Against The Death
8 Johann Heffman
Notas iniciais
– Não tem nenhuma lei me impedindo de fazer o que quero não é? ... – Sam corou me dando outro tapa. – Fica a vontade pirralho... Já terminei com ela.
– JOE! – Sam estava sem graça... É melhor assim, a prefiro sem graça, que querendo saber da minha vida, mesmo que tenha sido... Bom?! Adam riu.
– Pode crer velhote! – Ele sorriu malicioso para Sam. – E aí, vamo ali no canto rapidinho?
Eu me levantei e ele começou a perturbar a Sam, eu reprimi um sorriso, mesmo pelos protestos dela, dava para ver que ela estava rindo, me admirava que a Natasha ainda não tinha chegado para estragar tudo. Puxei a carteira de cigarros e fui saindo de mancinho da cabana.
– Não vai fumar... – Pela minha surpresa, foi Adam quem perguntou. – Vai?!
Sam olhava para mim também. Por que era tão dramático um cara ir fumar? Mas algo em mim fez hesitar ao colocar o cigarro na boca, aqueles pirralhos estavam me mudando. Rosnei, baixo o suficiente para que ninguém escutasse enquanto me retirava da cabana.
A lua era cheia e nem tinha percebido até então que tudo tinha escurecido, apalpei o meu bolso direito e consegui achar o isqueiro, não só o isqueiro como minha harmônica, sorri sozinho, aquele instrumento me trazia lembranças boas. Fiquei perto da grade para fumar, longe dos enfermos, longe das cabanas, perto dos soldados.
– Boa noite Smith... – Disse com a voz propositalmente embargada e sarcástica.
– Boa noite... Senhor – Ele respondeu relutante.
Eu não consegui conter o riso. Traguei um pouco do cigarro. É muito engraçado como a situação muda quando as pessoas sabem quem você é. Soltei à fumaça.
– Ali! – Ouvi um dos soldados falando para Smith.
– E o que está esperando? Atire!
Eu consegui ver, era um infectado, cambaleando e se arrastando estrada a baixo... Por que ele não corria? O soldado colocou a arma na mira e eu rapidamente consegui segurar seu braço, ele me olhou espantado.
– O que está fazendo? – Ele tentou recolher o braço, mas eu o segurava firme.
– Deixe-me fazer isso. – Falei tragando novamente.
– Negativo... As informações passadas são que, ninguém...
– Deve passar dessa maldita cerca – Eu disse o puxando até que se batesse contra a grade. Consegui perceber a sua expressão de surpresa quando o puxei. Eu não podia acreditar, ele agia como um soldado... A menos que... Olhei para sua insígnia, mas não tinha nenhuma, maldição, eram aqueles merdas que estavam tomando contra da triagem? – Soldado abaixe sua arma! – Eu disse firme e ele o fez na mesma hora.
– Quem é você para mandar nos meus homens? – Smith se virou para mim e consegui ver sua insígnia “PV2¹” ele era apenas um soldado acima dos outros soldados... Eu nem acredito que até mesmo o Bradford seria incompetente a ponto de deixar a segurança da triagem nas mãos de simples soldados.
– Eu sou o general de exercito da força militar inglesa, Johann Heffman, responsável pelo segundo esquadrão de tarefas especiais e... Um homem muito mais competente que vocês para controlar a situação.
Eu não sei explicar, mas o rosto de Smith fazia uma mistura perfeita de raiva e admiração, mas enquanto conversávamos o morto vinha ao nosso encontro.
– Eu exijo que abra esse portão soldado.
Ele me encarou e encarou o morto, sabia que se ele me desobedecesse iria acabar mal, mesmo que eu não fosse seu superior. Traguei calmamente o cigarro e ele cedeu, abriu o portão para que eu passasse.
– Mas seja rápido! – Ele disse tentando se colocar por cima.
– Não recebo ordens de subordinados.
Ele rosnou com raiva, isso me deixava contente. O morto não corria nem mesmo ao perceber que eu ia à sua direção. Puxei a faca da bainha que ficava nas minhas costas ao lado do ombro.
– Ei garotão, quer brincar? – Tentei chamar a atenção dele para mim e deu certo, mas ele não parecia muito animado sabendo que poderia desfrutar de uma saborosa carne britânica. – Não parece tão ameaçador, por quê?
Eu me afastei um pouco para ver se de onde ele vinha, havia mais deles, mas nada, ele estava sozinho. Olhei para suas olheiras, a pele descascando e caindo, o cheiro de carne podre rasgando meus pulmões, mas, mesmo assim, conseguia ver os resquícios de humanidade nele, calça jeans, cabelo oleoso, camisa de banda, uma banda que eu não conhecia direito, mas a Laureen amava. Laureen... Eu me distraí por um instante e parei de andar para trás.
– General! – Smith gritou e eu voltei a mim, mas era tarde demais.
O adolescente podre me agarrou pelos ombros e me derrubou no chão, coloquei o antebraço no seu pescoço para que ele não me mordesse, mas era pesado, e sedento. Tinha derrubado minha faca e não conseguia alcançar.
– EU VOU ATIRAR. – O soldado advertiu.
– NÃO! EU CONSIGO – Gritei de volta, mas meu braço estava fraquejando, era o mesmo braço que tinha recebido um tiro semanas atrás, não conseguiria segurar ele por muito tempo, tentava agarrar a lâmina, mas meus dedos apenas arranhavam a grama e a terra que enfeitava aquela estrada. – Eu consigo... – Disse para mim mesmo, mas o meu braço cedeu e o morto caiu sobre mim, mas, por sorte, consegui agarrar a faca, ele abriu a mandíbula para morder o meu rosto e eu a enfiei em seu céu da boca, o sangue escuro escorreu pelas minhas mãos até o meu braço e respingou em minha roupa, empurrei seu corpo imóvel para o lado com esforço e ele tombou, consegui levantar, passei a mão pelos meus braços e corpo para ver se estava tudo bem. Meu coração estava acelerado, eu tinha perdido o controle sobre mim. Suspirei aliviado.
Levantei a cabeça para ver os soldados, eles estavam boquiabertos, e Adam estava andando apressado na minha direção, senti uma queimação no canto da minha boca, o cigarro estava todo amassado e certamente queimou o meu lábio na hora que estava me atracando com o infectado.
– Que merda... – Sussurrei tocando a queimadura com a parte limpa da roupa.
– Joe, você ta... – Ele disse preocupado, mas foi desacelerando quando viu o defunto do meu lado.
– Bem? Sim... – Minhas pernas estavam tremendo, era a falta de potássio e o efeito da adrenalina apenas piorava, eu pisei firme na grama para tentar disfarçar. – Não estava com a Sam?
– Estava... – Ele olhou para minha perna depois cerrou o olhar no meu. – Mas ela foi ver como estava a Avery, eu aproveitei para tomar um ar e ouvi o grito dos guardas... Joe, você está mesmo bem?
Eu não entendia o que ele queria dizer exatamente com aquela pergunta, nunca fui bom analisando expressões nem coisas do gênero... Mas o Adam parecia ser Ph.D.
– Já não disse?! – Disse ríspido enquanto tentada limpar o sangue podre em minha roupa, joguei o cigarro no chão e o apaguei com a sola da bota, mas quando estava prestes a me retirar, o pirralho me segura pela gola da camisa. – Você perdeu o juízo?
Consegui ver um sorriso de canto em sua boca. Aquele pirralho estava me provocando, puxei a gola e ele soltou.
– Mano a mano... – Eu o fitei confuso, mesmo tendo idéia do que ele estava falando. – Eu e você, se eu ganhar, você me responde o que eu quiser... – Não... A Sam falou com ele... – Se você ganhar, eu te deixo em paz e não pergunto mais nada. – Uma raiva tomou conta do meu corpo e no mesmo instante senti todos os membros esquentarem.
– Por que eu deveria aceitar um desafio ridículo como esse? – Cuspi as palavras.
– Na verdade, achei que você fosse mais confiante de si, porque afinal de contas, se você ganhar eu te deixo em paz, mas a julgar pela nossa ultima discussão... – Ele analisou o chão rapidamente, enquanto colocava as mãos nos bolsos da calça. – É normal que esteja com medo. – Ele sorriu me olhando de relance.
Eu sabia o que ele estava tentando fazer, estava me provocando, mas por algum motivo, eu não via problema algum em cair na provocação dele, seria uma ótima oportunidade para uma revanche e pra mostrar ao pirralho atrevido, que ele não é a ultima coca cola gelada do planeta... Além disso, ele não iria se meter na minha vida, nunca mais.
– Eu não sabia que fazia tanta questão assim de apanhar... – Eu o encarei indiferente. – O que foi, seus pais não te deram uma “lição” quando você era pequeno não?
Ele soltou um riso abafado tirando as mãos do bolso e formando punhos, esperando que eu fizesse o mesmo. Limpei o excesso de sangue na minha camisa, mesmo que eu tenha muita raiva daquele pirralho às vezes, não seria nada agradável se ele se infectasse com o sangue daquele adolescente.
– Pronto velhote? – Ele me disse confiante.
Soquei, mas ele desviou montando uma base.
– Nossa, achei que você fosse dizer “já nasci pronto” como os velhos costumam fazer.
– Fale menos. Bata mais. – Rosnei.
– Com prazer. – Ele disse para si.
Um soco veio, eu desviei, logo depois outro, mas me acertou bem na costela inferior esquerda, uma dor lacerante tomou conta do meu abdômen, soltei o ar, mas não me distraí. Havia fraturado aquela costela na adolescência e ela nunca se curou direito. Ele tentou se aproveitar para me dar outro soco, mas eu segurei seu punho e torci.
– Argh! – Ele gritou chutando minha perna, não doeu muito, mas o soltei mesmo assim.
Parti para cima novamente, soquei três vezes, mas apenas um acertou seu queixo, ele cambaleou para trás, porém, se recompôs rápido, nós dois ainda estávamos frios, a luta estava meio “fraca” talvez um pouco mais de raiva melhorasse isso, e parecia que ele tinha ouvido meus pensamentos.
– Já vi garotas batendo mais forte... Mas deve ser coisa da idade mesmo, vai perdendo a força. – Ele riu sarcástico mais uma vez.
Corri em sua direção como um animal selvagem, percebi que talvez ele tenha se arrependido da provocação. Agarrei seu abdômen e ele tentou socar minhas costas, mas foi rápido até batermos contra o chão, “uff” nós dois dissemos ao cair, quase como um coro. Ele tentou me socar com uma mão, mas segurei seu braço, estava por cima dele e isso me dava mais vantagem, mas esqueci do outro... BAM... Um soco direto bem na boca, eu devolvi com outro em seu nariz, eu ia seguir novamente com mais um, mas ele foi mais rápido agarrando o meu braço, estávamos fazendo uma disputa de força e ele sabia que não ia dar certo, o Adam é forte, mas a gravidade estava ao meu favor, foi aí que ele deu o golpe mais baixo dos golpes mais baixos, uma joelhada bem nas “partes baixas” eu gemi de dor e ele se aproveitou para me jogar para o lado, sentou na minha barriga para poder me controlar, eu não conseguia raciocinar direito com a dor, menos ainda levando um soco na cara. Quando finalmente consegui ter a mínima noção do que estava acontecendo, agarrei sua camisa e com uma das pernas joguei-o para trás, ele rolou e caiu de costas no chão, levantei rápido ainda meio tonto, mas consegui chutar seu corpo enquanto ainda estava deitado, e acredite, um chute com uma bota militar dói pra caralho. Ele se agarrou à minha perna e me empurrou para cima, me desequilibrei e caí sentado, foi o suficiente para ele se levantar em parte, ele segurou minha camisa e de joelhos entre as minhas pernas se preparava para me socar no rosto, – novamente – por sorte ele demorou demais e eu consegui puxá-lo para dar uma cabeçada. Isso teve mais impacto do que eu esperava, minha testa feriu, a dele não, mas ele estava bem mais tonto com certeza. Agarrei o Adam novamente e me joguei sobre seu corpo, socando várias vezes suas costelas, ele agarrou meu braço, bem onde ele fez o curativo da bala e apertou.
