Against The Death
3 Samantha Black
Como se já não bastasse ter sido quase morta por um monstro, o Adam ainda briga com o Alex. Nossa, por que a humanidade não consegue viver em paz?!
– Andem logo, outros vão chegar em pouco tempo, e eu não quero estar aqui para testemunhar — disse o Joe.
Habilmente, assim como faz tudo, o ruivo seguiu escada abaixo para a estação, sumindo em segundos. Adam encarou o Alex rapidamente, mas o suficiente para fazer o pobre homem ter calafrios.
– Venha, não quero me afastar do general – Natasha puxou Adam, que bufou, em direção à escadaria.
Guardei meu facão na bainha e fui até o Alex, pondo a mão em seu ombro.
– Você está bem? – Tentei não parecer desesperada, sei que isso não o ajudaria a se acalmar.
– Eu... – Alex olhou firme em meus olhos, e pude ver que também estava apavorado. – Sim, eu estou. Perdão por não ter sido capaz de ajuda-la, é só que...
– Shh, eu entendo. – Acariciei de leve seu ombro esquerdo. – Me impressiona que tenha chegado tão longe, Alex. Mas tem certeza de que não quer uma arma? Nem que seja um canivete?
– Se os dois pretendem morrer ai mesmo, eu posso emprestar meu molho barbecue, aposto que os zumbis vão adorar. – Pude ouvir a voz do Adam ecoar da estação, e um leve “shiii” de Natasha em seguida.
Dei mais uma olhada no Alex, que parecia mais tenso que o normal.
– A minha resposta é não. Chegarei até o final sem matar nenhuma pessoa, mesmo que ela já esteja morta. – Sua voz soava como vidro quebrando, estridente.
Ele passou por mim, e eu o segui. Não pude deixar de dar uma ultima olhada nos corpos mortos, lastimáveis, e na rua, que um dia já tinha sido movimentada... e agora estava tão morta quanto os cadáveres em meus pés...
– Tão morta quanto o resto do mundo.
Desci as escadas rapidamente, encontrando a estação um verdadeiro caos: lixo espalhado pelo chão, objetos quebrados, vidro por todo o canto e manchas de sangue ocasionais. Adam estava com o braço por cima do ombro de Natasha, que se encolhia sob seu abraço, enquanto observava cautelosamente o local enquanto Alex examinava os trilhos, um pouco afastado do casal.
– Onde está o general? – Perguntei, procurando um pouco desesperada, afinal, ele é a nossa única chance de continuar vivos.
– Aqui. – Sua voz rouca ecoou de um local próximo a onde estava Alex, e então surgiu de uma cabine. – Tenho más notícias.
– Acredito que nada agora seja de fato ruim. – Disse Natasha, parecendo um pouco indiferente. Pergunto-me como consegue... Talvez seja porque ela é russa.
– Não, essa agora é muito ruim. Parece que a energia só esta funcionando nas estações, os trens não respondem. – Joe parecia mancar de leve com a perna direita.
– E agora? O que mais a gente pode faz...
– Quieta, Samantha. – Adam me cortou, gerando um silêncio mortal. – Velhote, quais são os possíveis deslocamentos que podemos fazer sem que alguém morra?
Todos, até mesmo o Joe, que visivelmente não gosta do Adam, se surpreenderam com a sua seriedade.
– Muito bem, pirralho, consegue manter a calma. – Joe o analisou por um momento, e então disse: – Por cima, obviamente será mais complicado, mesmo se roubarmos um carro. As ruas estão obstruídas, e andar não é uma opção. Por tanto, minha sugestão é que continuemos pelos trilhos do metrô.
– O que?! Isso é insanidade! No meio desses trilhos escuros, seremos alvo fácil. – disse, exasperada.
– Insanidade? – Joe me encarou com um sorriso meio sínico. – Diga-me, por que acha que é insano o meu plano? Somente por que iremos andar no escuro? – Engoli em seco.
Na verdade, era exatamente esse o motivo. Posso ter 29 anos, mas ainda tenho meus receios sobre o que pode me aparecer no breu.
