armado. Era um tipo de mangual improvisado, enquanto nós não tínhamos absolutamente nada.
– Joe! Ai meu Deus! – Alex se escondeu atrás de mim e como era de se esperar os imbecis sentados na arquibancada riram... Todos menos Axel, ele parecia estar tendo uma discussão com a dupla de babacas na cabine. – Joe, o que a gente vai fazer?
– Sabe lutar? – Fui direto, sem tirar os olhos daquele brutamonte de cabelo longo, oleoso e preto.
– Não...! – Era o tipo de resposta que eu esperava do Alex.
– Então se esconda...
Parti para o centro da arena, talvez eu já tenha dito, mas eu nunca fujo de uma boa briga.
– Mas não tem onde se esconder! – Alex gritou e a multidão começou a gargalhar novamente. – Pelo amor de Deus pessoal, isso aqui é uma arena de batalha, não um show de Stand up comedy!
– Alex, cala a boca... – Eu não consegui esconder minha raiva.
– Escuta seu namorado, princesa! – Ouvi uma voz no meio da arquibancada à direita, mas não consegui ver quem era, aproveitei para procurar o Axel, mas ele tinha sumido.
Alex estava corado da cabeça aos pés. Eu só queria que aquela merda toda acabasse.
Estava de frente para o monstro de quase dois metros de altura que parecia querer devorar meu coração, quando o sino tocou.
Aquele maldito parecia estar esperando só aquele barulho para partir para cima porque foi quase instantâneo, ele girou o mangual e eu me joguei no chão pra que não acertasse minha cabeça, rolei para o lado e ele acertou com a bola de pregos bem no lugar onde eu estava, aproveitei para chutar seu abdômen, mas para minha alegria, parece que não fez nem cócegas, comecei a socar sua barriga já que ele era alto demais pra alcançar o rosto, mas o filho da puta não sentia nada, eu tentei socar mais forte, mas ele chutou minhas pernas me fazendo cair de costas no chão, aquele corpo imenso se debruçava sobre mim.
– Achei que ia ser mais difícil. – o monstrengo riu jogando a arma longe. – Acho que não vou precisar mais disso.
Quando ele estava prestes a por as mãos em mim, Alex pulou em suas costas se agarrando ao pescoço largo de veias salientes, era minha chance, me arrastei pra longe do alcance dele.
– Joe, socorro! – Alex se segurava ao máximo nas costas daquele troglodita.
As pessoas berravam e agitavam os braços, até onde meus olhos alcançavam não havia uma pessoa sequer sentada. Recompus-me, corri na direção do tal de “Butch” e comecei a dar vários socos em sua cara, eu estava tão puto que nem percebi quando Alex descera das costas dele, só conseguia ouvir o grito de delírio da multidão, mas depois de alguns minutos se tornaram apenas um zumbido bem distante. Hesitei, foi tempo o suficiente para que ele entrasse com um soco bem dado no meu estomago, perdi todo o ar e fui de encontro ao chão, sem nem ter quicado uma segunda vez ele chutou minha costela e eu rolei para o lado, tentei me levantar em seguida mas ele pisou em minhas costas, tentei me arrastar e finalmente consegui ouvir a gargalhada da multidão, o filho da puta tava abrindo a calça pra mijar em mim?! Girei pro lado e o pé dele escorregou, como eu não pensei nisso?! Soquei-o bem nas bolas e ele caiu no chão, me levantei o mais rápido que pude já colocando uma base.
– Cabeça de fósforo! – Consegui ouvir a multidão gritar.
Puta que pariu, o que esses caras tem contra ruivos?
Alex estava me olhando atônito, como se não acreditasse no que estava vendo, mas logo aquele olhar pasmo se transformou em pavor.
– JOE!
O garoto tentou me alertar, mas não foi rápido o bastante, Butch me agarrou pelo cabelo e me jogou no chão de areia novamente, inevitavelmente eu gritava e ele me segurava por trás – numa posição bem estranha devo dizer – batendo minha cara contra o chão.
– Meu Deus! – Consegui ouvir o Alex dizer com aquela foz de perua afetada, parecia que ele não sabia o que fazer... Bem, nem eu.
Agarrei o braço que me segurava pela cabeça e enfiei o polegar entre as juntas da mão ele berrou me soltando na hora. Joguei-me contra o grandalhão, que não estava muito “equilibrado” fazendo-o desabar no chão, voltei a socar-lhe a cara, consegui ver de relance Alex correndo por trás de mim, abri uma brecha e ele socou minha costela esquerda, eu comecei a agonizar de dor no chão, aquela costela nunca tinha se curado direito e agora eu pago o preço por isso, eu envolvi meu peito com os braços e me apoiei com a testa no chão arenoso, só estava esperando ele terminar logo com aquilo, por sorte o idiota resolveu se vangloriar um pouco, levantando os punhos para a multidão e recebendo todos os aplausos. Destruidor! Destruidor! Destruidor!... Destruidor, minha bunda!
Me levantei com a adrenalina queimando meu sangue berrando e correndo feito um animal ensandecido na direção daquele filho da puta, ele se virou, como se estivesse pronto pra tudo que viesse.
– Joe! – Alex me chamou. – Pega!