– AARGH! – Gritei soltando-o e cobrindo o braço com a outra mão.
Estava com a testa no chão em posição semi-fetal, ele conseguiu se levantar, mas cambaleou para o lado enquanto vinha na minha direção novamente, consegui ver de relance. Posso não ser bom analisando expressões, mas, eu sou o melhor quando se trata de analisar a condição física de alguém, ele estava cansado e tonto, podia até estar ganhando, mas sua energia não ia durar até o fim.
Adam chutou o lado do meu rosto e eu beijei o chão novamente, ele recolheu a perna e deu outro chute bem na minha costela ruim. Senti vontade de vomitar com a dor, mas me contive, estava deitado de bruços no chão, ele sentou nas minhas costas e segurou minha cabeça para que não levantasse.
– 3... – Ele disse ofegante – 2...
Eu só estava esperando ele se descuidar, quando falou “dois”, seus dedos se afrouxaram sobre a minha cabeça... Ele pensou que eu tinha desistido, virei bruscamente e ele caiu do meu lado, tentou levantar com o susto, mas eu puxei seu pé, ele foi de encontro ao chão novamente, ele tentava me chutar para eu não subir nele, ele sabia que se eu conseguisse chegar, ele ia perder. Agarrei suas pernas e o arrastei para perto, ele me socou bem forte no rosto duas vezes seguidas e eu quase caí, mas estava determinado demais para isso, consegui subir nele novamente, qualquer um que visse de longe provavelmente pensaria que estávamos transando ali mesmo, ele com as pernas abertas e eu entre elas segurando seus braços... Realmente, estava muito estranho, mas eu e Adam não parecíamos nos importar. Soltei seu braço esquerdo e soquei sua boca duas vezes, mas o segundo golpe foi muito mais forte do que eu gostaria, a boca do garoto tinha partido e saia muito sangue. Mas esperei três segundos, ele estava semi-inconsciente, sentei do seu lado mas ele nem se moveu, estava começando a ficar... Preocupado. Passei a mão pelos bolsos da minha calça e por sorte achei meu cantil de whisky, destampei e despejei um pouco na boca do Adam, ele levantou rapidamente com a dor.
– Porra Joe! – Ele disse cobrindo a boca ferida. – Que merda é essa?
– Whisky... E do bom, você deveria experimentar. — Eu disse dando uma bela golada em seguida, mas minha boca também ardeu, por dentro estava toda ferida pelos socos que eu tinha levado.
– É... – Ele se apoiou nos joelhos, pensativo – Não vou poder fazer pergunta nenhuma pelo que me parece.
Ele me olhou rapidamente com o canto do olho, mas logo voltou a vista para o chão.
– Pois é... – Disse contente dando mais outro gole.
– Acho que devemos voltar... – Ele gemeu enquanto se levantava. – As meninas devem estar preocupadas.
Eu dei de ombros. Adam estendeu a mão para mim e foi algo bem incomum na verdade, aquilo era uma piada? Desde quando o pirralho é cortês? Olhei desconfiado para ele e dei um ultimo gole no cantil. Decidi ver no que dava, apertei a mão dele e ele me levantou... Isso foi muito surpreendente, nenhuma piada, nenhuma brincadeira... Ele só estava sendo gentil, deixei um riso escapar.
– O que foi? – Ele disse confuso.
– Nada não garoto. – Olhei tranquilamente pra ele.
Todas as partes do meu corpo estavam doendo, desde os nós dos meus dedos até a minha cervical, o nariz do Adam estava sangrando, mas nada se comparava ao seu lábio superior, minha boca doía, mas não queria nem imaginar como estava a dele.
Continuamos andando para o portão, foi então que ofereci o whisky, ele olhou pro cantil meio indeciso, parecia pensar se pegava ou não, mas aceitou.
– Cuidado... Esse é forte. – Adverti.
Ele me olhou mas parecia ter ignorado o conselho e entornou o cantil na boca, não demorou para que ele começasse a tossir engasgado.
– Eu disse que era forte... – Zombei e ele me devolveu o gesto com o dedo do meio.
Eu ri, mas ele não me devolveu, deu outra golada mais sutil dessa vez.
– Porra, isso é bom mesmo – Ele disse quase que impressionado.
– É garoto... Eu sei, mas vê se pega leve. – O olhei apreensivo.
Passamos pelo portão e consegui ouvir o soldado que estava com o Smith falar algo.
– Eu disse que o ruivo ia ganhar. – Ele riu
– Cala a boca Duncan...
Segurei o riso.
– Ei, não acha que deve fazer um curativo nessa boca? – Olhei para o céu, mas não via estrela alguma.
– Não precisa, depois eu faço, vamos ficar aqui um pouco... – A voz dele estava um pouco embargada, devia ser o sono. – Se formos lá agora a Natasha vai ficar toda preocupada e puta, não to pra isso. – Ele deixou a cabeça cair para trás
Sentamos em um canto perto das grades de metal, mas não estava próximo de nada em específico, nem dos guardas, nem das tendas, nem de ninguém, só eu e o Adam.
– Já acabou? – Ele disse com a voz arrastada.
Merda... O Adam ficou bêbado.
– Ei garoto, quantos dedos você vê? – Coloquei um dedo na frente dele.
– Não sei exatamente, mas tenho quase certeza que é segunda feira.
Ele encostou a cabeça na grade e fechou os olhos, achei que ali seria o momento perfeito para tocar gaita, ninguém para encher meu saco, ninguém para cobrar nada nem perguntar nada, puxei o instrumento de dentro do meu bolso direito e o fitei demoradamente, era impossível não sorrir quando via a luz prata da lua refletir sobre aquele metal gasto e brilhante, mas a felicidade que isso me trazia vinha acompanhada da dor amarga de muitas memórias incertas quais eu não sei se serei capaz de viver novamente. Apertei o metal com as duas mãos encostando-se em minha testa, sentado naquele chão duro da cidade parcialmente abandonada, uma música surgiu na minha cabeça como um estalo, como uma lembrança e eu senti a necessidade absurda de tocá-la.
Oh, bury me not
on the lone prairie,
where the coyotes howl and the wind blows free.
And when I die, don't bury me
'neath western sky
on the lone praire.
Entre os versos, tocava um pouco a gaita
"Oh! Bury me not
on the lone prairie!"
This words came soft and painfully
From the pallid lips of a youth who lay,
on his dying bed
at the break of day.
Essa era a pausa mais longa e eu toquei sem parar o instrumento de melodia nostálgica.
But we buried him there
on the lone prairie
where the rattlesnakes is and wind blows free.
In a shallow grave, no one to grieve
'neath the western sky
on the lone praire.
Eu ia continuar a tocar, mas hesitei ao ver Adam me encarando.
– Que é? – Disse um pouco incomodado
– Você tem namorada? – Ele disse um pouco aéreo.
– Não... – Eu disse pensativo.
– Esposa? – Por que o Adam me perguntaria isso?
– O que a Sam te falou?
Ele me olhou confuso, então percebi que ele estava atento demais para um “bêbado”
– Eu não sei o que você quer dizer, mas a Sam não tem falado muito comigo... – Ele bocejou. – Como é o nome da sua esposa?
Eu cerrei os olhos, acho que não tinha problema falar, já que bêbado ele não lembraria no dia seguinte.
– O nome dela era... – Hesitei por alguns segundos. – Adam. – Ele me olhou desconfiado. – Você não está bêbado, não é?
Eu sabia que não, foi uma pergunta retórica, mas ficou mais claro ainda quando ele bufou de frustração.
– Por que você não fala de você pra nós? – Ele disse quase com um ar ingênuo.
– Porque não é da conta de nenhum pirralho enxerido. – Consegui dizer ao guardar a gaita.
– Bem...- Ele suspirou – Pelo menos eu descobri que você canta mal pra caralho.
Eu olhei com raiva para ele, mas ignorei e tentei me levantar. Minha perna fraquejou e eu quase caí, mas ele me segurou já de pé, puxei meu braço com força e ele me soltou.
– Joe, admita – Ele me olhou um pouco cabisbaixo. – Se você admitir que precisa da gente vai ser muito mais fácil.
Eu ri sarcástico.
– Me poupe pirralho... – Eu olhei rapidamente para seu rosto, mas ele não parecia presunçoso como sempre. – Vamos fazer um curativo nessa sua boca.
Ele me devolveu o cantil e nós fomos andando de volta ao dormitório onde estava nossa tenda, não foi difícil ver a Natasha andando de um lado para o outro na frente da porta e a Sam encarando fixamente o chão como se estivesse pensando em possibilidades, ela estava encostada em uma das barras de metal da cabana, perto de Natasha... Que nos viu.
– JOE! – Ela exclamou espalhafatosa como sempre. – Onde vocês estavam? O que aconteceu? – Até que ela olhou pro rosto de Adam todo ensangüentado. – ADAM! O QUE HOUVE COM VOCÊ? Joe! Se você for o responsável por isso eu vou...
Ela hesitou quando me viu olhando seriamente em seus olhos.
– Vai o que Stalin?
Ela me empurrou bem forte para uma cientista magrela, logo se abraçou com o Adam que se sentiu incomodado, aquele garoto não gostava de ser tratado como um pobre coitado, mais uma coisa que tínhamos em comum talvez.
– Eu não sei se você sabe, mas... – Eu passei a mão em meu rosto. – Abraço não é exatamente a solução médica mais recomendável quando se trata de um corte.
Ela me ignorou, mas o Adam riu, eles entraram na tenda onde Carter, Avery e Alex dormiam, eu ia sair para procurar onde tomar banho, eu estava imundo, parecia um monstro que acabara de devorar sua vitima.
– Joe... – Era a Sam.
Fingi que não tinha ouvido e continuei andando, não queria dar satisfação a ninguém, estava casado.
– Joe! – Ela falou mais alto e foi impossível ignorar.
– O que foi? – Virei um pouco a cabeça para olhá-la.
– Você está...
– Sim. – Respondi já imaginando o que ela diria.
– Mas você nem deixou eu terminar! – Ela disse indignada.
Dei de ombros e continuei andando. Ela deve ter ficado chateada, porque nem chegou a insistir como sempre faz, apenas me deu as costas e entrou na tenda com uma cara meio emburrada. Acho que era melhor assim.
Segui para os chuveiros improvisados tirando minha camisa no caminho. Foi um dia literalmente cheio de emoções, não gosto muito disso, é mais exaustivo do que se eu tivesse enfrentado um grupo de terroristas. O chuveiro ficava atrás dos dormitórios, por incrível que pareça estava dividido por sexos — parece que nem tudo estava perdido. Entrei, era até bem organizado, tirando o fato que não existia divisória entre os “boxes”, pelo menos, não no masculino. Havia um enorme espelho que tomava a parede de cima a baixo, logo no fundo, era a primeira coisa que você via assim que entrava. Eu estava sem camisa, sujo de sangue até onde eu conseguia ver — meu rosto, meus braços, as palmas das minhas mãos, minha boca. Minhas calças eram a parte mais limpa, mas não completamente.
Fiquei me analisando por um bom tempo, e sabia que as profundas olheiras mostravam que não dormia direito desde que perdi o Max. Um nó se formou na minha garganta e meus olhos ficaram vermelhos na mesma hora. Me controlei respirando fundo. Minhas olheiras eram fortes e minhas rugas de expressão bem demarcadas. Não deveria ficar impressionado com todos me chamando de velho, com aquela aparência, até eu diria o mesmo. Suspirei bem demoradamente. Foram muitas coisas acontecendo em um dia só, ninguém me dá folga, queria só um momento sozinho para pôr as idéias no lugar. Dei uma ultima olhada em meu reflexo e fui para o box que ficava ao lado. A água era fria, mas até aquele momento, era a menor coisa com que eu devia me preocupar, estava feliz pelo simples fato de estar tomando banho. Não tinha sabão, mas consegui me virar com a água. O sangue escorria do meu rosto e dos meus braços, senti a minha boca arder no lugar onde tinha queimado.
