Against The Death
7 Samantha Black
– Puta merda, estamos ferrados – Joe resmungou.
Paramos o carro em frente a um amontoado de toldos protegidos por soldados bem armados, o que não me parecia nada bom.
– O que está acontecendo aqui?
– Isso é um posto de triagem – explicou, batendo no volante. – Esses desgraçados vão fechar toda a área.
– E por que está tão zangado? Os soldados do governo não eram exatamente o que a gente estava procurando?
Joe revirou os olhos para mim e abaixou o vidro para falar com o homem armado mais próximo. Tá né, pensei que perguntar não machucava. Enquanto Joe argumentava – cada vez mais alto – com o homem, decidi dar uma olhada melhor no local. Atrás da grade que cercava o perímetro, haviam outras cinco divisões: a primeira, com pessoas pálidas ou acinzentadas, com cara de que vai vomitar a qualquer segundo, e médicos coletando sangue e vacinando qualquer um que aparecesse na frente; a segunda, com pessoas expelindo secreções por todo e qualquer orifício (não fiz questão de olhar por muito tempo); a terceira, com pessoas entrando em convulsão, algumas se arranhando e mordendo até sangrar, outras se contorcendo de forma perturbadora; a quarta, onde os médicos levavam as amostras, água e comida (por que raios misturariam amostras de infectados com água e comida?); a quinta, que parecia onde os médicos e soldados dormiam, além de conter os armamentos.
– Mas que porra você está querendo me dizer?! – O grito do Joe me fez voltar a atenção quase que instantaneamente.
Nesse momento, já haviam mais três oficiais atrás do que falava com o Joe pela janela.
– Me desculpe, senhor – o homem já estava com o dedo no gatilho da sua MP7 – mas vocês não poderão ir além dessa área.
– Eu não sou um infectado! – Joe saiu do carro gritando, fazendo com que os quatro homens apontassem as suas armas para a sua cabeça. Senti meu corpo paralisar ao pensar nas balas atravessando a sua testa. Joe, seu filho da mãe, o que você tá fazendo?! – Abaixe essa suas arminhas de merda, imbecis. Já esteve no inferno do Afeganistão? Acho que não. Se estivesse, não estaria se cagando mesmo apontando uma submetralhadora para um cara desarmado.
– Mas que porra... – O soldado que nos interrogou já estava começando a mirar na cara do ruivo quando uma voz masculina o fez parar.
– Smith, esses são modos de tratar um convidado? – Um homem de aparência relativamente jovem surgiu no portão principal da cerca, com um oficial de cada lado.
– Senhor – o soldado bateu em continência, o que me levou a crer que ele era algum tipo de general ou sargento... Nunca fui muito boa com esse negócio de hierarquia militar. Bem, com hierarquia nenhuma.
Joe o encarou, saindo de seu estado de insanidade para um estado de raiva instantânea. Não sei se isso era uma boa ideia, já que o cara era importante.
– Você! – Joe apontou o dedo e marchou em direção ao moreno bem arrumado, fazendo com que dois dos oficiais mais próximos saltassem para agarrar-lhe os ombros, bloqueando a passagem. Joe se debateu um pouco, mas viu que era inútil e começou a agressão verbal. – Seu patife imundo lazarento!
– Ora, ora, eu salvo sua vida e é assim que me retribui? – O homem sorriu de escárnio. – Insultando-me de forma tão... baixa?
Pude ouvir Joe rosnando para ele, o que o fez sorrir mais. Joe tem a necessidade de saber que ele é a pessoa que manda em todos, um certo complexo por poder. Não quero nem saber como ele deve estar se sentindo agora, sendo completamente ridicularizado. O que me faz lembrar, por que o Adam ainda não entrou na briga?
– Há, me salvar? SALVAR?! Se você tivesse a mínima intenção de sequer me ajudar em algum dia de sua vidinha de corno, você não teria me feito vir pra esse pedaço de merda sem ao menos avisar que esse inferno estava sendo tomado por um bando de bolsas de doença devoradoras de gente!
Vendo que a conversa não estava exatamente o que eu chamo de “civilizada”, olhei para trás procurando pelo vovô ou Adam, sei lá, até o Alex estaria ajudando. Mas, ao invés disso, eu vi o carro deles parado atrás do nosso. Olhando rápido, alguma coisa parecia ter acontecido, pois estava o vovô e o Adam virados para o banco de trás gesticulando mais do que o necessário para um diálogo saudável. Ah, é hoje. Já que ninguém ia fazer porra nenhuma, vamos ver se ao menos o cavalheirismo não morreu nessa época de caos... Meu Deus, eu tenho que parar de ver filmes infantis.
Abri a porta do carro e me pus entre Joe e o homem engomadinho.
– Opa, opa, opa, parou a palhaçada – levantei a palma da mão para ambos.
Depois de uma olhada de cima a baixo – o que foi desconcertante –, os oficiais abaixaram um pouco as armas, mas não tiraram o dedo do gatilho. Uma mulher no meio muda tudo, não é? O Engomadinho, sem perder a pose, me olhou inicialmente com desgosto, até que um sorriso zombeteiro se formasse nos seus lábios. Não vou mentir, esse cara é muito macabro, parece que ele vai explodir minha cabeça à tiros a qualquer segundo.
– Ora ora, Joe, me parece que não foi ruim ficar preso nesse fim de mundo, não é? – Os olhos daquele porco subiam e desciam, varrendo-me com apenas um olhar.
Encolhi os braços e pus as mãos na cintura. Não vou deixar que um cara ridículo como ele me faça perder a postura. Encarei-o diretamente nos olhos, firme, e ele o fez de volta, mas com algo a mais por trás do seu castanho escuro que me fazia ter arrepios.
Joe olhou para mim, depois para o Engomadinho e, como que de imediato, começou a se debater com mais força e a rosnar mais alto.
– Fica longe da Samantha! – Repetia várias vezes, entre os rosnados.
Franzi o cenho para o Joe. Como assim ficar longe de...? Ah, sim. Merda. Virei-me para encarar o Engomado, mas agora ele já estava mais perto... E, definitivamente, mais intimidante.