Alex me jogou o mangual do Butch... É talvez ele não estivesse pronto pra TUDO que viesse. Agarrei a arma e assim que ele percebeu que era uma ótima hora pra correr, eu girei a bola de espinhos, acertando em cheio o rosto do infeliz. BLAM! Butch “O destruidor” estava estirado no chão, com uma enorme poça de sangue se formando ao redor de sua cabeça. Talvez fosse a emoção, talvez fosse a adrenalina ou até mesmo o momento, mas eu não sei explicar exatamente por que eu levantei as mãos em punhos para a multidão, todos começaram a gritar o meu nome e em alguns momentos eu conseguia ouvir pessoas clamando pelo Alex “Princesa! Princesa!” por breves segundos eu esqueci o que eu estava fazendo ali, mas logo me recompus quando vi o olhar de desaprovação de Alex sobre mim. Mas o que diabos eu estava fazendo?!
– Joe... – Alex marchou na minha direção e começou a brigar comigo. – O que você pensa que ta fazendo?! Nós precisamos arranjar um jeito de sair daqui antes que eles fritem o que restou do seu cérebro!
Essa doeu.
– Olha bem como você fala comigo, pirralho! – eu agarrei o Alex pelo pescoço e cerrei a outra mão, como se estivesse prestes a bater nele. Droga, Joe, o que você ta fazendo? – É melhor você me respeitar.
Ele estava me olhando apavorado, como se não me reconhecesse, na verdade nem eu mesmo estava me reconhecendo, só me distraí quando a multidão começou a gritar “Beija! Beija! Beija!”. Larguei-o e ele chegou a cambalear para trás com o medo.
– Meus caros! – mais uma vez aquele imbecil do Axel White. – É de fato uma noite memorável para o nosso maravilhoso Coliseu, pela primeira vez na nossa não tão longa história, alguém conseguiu derrubar o nosso ex-invicto Destruidor! – As pessoas faziam barulho nas arquibancadas, como se estivesses excitados. – Eu não posso mentir para vocês senhoras e senhores, mas nunca achei que isso aconteceria, mas é claro...! Que nós nos preparamos para isso mesmo assim! – Mais grito da multidão. – E é por isso, que eu trago a vocês: O Circo de Sangue!
Ele estendeu a mão que não segurava o megafone na direção de dois portões que eu ainda não havia percebido e automaticamente eles abriram. A princípio eu não consegui ver nada, mas ao estreitar os olhos percebi uma aglomeração se aproximando mais e mais, senti as mãos do Alex sobre os meus ombros e o calor do seu corpo atrás de mim, ele estava tenso com respirações curtas e apavoradas, eu deveria estar, mas parecia que algo me anestesiava, logo conseguimos ouvir os gemidos e gritos dos infectados se misturando aos gritos exaltados da platéia. Lançaram uma espada e um machado de bombeiro para nós, mas o Alex nem teve coragem o suficiente para olhar para as armas, parece que vai sobrar pra mim.
– Ta certo garoto, você fica atrás de mim... – peguei a espada no chão e a girei na mão rapidamente. – Eu te protejo.
– Ai meu Deus, obrigado Joe! – Eu senti que ele ia me abraçar, mas me afastei, não tinha tempo pra isso.
Consegui ver os corpos em fricção violenta vindo em minha direção, assim que saíram pela porta começaram a se dispersar pela arena, minha sorte é que a entrada estreita controlava a saída deles, corri berrando na direção dos mortos, decepando tudo o que eu conseguia ver pela frente, duas cabeças voaram, minha visão estava turva e eu não conseguia contar quantos tinha, até porque parecia que nunca parava de sair infectados por aquela porta. Arranquei algumas pernas, corri para longe, decepei os braços dos que me seguiam e perfurei o peito de alguns, não era a forma de morte mais eficaz , mas eu fazia o que dava na telha. Ouvi um grito... Alex, quatro infectados correndo atrás dele e a multidão ria e gritava “Pega! Pega!”. Investi na direção deles, com a velocidade dos braços arranquei duas cabeças, cortei uma perna e enfiei a lâmina no crânio logo em seguida, só faltava um, ele tentou estirar a mão para me agarrar, cortei seus dedos, ele gritou e tentou me morder, enfiei a espada em sua garganta, o corpo sem vida tombou para o lado. Mais infectados vinham em nossa direção, ouvi Alex gemer meu nome, aquele garoto estava realmente apavorado, consegui derrubar todos que se aproximaram, quando apenas tinham sobrado dez, meu corpo estava implorando para que eu parasse, mas eu não podia, meus olhos pesavam, os corpos ensangüentados se aproximavam e eu não conseguia medir a distância que estava deles, até que um me agarrou pelos ombros, instintivamente enfiei a espada em seu estomago. Merda! Ficou presa! Mais dois vieram, soquei a cara de um fazendo-o cambalear para trás, logo em seguida quebrei o joelho do outro com uma pisada fazendo-o cair, corri puxando o Alex pelo braço e me joguei no chão para agarrar o machado, dois vieram ao mesmo tempo, correndo, agarrei um pelo pescoço e enfiei a lâmina no crânio do outro, soltei o primeiro derrubando-o no chão, seguido de duas pisadas em sua cabeça, só pra ter certeza de que havia quebrado. Mais um correu para mim e quando se aproximou o bastante me curvei para baixo me esbarrando contra ele fazendo com que caísse de cara no chão, enfiei o machado bem no meio da sua testa quando tive a chance, agora o infeliz que eu tinha socado parecia estar vindo revidar, acertei seu joelho e um sangue pútrido voou em meu corpo, ele tombou no chão esticando os braços em fúria, tentando me agarrar a qualquer custo, acertei em cheio sua garganta, separando a cabeça do resto do corpo. Parti para cima de mais um que corria loucamente na minha direção, quando chegou perto, me abaixei girando para o lado, seu corpo passou direto e eu enfiei o machado em suas costas, ele caiu de joelhos no chão e eu não parei de acertá-lo, nem mesmo por um segundo, isso até ouvir os gritos desesperados de Alex novamente, um infectado o agarrava pela perna, parecia que era o que eu tinha lesionado, corri até ele e decepei o braço que o segurava, chutei-o para o lado e enfiei mais uma vez aquela lâmina encharcada de sangue em sua cabeça. Eu não agüentava mais nada, o machado estava escorregando dos meus dedos e meus olhos estavam fechando automaticamente, minha visão estava escurecendo... Eu vou desmaiar.