Quando finalmente terminei, não era a pessoa mais cheirosa do mundo, mas dava pro gasto... Não tinha como me enxugar, que merda. Pulei um pouco para aquecer o corpo, e voltei pro espelho para ver como estava, a água deixou claro alguns cortes que eu não havia percebido pela sujeira. Um corte no meu pescoço, superficial, no meu ombro direito o tiro que tinham me dado, que estava consideravelmente melhor — mas ainda doía — e o mais novo machucado que abri em minha testa com a cabeçada no Adam. Minha barriga e braços estavam com pequenos cortes que eu não fazia ideia de como os havia conseguido, alguns hematomas na maçã do rosto e nos ombros e pernas, nada que eu já não estivesse acostumado. Se tinha uma coisa que eu odiava era tomar banho e colocar a mesma roupa suada, mas não tinha jeito. Coloquei apenas a calça e a camisa deixei para depois, tinha que voltar pra tenda e tentar descansar um pouco.
Todos estavam dormindo quando cheguei. Adam se espremendo com Natasha em uma cama de solteiro, Carter com a Avery, Alex e Sam pareciam ter sido os únicos a tomar banho antes de dormir, os outros deviam estar exaustos demais, ou apenas se esqueceram disso. Eu procurei por uma cama vazia e por sorte encontrei, logo em cima da cama da Sam, um beliche, odeio beliches, mas era isso, ou dormir no chão. Joguei minha camisa próxima à minha mochila e subi a escadinha, que por milagre não tinha feito um rangido sequer, foi apenas encostar a cabeça naquele travesseiro improvisado que eu dormi.
Eu estava em um lugar seco, como um deserto, e um abismo me cercava, parecia que havia acontecido uma tempestade de areia talvez, porque a minha visão era turva, conseguia ver uma mulher alta, loira, com olhos azuis e expressivos, uma boca rosada e curvas suaves no corpo, claro que não era qualquer mulher, meu coração apertou quando nossos olhares se cruzaram. Na outra extremidade, uma adolescente entre os quinze e dezessete anos, me olhava com suas roupas escuras e cabelos loiros como a moça de antes, sardas nas bochechas e os lábios rosados como suas maçãs do rosto, elas eram parecidas, mas suas belezas eram diferentes. Laureen... Engoli um seco.
– Joe... – As duas disseram ao mesmo tempo com um tom monótono.
E depois disso, ambas deram um passo para trás se lançando lentamente ao abismo, eu corri, mesmo sabendo que não conseguiria salvar as duas.
Meus olhos abriram e eu levantei bruscamente, estava suado e ofegante... Mais um maldito pesadelo. Era bem cedo, mas não chegava a ser madrugada, eu tinha dormido bem, mas me sentia cansado. Decidi descer para lavar o rosto, mas quando cheguei ao chão, a madeira deu um estalo, por sorte ninguém acordou, deviam estar cansados demais pra isso. Meu colar pendia em meu pescoço e ainda estava sem camisa, fazia frio, mas não queria voltar até a tenda para pegar aquela roupa fedida. Hartford parecia um pouco com Boston, alguns prédios antigos com tijolos vermelhos, me lembrava muito a Inglaterra, as árvores chacoalhavam com o vento e mesmo que não tivessem cercado toda a cidade, o espaço era enorme. Lá estavam os chuveiros, o feminino logo à esquerda e o masculino à direita, ia entrar, mas ouvi uma conversa dentro, podia parecer muito intrometido da minha parte, mas estávamos em um lugar desconhecido e que eu não confiava nem um pouco, um informaçãozinha não iria fazer mal a ninguém...
– Sim foi o que o Bradford disse... – Eu me escorei contra a parede do lado de fora, ouvindo uma voz masculina de dentro do vestiário.
– Esse cara é insano... – Outra voz retrucou. – Não quero nem saber o que ele está pensando tomando uma decisão dessas.
– E você acha que eu quero?! – Que decisão?! – Vamos nos concentrar apenas no que ele nos mandou fazer...
Eu estava muito atento à conversa e não vi um par de pernas se aproximarem de mim. Sam.
– Joe o que você... – Ela ia terminar a frase, mas podia chamar a atenção dos caras, então tive de agir rápido, agarrei-a apertando seu corpo contra o meu, enquanto cobria sua boca com a mão direita.
– Ouviu alguma coisa?! – Um dos dois falou, mas não conseguia diferenciar muito bem, as vozes eram muito parecidas.
– Você tem que relaxar, aqui é seguro cara.
– Talvez você tenha razão... Mas não vai ser fácil manter esses turistas dentro da cidade. Ainda mais aquele ruivo metido a esperto. – A outra voz riu. A raiva quase me tomou, mas aquilo era mais importante que emoções passageiras.
– É verdade, aquele ruivo é chato... Mas lembra do que o Bradford falou, ele não é nosso superior, e nós não somos ingleses. Se ele inventar de mandar na gente de novo é só colocar o velho pra passear. – O outro riu de volta.
– Mas não podemos esquecer as duas gostosinhas, do metido a galã e o baitola esses aí a gente tem que ter cuidado, são importantes.
– Eu não sei pra quê, seria muito mais fácil pra mim, meter uma bala na cabeça de cada um... BAM, BAM, BAM...
Os dois riram e eu consegui ouvir os chuveiros se desligando. É como eu imaginava, nós estamos fodidos. Sam ainda estava nos meus braços e eu tinha me esquecido completamente, ela estava cheirosa, devia ter usado sabão no banho, diferente de mim. Ela não estava me olhando mas não sei exatamente o motivo, ao olhar pra ela eu meio que congelei.
– Joe a gente tem que sair daqui! – Ela sussurrou.
Mas eu não me movi, eu ainda estava abraçado à ela, admirando agora seu rosto rosado porém magro devido a péssima alimentação que tivemos nas ultimas semanas, mas nem por isso ela deixava de ser linda.
– JOE! – Ela chamou minha atenção novamente, ainda com a voz baixa, porém dessa vez afastando meus braços.
Voltei a mim, e saímos dali o mais rápido e silenciosamente que conseguimos. Corremos para um beco entre dois prédios velhos de lá, ambos com tijolos vermelhos e a estrutura parecia a mesma.
– Você ouviu isso? – Ela disse ofegante.
– Não, imagina... Tava quase me fundindo com a parede porque é de praxe. – Ela revirou os olhos tentando reprimir um leve sorriso.
– Quer dizer que não podemos ficar aqui. – Ela disse, encostando-se à parede suja do beco.
– Sabe garota... Você tem um incrível senso lógico. – Disse sarcástico mais uma vez e ela me deu um tapa no braço com a mão boa.
– Joe isso é serio. – Ela me repreendeu dessa vez.
– Olha garota, parece que até o momento vocês estão bem, afinal o próprio Bradford disse que...
– Shh! – Ela me interrompeu. – Tá vindo alguém.
Ouvi alguns passos se aproximando e ela me olhou como se estivesse pedindo desculpas por algo, eu não consegui evitar o olhar confuso. Sam me puxou pelo pescoço e eu me desequilibrei apoiando as mãos na parede atrás dela, seus lábios encontraram os meus e por algum motivo não fiz questão de recuar.
– Vão pra um motel! – Ouvi uma voz masculina estranhamente familiar soar em meus ouvidos.
Nós olhamos para o lado ao mesmo tempo, eram dois soldados com olhar malicioso.
– Agora entendi porque você defendeu essa garota com tanta vivacidade ontem senhor general. – Senti certo escárnio quando ele disse “general”. – Não queríamos atrapalhar nada, podem ficar a vontade.
Os dois se retiraram rindo. Eram os dois imbecis que estavam no vestiário. Mas uma coisa me veio à cabeça... Que porra foi essa?!
– Nossa essa foi por pouco. – Ela se afastou com um suspiro e se sentou no chão cobrindo o rosto com as mãos. Como se nada tivesse acontecido?!
Não consegui parar de encará-la, cocei a barba e soltei um suspiro, se eu não perguntasse, ela provavelmente iria ficar na dela. Agachei-me logo à frente.
– Sam... – Ela me olhou por entre os dedos que cobriam seu rosto. – O que foi isso?
Ela não me respondeu, apenas sacudiu a cabeça negativamente.
– Você está constrangida não é? – Disse tentando ser o mais doce possível.
Ela assentiu com a cabeça. Se não fosse julgar pela situação, diria que aquilo foi muito bonitinho da parte dela. Deixei um sorriso escapar por acidente, ela descobriu o rosto e me olhou com seus olhos grandes e redondos.
– O que foi? – Ela estava toda corada.
– Por que quando eu rio vocês sempre tem que me perguntar o motivo? – Não falei sério. – Um cara não pode ser feliz?!
Ela riu um pouco e parecia que aquela tensão tinha se aliviado um pouco, pelo menos a dela... Levantei e fui até o início do beco para ver se os soldados ainda estavam por lá, mas, nada... Consegui ver os dois patrulhando rua a cima.
– Ta certo, eles se foram, precisamos voltar à tenda e dizer o que ouvimos para o pessoal... – Disse com meu tom costumeiramente autoritário.
– Joe... – Ela me olhou ainda um pouco constrangida. – Eu não quero que você pense que eu sou entregada... Ok? Fiz aquilo porque...
– Eu sei... – Eu sorri, dessa vez para que ela visse, tentando confortá-la.
Seguimos andando o caminho todo de volta.
– Em parte precisamos ficar aqui, são os únicos recursos que temos... – Ela me disse tentando organizar as idéias enquanto caminhávamos.
– Por isso talvez não seja uma boa idéia contar o que ouvimos por agora... Não sabemos do que se trata, não sei o que o Bradford quer, talvez contar para os outros acarrete uma grande merda... – passei a mão em meu cabelo desarrumado. – Principalmente a julgar como nosso grupo é esquentado.
– A começar por você senhor general... – Ela disse irônica e eu ignorei soltando o ar em desaprovação, ela sorriu, mas não tirou os olhos de mim e isso me incomodou, até perceber que não era exatamente para mim que ela estava olhando.
– Joe... Por que você está suado? – Ela olhava para as gotículas de suor em meu pescoço.
Porra, aquela garota era tão observadora quanto o Adam. Eu não respondi, sou péssimo mentindo e pior ainda explicando, eu não queria falar, bastava a conversa de ontem.
– Joe...? – Ela disse mais uma vez hesitando um pouco.
– Não é da sua conta. – Eu disse quando chegamos perto da tenda, ela travou, mas depois voltou a si.
– Como é que é? – Ela me olhou com os olhos semi-serrados como se estivesse procurando por alguma brecha. – Olha Joe, você pode até querer criar outra discussão como a de ontem... Mas eu não. Ok?
Dei de ombros.
– Qual o seu problema? – Ela me olhou confusa. – Achei que estivéssemos bem.
– Achou errado.
– Você é sempre insuportável assim?
Eu não respondi, não sabia o que responder... Aquilo estava indo muito além do que eu gostaria.
– Quer saber? Que se dane, você é bem grandinho, faz o que você quiser
– Quer dizer que agora eu sou grandinho achei que eu fosse infantil. Além de velho... Você é bem indecisa.
Ela urrou de raiva.
– É foi idiotice minha achar que a gente podia ser amigo mesmo, você é um cavalo, cabeça dura, não vai deixar ninguém chegar em você, porque você é insuportável, reclamão e mentiroso.