– Pois eu lhe digo, ir pelo escuro é a melhor opção que temos. – Joe tirou de sua mochila munição e recarregou as armas, todas que lhe era possível. – Tome, pirralho.
Joe atirou sua Shotgun para Adam, que desfez o abraço em Natasha e a apanhou no ar. Adam encarou a arma por alguns segundos, surpreso, e depois o Joe.
– Você fez bem com aqueles alterados lá em cima. Mostrou que sabe usá-la. – Joe pareceu compreender o olhar de Adam, e milagrosamente o elogiou mais uma vez. – Só tome cuidado para onde atira, te ensinarei a usá-la quando tivermos oportunidade. Até lá, nada de mirar para os coleguinhas.
– O-obrigada... senhor. – Adam parecia, pela primeira vez, sem jeito.
– Não me chame de senhor, muito menos de general. Me chame de Joe, já está de bom tamanho. – Joe deu as costas para nós e seguiu em direção aos trilhos.
– Joe! – Chamei-o. Ele virou apenas o pescoço e me observou de canto de olho. – Você ainda não me disse, por que os trilhos são a melhor opção?
– Ah, como não pôde perceber? – A voz de Natasha surgiu tão inesperadamente que acho que até o Adam se assustou. – Sem os trens, aqui é mais silencioso que lá em cima, vamos chamar menos atenção.
– Sério? Acha que um túnel vazio e com eco é mais silencioso que uma rua aberta? Não, definitivamente não é por isso. – Eu vi o espanto no rosto de Natasha, e me segurei para não rir, mas eu não sou boa com isso. Ela me fuzilou com os olhos, e foi o suficiente para me repreender.
– Então diga-me, ó grande gênio de guerra, por que merda estamos indo pelos túneis, já que é tão barulhento e ilógico? – A acidez nas palavras de Natasha era palpável, até mesmo o Adam recuou alguns passos.
Joe se aproximou de Natasha, os dois se encararam duramente. Até que o Joe sorriu.
– Barulhento? Sim. Ilógico? Nunca. Se não, o gênio aqui não teria cogitado a hipótese. – E o seu sorriso alargou, a medida que a fúria da russa crescia. Joe chegou perto de seu ouvido, mas falou alto o suficiente para que todos ouvissem. – Regra número um para sobreviver em grupo: não seja pretenciosa, ninguém é um gênio, nem mesmo você. Mas, escutar aqueles que têm mais experiências em campo é sábio.
Todos se calaram, e foi silêncio total por alguns segundos.
– Vocês devem estar brincando, ninguém aqui faz sequer ideia do por que iremos pelos trilhos?! – Silêncio de novo. – Estou no meio de sequelados.
Meio desconfortável, Alex deu alguns passos a frente.
– Talvez não seja por isso também, mas... Enquanto lutavam, eu notei que eles se guiavam muito pelo som que vocês faziam, o que significa que eles não enxergam muito bem, então ir pelo escuro é mais seguro. – Adam, Natasha e eu o encaramos, incrédulos. De fato, era uma lógica boa.
– Agora sim, o esperado de um cientista: observar, analisar e tirar conclusões. – Joe assentiu. – Exato, meu jovem, mas não apenas isso. A probabilidade de ter corpos aqui é muito baixa, e os cadáveres são a comida dessas coisas. Sem presa, sem predador, então vamos por esse caminho. – Joe seguiu mais uma vez para o túnel. – E, por favor, não parem de novo para fazer perguntas estúpidas.
– Quero só ver se encontrarmos uma horda bem grande no meio do caminho. – Sussurrou Natasha.
– Por favor, nem cogite a hipótese... Deus que me livre. – Pus as mãos em forma de oração, me ajuda a acalmar quando estou muito nervosa.
– Sinto lhe informar, Sammy... – Adam passou por mim, sério. –...Mas acredito que agora não há Deus que nos proteja.
. . . . . . . . . .
– Isso não está ficando escuro demais? – Senti minha voz tremer, assim como minhas mãos.