– Joe!
Um infectado tentou me agarrar pelo braço, torci seu punho fazendo uma chave, ele caiu de joelhos no chão, arranquei sua cabeça, agora só faltava um. Não sabia bem se o doente era ele ou eu, porque nós dois estávamos nos arrastando, nós dois estávamos gemendo e nós dois estávamos quase mortos, eu não conseguia andar mais nem um passo... Desabei no chão, o impacto fez com que o machado voasse para longe, o infectado se aproximava cada vez mais, a voz do Alex parecia se afastar a cada segundo, e eu mal conseguia manter os olhos abertos, até que um barulho estrondoso tomou conta da arena e o doente desmoronou, fazendo um som oco e monótono. Apaguei.
Minhas pálpebras ainda pesavam, mas agora, mesmo que lentamente, conseguia abri-las, eu estava num lugar parecido com um escritório, todas as paredes eram de madeira bem escura, da mesma cor que o chão e a bancada também, que por sinal estava de frente pra mim, alguns cadernos e canetas sobre a mesa, um porta caneta com algumas tesouras, enfim, material de escritório em geral, a cadeira estava vazia, eu estava sentado em uma poltrona sobre um carpete verde musgo e virando para trás conseguia ver de canto de olho alguns quadros... Que porra eu to fazendo aqui?
Ouvi um barulho de porta se abrindo e uma figura indesejavelmente conhecida adentrou a sala.
– Finalmente alguém acordou! – Axel White... – Você dormiu por uma semana, dá pra acreditar? Todos os seus amigos estão mortos, eu sinto muito.
– O que?! – Eu o fitei incrédulo por alguns segundos... Até ele começar a rir.
– Eu to brincando, peixinho dourado... – Ele me olhou com um olhar de quem está naturalmente acostumado a seduzir garotas... Imbecil. – Então, Joe...
– Não me chame de Joe... – O cortei.
Ele me olhou entediado por alguns breves instantes.
– Está bem, pentelhos flamejantes... – é simplesmente impressionante como ele consegue piorar tudo. – Vou ser direto com você, porque parece que você gosta de coisas simples.
– Bem, você foi simplesmente impressionante hoje e a multidão pediu bis, só que bem... Você desmaiou. – Não diga... – É de se esperar, afinal, você lutou por duas pessoas... Quarenta e sete zumbis, e você matou quarenta e seis... Devo admitir que fiquei impressionado.
– Onde estão as garotas? – Fitei-o, ainda com a cabeça baixa.
– Meu Deus do céu! – Ele jogou a cabeça para trás indignado. – Você só sabe falar isso? “Onde estão as garotas... Onde estão as garotas” – ele me imitou com uma voz de gozação. – Troca o disco, ta legal?
Ele suspirou e eu não demonstrei nenhuma alteração na expressão. Os olhos dele pesavam em mim como os de um felino, eu não sei exatamente, não era um leão... Não sei explicar, era um olhar incisivo e forte... Talvez um tigre... É exatamente como um tigre. Não sei por que, mas ele não parecia ser de todo, mau.
– Eles vão acabar com você. – eu disse de súbito, fazendo com que ele me olhasse um tanto interessado.
– Do que está falando, meu amigo ruivo? – Ele brincou de leve com os dedos, sentando-se na cadeira com rodinhas e se aproximando um pouco mais da bancada.
– Não é obvio? – Eu ri baixo, não levantei a cabeça, meu pescoço estava dolorido e cansado. –Aqueles caras estão te usando, não sei exatamente porque, mas eles não vão te dar o que você quer... Meu amigo.
Olhando de baixo consegui ver a expressão do bonitão ficar meio tensa, talvez eu tivesse acertado em cheio na minha suposição.
– Por que acha isso? – Ele disse um pouco sério, tentando não perder o ar zombeteiro.
– Eu vi você discutindo com seus... Superiores. Parecia que você não estava muito contente, estou errado? – Ergui a cabeça aos poucos para olhá-lo nos olhos.
Ele desviou o olhar momentaneamente como se estivesse colocando as idéias no lugar.
– Você pode fugir com a gente se quiser... – Eu propus. – Só não vai poder ficar conosco.
Foi aí que o olhar tenso passou para um olhar de divertimento pleno, ele começou a rir grosseiramente, como se eu tivesse contado a melhor piada do ano.