– Mentiroso? – Ela parecia não querer ter dito aquela ultima palavra, talvez não tenha usado a palavra correta, mas eu já estava puto mesmo para me importar com aquele tipo de coisa. – MENTIROSO? Olha sua pirralha irritante, você pode dizer o que quiser de mim... MAS NUNCA... ME CHAME... DE MENTIROSO! – Ela não baixou o olhar nem parecia se sentir mais][´[ culpada. – Foda-se essa merda toda, eu me viro muito melhor sozinho!
Consegui ouvir alguém dentro da tenda.
– O que ta acontecendo aqui? – Era o Adam coçando os olhos.
– Nada pirralho... – Olhei para os dois cuidadosamente. – Quer saber, vocês ficariam ótimos juntos.
Tentei sair mas o Adam me atrapalhou como sempre.
– Pera ai Joe, do que você ta falando? – Ele me olhou meio sonolento e confuso.
– Eu to dizendo que vocês ficam ótimos juntos...
Eu saí e não pude deixar de olhar que Sam estava tão confusa quanto o Adam, na verdade, nem eu sabia exatamente o que estava fazendo... Mas, estava puto e nada iria me acalmar.
– Relaxa Sam, ele vai voltar – Consegui ouvir o Adam falar baixo.
Vai, é garoto? Segui para os portões da frente e consegui ver Adam envolver Sam com um dos braços e entrar na tenda... Melhor assim... Cheguei no portão e os soldados me olharam estranho.
– O que quer aqui general? – Smith me perguntou firme.
– Quero dar o fora daqui...
Eu percebi seu sorriso mal intencionado, mas decidi ignorar como tudo que eu faço, pois é o que eu sei fazer de melhor... Ignorar.
– Às ordens senhor... – Ele disse sarcástico enquanto abria o portão.
Dei uma ultima olhada para eles e entrei em um dos carros, o que eu tinha vindo com a Sam... Eu sabia que ia me arrepender da minha escolha, mas aproveitei enquanto isso ainda não acontecia. Entrei no carro e liguei o motor.
– Volte sempre general! – Smith sorriu mais uma vez acenando com a mão vazia.
Acelerei até que não conseguisse mais ver Hartford.
O vento batia com força em meu cabelo, que só agora, olhando pelo retrovisor percebia que estava bem maior do que há algumas semanas atrás, percebo agora o quanto muito em mim mudou em tão pouco tempo, mas que parece uma eternidade aos meus olhos. Apoiei a cabeça em minha mão esquerda sobre a janela do carro, até perceber que algo estava muito errado: Saí sem camisa, deixei minha mochila e minhas coisas lá, como minha M4-A1, minha faca, minha comida... Puta que pariu, eu sou muito burro mesmo, e como se tudo já não estivesse uma merda, o carro morreu.
– Filho da puta. – Olhei imediatamente para o contador de combustível.
Estava zerado, eu estava em lugar nenhum, sem comida, sem álcool, sem armas, sem esperança.
– Porra! – Disse frustrado dando um tapa no painel.
Nem tentei segurar o suspiro de frustração, passei a mão no rosto tentando pensar em algo. Saí para vasculhar o maldito porta-malas daquele carro velho, pisei-o até que a tranca interna da porta quebrasse. Vamos ver o que tem. Uma manta grossa enorme cobria o lugar, puxei para ter uma visão melhor, mas foi só tirá-la e um fedor pútrido tomou conta.
– Porra! – Disse mais uma vez, mas agora com raiva.
Havia metade de um veado, que parecia não ver a luz do dia há muito tempo, não sei como não tinha sentido aquele cheiro antes, a manta devia abafar... Que tipo de maluco guarda metade de um veado em um porta-malas? Agarrei o animal pelos chifres e tentei tirá-lo dali, foi difícil, mas consegui, sua carne podre bateu contra o chão e não consegui evitar que a ponta do chifre arranhasse meu braço.
– Tem como essa merda ficar pior? – Rosnei chutando o animal.
Depois de um tempo me acostumei ao cheiro e resolvi procurar por algo finalmente útil ali, um pé-de-cabra... Até que não é tão ruim. Um rifle de caça calibre 22. Vazio, bem, pelo menos já é alguma coisa. Voltei para frente do carro pra procurar algo no porta-luvas. Maço de cigarros, lenço umedecido, papéis de chiclete e um pacote de munição .22 vazio. Acho que o dono desse carro e eu, poderíamos nos dar muito bem. Guardei um maço no meu bolso e tentei procurar alguma mochila ou bolsa pelo carro, mas não tinha nada, apenas sujeira. Bem, pelo menos não parecia que eu ia encontrar com um morto tão cedo, lado ruim, eu não fazia idéia de onde estava. Dei uma breve visualizada no lugar, uma bifurcação, maravilha, as duas eram muito parecidas, tinha mato, placas de velocidade máxima e não fazia a mínima idéia de onde ia dar, o sol estava começando a ficar mais incidente, já fazia duas horas que consegui sair de Hartford, uma parte de mim brigava com a outra, querendo me fazer voltar pra lá, querendo que eu pedisse desculpas, que eu assumisse o erro, mas parecia que não era tão insistente, não tanto quanto a minha teimosia... Decidi ir pelo meio das duas estradas, entre o mato, onde me escondia.
Não sabia quanto tempo estava andando sem parar, só sabia que o sol ficava mais forte e me deixava mais fraco, meu corpo estava quente, ardia, sentia em minhas bochechas, meu corpo estava coberto de suor, eu estava com sede, cansado, mas se parasse agora poderia ser pior, não posso ficar mais tempo em baixo desse sol... Preciso achar algum lugar para ficar.
As duas estradas se separaram, a da direita seguia em frente, enquanto a da esquerda havia divergido faz tempo, eu estava quase caindo, meu corpo estava exausto, a julgar pelo sol, eu estava andando até depois do meio dia, mas, para minha sorte, encontrei um daqueles bares de estrada dos Estados Unidos, Rex Beer, foi quase impossível conter o riso, eu gargalhei, parecia que toda a felicidade contida no meu corpo fez questão de se libertar. Corri.
Tinham algumas pessoas na porta, batendo e falando coisas que eu não conseguia entender, pareciam estar conversando, minhas pernas foram desacelerando à medida que me aproximava, as pessoas olharam para mim, eram homens em sua maioria, poucas mulheres, mas todos avançaram na minha direção com cara de poucas amizades, serrei a mão em punhos, me preparando para o que quer que pudesse acontecer, um grandão veio na minha direção, mais rápido que os demais, acertei um soco em seu rosto antes que pudesse fazer algo, mas parecia não ter adiantado em nada, ele continuou andando, parecia um animal.
– O que você quer? – Rosnei.
Mas ele estava quieto, grunhindo, enquanto tentava me agarrar, não pensei duas vezes até acertar o pé-de-cabra em sua cabeça, era um pé-de-cabra daqueles bem pontudos, ele tombou no chão quase que instantaneamente, mas seus amigos não pareciam ter ficado chateados, só pareciam irritados, em torno de sete, ou mais, estava meio tonto por isso não consegui contar direito. Uma mulher tentou fazer a mesma coisa que ele, me agarrar, mas eu soquei seu nariz e puxei-a pela camisa jogando seu corpo ao chão, não foi muito efetivo, já que ela conseguiu se levantar logo em seguida.
– POR AQUI! – Ouvi uma voz feminina gritar. Ela estava parada na porta do bar, acenando para mim.
Achei que seria uma boa idéia ir até ela, não sei por que, mas nem sequer me questionei sobre a decisão. Corri mais uma vez, até onde minhas pernas permitiam, mas os motoqueiros barbudos não corriam atrás de mim, estavam pacientes demais para pessoas furiosas. Alcancei a porta e a moça me empurrou para dentro enquanto trancava o bar. Era um lugar que eu estava muito acostumado, paredes de madeira e tijolos a amostra, bebidas empilhadas em estantes, mesas, uma TV pequena no canto, um lugar que fedia a cerveja e suor, uma junkebox bem grande encostada na parede, nem sequer pensei ao me dirigir até ela, fui passando as músicas até finalmente achar uma que eu realmente gostava.
– Ei dona, gosta dessa música? – Disse com um sorriso espontâneo.
Ela me olhou como se eu fosse maluco e a voz de Joan Jett começou a tomar conta do salão.
I saw him dancing there by the record machine
I knew he must have been about seventeen
The beat was going strong
Playing my favorite song
And I could tell it wouldn't be long
'Till he was with me, yeah, me
And I could tell it wouldn't be long
'Till he was with me, yeah, me
Cantava junto com a música e fui andando na direção da porta, apertei o cabo de metal em minha mão e consegui ouvir as pessoas do lado de fora gritando.
– Acho que eles também gostam dessa música. – Disse rindo.
Destranquei a porta.
– O que diabos você está fazendo? – Ela disse indignada.
– O que eu faço de melhor. – Abri a porta. – Brigar.
Singing, I love rock and roll
So put another dime in the jukebox, baby
I love rock and roll
So come and take your time and dance with me
Ow!
He smiled, so I got up and asked for his name
"But that don't matter", he said
"'Cause it's all the same"
He said, "can I take you home
Where we can be alone?"
And next we were moving on
He was with me, yeah, me
Next we were moving on
He was with me, yeah, me
– Singing, I love rock and roll so put another dime in the jukebox, baby, i love rock and roll – Levantei o pé-de-cabra acertando a cabeça do primeiro que apareceu para me agarrar. — So come and take your time and dance with me!
Dois vieram para cima de mim, chutei um bem no meio do peito e ele caiu para trás, já o outro, foi fácil acertar sua cabeça até ele desmaiar, subi no que estava caído e comecei a socar seu rosto. Olhei para o lado e lá estava a moça, dando uma surra nos outros motoqueiros com um cano de metal, posso estar louco, mas acho que ela estava sorrindo... Assim como eu.
He said, "can I take you home
Where we can be alone?"
Next we're moving on
He was with me, yeah, me
And we'll be moving on
And singing that same old song, yeah, with me
Foi então que nós dois cantamos o refrão juntos fazendo a trilha sonora daquele lugar, os corpos caíam no chão, o sangue espirrava, nós riamos e os sons metálicos das armas pareciam percussão marcando a batida da música.
I love rock and roll
So put another dime in the jukebox, baby
I love rock and roll
So come and take your time and dance with me
A música acabou, eu estava ofegante, a mulher também, todos estavam inconscientes no chão, não conseguia conter a felicidade mais uma vez, ela olhou pra mim, também parecia contente.
– Ei... – Ela era linda. – Qual seu nome?
– Joe... – Sorri, talvez um pouco malicioso. – E o seu?
– Francine... – Ela me devolveu o mesmo sorriso.
Entramos no bar novamente e ela trancou a porta como havia feito antes.
– Eu amo essa música.
Ela disse alguma coisa, mas não ouvi direito, meus sentidos estavam confusos, meus ouvidos meio abafados e minha visão meio turva, tive de me sentar na cadeira do balcão.
– O que vai querer senhor? – Ela disse sarcástica.
– Um Ballantine’s – Suspirei. – Qualquer um
– Vejo que temos um machão aqui... – Ela disse irônica. – Gostei...
Ela começou a pegar os ingredientes habilidosamente, falando mais coisas que eu não conseguia entender, mas fingia que sim.
– Aqui está senhor...
Ela pôs o copo em minha frente.
– Seville, jura? – Disse meio insatisfeito. – Não é o meu predileto, mas serve...
Ela riu.
– Qual o seu predileto então?
– White... – Dei uma bela golada.
– Além de machão é chique? – Ela disse surpresa. – Vem cá, você tem esposa?
– Não... – Dei outra. – Ela se foi a muito tempo.
Deslizei o copo vazio para ela.
– Mais outro, por favor. – Eu não sei por que estava falando de forma tão aberta, mas não parecia me machucar, então relevei.