– Hm, Samantha. Bonito nome – Ele pegou uma mecha do meu cabelo e o analisou cuidadosamente, como se estivesse procurando alguma imperfeição. – Sabia, Sam... Posso te chamar assim? Que, depois de toda essa crise... É muito difícil achar uma mulher bonita? – O seu sorriso se alargou, e subitamente a imagem do Coringa me surgiu à mente.
Recuei alguns passos, mas logo fui impedida de continuar pelos soldados, que sorriam da mesma forma maligna do Engomado. Imediatamente, lembrei dos caras que me acorrentaram no açougue. Mas que porra, nunca pensei que diria isso, mas eu preferia ser a Bruxa do 71 agora.
– O que foi, Sam? Parece-me um pouco assustada – o maldito parecia estar se divertindo muito, principalmente com os protestos de Joe como música de fundo.
– Em primeiro lugar, não me chame de Sam. – Tentei manter minha postura, e deu certo; o desgraçado franziu o cenho em desaprovação, o que me estimulou a continuar – Em segundo, não se rebaixe tanto para saciar desejos tão primitivos. Ou acha que não é bom o suficiente para conseguir sua satisfação sem ter que usar os seus homens para me forçar a fazê-lo?
O Engomado ficou sério e se afastou um pouco. Quando já estava satisfeita pelo meu feito, o homem... Riu?
– Olhe em volta, queridinha! – Ele abriu os braços espalhafatosamente. – Estamos no inferno! Eu pouco me fodo para os bons modos! Só irei te foder, e com gosto. Vou aproveitar enquanto a sua carne ainda não está podre.
Minha espinha congelou. Como uma pessoa pode ser tão detestável? E o pior é que eu não tinha para onde correr – literalmente. E ainda precisava soltar o Joe...
– Joe, nós... – A voz do Adam quebrou o clima tenso por alguns segundos. Ele parecia tenso antes mesmo de analisar a cena, depois que ele notou a merda... – O que está acontecendo aqui?
Adam segurou a pistola em suas mãos com mais força, o que não passou despercebido pelo Engomado.
– Então, o nosso querido Heffman trouxe amigos – disse o militar com desgosto.
– Quem é você? – Adam estava pronto para atirar, assim como todos os soldados à nossa volta.
O Engomado sorriu, zombeteiro mais uma vez.
– Não vejo necessidade de responder... – Ele fez algum sinal com a mão e, de repente, todas as armas estavam voltadas para as nossas cabeças – a um homem morto.
Segundos antes das armas estourarem o que restava de nós, a voz de Natasha ecoou alta e estridente – como sempre.
– Adam, por que tá demorando tanto?! A Avery...
Ela se aproximava rapidamente. Todos congelaram em seus lugares e encararam a Nat por alguns segundos, que foi desacelerando.
– Eu... Interrompi alguma coisa?
– Dra. Schlabtz?! – O Engomado estava incrédulo, como se estivesse vendo um hipopótamo criar asas.
– General Bradford! – O rosto de Nat se iluminou e então saiu em disparada para um forte abraço. Digamos que um tanto “íntimo” demais.
Eu fiquei catatônica com a cena. O Joe, quase vomitou ali mesmo. O Adam... Bem, digamos que ele também não aprovou. Se bem que nem o próprio General parecia muito feliz, ele parecia... Surpreso? Assustado? Desapontado?
– Doutora... – O General a afastou um pouco, parecendo se recuperar de uma notícia muito ruim. – Você está viva...? – Ele parecia estar tentando se convencer disso.
– Eu sei, parece muita loucura, mas... Estou viva. Toda a equipe está. – Essa última afirmação caiu como uma bomba para o homem.
– Natasha, quem é esse homem? – Adam parecia, além de nervoso, ressentido, como se o fato de Natasha o conhecer fosse algo imperdoável.
Se bem que se aproxima muito do imperdoável, já que em menos de meia hora ele já ameaçou o Joe e o Adam de morte e deixou bem claro de que queria o meu corpo nu.
– Bem, o General Bradford é... – Natasha se interrompeu, olhando para alguém além das grades. – Dr. Cooper!
Um senhor aparentando ter aproximadamente 70 anos, bem baixinho e calvo, com tufos de cabelos laterais completamente emaranhados, passou apressadamente pela grade, como se fugisse da insanidade. Oba, mais um amiguinho estranho da Nat.
– Eu não consigo acreditar no que meus olhos veem... Natasha Schlabtz!
Os dois se abraçaram durante um bom tempo, enquanto o General recuperava a sua postura. Parece-me que o fato de Nat estar viva não agrada muito o General Engomado.
– Oh, doutora... Não faz ideia do que a sua aparição significa para nós – o velho, sim, parecia estar verdadeiramente feliz por vê-la.
– Dr. Cooper, o senhor também não faz ideia do que é para mim te encontrar bem e seguro.
– Sem querer interromper a festa, mas já interrompendo, – disse Joe, ainda pendurado pelos soldados do General Engomado – pode me tirar daqui para eu dar um belo de um soco no meio da fuça do meu querido amigo Michael Bradford?
O General, como quem acaba de sair de um transe, muda sua postura tensa e volta a encará-lo com escárnio.
– E não é que Johann ainda tem muita energia para gastar? Está muito bem, para um velhote.
Adam aponta a sua arma para a cabeça do General, fazendo com que todos os soldados se coloquem à postos mais uma vez.
– Chame o Joe de velhote mais uma vez e eu lhe mostro o que é andar com dor na coluna, Bradford – Adam cuspiu o nome do General.
– Pirralho... – Sussurrou o Joe, olhando-o com certo carinho.
Bradford não pareceu gostar muito do desafio.
– Você ainda tem coragem de apontar uma arma para mim?! Seu moleque insolente...
– Não, Adam , abaixe essa arma! – Gritou Nat, pulando em direção ao namorado para tomar-lhe a arma. Adam a olhou como se ela fosse um bicho estranho. – Entenda, o General Michael Bradford e o Dr. Brian Cooper são as nossas maiores chances de sobreviver.