– Vou te contar uma historia... – Axel limpou uma lágrima que escorria em sua bochecha, puta que pariu, ele riu mesmo. – Sabe... Aqui, só os mais fortes sobrevivem. Você é forte Johann... Se você cansar de servir como entretenimento para os nossos sobreviventes, pode se tornar um sobrevivente também, mas terá de escolher um lado, não existe meio termo aqui, mas, as garotas, elas não são fortes, elas não sobreviveriam, só precisamos delas para povoar o mundo e nos alimentar... De todas as formas se é que me entende... – Eu estava começando a ficar puto, mas, não parecia algo que ele estava falando por si só, parecia que era algo que ele deveria dizer, parecia uma espécie de... Dica, ou apenas uma espécie de provocação, para que eu fizesse algo. – Suas amigas vão ser muito úteis para nossos sobreviventes.
Ele deslizou a mão pela bancada antes de se recostar na cadeira de escritório, ele tinha agora um olhar pesado, como se não quisesse falar nada daquilo, mas também, como se precisasse. Não importava o motivo daquilo, eu estava puto, avancei para cima dele, mas fui bruscamente puxado para trás e caí sentado novamente na poltrona, Axel sorriu. Eu estava algemado ao chão, por uma corrente longa. Merda.
Vi o tirado a galã levantar da cadeira calmamente e se dirigir até mim, parou como se estivesse posicionando os pés em uma determinada distância de mim, estava aparentemente, perto o suficiente para que eu o socasse.
– É a ruiva? – Ele disse me deixando um pouco confuso. – Ela é até gostosa, na verdade, muito gostosa pra uma russa... Não que eu veja muitas russas por aí...
– Será a loirinha? – Ele disse agora me olhando mais agressivo, como se estivesse louco para que eu mostrasse do que sou “capaz”. – Ah essa sim, não é gorda demais nem magra demais, é o que eu gosto de chamar de “ao ponto”... Eu comeria ela com gosto, devo dizer, sabe? – Eu me controlava a cada palavra que ele dizia, mas aí ele soltou a bomba – Imagina só como deve ser ela gemendo meu nome...
Levantei da poltrona com um salto, rosnando insultos que nem consigo me lembrar ao certo, as algemas apertaram meus punhos e tenho quase certeza que estavam feridos, meu rosto estava terrivelmente próximo do dele, conseguia sentir minhas bochechas esquentarem e minhas veias do pescoço quase saltarem pra fora, mas não adiantava de nada, eu podia estar parecendo um animal enfurecido, mas não conseguia sequer tocar nele, quanto mais meu corpo tentava ir pra frente mais as algemas apertavam meu braço, eu estava inclinado para a frente com os olhos agarrados aos dele meus braços estava esticados para trás e minhas pernas estavam tensas. Tudo o que aquele infeliz conseguiu fazer, foi soltar um risinho.
– Muito bem! – conseguiu dizer, afagando meus cabelos, como se faz com um cachorro. Afastei seu toque. – É disso que o público gosta. – ele olhou para a porta e lá estavam, mais dois guardas. – Mas não vale de nada se não estiver adestrado...
Ele se retirou pela porta, me deixando sozinho com os filhos da puta, que só me levaram para a cela depois de trinta minutos de pura bordoada.
–-- Termina o capítulo ---
Acordei com uma pontada de dor na costela esquerda.
– Ahh! – gemi.
Já estava na cela, no beliche de baixo, tinha um pouco de sangue no lençol branco que forrava a cama, e eu consegui sentir a dor percorrer todo o meu corpo, minhas pernas minha barriga, meu corpo, eles me bateram até perder a consciência, como se a luta na arena não tivesse sido o suficiente. Tentei me levantar.
– Epa, epa! – Senti um braço relativamente fino me segurar. – É melhor você ficar deitado.
Era o Alex.
– Me diz o que aconteceu, eu não quero acreditar nas minhas memórias... – Passei as mãos no rosto, mesmo que meus membros reclamassem.
Alex suspirou.
– Bem, depois da arena, me trouxeram de volta pra cá... – Ele olhou pra mim com pesar. – Fiquei preocupado por não terem te trazido aqui... Felizmente o Adam conseguiu sair, mas retornou a tempo. Ele descobriu onde as meninas estão, mas vai ser difícil chegar à ala feminina. – Ele pousou a mão gentilmente em meu peito. Ele estava sentado ao lado da minha cama, me fitando com um olhar cansado e desesperado. – Joe, nós precisamos de um plano.
Suspirei, entrelaçando meus dedos sobre meus olhos.
– E o que você espera que eu faça? – consegui dizer, mostrando todo o meu desinteresse.
– Não sei... – Ele disse retirando a mão de mim. – Mas o quer que seja o que você pretende fazer, faça logo... Pois a próxima luta vai ser entre você e o Adam e seguindo as regras, só pode haver um vencedor, e quando digo vencedor, quero dizer: só um de você vai ficar vivo.
Tirei lentamente as mãos do meu rosto, encarando o Alex, esperando por tudo que é mais sagrado que aquilo fosse uma brincadeira de muito mau gosto.
– Exatamente – consegui ouvi-lo dizer. – acho melhor o senhor pensar em alguma coisa...
Passei a mão na cara rosnando baixinho, sou sempre eu que tenho que fazer tudo.
Levantei do colchão e fui até a pia para lavar meu rosto, passei a mão molhada pelo cabelo e encostei-me à pia, tentando pensar em qualquer coisa que pudesse nos tirar dali. Até ouvir a porta da frente se abrir.