– Ah, Sammy... Você só pode estar de brincadeira. Tem mesmo medo de escuro? – Adam suspirou audivelmente.
– N-não é bem medo do escuro...
– Fala sério, garota, quantos anos você tem? – Natasha parecia estar perdendo a paciência.
– Gente, vamos manter a calma... – A voz do Alex estava tão baixa que eu mal podia escutá-lo.
Os passos de Joe pararam no meio do caminho. Ele se virou e, mesmo escuro, podíamos perceber que ele estava irritado. Bem irritado.
– Podem me explicar o que diabos está acontecendo aqui?!
Todos se entreolharam.
– Samantha tem medo de escuro. – Natasha falou de uma vez.
–O... O que?! – Fiquei sem palavras.
– É, e parece uma criança. – Sua expressão era a mais limpa possível.
– E você, que não consegue dar dois passos sem reclamar com o Adam? – Todos se espantaram, mas Natasha logo reagiu.
– Pelo menos eu não fico achando que até a minha própria sombra é o Bicho Papão.
– Há, convenhamos, a sua sombra é macabra. Parece até... você.
– Uuui... Essa foi forte. – Sussurrou Alex.
Natasha pegou ar para me responde, eu podia quase ver no escuro seu rosto ficando rubro, quando o Joe pôs uma arma comprida entre nós.
– Basta! – Seu grito ecoou pelo túnel, de forma dramática. – Qual é o problema de vocês?! Mas que porra, eu já executei uma missão com israelenses e iraquianos e eu juro, juro pela minha vida, ELES DISCUTIAM MENOS QUE VOCÊS! – Engoli em seco. – Por que não se tocam de que isso não é uma brincadeirinha de laboratório?! Que isso não é joguinho de “Left 4 Dead”?! Se vocês falharem, já era, é adeus vida e olá inferno. Então, se estão interessados em comer um hambúrguer pela ultima vez, calem a merda da boca de vocês e tentem, por favor, dar cinco passos sem parecerem criancinhas INÚTEIS.
As palavras dele ainda ecoavam. Eu não sei o que me surpreendia mais: ter recebido uma bronca de um general, saber que o general me acha uma criancinha inútil ou perceber que esse mesmo general, em plenos 37 anos, joga Left 4 Dead.
– Me tire dessa, eu não fiz nada... – Adam deu um passo para trás.
– Não me venha com “eu não fiz nada”, tenho cara de ser sua mãe para escutar desculpa de merda?
– Joe, se acalme. – Tentei falar do modo mais gentil possível. – Vamos, nós ficaremos quietos. Só... vamos sair daqui, ok? – Supliquei com meus olhos que ele concordasse e, mesmo com a visão dificultada, acho que ele pôde entender.
– Certo... — Disse, meio desconfiado. — Não falta muito para chegarmos. Talvez um quilômetro ou dois.
Contive um suspiro. Não aguentava mais andar, estava morrendo de fome e também tinha aquela sensação ruim percorrendo a minha espinha. Subitamente, uma luz se ascende, e eu não pude conter um suspiro de horror.
– ...Eu achei minha lanterna. – Essa foi a primeira vez que a voz do Joe parecia verdadeiramente mansa.
– Ah, então agora é que você acha? Não podia ter olhado melhor a alguns metros atrás, antes de eu pisar naquela gosma estranha? – Natasha pisou forte no chão.
– É sério isso? Eu acabei de fazer um discurso sobre ficar calado e você ainda reclama? – Joe levantou uma sobrancelha.
Cobri a boca para conter meu sorriso.
Com a luz, eu me sentia mais segura, eu conseguia ver se algo estava se aproximando da gente ou não. Mas as sombras... ainda me assustavam. Não me leve a mal, mas tudo isso é muito traumático, eu era só uma cientista que aplicava doença em ratos e agora eu tenho que matar mortos-vivos com um facão esperando morrer a cada segundo. A russa pode até estar acostumada com isso, e não estar estranhando muito a situação, mas eu com certeza estou. E por falar em se assustar...