– Eu não vou me juntar a essa escória! – Gritou Joe. – Nada pessoal, doutor. – Corrigiu-se quando notou o olhar de mágoa do pobre senhor.
– Nat, eu sequer sei quem são essas pessoas, como quer que eu confie nelas? Ainda mais nesse prepotente aí – apontou com o queixo para o General, que franziu o cenho e devolveu o olhar de desprezo.
– Srta. Schlabtz, eu entendo a sua preocupação com os seus... amigos. Eu estaria da mesma forma no seu lugar. Mas a nossa situação aqui está crítica, e não podemos trazer forasteiros sempre que aparecerem. Você será bem vinda, devido ao seu posto de doutora e pesquisadora, que nos será útil no tratamento dos enfermos aqui na triagem – o General deu um singelo beijo na mão de Nat, sendo pela primeira vez algo próximo a um cavalheiro. – Já os outros, temo que tenham que se virar por conta própria.
– Tudo bem – Adam deu de ombros. – A gente se vira melhor sozinhos mesmo. Vamos, Nat – Adam a puxou pela cintura, encarando feio para os recém-descobertos amigos da russa.
– Mas, Adam...
– De forma alguma! – Bradou o velho doutor. – A Nat precisa ficar! Não sei se sabe, mas a Dra. Schlabtz trabalhou na criação do vírus que causou todo esse desastre, ela é de suma importância para achar a fórmula da cura!
– Se for assim, então todos nós devemos ficar – conclui.
O General e o Doutor me encararam com estranheza.
– Não sei se entendeu, jovem, mas eu acabei de falar que a doutora deve ficar por ter trabalhado com o vírus...
– Muito prazer, – cortou-o Adam – sou Doutor Adam Huntman, especialista em sistema cardiovascular, imunológico e mutação genética. Trabalhei na área R766 YB7, Setor 13, laboratório 8 do centro de pesquisas governamentais em Washington – Adam estendeu a mão para o doutor, que a segurou lentamente, olhando-o quase que maravilhado.
– Isso significa que você também trabalhou... — O Doutor parecia em êxtase.
– Na bendita bomba? Exatamente. Tanto eu, quanto a Dra. Schlabtz, a Dra. Black e o Dr. Fletcher, que está ali naquele carro.
O General parecia catatônico mais uma vez.
– Então, você está me dizendo que todos os criadores da bomba estão reunidos bem aqui?
Adam sorriu, com muito prazer, para o General Engomado.
– Exatamente. Todos vivos, sãos e saudáveis.
O doutor olhou para o general com algum significado. Quanto mais se olharam, mais o rosto do militar se contorcia — em provável desgosto — e mais o doutor sorria.
–Ora, vejam só, — o senhor deixou o olhar de Bradford, passando a olhar-nos um a um — quem diria te teríamos a sorte de nos encontrar justamente com as pessoas mais capacitadas para criar uma vacina e salvar a pátria, — por ultimo, voltou a olhar para Bradford — não acha, meu caro amigo prepotente?
O rosto do general tornou a ficar rubro.
–Prepotente?! O que você...
–Você quase matou os nossos salvadores, General — Cooper tinha um sorriso agradável, mas ainda assim presunçoso e... não sei. A única coisa que posso afirmar é que, naquela hora, um calafrio gélido desceu pela minha espinha.
Bradford, indisposto a perder a pose (mais uma vez), andou em direção ao doutor à passos bem calculados, como uma pantera, chegando perto o suficiente para batê-lo caso lhe fosse conveniente.
–Esses garotos não são salvadores — Bradford foi falando pausadamente, dando ênfase a cada palavra. — São corja, e do pior tipo. Um bando de incapazes, que falharam para com o seu Governo, com o seu povo. Pode até ser que eles tenham se juntado com um grupo terrorista, e todo esse caos tenha sido proposital.
Dr. Cooler pressionou o indicador e o polegar contra a ponte do nariz.
–Por que militares têm a péssima mania de associar tragédias a ações terroristas? — Refletiu alto.
–Cooler, eles falharam.
–Então, dessa vez vamos garantir que eles não falhem — pela primeira vez, o velhinho levantou a voz, firme em sua decisão. — Ou você prefere dar tiros no escuro, como nós temos feito até agora?! Bradford, pessoas estão morrendo! Se temos uma chance de salvá-las, nem que sejam apenas um punhado delas, eu irei me agarrar a essa chance, com ou sem o seu apoio.
Não vou mentir, quase chorei quando o escutei falar. Ele era uma pessoa boa, estava realmente disposto a combater esse caos da forma correta: achando uma cura. Me sinto quase mal por ter duvidado dele, mesmo que só por alguns instantes. Olhei para Nat e ela estava contente, quase orgulhosa.
Mas, para a minha surpresa — e espanto -, o General parecia igualmente satisfeito.
–Então, você disse que irá garantir que "eles não errem de novo"? — Perguntou o general, já perfeitamente recomposto. O doutor franziu o cenho. — Deixe-me facilitar para essa sua cabecinha tão... usada. Você irá se responsabilizar pela pesquisa desse grupo?
Cooler o encarou por um tempo, tentando entender a proposta — ou ameaça — do general. Ele olhou para Nat profundamente, num diálogo mudo, e ela apenas ascentiu. O doutor tornou a olhar para o general, desta vez com mais firmeza, e disse:
– Não haverá falha alguma, eu posso garantir. Ou eu não me chamo [esqueci o nome que eu dei para ele, mas já já eu me lembro] Solomon Cooper.
O General apenas sorriu, mas o fez do modo mais sombrio possível. Como uma pessoa dessas chegou ao cargo que está?
– Eu e Nat vamos acertar algumas coisas com o Dr. Cooper. Por favor, nos esperem aqui – disse o Adam antes de deixar a tenda.
– Ei pirralho, porque eu tenho que ficar aqui? Eu também quero falar com...
– Não me entenda mal, Joe... – Nat o interrompeu, meio sem jeito – mas você meio que... – Deu de ombros.