– Hora do café da manhã! – Um guarda anunciou entrando na cela com um acompanhante, já tinha perdido a conta de quantos guardas eu tinha visto na minha curta “estadia” nesse lixo de lugar. – Saiam!
Não nos algemaram dessa vez, apenas abriram a porta e nos deram espaço pra sair, um por um eles faziam isso com os poucos prisioneiros que estavam lá, inclusive Carter e Adam.
– Já é manhã?! – Eu perguntei ao Alex enquanto nos dirigíamos para fora da cela.
– Sim, você ficou desmaiado até agora. – ele disse sorrindo de canto.
– Eu não estava desmaiado... Quer dizer, eu desmaiei, mas depois eu devo ter acordado e dormido... – passei a mão pela cabeça, pois eu não sabia se ele estava acompanhando meu raciocínio. – Eu quero dizer... Se eu tivesse desmaiado até agora, muito provavelmente eu estaria com seqüelas, e...
– Ta bem, general... Eu não sou médico, mas... – ele riu, pela primeira vez em muito tempo. – Entendi o que quis dizer.
Tentei sorrir de volta, mas não sei... Apenas não consegui.
– Ótimo! – Adam chegou um pouco mais entusiasmado que ontem, talvez uma ponta de esperança nos seus olhos, talvez sobriedade... Não dá pra dizer ao certo. – Eu consegui achar onde as garotas estão... Quer dizer, — Ele hesitou um pouco e seu semblante ficou um pouco triste subitamente. – em parte, eu achei a Sam e a Avery, mas deixaram a Natasha em outro bloco de celas.
– Não se preocupa Adam, nós vamos achá-la. – Alex disse pousando a mão sobre o ombro esquerdo do garoto, que por sua vez retribuiu com um sorriso. – E mais importante, fugir daqui.
– Espera... – consegui dizer parando o Adam. – Onde a Sam está?
– Joe, se você está pensando em ver a Sam, é melhor ir tirando o cavalo da chuva. – Ele disse me olhando com uma expressão meio desinteressada. – Tem guardas por todo o lugar, principalmente agora, se te pegarem... Digamos que você não está em uma condição boa o suficiente para se defender...
– Olha, garoto, eu sei o que to fazendo, é só me dizer aonde ir. – disse em um tanto ríspido.
Vi o Alex balançar a cabeça negativamente, como se pedisse para o Adam não falar.
– Você vai descer as escadas do bloco C, depois você entra no segundo corredor da direita, vão ter muitas portas, mas você não entra em nenhuma delas, é só seguir reto e bem no final vai ter uma grade separando as alas, com sorte ela vai estar destrancada, a cela da Sam está no bloco A, é só seguir a esquerda e talvez seja a cela três ou quatro, não me lembro ao certo. – ele disse sem olhar diretamente pra mim.
– Adam! – Alex o repreendeu por ter me contado a localização da garota. – Você tem noção do risco que o Joe vai correr se for lá?!
– É problema dele... Ele sabe o que deve ou não fazer, mas se quer se arriscar mesmo assim, eu já disse, é problema dele. – Adam deu as costas e desceu as escadas que davam para o refeitório.
Alex me lançou um ultimo olhar antes de sumir atrás do Adam, um olhar que parecia pedir pra que eu não fizesse merda, ou coisa do tipo... Já estamos na merda.
Carter estava dormindo no colchão da cela, achei melhor acordá-lo, em lugares como esse não se pode relaxar, temos que ficar com olhos e ouvidos atentos.
– Carter... – cutuquei seu ombro. – Carter, acorda!
Ele se remexeu um pouco, mas acordou.
– Oh, olá, general. – ele respirou fundo se colocando sentado sobre o colchão. – É gratificante em fim ver seu rosto, devo dizer que já esteve em dias melhores... Mas ainda sim, gratificante.
Eu não sabia qual era o estado do meu rosto, na minha cela não tinha espelho.
– Carter, eu preciso que você fique atento, por dois motivos. – pigarreei tentando afastar a rouquidão. – Primeiro motivo: não é seguro ficar dormindo quando as celas estão abertas, alguém pode te espancar ou pior, nós não sabemos o que esperar dessas pessoas. Segundo motivo: preciso que você observe a rotina dos guardas, isso é fundamental pra que consigamos escapar daqui, saiba os turnos de cada um dos guardas... Posso fazer bom uso disso. – concluí apertando seu ombro direito.
– Sim senhor, general. – ele conseguiu dizer com certo entusiasmo, mesmo pra quem acabou de acordar.
– Mais uma coisa, senhor Wilkens... – recolhi minha mão e o fitei agora com um ar mais sério. – Vou visitar a Sam, quer que eu diga algo para a Avery?
Seus olhos brilharam.
– Sim, por favor. – ele disse contente. – Diga a ela que eu estou com saudades e que nós vamos sair logo, logo.
Assenti e fui me retirando.
– Joe... – virei um pouco a cabeça, para ouvir o que ele tinha a dizer. – Nós vamos sair daqui, não vamos?
Eu continuei andando, não tinha uma resposta muito boa para aquela pergunta, então preferi ficar na minha.
Certo, precisava fazer aquilo rápido, antes do café da manhã encerrar. Segui as coordenadas que o Adam disse, desci as escadas segui o segundo corredor e logo no final me deparei com o portão, ele estava trancado... Merda.
Ouvi o som de passos ao longo do caminho. Tem alguém vindo.