– O meu também, mas ele se foi de forma diferente... – Ela pigarreou, pegando o copo vazio. – Me deixou sozinha com meu filho.
– Ele não devia ser um cara muito legal... – Me debrucei sobre o balcão.
– Não era... – Ela disse tirando uns cubos de gelo. – Mas ninguém percebe isso quando está apaixonado...
– E onde está seu filho agora? – Disse meio exausto.
E ela não me respondeu. Um copo pousou em minha frente.
– Mais Seville para o senhor. – Ela disse passando a mão suavemente em meus pelos do braço.
– Saúde. – Sorri olhando em seus olhos, enquanto virava o copo gole por gole, de uma só vez.
Bati o copo no balcão, sinalizando que havia terminado.
– Vai querer mais? – Ela disse quase que com um sussurro.
– Vou... – Eu disse com o rosto bem próximo ao dela. – Mas não é de álcool que estou falando
Ela riu, subindo o quadril no balcão para sentar, agarrei-a pela cintura e antes que percebesse seus lábios envolveram os meus, o gosto dela era de framboesa, suas pernas estavam abertas sobre as minhas, minhas mãos passeavam pelas suas costas sob o tecido, ela se agarrava a mim suspirando forte em meu ouvido, passando os dedos pelo meu cabelo, descendo a mão delicadamente pelo meu corpo, foi descendo, descendo, descendo até chegar a um lugar bem sensível, já as minhas mãos, faziam o mesmo, porém, era para cima que elas iam. Nossos lábios só se desgrudaram quando ela resolveu morder minha orelha e sussurrar.
– Eu quero mais... – Mordeu meu lábio inferior. – Pode me dar mais?
Meus músculos pareciam gritar em desespero, me agarrei ao seu corpo curvilíneo e subimos pelas escadas até a parte superior daquele lugar rústico, um colchão enorme cobria o canto do quarto, foi onde a joguei, abri o cinto e ela tirou a camisa, ela beijou meu abdômen e me puxou novamente para perto dela, depois disso... Eu não me lembro de nada.
Eu estava com uma bolsa de gelo sobre a testa, não fazia idéia de onde eu estava e meu corpo queimava, tanto de ardor, quanto pela temperatura interna, olhei para os lados e não reconheci nada, um quarto inteiramente de tijolos e madeira, com uma escrivaninha e alguns outros móveis bem gastos assim como um frigobar aberto e o colchão que eu estava deitado, apenas o colchão puro, era fedorento como se não fosse lavado a alguns anos. Eu estava sozinho o que era estranho, não estava algemado, nem amarrado, só tinham me colocado ali. Joguei a bolsa de gelo do meu lado e tentei levantar dali, mas minha cabeça doía muito, como se eu tivesse bebido umas trinta garrafas de vodka.
– Merda... – Disse apertando as palmas das mãos contra meu rosto.
– Olha quem acordou... – Ouvi uma voz feminima estranhamente familiar. – Não pensei que aquele sexo fosse ser tão bom, a tempos não faço com alguém que realmente fizesse valer o meu tempo, só que acho que isso não fez muito bem pra você, já que veio andando naquele sol da tarde por tanto tempo, até chegar aqui.
Ela era bonita, seus olhos eram um pouco castanhos e um pouco esverdeados, seu cabelo era castanho escuro e vestia uma camisa quadriculada aberta, sem nada por dentro, apenas com uma calcinha, como se tivesse acabado de... Ai meu Deus.
Olhei para mim e estava completamente pelado, fico feliz pelas minhas bochechas estarem queimadas, assim ela n poderia ver que eu estava constrangido.
– Que lindo... – Ela riu. – Além de bom de cama, ainda é fofo... Acho que peguei o pacote completo.
Ela foi se aproximando de mim e eu pensei, se ela tinha me achado bom de cama eu devia estar muito bêbado mesmo, ou delirando com o calor. Ela se ajoelhou sobre a minha perna direita e me deu um beijo na bochecha, deslizando a mão do meu abdômen até meu tórax.
– Fiz um pouco de comida pra você – Ela sussurrou em meu ouvido.
E logo meu corpo todo se arrepiou, tive que me conter, ou iríamos acabar no colchão mais uma vez, consegui levantar e ela me ajudou, minhas pernas pareciam ter corrido uma maratona. Ela arremessou para mim uma bermuda preta e grossa, eu vesti na mesma hora. Nós descemos as escadas e lá estava em cima de uma das mesas, um hambúrguer com bacon e algumas batatas com um café. Comida boa pra um fim do mundo.
– Acho que ontem você devia estar delirando. – Ela disse se sentando na cadeira a frente da minha.
– Certamente. – Disse com a boca cheia de comida. – Essa comida está muito boa, como conseguiu?
– O meu chefe tem um estoque de comida no andar de cima, ele sempre achou que o mundo fosse acabar um dia, por isso mantinha isso bem escondido. – Ela riu.
– E como você sabia disso? – Eu disse, mas imaginei qual seria a resposta.
– Eu o vi entrando no quarto um dia e levando umas latas pra lá, daí, resolvi descobrir onde ele as guardava.
Felizmente não foi o que eu imaginei que ela responderia.
– E onde está seu chefe agora? – Dei uma bela golada no café.
– No meio dos corpos que você matou ontem. – Ela sorriu para mim e eu me engasguei quase que na mesma hora.
– Como assim corpos?! – Disse indignado. – E como assim “que você matou?”
– Você não se lembra? – Ela me olhou como se eu realmente tivesse idéia do que aconteceu ontem. – Você estava cambaleando sem rumo, daí, você viu os comedores-de-carne e...
– Pera... – Eu a interrompi. – Comedores-de-carne? É como você os chama?
Ela acenou com a cabeça e permiti que continuasse.
– Bem, então você começou a andar na direção deles, uns estavam quase derrubando a porta, outros estavam dispersos, foram esses que te viram e começaram a ir à sua direção, depois disso você começou a socá-los e brigar como se fossem pessoas...
Agora eu me lembro, os caras que queriam me bater, eles eram infectados, parecia que agora eu consegui lembrar de tudo.
– Tudo bem, agora eu já sei o que aconteceu. – Bati a palma da mão contra a testa.
– Relaxa, você parecia estar andando naquele sol por um tempão, não é a toa que você está desse jeito... – Eu suspirei e continuei comendo, enquanto ela falava. – Vem cá... O que um britânico faz nesse fim de mundo?
– Bem, eu estava com a minha equipe, selando um acordo com o exército americano e revendo um velho amigo meu, mas acabou que tudo deu errado e agora estou preso aqui... Sem poder voltar pra casa...
– Está sozinho?
Eu não sei por que hesitei em responder, mas parecia que tinha algo errado comigo.
– Estou.
– Acho que podemos nos ajudar.
– Não acho que seja uma boa idéia... – Disse um pouco ríspido.
– Sabe... Eu preferia você delirando.
Nós rimos.
– O meu filho, ele está no aeroporto, ele me ligou antes dos sinais caírem e disse que o aeroporto estava fechado, ele está com meu irmão Thomas, eu não iria conseguir chegar lá com aqueles monstros batendo na porta, preciso salvar meu filho e meu irmão... E pode ser que tenha algum avião funcionando lá, eu sei pilotar aviões monomotores e estava pensando que...
– Eu também sei... – Dei um ultimo gole no café. – Eu entendi o que está me propondo, vamos lá, pegamos seus familiares, eu pego o avião e volto para a Inglaterra.
Ela acenou um pouco desconfiada.
– Então é melhor me conseguir uma camisa. – Eu sorri para ela, e consegui ver a alegria em seus olhos.
Fomos para a parte de cima e consegui uma camisa do time Gladiators de futebol americano, nem um pouco parecido comigo, mas era o jeito, ela me deu uma mochila velha daquelas de couro e consegui guardar um pouco de comida dentro dela, pro caso de precisar.
– Ei ruivo! – Ela me chamou de dentro do quarto de alimentos enlatados. – Olha o que eu achei...
– Nossa... Esse cara era mesmo paranóico ne?
Ela conseguiu achar uma shotgun, 12-Gauge, nada mal e advinha só... Munição .22...
Mas parecia que eu não estava me sentindo totalmente bem com aquilo, algo em mim dizia pra eu desistir de tudo e voltar para Hartford, eu estava com um péssimo pressentimento, mas é obvio que eu ignorei.
– Então... Vamos? – Ela disse me olhando com aqueles olhos tentadores.
Fiz que sim com a cabeça e continuamos.
Na entrada do bar estavam os corpos de mais cedo, todos jogados no chão às moscas. Apalpei todos os bolsos que pude a procura de alguma chave, afinal, com tantas motos estacionadas pelo menos um deveria ter uma maldita chave. Depois de muito procurar lá estava, dentro da calça de um magrelo barbudo, uma linda Harley Davidson 883 Classic, grande demais para um cara como ele... Mas quem sou eu pra julgar não é?! Subimos naquela belezinha e foi só o motor roncar que eu me lembrei de casa, acelerei o quanto podia, para que chegássemos o mais rápido possível ao aeroporto.
Depois de um tempo sentindo o vendo bater em meu rosto foi que percebi que os braços da garota estavam envolvendo minha cintura, se era por medo de cair, ou apenas mais uma de suas tentações femininas, nunca vou saber, mas depois de horas a fio, dirigindo sem parar, consegui ver o topo do Aeroporto aparecendo além da estrada, senti uma pontada de esperança apertar meu coração, como a muitos não fazia, e acho que a garota sentiu o mesmo, pois logo vi sua cabeça se erguer pelo retrovisor da moto, o aeroporto estava estranhamente ocupado por diversos carros, no entanto, nenhuma alma viva dentro deles, parecia que as portas sentiam falta do vaivém das pessoas se encontrando e se despedindo, aquilo era nostálgico e triste, não gostava de encarar muito. Pareceu até mesmo que Francine leu meus pensamentos, pois fez questão de interrompê-los descendo da moto e se dirigindo às portas do lugar, foi apenas chegando perto que conseguimos ver as malas obstruindo a passagem, como se não quisessem que algo ou alguém entrasse. Procurei por outra abertura e por sorte, havia sim, a porta de acesso dos funcionários... Trancada, mas o que era uma tranca pro Joe? Chutei com a sola do pé a fechadura da porta e ela estalou, fazendo alguns poucos pedaços de madeira caírem no chão, ia pedir para que ela ficasse atrás de mim, mas não permitiu sequer que eu abrisse a boca, pois logo foi adentrando a sala a procura de qualquer um que pudesse nos ajudar, não a impedi, estava cansado de ser babá de todo mundo. Nós conseguimos abrir a porta que seguia para a recepção, infelizmente, ou quem sabe felizmente... Não havia ninguém.
– Devemos ficar preocupados? – Ela disse um pouco angustiada.
Dei de ombros, não sabia o que pensar naquele momento. Saltamos o balcão e tão silenciosamente quanto podíamos caminhamos pelo longo salão de teto alto e telas de vôos desligadas e vazias como os carros lá fora, escadas rolantes paradas e nem sequer um som, nem um maldito som que indicasse que não estávamos sozinhos, poderiam até mesmo ser infectados, me deixaria ao menos um pouco confortável pela adrenalina, mas nada... Absolutamente vazio, continuamos a vasculhar, claro, afinal de contas, nada pode separar uma mãe de seu filho, nem mesmo demônios-filhos-da-puta-comedores-de-carne, foi então que ouvi um choro, ou teria sido um som metálico querendo me enganar, mas foi o suficiente para encher o coração de Francine de esperança e o meu de ansiedade, mais passos sem resposta, subimos e descemos escadas daquele enorme lugar e nada que nos fizesse ter mais que apenas esperança... Até que vi um vulto correr por uma bifurcação logo a nossa frente.
– Você viu isso? – Eu disse sem saber como minha voz havia soado.