Joe fechou a cara, mas fingiu que não tinha entendido, e Adam fez questão de esclarecer.
– Você é gentil como um cavalo, falando com as pessoas essa sua “característica dócil” só se acentua. Vou repetir: fiquem aqui até nós voltarmos.
Joe bufou alto, mostrando o seu descontentamento.
Estávamos eu, Joe, Alex, o vovô Carter e a Avery em uma das tendas da triagem. Avery estava contorcida no colo do avô, então decidi ver o que tinha acontecido.
– Ei, pequena, é a Sammy. Como é que você está? – Sorri para ela e tentei ser o mais gentil possível ao tocar em seu braço, já que não sabia o que a garota tinha.
Ela foi, aos poucos, abrindo os olhos e virando o rosto para encarar-me de frente, e então soltou um gemido.
– Vovô Carter, o que aconteceu com ela?
– Eu não sei, ela só começou a gritar que estava doendo e apertou a barriga – Carter estava muito tenso, o que talvez não fosse bom para a Avery. Ela precisa relaxar.
– Já deu uma olhada?
– Não, ela não deixou ninguém ver.
Sutilmente, tentei tirar a pequena garota loirinha do colo do avô. Carter resistiu, como se eu estivesse tirando dele sua própria filha, e então eu o acalmei sussurrando que eu poderia dar um jeito. Relutante, ele deixou que a Avery viesse até o meu colo, com alguns gemidos de protesto.
– Não vai me deixar ver a sua barriguinha? – Alisei a sua cabeça, tranqüilizando-a. o que não deu muito certo, vale ressaltar.
A cada toque meu, a Avery encolhia-se mais.
– Vamos, priminha, se você me mostrar, eu posso fazer parar de doer.
Ela olhou para mim com os olhos lacrimando, e estava mais nervosa do que nunca.
– S-se e-e-eu mostrar para voc-cê, promete não contar pra ning-g-g-guém?
Franzi o cenho. Isso era meio estranho, o que podia ter ali de tão sigiloso? A menos que...
Não, não pode ser.
Sem afirmar nada, tirei a mão dela de cima da barriga sem que ela pudesse pensar muito, e lá estava o que eu mais temia... arranhões com alguns cortes expostos.
Mil coisas se passaram pela minha cabeça, por último vindo a imagem da Fedentina se explodindo para salvar nossas vidas. Não, não pode ser.
– ALEX, JOE! – Gritei, quase chorando.
Os olhos de Avery se arregalaram de susto e medo, depois se tornaram olhares fixos de raiva em mim.
Os dois vieram correndo, inclusive Carter.
– O que foi, garotinha? Aconteceu... – a voz de Joe foi sumindo aos poucos assim que ele analisava a barriga da menina. – Não...
Alex tapou a boca, completamente incrédulo. Carter apenas assistiu a tudo como se não pudesse processar todas as informações de uma vez.
– Ela está reclamando de dores no corpo, — quase que minha voz não saia, embriagada que estava pelas lágrimas – além do seu corpo estar frio.
– Traidora! – Gritou Avery, batendo no meu rosto e puxando o meu cabelo. – Mentirosa! Eu confiei em você!
– Avery... Pode não ser nada, eu posso dar um jeito...! – As lágrimas rolaram sem nenhum empecilho, enquanto Joe tirava a garota raivosa do meu colo e Alex e Carter assistiam a tudo estatelados.
– Mentira! Você vai fazer comigo o mesmo que você fez com todas aquelas pessoas lá fora! Você vai me matar, vai me matar! – Avrery começou a espernear e a gritar descontroladamente.
– N-não... Eu nunca... – Coloquei a mão na boca para tentar segurar o choro, o que não deu muito certo.
Matar a Avery? Não, impossível...
Adam, Nat e Dr. Cooper entram na tenda sem que ninguém percebesse, e já estavam no meio da baderna tentando acalmar a situação.
– Mas que porra está acontecendo aqui?! – Gritou o Adam.
– Garoto, você que é médico, olha isso aqui... – Joe segurou Avery pelas axilas, expondo sua barriga para que todos vissem.
A menina encolheu-se ao olhar apavorado de todos. Adam chegou mais perto para analisar a ferida, mas não diferiu da conclusão que tínhamos tirado anteriormente. Avery ia começar a chorar mais uma vez quando o Dr. Cooler se aproximou para checar também.
– Menina, como você conseguiu esses arranhões?
– Eu... – Avery desviou o olhar, pensativa. – Foi quando o tio Adam me empurrou para dentro do carro roubado. Uma das janelas estava quebrada, e tinha um pouco de vidro no banco... – Avery deu de ombros.
Cooler olhou-nos com certa sutileza, como se dissesse “Está tudo bem”. É claro, o Adam não gostou nada disso, pois era um médico talentoso e, ainda assim, se esqueceu de fazer a pergunta mais básica. Joe pôs a pequenina no chão, mais aliviado.
– Só para garantirmos, – continuou o doutor – quanto tempo faz que você está com esses arranhões?
– Cerca de duas horas, ou um pouco mais. – Respondeu Joe, já que sabia que Avery não lembraria quantas horas faziam desde a fuga do shopping.
– Oras, mas então é por isso que essa jovem mocinha reclama tanto de dor! – O doutor tenta fazer uma voz engraçada, para aliviar a tensão. – Esse ferimento deve estar bem sujinho, precisamos limpá-lo.
– Doutor... – Avery, ainda com a voz chorosa, enxugou as lágrimas. – Eu vou virar um monstro também?
– Claro que não, bonequinha. – Cooler alisou a sua testa, tranqüilizando-a. – Claro que não.
Adam e Alex se ofereceram para ajudar no curativo, já que o doutor estava muito ocupado e todos os médicos e cientistas no local já tinham suas obrigações. Carter, como era de se esperar, foi junto com a Avery para acompanhá-la. Nat decidiu ir com o doutor para entender quais etapas da triagem eles estavam utilizando e o método de aplicação, para poder ser útil mais tarde.