Escorei-me no canto de uma porta fechada que estava logo atrás de mim, — extremamente conveniente. – um guarda veio passando e pelo que pude ouvir parecia que ele estava virando logo para a parte que eu estava escondido, quando seu pé apareceu na minha frente dei uma puta pisada, ele ia gritar, mas tapei sua boca, ele puxou uma faca e logo agarrei seu punho com a outra mão, sem muitas opções dei-lhe uma cabeçada, ele ficou tonto e cambaleou pra trás, agarrei-o e girei sua cabeça de modo que rompesse a sua jugular, seu corpo inerte caiu no chão e eu guardei a faca comigo, logo em seguida apalpei todos os bolsos a procura de uma chave... Mas graças aos céus não demorou até que eu encontrasse.
Abri o portão e entrei às pressas no bloco, segui à esquerda como o garoto havia dito... 1...2...3!
Consegui ver a Sam pela janelinha, sentada na cama conversando com a Avery que estava de frente para a porta, mexi na penca de chaves e achei uma que tinha o número três, abri e a Avery gritou:
– Vovô Joe!
– Sou eu, em carne e osso... – Não consegui conter um sorriso de leve.
Ela correu e me abraçou, quase que instantaneamente a Sam virou para mim, a Avery pode ser pequena, mas no estado em que eu estava, até o abraço de uma criança de oito anos pode ser doloroso.
– Ai... – gemi de forma quase inaudível, mas a garota percebeu.
– Te machuquei, vovô? – ela me olhou com aqueles enormes olhos de desenho animado, não pude deixar de rir.
– Claro que sim... – eu falei colocando a mão no ombro dolorido. – Você é muito forte, deveria ter cuidado com isso.
Ela se afastou parecendo surpresa enquanto olhava para as próprias mãos, a Sam riu e correu para me abraçar. Senti seus braços envolvendo meu pescoço e sua respiração em minha pele, mas quando eu fui retribuir, ela hesitou, se afastando um pouco, talvez um pouco sem graça, como se não devesse agir daquela forma comigo.
Puxei-a pelo braço e a abracei forte, tomando cuidado para que meus braços a envolvessem por completo, com certeza ela não esperava por isso, até gaguejou alguma coisa, mas eu a cortei na mesma hora, ela colocou os braços nas minhas costas tentando retribuir, era um abraço gostoso, seu corpo era pequeno se comparado ao meu e ela estava perfeitamente encaixada em meus braços, o abraço durou e quase senti uma vontade de chorar pela falta que ela tinha me feito durante o tempo que ficou inconsciente e logo depois fomos separados de novo.
– Sam... – ela se assustou de leve com a minha voz perto do seu ouvido, tomei cuidado para diminuir o tom e por conseqüência, acabei ficando um pouco mais rouco. – Você não faz idéia do quanto senti sua falta, estou feliz por finalmente poder de abraçar e falar com você, eu vou fazer de tudo para nos tirar daqui... Nem que eu morra.
Terminei o abraço com um beijo suave em sua testa, assim como eu faço com a Laureen. Percebi sua expressão incrédula me fitando e devo admitir que fiquei extremamente sem graça com as coisas que eu falei e a forma como agi, mas, espero que ela esqueça isso em breve.
– Avery, seu vovô disse que está com saudades e que nós vamos tirar você daqui em breve... Ok? – tentei ser gentil com ela.
Ela devolveu com um sorriso seguido de um barulho vindo da ala masculina... Porra, o café da manhã acabou! Não consegui me despedir, até ouvi a Sam chamar meu nome, mas não pude esperar, corri o mais rápido que pude para a ala masculina. Alguns guardas apareceram, mas eu consegui evitá-los e seguir para a cela, chegando lá me deitei na cama e fingi que estava dormindo, é meio difícil, fingir não é exatamente o meu forte.
– Joe. – Alex entrou no quarto e eu consegui ver de olhos cerrados aquele rebolado típico. – Eu sei que você não ta dormindo...
Suspirei forte e me levantei do colchão.
– Aquilo foi uma péssima idéia... – ele deu um tapa de leve no meu ombro. – Saindo assim, se colocando em risco, tudo isso pra que?
– Pra ver se a Sam estava bem. – eu falei sério olhando profundamente nos olhos dele.
– E ela é o que? Sua filha, por acaso? – ele suspirou balançando a cabeça negativamente. – Se queremos sair daqui Joe, precisamos ser discretos, agir juntos, pensar em um plano, não podemos salvar a Sam, ou a Nat, ou a Avery ou qualquer um de nós nos colocando em risco... Eu ouvi um dos guardas perguntando para outro onde você estaria, quando o Adam viu que um deles estava indo te procurar socou a primeira pessoa que viu pela frente. Por sorte os guardas tiveram de separar a briga ao invés de ir atrás de você, mas agora é o Adam que está pagando pela sua estupidez...
O Adam faria tudo isso por mim? Devo dizer que fiquei surpreso.
– Ótimo, agora eu estou me sentindo culpado, valeu aí moça... – abaixei a cabeça para apoiá-la em minhas mãos.
– E deveria estar mesmo! – ele protestou. – Joe, olha... – ele foi se acalmando, sentando-se do meu lado logo em seguida. – Eu sei que a Sam significa muito pra você, ela significa muito pra mim, também. Na verdade, pra todos nós, até mesmo pra Nat, claro que ela nunca admitiria isso.
Eu ri.