Ela fez que sim com a cabeça e foi se apressando para ver, sem considerar o perigo que poderia estar nos aguardando, mas não havia nada, ela decidiu ir até o final, mas, quando estava prestes a impedi-la, uma mão me agarrou por trás, apontei o cano da arma para o queixo da criatura, e antes de apertar o gatilho...
– Não! Por favor! Não sou um deles! – Era uma mulher extremamente magra, segurando suplicante, a manga da minha camisa.
Quase soltei a escopeta, mas meus impulsos não foram tão fortes quanto meu instinto, tirei a mira da arma dela, mas não conseguia abandonar a desconfiança que já era natural em mim.
– A senhora está bem? – Francine tentou amparar a mulher que fraquejava. – Joe, pode me ajudar a segurá-la?
Eu revirei os olhos, não queria fazer isso, pois poderia ficar vulnerável, mas não ia consegui negar ajuda à uma senhora.
– Não muito minha filha... – Ela disse e eu consegui segurar seu antebraço. – A maioria das lojas estão fechadas e quando nós tentamos abrir uma para pegar suprimentos, o alarme dispara e uma multidão daqueles monstros vem nos caçar...
– A senhora deve estar morrendo de fome, eu acho que tenho...
– Espera um segundo, você disse “nós”? – Interrompi Francine.
– Sim, eu e mais algumas poucas pessoas que sobreviveram.
– Onde vocês ficam?
A mulher nos guiou até o terraço do aeroporto, o único lugar onde não procuramos, percebi os olhos de Francine passeando pelas poucas pessoas sentadas ali compartilhando comidas em saquinhos, salgadinhos e doces daqueles que se vendem em aeroportos, parecia que ela estava à procura de alguém, claro que estava, seu filho e seu irmão.
– Senhora... – Me apressei em dizer. – Conhece algum Thomas?
Ela acenou com a cabeça, mas antes que pudesse dizer algo, a garota gritou correndo de encontro aos seus amados filho e irmão, ambos pareciam estar resfriados e com um semblante triste, mas não esperava nada de diferente, afinal, ficar por tantas semanas presos em um aeroporto não é fácil... Mas isso chamou a minha atenção, todos ali pareciam estar doentes, inclusive a própria senhora que havia nos guiado, senti que talvez algo estivesse muito errado.
– Vem comigo! – Puxei abruptamente a moça para longe dos familiares.
– O que diabos está fazendo?! – Ela protestou.
– Não percebeu que todos aqui estão doentes?
– E daí? – Ela deu de ombros. – Pode ser apenas uma virose comum...
Uma virose comum pensei, era uma opção, mas estava estranho, como todo mundo estaria assim?
– Olha... – Ela chamou minha atenção. – Estão todos juntos no mesmo lugar, é claro que o vírus iria se espalhar fácil... – Parei para considerar que talvez ela estivesse certa. – Tente relaxar um pouco.
Ela voltou para os rapazes e eles continuaram conversando.
– Bem... Então eu vou seguir meu caminho. – Disse já dando as costas para eles.
– Joe! – Ela disse vindo em minha direção. – Obrigada.
Ela me surpreendeu com um abraço bem forte e pousando demoradamente o rosto sobre meu peito, fiquei talvez um pouco desconfortável e não devolvi o gesto, talvez ela esperasse isso. Depois de nos despedirmos desci uma das escadas e tirei as tábuas que bloqueavam a passagem dos infectados, um frio percorria minha espinha, eu estava sozinho e podia estar encrencado, sem ter alguém que vigiasse minhas costas, fui para a janela grande no final do salão e consegui ver uns aviões parados nas linhas de vôo e outros apenas estacionados, pareciam ter sido parados as pressas, sem aviso prévio. Percebi que teria que descer todas as escadas até finalmente ter acesso ao pátio dos aviões, foi isso que fiz, estava começando a ficar mais relaxado, pois se até essa altura não havia visto nenhum infectado, talvez eles não estivessem mais lá. Consegui finalmente ver o portão de acesso ao pátio, aquele salão de espera parecia bem mais devastado que os outros lugares que percorri pelo aeroporto, tinham copos jogados no chão, comida pisada, malas abertas com roupas espalhadas por todo o lugar, a tensão voltava a tomar conta de mim, mas tentei relaxar já que estava quase chegando na porta, mas como nada é perfeito, pisei acidentalmente em um copo descartável que estalou ao partir, meu estomago se contorceu de uma forma esquisita, como se esperasse mais que eu que algo desse errado, comecei a olhar para todos os lados com a shotgun em mãos, na esperança de que não precisasse usá-la e não precisei... Nos primeiros vinte segundos, foi quando comecei a ouvir os gemidos, gritos e grunhidos, vindos dos vários corredores do salão de espera, claro que eu não fiquei pra esperar, corri para a porta automática, mas ela não abriu, as pessoas do aeroporto devem ter desligado por medo dos mortos. Bati inutilmente com o punho no vidro, mas ele não cedeu, os gritos se aproximavam e eu me senti obrigado a bater na porta com o cabo da arma, cada vez mais chegavam perto e cada vez mais eu me desesperava, até que finalmente apareceu uma leve rachadura, a primeira doente do bando surgiu pelo corredor da direita, um pouco distante de mim, mas quando ela me viu, percebi que não teria outra opção a não ser me jogar contra a porta. Ela cedeu e fui coberto por estilhaços cortantes, a infectada caiu por cima de mim, e consegui ver seus amigos chegando ao salão, eram muitos e estavam furiosos, a mulher estava me agarrando e teria me mordido duas vezes, se não fosse pelo meu debater desesperado. Enfiei o polegar com força na orbita do seu olho esquerdo até finalmente com muito esforço chegar ao cérebro, seu corpo inerte caiu ao meu lado e me levantei, correndo aos tropeços com os malditos infectados me perseguindo. Eu estava ficando cansado, talvez devido ao cigarro, mas por sorte encontrei um portão de metal semi-aberto, me joguei por baixo dele e entrei rolando, os mortos tentaram se rastejar para entrar, mas eu desci a porta em cima de suas cabeças, mutilando alguns braços e crânios. Encostei-me no metal frio e estava prestes a suspirar aliviado, mas um par de mãos sujas de sangue me agarrou pela camisa, acompanhadas de um subido grunhido de um jovem que aparentava vinte e poucos anos, tinha a roupa dos funcionários do aeroporto e talvez já não fosse muito bonito em vida. Com um reflexo meu punho acertou seu queixo, fazendo-o cambalear para o lado, conseguiria correr se não fosse pelo seu amigo que surgiu de uma das portas que eu até então não havia percebido, ele me segurou pelo braço com uma força assustadora, quase me derrubou, mas puxei instantaneamente o pé de cabra que pendia ao lado da mochila e acertei em cheio sua cabeça, uma vez, mas ele não caiu, duas vezes e o crânio rachou, mais uma vez e voou sangue em cima de mim, mas não me esqueci do primeiro, o jovem feioso, assim que seu colega caiu no chão, ele voltou pra cima de mim me desequilibrando, mas o segurei pela gola da camisa e acertei sua cabeça também, só que com muito mais força e bem mais vezes que antes. Ele caiu de joelhos no chão e eu soltei o tecido de sua camisa, seu corpo desmoronou. Minhas pernas queimavam e tremia assim como os meus braços, eu estava ofegante e suado e minha barriga ainda estava gelada, me apoiei na primeira coisa à minha frente, um avião... Avião?! Me afastei da placa de metal e vi o monomotor de modelo Cessna 172, estava em perfeito estado, só não sabia como tirá-lo de lá com tantos infectados batendo na porta, subi no banco da aeronave e tentei dar a partida para ligar a hélice, mas ela nem se moveu, assim como todos os outros comandos manuais, subi no bico para olhar o motor e depois de muito procurar, consegui encontrar o defeito, o exaustor estava faltando, passei a mão no rosto para tentar controlar a minha frustração. Procurei por algo útil naquele lugar, era grande e parecia uma oficina, deveriam ter um exaustor em algum lugar... Mas não o encontrei, agora estava preso sem avião com um bando de canibais me esperando do lado de fora. Eu não podia desistir daquela forma, peguei a mochila que havia deixado no chão e coloquei-a em minhas costas descendo do avião, procurei por alguma saída alternativa e mesmo que tivesse encontrado, teria sido impedido de prosseguir pelo barulho de tiro vindo do lado de fora. Três disparos. Me senti obrigado a abrir o portão, no entanto, ao me aproximar, um dos projéteis atravessou o metal quase me acertando, provavelmente era alguém com que não tinha um conhecimento muito amplo em manuseio de armas de fogo, logo um pensamento estalou “Francine”. Puxei o portão para cima e o rangido metálico fez com que boa parte daquelas cabeças infectadas voltasse a atenção para mim, eu estava certo, era Francine tentando abrir caminho por entre os canibais, decidi dar uma ajuda, saquei a shotgun e o tiro espalhado derrubou a maioria, o resto fiz questão de usar o pé-de-cabra, olhei ao redor e todos estavam no chão, inclusive eu, uma tontura tomou conta de mim sem que eu percebesse até então, como quando sentimos que vamos desmaiar a qualquer segundo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!– Como me achou, moça? – Eu disse ofegante.
– Segui o rastro de sangue, achei que você pudesse estar com problemas... – Ela hesitou. – Ai meu Deus, Joe, seu braço! – Uma expressão de pavor havia tomado seu rosto. – Você foi mordido?
Eu encarei um tanto desnorteado o meu braço cheio de sangue. Será que eu havia sido mordido?! Não me lembrava de tê-lo machucado e talvez estivesse passando mal pela perda de sangue. Passei a mão no corte para tentar enxergá-lo melhor, mas uma pontada de dor percorreu meu braço, lembrei imediatamente da porta de vidro, ainda havia um caco enorme preso em meu antebraço, isso estava dificultando a cicatrização, puxei-o lentamente, contraindo todo o meu rosto para conter a dor e percebi que ele era bem maior do que eu pensava, talvez chegasse a ter quase dez centímetros, pelo menos sete estavam enfiados na minha carne. Francine me olhava como se estivesse doendo mais nela que em mim.
– Vim atrás de você porque o Thomas disse que o avião monomotor não estava funcionando.
Eu ri involuntariamente, toda a minha chance de voltar para a Inglaterra havia descido por água a baixo, talvez fosse Deus querendo me dizer que ainda não era hora de “ir”.
– E estou aqui também... – Ela continuou. – Porque precisamos da sua ajuda para tirar essas pessoas daqui em segurança. – Ela me olhou insegura, como se esperasse por um “não” ríspido e frio... Mas acho que não sou esse tipo de gente.
– Claro... – Respondi um pouco rouco.
Me levantei exausto do chão e a garota me ofereceu apoio, mas não aceitei. Sem que eu pudesse perceber, ela rasgou um pedaço da barra de sua camisa de algodão e enfaixou bem a minha ferida.
– Pronto. – Ela disse dando um nó. – Isso deve servir.
Testei a bandagem movimentando o braço com força, estava bem firme, sorri para ela como agradecimento. Conseguimos chegar sem problemas até o terraço do aeroporto, talvez um susto ou dois, mas não passou disso. Subimos a escada e por fim conseguimos encontrar uma cena catastrófica: Alguns corpos no chão, sangue por todos os lados e uma sensação estranha na garganta.
– Mamãe! – Consegui ouvir os gritos desesperados de um garoto.
– Mac! – Francine o abraçou forte, foi então que percebi as lágrimas em seus olhos.
Logo depois pude ver o alvoroço de alguns adultos seguindo o irmão de Francine.
– Fran! – Thomas disse com a voz cansada. – Foi a velha, a senhora Monroe, ela estava bem, mas depois teve uns espasmos caiu no chão e começou a se contorcer e babar, foi horrível, depois ela atacou o Brian, mordeu-o bem no pescoço, a morte foi quase instantânea, depois o Mac gritou e ela foi pra cima dele, ela iria mordê-lo se não fosse pelo Santiago que colocou o braço na frente e...