Só sobramos eu e o Joe. Estávamos ficando sozinhos cada vez mais, e eu já estava me acostumando àquela sua forma rude de ser. Era como se ele fosse um parente, um tio meu que só agora eu estivesse descobrindo que era um cara legal. Mas, ainda assim...
– Nos conhecemos muito pouco – disse ao me sentar ao seu lado.
Ele estava muito entretido admirando o chão, e tomou um pequeno susto quando me viu sentar ao seu lado.
– Como assim?
– Ah, sei lá... Você também não acha que formamos um excelente grupo? Eu, você, o Adam, a Nat e o Alex?
Joe bufou, e sorriu como se estivesse rindo de uma piada interna.
– Não são meu grupo especializado, mas... Dá pro gasto.
– Mentira! – Fiz um bico falso – admita de uma vez que você gosta da gente.
Joe me olhou com olhos divertidos, e essa foi a primeira vez que eu vi as suas rugas de preocupação se tornarem marcas de um sorriso verdadeiro.
– Você é chata, sabia garota?
– Faz parte do pacote, não se pode ter tudo de uma vez – dei de ombros.
– Besta – e ele bagunçou meu cabelo, assim como meu pai fazia quando eu era criança.
– Joe, você disse que tinha um filho... – Assim que eu terminei de falar, seu sorriso sumiu e sua postura se tornou extremamente rígida. – O que aconteceu com ele?
– Não era ele – Joe disse, apenas. – E nós não vamos falar mais sobre isso.
– Me desculpe, eu não sabia que te incomodava tanto. Pensei que se falasse sobre isso com alguém, a dor fosse diminuindo aos poucos.
– Entenda uma coisa, garota – seu tom de voz agora estava mais áspero, mas também triste. – A dor nunca passa.
Olhei bem para aquele seus olhos adentrados de tanta olheira, o maxilar rígido – que, por sinal, era raro não estar – as rugas mais profundas. Joe estava muito cansado, e parecia que lembrar da filha era uma dor sem igual.
– Quantos anos ela tinha?
– Pare de falar dela como se estivesse morta – Joe pôs as mãos cobrindo o rosto, apoiando os cotovelos nos joelhos.
“Como se ela estivesse morta”? Mas eu pensei que...
– Você não disse que tinha uma filha?
– Eu só não quero que vocês me encham o saco – bufou.
– Joe, de verdade, você tem ou não tem uma filha?
– DA PRA PARAR DE FALAR DELA? – Ele esbravejou, enquanto apertava a palma das mãos contra a cavidade dos olhos.
Encolhi-me contra o pano da tenda, abraçando meus joelhos. Claro que já tinha visto o Joe gritar antes, mas nunca tinha sido diretamente comigo. E devo admitir, acho que não quero que ele o faça de novo.
As mãos do ruivo começaram a ficar trêmulas. Pensei em ir até ele, confortá-lo ou ao menos tentar, mas isso me pareceu uma má idéia. Afinal de contas, o Joe é muito orgulhoso. Geralmente eu sei o que fazer nessas horas, sempre ajudei meus amigos quando eles estavam mal ou apenas tristes, mas o Joe... Eu não sei o que fazer.
É como se ele não fosse meu amigo...
– Joe, por favor, me desc...
– CALA A BOCA, EU NÃO QUERO QUE VOCÊ FALE. – Mais uma vez, gritos.
Dessa vez, ele conseguiu. Cerrei meus punhos, me ajoelhei e não me segurei ao dar um soco em seu braço. Digamos que eu não seja um ás em luta corporal, e por isso o meu punho deu uma estalada brutal. Mas, ainda assim, eu consegui derrubar o Joe, fazendo-o tirar as mãos do rosto e mostrar a sua cara de susto, junto com olhos lacrimando. Ok, isso é fofo da parte dele, mas ele continua sendo um ridículo. Segurei a vontade de choramingar pela dor no meu pulso e engatei em uma série de acusações, com direito a indicador no meio da cara.
– Você é o cara mais infantil, egoísta, mandão, chato, estressante, ranzinza, teimoso, indiferente e RIDÍCULO que eu já conheci, e olha que eu ando com o Adam!
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Respirei fundo, e agora que a adrenalina se foi, eu acho que estou meio arrependida de ter dito tudo isso ao Joe.
– Infantil? Mimado? Garota, antes de falar de mim, dá uma olhada em algum espelho sem ser o do circo de onde você veio!
Ok, o arrependimento passou.
– Não sei por que eu que vim do circo, já que o único que está fazendo palhaçada aqui é você!
– Então quer dizer que me preocupar com minha filha é palhaçada agora?!
– Ah, então você tem uma filha? Eu não sabia! – Tinha sarcasmo escorrendo pelos meus poros.
– Isso não é da sua conta, mulher enxerida!
– Grosso!
– Como se isso também fosse da sua conta!
– Arg, como você pode ser tão arrogante?
– Não sei por que se importa, vocês não são nada pra mim!
Agora, ele tinha passado dos limites. Ficamos nos encarando por algum tempo: ele, com o rosto retorcido de raiva, e eu, completamente estagnada.
Como assim não somos nada para ele? Eu pensei que, ao menos, éramos companheiros, ou algo melhor do que nada.
– Eu sabia, você não se importa com a gente – falei num sussurro.
– Claro que não, vocês podem morrer que eu não vou nem ligar – bufou.
Não pude mais segurar as lágrimas e deixei que elas rolassem, mas sem fazer um único som. Não era um choro, eram apenas lágrimas. Assim que Joe as viu, sua feição mudou num segundo. Ele passou a mão pelo rosto e respirou forte, provavelmente sabendo que tinha feito merda.
– Olha, me desculpa, eu...
– Eu te odeio – deixei as palavras fugirem da minha boca, ainda que baixo.
– Como é que é?
– Eu. Te. Odeio. – Falei mais alto e pausadamente.
– Laureen, eu não te dei o direito de falar assim comigo!
– Laureen? – Deixei clara a minha indignação. – Mas que porra, Joe, não faz nem questão de lembrar o meu nome? Eu sou tão insignificante assim?!