– Eu nunca seria capaz de deixá-la pra trás, eu morreria se fizesse isso... – ele continuou. – Como o Adam não está aqui pra opinar, falo por ele: aquela garota é uma das melhores coisas que já aconteceram na vida dele, claro que... Tem seus defeitos, mas, quem não tem, não é mesmo?!
Ele sorriu pra mim e eu coloquei o braço envolvendo seus ombros, aproximando-o mais de mim.
– O que eu quero dizer, Joe, é que, nós sabemos o que você está pensando, mas precisamos ser um grupo pra conseguir sair daqui, está bem? – ele me olhou atenciosamente, esperando uma resposta.
– Tudo bem... – Sorri mais uma vez, bagunçando seu cabelo com a mão que lhe envolvia o ombro, ele me abraçou e levantou da cama em seguida.
– Certo. Algum plano em mente? – ele disse, dessa vez um pouco mais decidido. – Bem, eu estava pensando que talvez pudéssemos fugir hoje à noite. Aproveitar a luta que você e o Adam terão, sabe?
– É... – Fiz que sim com a cabeça. – O único problema é que, eu quero me vingar, quero que esses filhos da puta paguem pelo que fizeram com a gente.
Alex recuou dois passos.
– Ok, agora você me assustou.
– Pra fora! – um guarda entrou no quarto me arrastando, era tarde da noite e eu estava tirando um cochilo, digamos que não é muito agradável ser acordado por um brutamontes daqueles... Ainda por cima, tarde da noite.
Consegui ver outro guarda puxando o Adam pra fora também, nos algemaram, o Alex até tentou fazer alguma coisa, mas fecharam a porta bem em sua cara. Eu sentia um frio percorrer minha espinha, eu definitivamente não estava preparado para encarar aquilo.
Fomos levados até os vestiários onde colocaram bermudas de linho, sem bolsos, horríveis e tiraram nossas camisas. Não parecia haver nenhuma brecha, nenhuma abertura.
– Ei... – Adam disse com um sussurro para que apenas eu conseguisse ouvir. – Confie em mim...
Eu o olhei de cima a baixo e só agora depois do horário do café da manhã, percebia o quão arrasado ele estava: hematomas pelo rosto e pelo corpo, até alguns arranhões espalhados também. Mas que merda, Adam, por que você fez isso?
– O que é que você ta olhando, velhote?! – eu voltei a mim. – Gostou, foi?
Eu resmunguei qualquer coisa e mais uma vez fomos levados pra fora. Mas onde diabos, estava o White?! Esse era o momento em que ele apareceria pra estragar os nossos dias. Fomos empurrados para dentro, um homem se pronunciou, parecia ser o responsável por aquilo tudo, ele estava dentro da cabine, logo eu não conseguia ver o seu rosto.
– Senhores! – ele exclamou e as conversas nas arquibancadas foram abaixando o volume. – Hoje é uma noite muito especial! – As pessoas começaram a gritar de entusiasmo. – Hoje será nosso primeiro evento em que dois amigos lutam, pela própria vida! – mais e mais gritos. Ouvi a respiração do Adam ficar um pouco tensa. – Lembrando que... O vencedor fará parte dos nossos caçadores, enquanto o perdedor será muito útil pra nós... Alimentando os nossos infectados!
O discurso podre foi concluído com mais gritos da multidão, vi algumas armas serem atiradas para dentro da arena. Supostamente deveríamos lutar agora.
– Que comesse o jogo! – a mesma voz gritou.
Mas ao contrário do que ele possivelmente esperava, eu e o Adam continuamos nos olhando, sem mover nem um único músculo, o que arrastou a vaia das pessoas a nossa volta. Puta que pariu, esse cara acha mesmo que eu e o Adam vamos lutar até a morte?!
– Não se preocupem, nossos heróis vão ter o incentivo adequado...
Depois que o cara misterioso fechou a boca, um som estridente repercutiu por toda a arena, logo em seguida o portão foi aberto... Agora sim, estamos fudidos.
Adam correu até as armas e jogou um machado pra mim, agarrando um taco de baseball feito de metal.
– Joe, lembra do que eu disse? – sim, eu lembro pirralho... – Confia em mim...
Adam correu berrando, empurrando todos os infectados que invadiam a arena, entrando cada vez mais, mas que merda você está fazendo? Perceberam o plano do Adam, ativaram o fechamento do portão, mas, por sorte ou terrível azar, o portão era lento demais, tive que tentar acompanhar o Adam, nós corremos, batendo em todos os infectados que chegavam perto, cortando caminho e driblando a morte... Literalmente.
– Que merda! – eu ofegava. – Mesmo entrando lá, onde você acha que vamos parar?
– Eles precisam entrar por outro lugar para colocar infectados lá dentro Joe, o portão é muito grande pra isso, eu tenho certeza que existe uma porta lá em algum lugar!
– Mas e se não houver?! – fiz questão de demonstrar minha indignação.
– Joe! – ele hesitou, acertando um infectado que quase me agarrara. – Vamos morrer de um jeito ou de outro... Eu prefiro morrer tentando, eu não sei você...
Depois daquilo eu não sabia o que responder, o portão estava chegando perto de fechar, mas o Adam passou logo na minha frente, quando chegou minha vez, dois braços me agarraram por trás e mandíbulas fechavam com uma freqüência ritmada, fazendo o som de dentes batendo no ar, prestes a rasgar minha pele a qualquer momento, ou eu morreria esmagado pelo portão, ou mordido... Nenhuma, das duas opções parecia muito agradável.