– Alguém foi mordido?! – Me antecipei.
O tal Santiago me mostrou o braço sangrando. Apertei a ponte do nariz com força usando o indicador e o polegar.
– Acredito que nós temos um enorme problema aqui... – Todos me olharam assustados.
– O que foi? – Thomas me olhou estranho.
– Vocês têm alguma noção de como esse vírus se espalha? ... – Eu indaguei um pouco irritado. – Ou melhor, vocês tem ao menos noção de que isso é um vírus?
Todos me fitaram com um olhar de paisagem.
– Pois bem, meus caros, se há alguém infectado os fluidos corporais dessa pessoa são altamente infecciosos, vi isso pessoalmente, logo quando toda essa merda começou, principalmente quando se trata de uma mordida, os arranhões ficam em segundo lugar e logo depois a saliva em contato com seus orifícios, podem ser narinas, boca, ouvidos até mesmo em seu globo ocular... Mas, esse último leva tempo até finalmente se mostrar mais do que apenas uma gripe muito forte... Mas quando você percebe, já é tarde demais. Acho que a “senhora Monroe” concordaria comigo.
Todos estavam me olhando como se eu fosse um filho da puta qualquer que só estava lá para estragar o dia deles.
– Pode continuar com a história Thomas... – Eu disse com um suspiro.
– Bem... Depois de morder o Santiago, ele mesmo deu um soco no rosto dela, ela cambaleou para trás e agarrou a primeira pessoa que viu, no caso foi a Vanessa, ela também morreu quase na mesma hora que foi mordida, o Santiago se irritou e bateu na senhora Monroe com o encosto da cadeira de metal que tinha quebrado e ela morreu...
Isso explica os corpos e o sangue.
– Vou contar uma coisa pra vocês meus jovens... Santiago, tem quanto tempo que você foi mordido?
– Deve ter uns dez minutos mais ou menos.
– Podemos tentar amputar seu braço e ver se dá certo e depois fugimos, tentem procurar um remédio para gripe para que a infecção não assuma um estágio mais avançado.
Eu dei as costas para eles e Santiago me seguiu. Fomos para a área de Check-in do aeroporto para procurar por objetos perfuro cortantes. Procurei por todos os cantos mas era obvio que não havia nada grande o suficiente para amputar um braço, senti que o rapaz ficou aliviado... Mas não pelo motivo certo, empunhei a shotgun não podia deixar aquele rapaz vivo, se ele se transformasse poderia nos dar muitos problemas. Mas antes que eu pudesse puxar o gatilho consegui ouvir uma agitação vinda das escadas rolantes desligadas que davam acesso à parte superior do aeroporto.
– Eles quebraram a barricada! – Era Francine, correndo desesperada com seu filho no braço. – Temos que sair daqui Joe!
– Certo. – Eu assenti e deixei que Santiago passasse na minha frente.
Eu achei que era exagero da parte dela mas eu consegui ouvir os gritos e gemidos daqueles doentes, além dos seus corpos se esbarrando no metal e na parede, eles com seus passos desengonçados naqueles degraus ecoavam por todo o lugar silencioso, agora não mais tão silencioso já que um deles havia mostrado sua cara e não era muito amigável, nada mais passou pela minha cabeça se não correr, comecei a empurrar Santiago para que ele fosse mais rápido, eles não eram muito rápidos como de costume, conseguiríamos sair dali se continuassem no mesmo passo, mas sempre algo tem que dar errado na vida do Joe não é mesmo? Santiago caiu no chão e começou a ter convulsões, eu só consegui pensar na possibilidade dele estar se transformando, todos continuaram correndo, bem, todos menos eu, voltei para tentar ajudá-lo mas ele não conseguia nem me olhar, os infectados estavam chegando e eu não tinha tempo pra heroísmo, puxei a shotgun e dei um tiro de misericórdia em sua cabeça, mas foi o necessário para deixar os infectados mais irritados ainda, começaram a correr mais assustadoramente rápido e pareciam ensandecidos, não sabia dizer ao certo porque, talvez fosse pelo barulho, tentei voltar a correr mas um deles conseguiu me agarrar, quis tentar mesmo assim, mas senti a camisa rasgando aos poucos e ele não me soltava de forma alguma, foi quando vi Thomas, irmão de Francine chegar rapidamente ao meu lado e enfiar uma caneta no olho do doente, eu não sabia como agradecer, na verdade nem pensei nisso, só consegui ver o corpo dele caindo no chão.
– Vamos! – Thomas disse de forma direta.
Então voltamos a correr, nem percebi o momento em que passei o grupo, talvez fosse a adrenalina dando um nó no meu estomago me deixando cego, mas, a cada corredor passado, a cada salão que alcançávamos os infectados pareciam cada vez mais próximos e irritados. Consegui enxergar no final do saguão a porta que eu havia arrombado e então, tive a péssima idéia de olhar para trás, pois a visão que tive foi desagradável em todos os sentidos possíveis da palavra. Thereza, uma das garotas do grupo foi agarrada por dois infectados e tombou no chão eu estava prestes a ajudá-la, mas eles não perderam tempo, um mordeu sua orelha e o outro, seu ombro, os gritos desesperados da moça tomaram conta do salão, eram de dor e desespero disso eu podia ter certeza, pois foi logo um pequeno amontoado de infectados se formando sobre a menina, não havia nada que eu pudesse fazer, afinal, eles nos cercavam, pelo menos estávamos perto da saída. Eu estava errado, os gritos pareciam tê-los deixado mais violentos, pegaram três rapazes, mas não pude ver exatamente quem eram pois minha visão tinha sido bloqueada pelas cabeças atrás de mim, consegui abrir a porta e logo que todos entraram, digo, quase todos, pois um velho chamado Cooper foi agarrado antes que pudesse fechar a porta. Consegui trancar a entrada com uma fechadura interna que não tinha percebido até então, mas era obvio que não duraria muito tempo. Escorreguei com as costas na porta e me sentei no chão colocando os braços sobre o joelho e logo em seguida minha testa... Eu estava esgotado, não podia levantar mais um dedo para nada, partes do meu corpo que eu não fazia idéia que podiam doer, estavam doendo e eu estava quase pedindo para morrer... Quase.
– Joe! – Uma garota que eu não sabia o nome me chamou. – É a Katharine.
Eu olhei para o lado e a tal Katharine estava tendo convulsões, era muito parecido com o que Santiago estava tendo antes que eu atirasse em seu crânio, eu não sabia o que fazer, mas Francine parecia saber, correu até a garota e eu só fiquei observando até que minha atenção desfocasse totalmente do que estava acontecendo . Sou capaz de me jogar na frente de uma bala por um amigo, mas não consigo nem imaginar o que poderia fazer se alguém tivesse convulsões na minha frente, pior ainda é quando se trata do emocional, quando as pessoas estão tristes e eu não sei como fazê-las sentir melhor, ou quando estão felizes e eu não consigo dizer o quanto estou feliz em vê-las assim, me sinto assim com a Sam, queria que ela soubesse o quanto me importo com ela, mas não consigo, mesmo que tentasse, é como se algo estivesse errado e eu devesse continuar agindo da forma que ela me enxerga, uma pessoa ranzinza e teimosa, não quero que ela entre mais na minha vida do que ela já entrou e devo manter isso oculto dela, talvez seja o melhor, mas só em pensar em ver aquela garotinha indo de mal a pior por minha culpa, não sei se conseguiria dormir à noite... Acho que passei tanto tempo sendo o que os outros pensam de mim, que esqueci como é ser eu. Aquela sala era escura pelo tamanho pequeno das janelas que deixavam o brilho tímido da lua passar, era abafada pelas entradas estreitas e bem fechadas, e parecia ter sido projetada para funcionar totalmente com eletricidade, percebi isso pelos monitores de computador na parede já que era uma sala de segurança e também, pelo ar-condicionado em desuso, as cadeiras com rodinhas abandonadas e quase que um espectro de memória inóspita surgia em minha mente, como se eu pudesse imaginar os seguranças sentados ali, conversando e trabalhando...
– Joe! – A voz de Francine me despertou do transe.
O irmão dela que estava do meu lado começou a vomitar incansavelmente, foi muito rápido e não consegui por em ordem o que estava acontecendo, eram duas pessoas passando mal, precisaria de muito tempo para descobrir o que fazer em seguida, mas os mortos não me deram essa opção. A tranca frágil da porta estalou ao quebrar e alguns infectados foram jogados para dentro da sala pelos outros, só consegui pensar em salvar Francine e seu filho, agarrei a garota pelo braço e com o braço direito consegui carregar o garoto, saímos dali às pressas.
– THOMAS! – Ela gritou e consegui ver de relance seu irmão estendendo a mão de uma forma incapaz... Incapaz de qualquer coisa. – Meu irmão!
Tranquei o portão de emergências e alguns braços se estenderam para fora para tentar nos alcançar, mas por um triz, fomos mais rápidos, coloquei o garoto no chão e cai novamente... Não sei por quanto tempo mais meu corpo agüentaria. Consegui ouvir o grito dos que deixamos para trás ecoando em minha mente.
– Garota... Nós não tínhamos escolha, eles eram muitos. – Ela tinha um olhar triste e eu sabia que logo vinha uma manifestação de tristeza que eu não suportava. – Eu sinto muito.
Lágrimas... Lágrimas escorriam impiedosamente no rosto da moça e eu claramente não sabia o que dizer, eu nunca sabia.
– Bem... – Ela disse se ajoelhando na frente do garoto. – Pelo menos eu to aqui com você não é Max?
O nome do garoto é Max? Eu senti minha barriga gelar.
– Max? – Ela sacudiu o garoto. – Max!
Mas ele não respondia, parecia estar em estado de choque ou coisa do tipo... Estava catatônico, olhando para frente sem nenhuma resposta física, cheguei perto para ouvir sua respiração... Por sorte ainda estava respirando, não era estado de choque.
– Ele parece estar com estresse pós-traumático... Vai sobreviver, tente acalmá-lo e distraí-lo, nós também podemos procurar por ansiolíticos e...
– Não... – Ela tinha uma voz monótona, como a Laureen em meu sonho. – Joe, mesmo que encontremos ansiolíticos, mesmo que ele fique calmo... O mundo não vai voltar a ser o que era antes, tudo o que eu conhecia, tudo o que nós conhecíamos se foi... E isso não pode se desfazer.
– Não diga isso... – Tentei motivá-la, mas nunca fui muito bom com palavras. – Eu tenho... Amigos que podem te ajudar e ajudar o garoto... Temos até uma garotinha, o nome dela é Avery pode ser tornar amiga do... Max.
Eu me senti um pouco engasgado em falar o nome do menino.
– Joe... Seus amigos podem trazer a Thereza de volta? Ou a dona Monroe, ou o Santiago, ou o Cooper, ou Jennifer... Katharine... Eles podem trazer o Thomas de volta? Porque, essa seria a única condição que poderia me fazer pensar no caso.
Vi uma ultima lagrima escorrer de seu olho esquerdo. Ela puxou a pistola de dentro da calça.
– Agora, Joe... – Ela disse tentando parecer mais amigável. – Eu acho que seria melhor você ir embora, não seria exatamente agradável presenciar o que está prestes a acontecer...
– Posso pelo menos me despedir de você? – Disse talvez um pouco frio, tentando esconder minha mágoa talvez.