Joe me olhou fundo nos olhos, com o olhar pesado, e depois tornou a sentar-se da forma como estava antes que eu dei o soco.
– Na verdade, garota, você importa muito para mim. Todos vocês importam.
Como assim?! Não, tem algo errado. Joe nunca se renderia fácil desse jeito.
– Uma hora, você não tem filha, depois, é como se ela surgisse do nada. Antes, nós não importávamos nada para você, agora, somos todos amigos de infância – fiz questão de ser o mais ríspida possível. – Me diga Joe, o que você quer?
– Tudo o que eu quero é ver a minha filha de novo. Saber se ela está bem, se ela está viva – resmungou baixinho. – Isso é pedir demais? – Suspirou.
Sentei e observei calmamente aquela figura na minha frente. Agora eu entendo...
– Por que não disse isso antes? Por que não disse que não queria falar da sua filha porque isso o magoa?
Ele bufou.
– E por que eu falaria isso? Não ajudaria em nada eu ficar lamentando pelos cantos, nem ficar choramingando por ela. Eu não estaria fazendo bem a ninguém, nem a vocês.
E, no final das contas, ele realmente se importa com a gente. Sorri, mesmo com o pesar, e pus a mão no seu ombro. Ele olhou pra mim, primeiro estranhando o gesto, mas depois com certa simpatia.
– Joe, você não é um super-herói, nem precisa ser bom por tempo integral. Pode ficar triste de vez em quando, ou fazer alguma burrada.
– Mas aí, quem te salvará das suas burradas? – Ele riu, e eu não pude deixar de soltar uma risada breve.
– Eu me viro, nada é impossível.
– De jeito nenhum. Suas burradas são épicas, queria ver como o Chuck Norris as resolveria.
Fui dar um empurrão de leve em seu braço, mas assim que movi meu pulso... Crack.
– Aaaai, cacete! – Pus a mão boa por cima do pulso dolorido.
– O que foi, garotinha?
– Meu pulso... Tá doendo... – Joe puxou a minha mão que estava em cima com um pouco de força extra. – Ai! Faz o favor de ser mais delicado?
– Desculpe, madame, mas eu não sou exatamente um dançarino da Broadway pra me importar com delicadeza – sorriu zombeteiro.
– Então nem tente fazer alguma coisa aí – recolhi meu pulso, mas rápido demais. – Aaaai, desgraça!
– Que vocabulário feio, mocinha – ele pegou meu pulso de novo, dessa vez sendo mais cuidadoso. – Acho que você quebrou, deve ter algum kit médico por aqui...
– Há, vocabulário feio... Falou o homem da fala polida – resmunguei.
– Vocês duas realmente não têm jeito – sorriu e foi em busca de um kit.
Vocês duas? Ah sim, o Joe acabou não me alando quem era a filha dele ou o que aconteceu com ela. Eu quero muito saber, mas não sei se é uma boa idéia, já que acabamos de brigar justamente por causa disso. Mas eu quero tanto saber...
– Achei. – Joe voltou com uma caixa branca com uma cruz vermelha em mãos, e sentou-se ao meu lado, tomando meu pulso de novo.
– Ouch! – Protestei, mas ele ignorou. Decidi fazer minha investida. – Enquanto estivemos brigando, você me chamou de Laureen – Disse, e esperei ver como ele reagiria. Joe congelou assim que ouviu o nome, mas logo voltou a tratar do meu pulso. Decidi continuar. – E agora você disse “vocês duas não têm jeito”. Por acaso, Laureen é a sua filha?
Joe suspirou e balançou a cabeça.
– Sua insistência é um porre, tenho pena de quem casar com você.
Dei um tapa em seu braço com a mão boa, tapas eu sei dar muito bem.
– Menininha agreste.
– Fala logo, Joe, larga de cú doce. Ai!
– Isso foi pelo cú doce.
Mais alguns segundos de silêncio.
Ele não ia dizer uma palavra.
– Joe, é sério!
– O que é sério, garotinha barulhenta?
– Pára de me enrolar e me conte o que aconteceu com a Laureen!
– Não use o nome dela à toa – disse sério.
– Ela virou Deus agora? – Bufei. Joe me fuzilou com os olhos e mexeu meu pulso mais uma vez. Resisti a um grito de dor. – Foi mal, foi mal.
– Mal não, foi péssimo.
– Por que velhos sempre tem mania de retrucar o “foi mal” com “foi péssimo”? – Perguntei, meio que para mim mesma.
– Eu não sou velho – ele resmungou. Levantei a sobrancelha, mas ele apenas bufou em resposta. – E velhos não fazem isso.
– Você acabou de fazer.
– Puta merda, como você é irritante! – Explodiu ele.
– Vou continuar sendo até que você me conte a história da sua filha – sorri maliciosa.
Joe suspirou profundamente e apertou a ponte do nariz com o indicador e o polegar.
– O que quer saber?
– Tudo – sorri vitoriosa.
– Ah, não me venha com essa não, Sam! Comece com uma pergunta, já está bom demais por hoje.
Eu até pensei em exigir mais que uma pergunta, mas só isso já era um grande avanço. Pela primeira vez, eu iria quebrar a barreira que o Joe construiu para nos manter longe do seu passado, longe da sua cabecinha de militar.
– O que aconteceu com a Laureen?
– Como assim, o que aconteceu? Seja mais específica.
– Hm... Me conte a história da vida dela.
– Não, não, isso já é demais – resmungou o ruivo.
– Mas é uma única pergunta! – Protestei.
– E a resposta é grande demais, faça outra.
Fiz um leve beicinho. Não era justo, eu fiz uma pergunta. Mas eu já imaginei que a resposta dele seria essa, então nem tentei insistir. Tinha tanta coisa que eu queria saber que eu nem sabia por onde começar.
– Como foi a última vez que vocês se viram?
Joe levantou os olhos do meu pulso e me encarou confuso.
– Como assim?
– Ah, cara, é uma pergunta fácil – ele ainda me olhava com cara de dúvida. Suspirei. – Onde vocês estavam, o que você disse pra ela, o que ela respondeu... Essas coisas.