Senti a mão do Adam me puxar pelo braço direito e atrás de mim, ouvi o som de crânios estalando até quebrar. O portão havia esmagado aqueles dois doentes, mas, para nossa infelicidade havia muitos outros do lado de dentro naquele escuro incômodo. Empurrei o Adam e nós seguimos correndo reto até encontrar uma luz do lado direito da parede, era uma lâmpada em cima de uma porta... Que convenientemente estava trancada.
– Joe, abre essa merda! – o pirralho disse em um tom bem alterado.
– E o que diabos, você espera que eu faça?!
– Dá um jeito! – ele gritou acertando a cabeça de um infectado que corria em sua direção.
Chutei a porta, mas ela nem sequer tremeu... Porra, essa doeu... Onde está minha bota quando preciso dela?!
– Vamos precisar arrombar juntos! – eu disse me afastando da parede. O olhar do Adam era de confusão e tensão ao mesmo tempo. – No três!
Adam se juntou a mim, esperando a contagem enquanto controlava a aproximação dos infectados.
– Um! – Respire fundo, Joe... – Dois! – Eu fechei meus olhos. Vai dar tudo certo...
No último segundo, abri os olhos e foquei na porta, quase como se pudesse derrubá-la só com isso – quem dera eu pudesse.
...E seja o que Deus quiser.
– Três!
.. Respiramos fundo... 2 Fechamos os olhos.... 3 Que seja o que Deus quiser.
Atiramos-nos contra a porta de metal e ela cedeu, nos derrubando para dentro do refeitório... Finalmente alguma coisa deu certo.
– Precisamos soltar os outros! – eu gritei. – Depois pegaremos os pertences.
– Não! – Adam se afastou de mim. – Abra as celas do Carter e do Alex, eu encontro você lá, vou pegar nossas coisas.
Mesmo que eu não quisesse que ele fizesse isso, era tarde demais, as únicas escolhas eram: deixá-lo ir, ou ir com ele... Joe, por que você é tão estúpido?
– Espera, pirralho! – consegui acompanhá-lo.
Ele estava certo, nossas mochilas estavam lá, só não as roupas e a maioria das armas, mas pelo menos as mochilas pareciam intocadas.
– Pegue a do Alex e a do Carter, eu levo a das garotas.
– Desde quando você me dá ordens pirralho? – eu disse tentando conter meu desagrado.
– Só cala a boca, estamos em um momento tenso agora...
Eu rosnei, me encaminhando para fora do depósito – mas claro que pelo menos uma coisa tinha que dar errado. – e um porrete acertou meu queixo em cheio, em um movimento ascendente, onde eu inevitavelmente caí no chão.
– Mas que...! – eu me contorci, largando as mochilas e cobrindo o meu queixo ensangüentado com as mãos. – Merda!
Um corpo subiu nas minhas costas, agarrando-me pelo cabelo e puxando meu rosto pra trás, logo consegui sentir uma lâmina fria em minha garganta.
– Diga “X”... Capitão. – um daqueles bandidos, filhos da puta me olhava com deleite, enquanto deslizava a faca pelo meu pescoço.
– X! – Adam chutou a cara do babaca, fazendo-o me largar e cair de lado, e então, finalizou-o, acertando sua cabeça com o taco logo em seguida. – E ele é general...
Ele me estendeu a mão para que conseguisse levantar, peguei as duas mochilas no chão e coloquei o machado na mochila em minhas costas.
– Tem algo pra me dizer... Joe? – ele me fitava com aquele olhar sarcástico como de costume.
– Vamos em frente... – bufei.
– Foi o que eu imaginei.
Levamos as coisas, mas ao voltar para o refeitório ele estava previsivelmente, entupido de doentes do inicio ao fim.
– Talvez se fizermos silêncio eles não nos notem.
– É, acho que você tem razão... – Adam se afastou um pouco, mas seu taco trincou na grade de metal, ressoando por todo o ambiente. – Droga.
Os infectados se viraram para nós instantaneamente, por sorte nem todos eram rápidos.
– Corre, porra! – eu berrei empurrando o Adam. – Ta esperando o que?
Ele tropeçou e nós corremos rumo às escadas que davam direto para o nosso bloco de celas, alguns doentes conseguiram nos alcançar, mas tiveram seus crânios partidos por um suposto machado.
– Porra! – Adam chutou a porta da cela do Carter. – Estão trancadas!
– Não por muito tempo, garoto. – puxei o facão da Sam que estava ao lado de sua mochila e encaixei-o na trava da fechadura, só foi preciso alguns movimentos pra baixo e pra cima e logo ela destravou. – Voilà.
Adam bateu palmas pra mim de forma irônica, enquanto eu devolvia a mochila do Carter, logo em seguida destravei a porta do Alex.
– Finalmente! – o garoto saiu da cela às pressas, parecendo bem mais aliviado. – eu achei que eles iam abusar de mim se vocês morressem.
– A gente não precisa morrer pra isso acontecer... Lexy. – Adam sorriu irônico.
– Pirralhos...! – eu devolvi a mochila do Alex. – Não temos tempo pra isso.
Adam assentiu, voltando à expressão seria de antes, rumando à sul, para a ala feminina. Nunca esperei que aquele garoto se importasse tanto com todos nós, parece que o velho Joe estava errado sobre você... Pirralho.
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