Ela fingiu um sorriso e me abraçou. Nos afastamos lentamente e eu subi na moto, rumo à Hartford, mas não longe o suficiente para deixar de ouvir o som de dois disparos... Um para cada cabeça. Eu não agüentava mais nenhum segundo daquele dia, queria chegar na minha casa, fumar um cigarro, beber um copo de whisky e deitar na minha cama esperando o sono vir embalado com o doce som de blues no rádio, mas duvidava que isso pudesse acontecer tão cedo, já que meus cigarros não estavam no meu bolso, meu whisky acabara, não conseguia ver uma cama confortável dentro de um perímetro de cinqüenta quilômetros e qualquer mínimo som seria capaz de evocar uma horda intera de mortos-vivos... Além de que, não sei se conseguiria dormir pelas próximas semanas mesmo estando tão cansado.
Me perdi de forma tamanha em meus pensamentos que nem sequer notei a noite virar dia e a estrada diminuir à minha frente, talvez fosse o ronco baixo do motor da moto ajudando na indução do meu transe, aquelas vozes e gritos ecoando em minha cabeça... Eu já passei por situações terríveis, mas aquela de longe foi a pior delas, eu não sabia como tirar aquilo da cabeça, eu quase não conseguia ver o que vinha na minha frente, eu estava em torpor, talvez fosse um estresse pós-traumático também, mas não chegava a tanto, não tanto quanto o daquele garoto... Max.
Um estrondo, eu me dei conta de que estava no chão, com o braço sob a moto caída, justo o braço machucado com o vidro.
– MERDA! – Gritei, pois o cano quente estava queimando minha pele.
Consegui apoiar meu ombro no assento ta moto e erguê-la o suficiente para retirar o membro... Tinha feito um belo estrago, mas dava para sobreviver, não chegava perto do corte do vidro, então não me preocupei... Mas queimaduras são agonizantes não importa o tamanho delas. Olhei em volta e parecia que inconscientemente dirigi até Hartford, mas não me toquei quando cheguei nas grades de metal que cobriam boa parte da cidade, parecia vazia, não tinha guardas, estava silencioso, não podia ver o movimento de ninguém a não ser dos toldos e das lonas que cobriam as cabanas, talvez fosse porque eu estava na lateral e não na parte da entrada da cidade. Dirigi em torno de meia hora até finalmente chegar no portão frontal, mas durante todo o meu percurso minha visa de ambiente não mudou, tudo estava quieto e logo meu coração acelerou, ninguém nos portões da frente e conseguia ver sangue na área médica da triagem... Não... Não, não, não...
Me desesperei empurrando o portão pesado com a força que ainda restava em meu corpo, ele abriu e eu entrei com a moto, estacionando-a na frente da cabana que tínhamos dormido. Minha coisas precisavam estar lá. Olhei o ambiente e as camas estavam desfeitas, sem lençóis, travesseiros ao chão, mas, nenhum objeto pessoal deixado para trás, nem mesmo a camisa que tinha dado a Sam, me sinto um idiota por achar que ela poderia ter se desfeito... E mais idiota ainda por estar me preocupando com isso... Minha mochila não estava onde a tinha deixado, mas resolvi procurar melhor, me agachei pra olhar debaixo das camas... Obrigado Sam... Minhas armas e minha roupa juntamente com minha mochila estavam escorados debaixo da cama, consegui puxar para fora e trocar aquela camisa ridícula que eu usava pela minha velha e fedida básica e surrada do exército, minhas armas tinham munição e minha mochila estava com tudo que eu tinha posto, lanterna, pilhas, cigarro, munição para rifle... Minha fiel lâmina Columbia U.S.A modelo 758A preta, coloquei minha bainha de faca e ajustei para a altura da minha omoplata, não era naturalmente para ficar naquela altura, mas não poderia deixar na altura do quadril pois poderia atrapalhar na hora de tirar a mochila, ou quando fosse sacar uma arma. Peguei a gaze e estendi desde o corte do vidro até a queimadura, que também estava no meu antebraço, só um pouco acima do corte. Voltei para a moto e dei uma ultima olhada na cabana para me certificar de que não estava me esquecendo de nada. Eu estava prestes a dar a partida, mas fui cegado por uma pancada forte na cabeça. Mas que porra foi essa?
– Desculpa cara, gostei da sua moto e... Decidi ficar com ela.
Consegui focar a visão em um cara jovem... Talvez com a mesma idade da Sam, ele deu uma piscada de olho para mim e me passava um ar tão irônico quanto o Adam, talvez até mesmo pior. Tinha uma mascara balística presa na calça, uma mochila surrada e muito parecida com a minha, porém a dele era do exército americano e não britânico, e quase parecia informal se fosse considerar que era ele que estava usando e não um oficial de fato... Ele deve ter roubado. Girou o acelerador e deu uma olhada para mim, — Eu ainda estava tonto – abaixou o tecido que cobria sua boca e nariz permitindo que eu analisasse melhor suas feições.
– Foi um prazer... – Disse mais uma vez irônico. – Meu nome é Axel White, vê se não esquece.
Ele riu colocando a mascara de volta, acelerou a moto e saiu dali antes que eu pudesse levantar. Filho da puta maldito! Era o que eu queria gritar, mas ele sumiu da minha vista antes que eu pensasse em fazer qualquer coisa, não sabia se deveria correr atrás dele, na verdade, não tinha nada que eu pudesse fazer deveria seguir o resto do caminho a pé.
Andei talvez uns cinco metros até alguém me interromper, uma voz repulsivamente familiar, era o Bradford, para estragar ainda mais o meu dia.
– Olha só, se não é o meu amigo Joe Heffman – Eu percebi a acidez em suas palavras, disfarçadas com um falso tom amigável.
– Me poupe de suas palavras seu cão estúpido. – Me virei para ele aos poucos. – Sei que de alguma forma, a culpa disso tudo é sua, você me deixou lá para morrer seu maldito... E pra você é General Jenkins.
Percebi sua expressão presunçosa sumir aos poucos.
– Eu deveria ter te matado pessoalmente quanto tive a chance... – Ele disse com desgosto e ao mesmo tempo sua mão fazia um leve movimento na direção da calça.
Apontei a minha velha e recém recuperada Magnum 357 para sua cabeça.
– É... Você deveria. – Eu sorri.
– Mas o que é isso Heffman? – Ele disse tentando não se alterar. – Você não pode matar um oficial do Reino Unido. Eu represento a Inglaterra aqui, você não tem o direito de...
– Eu sei... – O interrompi, não estava com paciência para ouvir suas súplicas. – Você tem razão, não posso te matar.
Com um movimento rápido, atirei em sua perna e ele berrou de dor.
– Mas nada impede que eu faça isso. – Sorri mais uma vez.
– Não pode me deixar aqui! – Ele gritou.
– Disso eu já discordo...
Dei as costas para ele e continuei seguindo por horas a pé vasculhando de ruas em ruas onde poderiam estar àqueles pirralhos, mas parecia que alguém tinha ouvido meus pensamentos, pois a alguns metros dali consegui ouvir um grito feminino extremamente familiar... Corri quase como se eu não estivesse cansado, a mochila sacudia nas minhas costas, o pé de cabra balançava na lateral ta mochila e meu coração transbordava de esperança e aflição... Parece poético e bom, mas não era, porque parecia estar cada vez mais distante. O grito veio da parte mais verde da cidade, onde as grades de ferro não protegiam, passei por árvores e por tudo quanto é tipo de terreno deformado, até finalmente subir uma colina e encontrar a Sam, ficaria extremamente feliz por isso, se ela não estivesse cercada por tantos doentes, ela estava visivelmente cansada e chacoalhava desesperadamente o facão para afastá-los, mas não parecia fazer muito efeito. Saquei a Magnum mais uma vez e atirei em um dos infectados que estava prestes a agarrá-la, ele caiu em seguida e eu puxei o pé-de-cabra da mochila com a mão esquerda. Mais um tiro e acertei a mulher que se debruçava em sua frente, quando cheguei perto, bati com força o pé de cabra na cabeça de outro doente que havia se distraído dela e ele tombou instantaneamente no chão, mais um veio na minha direção para me agarrar, mas eu guardei rapidamente o pé-de-cabra na lateral da mochila e dei um golpe para imobilizá-lo, ele caiu de joelhos no chão e eu atirei em sua nuca, um infectado que eu ainda não havia percebido tentou me morder, mas esquivei puxando novamente o pé-de-cabra e em seguida, cravando a parte pontuda em seu palato. Consegui ver Adam chegando atrás da garota.
– Abaixe-se! – Eu gritei
E ela se jogou no chão, fazendo com que o infectado a largasse, Adam atirou e o doente caiu logo em seguida. Eu estava aliviado por ela aparentemente estar bem. Aproximei-me dela e a fitei sério, puxando um cigarro para fumar.
– Oi, garotinha... – Deixei escapar um leve sorriso, mas acho que ela não percebeu. – Deveria tomar mais cuidado...
Ela desabou no chão cobrindo o rosto com as mãos sujas e me parecia que estava prestes a chorar a qualquer momento, mas isso não aconteceu... Boa garota.
– Samantha! Sam! – Era o Adam, ele estava tão preocupado com a garota que nem parecia ter me percebido ali, abraçou-a tentando confortá-la — Sua idiota! Mas que merda aconteceu aqui?! Você está bem? – Ele se afastou rapidamente para examiná-la. – Você está...
– Ferida. – Completou a russa, não que eu tenha notado ela ali. – Solte-a. Ela está coberta de sangue, e duvido que ele seja somente dela.
A loira parecia enojada ao falar.
– A-as feridas... Não estão sujas. O s-s-sangue deles está somente nos meus braços e na minha perna direita, n-nada atingiu a perna esquerda. – A voz dela tremia, assim como seu corpo... Pobre garotinha, eu não sabia o que dizer.
– Vinte e quatro horas. Dê-nos vinte e quatro horas para ver se os sintomas vão aparecer. – Adam dizia em tom de súplica, ainda abraçando-a forte.
– Adam, eu sei que você quer salvá-la, mas somos uma das últimas equipes de cientistas que sobraram para achar a cura. Nós não podemos nos arriscar desse jeito! – Natasha disse com um tom impositor e negativo. – E se ela se transformar? E se ela matar a todos?
– Nat, não se preocupe. O que ela precisa é de um banho, e de um curativo nesse joelho horrendo. – Alex apareceu repentinamente, quase como se estivesse se escondendo, e não duvido disso. – A operação foi um fiasco, e acredito que todos estão exaustos. Adam, Carter, me ajudem com a Samantha.
Os rapazes ajudaram a levantá-la e Alex cuidou da ferida dela, evitando que o sangue contaminado entrasse em contato com a ferida de seu joelho, que só agora tinha percebido, estava horrível... Ah Sam... O que você andou fazendo? Deixei um suspiro escapar. Ela foi se afastando com Adam e Carter, até finalmente seus olhos se desligarem do Adam e finalmente ela lembrar que eu estava ali. Traguei o cigarro e não demorei ao soltar sua fumaça.
– Joe... não sei como te agradecer, de verdade. Você salvou minha vida... – Ela parecia fraca até na voz, pois falhava em algumas palavras.
Parei para examiná-la por alguns segundo e me aproximei.
– Pode me agradecer não se arriscando de novo. – Eu dei um sorriso fraco, bagunçando sua franja. Logo em seguida, os rapazes a levaram para dentro de uma cabana de pesca que estava aparentemente abandonada, depois de deitarem-na em uma mesa de madeira, ela desmaiou, sentei na cadeira ao lado dela para qualquer eventualidade que pudesse acontecer. O lugar era bem velho e parecia não ser usado a um bom tempo, antes mesmo de toda essa merda acontecer, eles ajeitaram alguns sacos de dormir ali naquele cubículo e uma fogueira apagada era a visão que eu tinha do lado de fora da janela da cabana. Não tinha muitos móveis, mas possuía muitas varas de pescar pendendo na parede. Apresentava um aspecto rudimentar em geral. Estava quase dormindo ali quando Adam chegou.
– Joe... Obrigado pelo que você fez... – Ele pousou a mão no meu ombro e eu assenti quase que inconsciente.
Apaguei.
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