– Bem... – Joe coçou a nuca. – Estávamos no meu apartamento, eu disse tchau, ela disse tchau, e eu fui embora – ele deu de ombros.
– Qual é, Joe, eu acho que mereço um pouco mais que isso – levantei a sobrancelha, com desgosto pela sua narração tão vazia, e ele se encolheu.
– Está bem – ele suspirou e voltou todo o seu foco para o meu pulso mais uma vez. – Foi mais ou menos assim...
Estava mais ou menos no final de setembro. Eu tinha acabado de receber a notícia de que os Estados Unidos convocou generais ingleses para discutir estratégias de guerra para a Terceira Grande Guerra. Laureen ainda não tinha se recuperado cem por cento da perda da mãe. Vivia encrencando comigo, sorria pouco e estava quase sempre mal-humorada. Parecia que queria criar uma barreira para tudo e todos, e não deixava ninguém chegar perto... Nem mesmo eu. Mas, isso não é o que importa.
Ela sempre detestou a ideia de me ver viajando para outra guerra, pois não suportaria perder o pai também. Desta vez, ela tomou coragem e se abriu comigo... Lembro de suas palavras como se estivessem escritas em minha memória:
"- Olha, cara, eu já perdi a mamãe e perder você me mataria por dentro."
Essas palavras aqueceram meu coração e também o destruiu. Quando minha filha finalmente decide ser sincera comigo, eu estava indo a uma reunião idiota nos E.U.A.
E então, eu a deixei com meus pais, em Wolverhampton. Minha mãe é uma dona de casa nata, e o meu pai é ex-militar. Sempre que viajava a trabalho, contava com eles para cuidarem da minha garotinha.
A nossa despedida foi rápida, como sempre, mas desta vez teve algo de especial. Parecia que a Laureen sabia que nós demoraríamos de nos reencontramos, então, pela primeira vez, me deu um abraço realmente apertado e ssussurrou:
"- Volta logo, pai."
Meus olhos se encheram de lágrimas, mas eu não deixei que nenhuma caísse. não podia deixar ela me ver fraquejar. Eu tinha que mostrá-la que eu era forte o suficiente para lidar com aquilo, e precisava mostrar em mim um ponto de apoio para ela. Não, eu não podia chorar.
E foi assim a última vez que eu vi a minha querida Larueen...
A voz do Joe ia ficando cada vez mais fraca, e sempre falhava quando falava o nome de Laureen. E, no final, pensei que ele fosse chorar, mas apenas respirou fundo. E eu quis chorar por ele.
Eu estava sem palavras. Tentei imaginar pelo que esses dois passaram, mas estava fora de cogitação. Nunca passei por nada daquilo, então não compreendia nem a Laureen e nem o Joe. A única coisa que eu entendia era a vontade irrevogável do Joe de ver sua filha.
– Não fique tão calada, isso me incomoda – resmungou Joe.
Eu o encarei profundamente. Joe, você deve ter passado por tanta coisa...
– Ei, não faça essa cara de pena! Isso é detestável.
– Não é cara de pena, só... Só estou pensando nas coisas horríveis que você deve ter passado – dei de ombros.
– Ah, garotinha, você não faz idéia – disse, balançando a cabeça.
– Eu acho que faço sim – disse, tentando sorrir para ele, e ele, tentando sorrir de volta.
– Convencida.
– Não vamos voltar aos xingamentos mútuos, já passamos dessa fase.
Ambos rimos. Finalmente, eu sentia que o Joe queria fazer parte do nosso grupo, que finalmente eu poderia chamá-lo de amigo. Ou algo parecido. Não, acho que apenas tiozão já está ótimo.
– E você, não tem nada para me contar? – Ele deu um pequeno puxão no nó da atadura em meu pulso. – Está terminado.
Recolhi o meu pulso, acomodando-o em meu colo.
– Bem, como você pôde perceber, ninguém nunca me ensinou a dar um soco – nós dois rimos.
– Nada de histórias chocantes? Dramas épicos? Romances proibidos? – Brincou ele, fazendo voz de narrador.
– Romances proibidos? – Falei com certa repulsa.
– Você é do tipo que gosta dessas coisas – deu de ombros.
– Bem, eu até gosto, mas... – O cara que eu amo não gosta de mim. – Eu sou grandinha o suficiente para saber que coisas assim não acontecem de verdade – disse por fim.
– Olha, a garotinha está crescendo! – Zombou. Dei um tapa com a mão “engessada” devido ao costume, e uma onda de dor se espalhou pelo meu corpo. – É melhor pegar leve com essa mão, garotinha, você deu um belo murro – ele riu consigo mesmo e eu me segurei para não dar outro tapa.
– Eu sei me virar sozinha – sussurrei.
– Ah claro, estou vendo – zombou mais uma vez, e eu o fuzilei com os olhos. – Mas, sério, não é possível que nada marcante aconteceu na sua vida.
Bufei. Esse era o problema... Nada realmente aconteceu.
– Eu não tenho muito para contar. Vim de uma família de classe média baixa, sendo que meus pais são separados. Eles sempre preferiram muito mais a minha irmã mais velha, já que ela era a primogênita, o que me fez terrivelmente ciumenta. Nunca fui extremamente bonita, então não me destacava no colégio, ser popular estava fora de questão. Tudo o que me restava era estudar, e mesmo assim eu não o fazia.
– Espera, você não estudava?
– Não, só quando eu achava necessário... Por que?
– Uau, você é incrível. E conseguiu chegar até aqui assim?
– Claro que não, isso só aconteceu no fundamental. Quando cheguei no ensino médio, minha irmã estava indo para a faculdade, e ela passou no MIT.
– Caralho... Conviver com uma irmã dessas não devia ser fácil.
– E não era, mas fazer o que? Enfim, eu comecei a estudar de verdade a partir do meu primeiro ano, já que esperava me sair tão bem quanto ela, e com isso eu joguei boa parte da minha adolescência fora.
– Não se preocupe, a adolescência é uma vadia – Ok, devo admitir que eu ri com essa.
– Eu sei, eu estava lá. Enfim, adivinha aonde eu passei?
– Na de Washington, eu lembro que você falou quando nos conhecemos – eu não esperava por essa, e fiquei alguns segundos refletindo sobre isso.
– Bom garoto – passei a mão pelos seus cabelos, o que o fez me fuzilar com os olhos. – Na faculdade, uma boa parte daqueles otários caiu na tentação das festas, bebidas e drogas. Bem, eu já estava acostumada a voltar para casa cedo e estudar, então na faculdade eu não fiz diferente. Eu nunca fui a aluna destaque, mas sempre estive dentre os melhores.
– E amigos? Você não saia com ninguém?
Essa pergunta sempre me matou. Não que eu fosse algum tipo de sociopata, mas sair com os amigos nunca foi um hábito meu.
– Bem... – Eu fiquei meio sem graça. Odeio falar esse tipo de coisa. – Eu tinha alguns amigos. Todos eles eram que nem eu, então ninguém fazia muita questão de sair ou coisa do tipo...
– Você passou toda a época da sua faculdade sozinha? – Eu senti um leve ultraje em sua voz, mas preferi apenas assentir. – E namorado, tinha algum?
E essa é a pior parte de todas, a que eu considero a mais humilhante.
– Eu tive uns dois ou três... Por aí – Deu de ombros.
O seu rosto era uma completa paisagem, e eu sabia que ele ia zoar de mim pelo resto da minha vida. Eu acho que estou meio arrependida de ter começado com essa coisa de contar a história um do outro.
– Por favor – Joe sussurrou, apertando a ponte do nariz mais uma vez – me diga que você não é virgem.
Eu senti todo o sangue do meu corpo se concentrar nas minhas bochechas.
– Joe! Isso foi terrivelmente indelicado! – Dei um tapa em seu rosto com a mão machucada de novo, e nós dois gritamos de dor.
– Bem feito – disse, presunçoso, e eu o fuzilei com os olhos. – E então, é ou não virgem?
– Não, Joe – respirei fundo. – Eu não sou virgem.
– Mas me diga que você perdeu a virgindade na faculdade.
– Joe!
– Fala sério, que tipo de americana é você?
– O tipo que não é puta ou entregada, talvez?!
– Hm, touchè.
– Arg, pensei que britânicos eram mais cavalheiros – falei enquanto tentava seriamente me recompor desse vexame.
– E eu pensei que americanas eram putas – deu de ombros. Eu o olhei e refleti um pouco.
– Touchè.
– E o que, finalmente, te levou a trabalhar para o governo?
– Com certeza não foi por transa – nós rimos mais uma vez. – Bem , isso foi num dos meus empregos depois da faculdade. Eu trabalhava em um laboratório de pesquisas particular. Nós trabalhávamos com a produção de vacinas e coisas do tipo, e eu só ficava aplicando as vacinas em animas e anotando os resultados.
– Nossa, que emprego legal – falou, sarcástico.
– O pior é que era mesmo. Se fosse qualquer um, teria achado chato, como você – eu sorri e ele bufou com a indireta. – Mas eu achei fascinante. Comecei a estudar em casa sobre a manipulação de vírus e fui tentando fazer eu mesma. Fiz amizade com uma das cientistas que trabalhava com a fabricação das vacinas, e sempre que alguma não dava o resultado almejado, ela me dava o frasco. Assim, eu fui começando a misturar alguns dos DNAs dos vírus e aplicando nas cobaias que eram postas para serem sacrificadas. A cada aplicação, os vírus iam ficando mais mortais, mas nenhum tinha efeito instantâneo, o que era uma pena.
– Você está começando a soar perigosa para mim – zombou. – Mas como você conseguia manipular o DNA dos vírus?
– Eu meio que tinha a chave do laboratório... – Revirei os olhos, como se isso fosse comum.
– Você invadia o laboratório à noite? – Joe se alarmou.
– Lógico que não, eu não sou uma fora da lei – bufei. – Só sabia que eles não o utilizavam todos os dias, então fui prestando atenção quando eles usavam e quando não usavam. A partir daí, foi fácil entrar sem que ninguém soubesse.
– Cara... Não é que você é inteligente?
– E em algum momento você duvidou disso? – Falei orgulhosa.
– Continue a história – disse Joe. Eu sabia o que isso quer dizer, mas decidi ignorar, pelo menos ele me reconhece agora.
– Bem, como sempre acontece quando se faz algo de errado, o dono do laboratório ficou sabendo do meu “uso indevido”... Bem no dia da inspeção do governo. Lógico, isso deu uma merda do cacete, e eu tive que fazer vários interrogatórios. Acabou caindo no conhecimento deles que eu era excelente em manipulação de DNA, e me requisitaram para participar do grupo de pesquisa do Governo... Fim.
– Essa história foi tocante – disse, irônico.
– Há-há, você é hilário.
Eu olhei para o Joe, depois para o meu pulso engessado. Eu acabei de ter uma conversa de verdade com ele, e ele também se abriu comigo. Não pude deixar de sorrir com a idéia de poder, finalmente, confiar nele.
– Ei, Joe...
– O que foi, garotinha?
– Obrigada – olhei para ele com carinho, e ele me devolveu um olhar confuso.
– Pelo que?
– Por confiar em mim, e me deixar me aproximar de você – sorri. Ele arregalou os olhos e depois os desviou. – Você parece menos ranzinza agora, até brincou comigo. Isso é bom, era cansativo demais ficar perto de você – suspirei.
Ele olhou para mim, meio pensativo.
– Então, ser o herói não era legal?
– Não que não fosse, porque você nos salvou várias vezes. Mas ainda assim – o olhei diretamente nos olhos – é muito melhor ter um amigo do que um herói.
– Você é chata, sabia?
Eu ri e dei um abraço bem forte, o que o pegou de surpresa. Primeiro ele resistiu, mas depois pôs uma mão nas minhas costas.
– Ei, velhote.
Nós dois viramos rapidamente para a entrada da tenda e nos deparamos com o Adam parado, de braços cruzados.
– Você sabe que isso é pedofilia, não sabe?
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