– Ah! – Contive meu grito para um sussurro quando algo encostou minha mão.
– Shh, calma, sou só eu, Adam. – A voz dele parecia divertida.
– Mas que droga, Adam! Eu quase... – Ele pôs três dedos sob minha boca, calando-me.
– Shh! Você é muito barulhenta.
– O que... você quer comigo? – Estranhei. Não era para você estar de mãos dadas com a sua namoradinha russa?
– Eu...
Adam hesitou um pouco, e passou a mão no cabelo, como ele sempre faz quando quer dizer algo tenso ou importante.
– O que os dois estão fazendo? – Alex sussurrou perto da gente. – Andem logo, o Joe vai reclamar se vocês ficarem aí batendo papo.
Adam pareceu sem graça, e adiantou o passo, mas logo depois desacelerou e esperou que o Alex seguisse.
– Ainda está com medo?
Paralisei por um instante. Não! Até o Adam pensa que eu sou uma garotinha medrosa.
– Há! Eu? Com medo? Não, não, isso não é um problema para mim. – Bufei.
Percebi-o encolher os ombros.
– Ok então... Mas, caso ainda esteja, eu estou aqui, certo? – Tinha um certo cuidado em sua voz que eu não tinha notado anteriormente. – Pode segurar a minha mão, menininha. – Ele imitou a voz do Joe, mas de forma meio ridícula.
Não me contive e comecei a rir, porém baixinho... Ou não tão baixinho assim.
– Posso saber qual é a graça? – Natasha simplesmente brotou do nada, e parecia um pouco séria demais. Deve ter sido por causa das patadas do Joe.
– Graça? Não, eu estou reclamando com essa idiota. – O Adam voltou ao seu tom usual. As palavras dele foram como um choque para mim, e acho que acabei topando um pé com o outro.
– Reclamando? Como assim? – Pois é, nem a Natasha entendeu.
– Como assim o que? Ela quase foi morta lá na estação. E o pior, quase deixou o Alex morrer, e ele é simplesmente o gênio da botânica. Faz ideia de como ela iria nos comprometer?
– B-bom... – Sim, a Natasha ficou sem palavras com essa.
– E o que você sugere que eu faça? – Não entendi qual foi a do Adam, mas decidi entrar na jogada. – Que eu me esconda atrás de um banco e espere o circo tocar fogo?
Com um pequeno flash de luz, pude ver um sorriso malicioso no rosto do Adam, que sumiu tão rápido quanto apareceu.
– Espero que você seja útil. – As palavras dele soaram como gelo, mas de alguma forma tudo parecia uma grande brincadeira.
Exceto para Natasha.
– Gente, gente... O Joe acabou de falar para a gente evitar discussões.
– Eu não irei discutir. – Adam disse calmamente. – Vou apenas me certificar de que ela não fará mais besteiras daqui para frente. O braço de Joe ainda está machucado, e por mais que a gente esteja perto da base, muita coisa pode acontecer.
– Então o que você...
– Não, Nat, relaxe. Só irei conversar com ela, ok? – Adam falando sério quando eu sei que ele não está é definitivamente hilário. – Agora vá andando, se não o Joe percebe que isso daqui está quase uma DR.
– Ok...
Assim que Natasha saiu andando, Adam virou para mim e fez um sorriso brincalhão, como quando uma criança apronta e vê a brincadeira se desenrolar.
– Por que fez isso? – Não pude deixar de perguntar.
– Porque... – Ele passou a mão pelo cabelo castanho desgrenhado. – Eu queria conversar com você. Desde que essa loucura começou, eu não tive muito tempo para conversar contigo, e... Bem, na época em que éramos um trio, você se mostrou uma boa amiga. – Deu de ombros.
Encolhi-me e me abracei, adoro quando o Adam fala algo bonito assim.
– Ah... Eu sou realmente uma estúpida. – Suspirei.
– Por quê?
– Você tinha razão, eu sou muito idiota, quase morri de graça e, de bônus, botei o Alex em perigo com a minha tentativa de resgate de merda. – Pisei duro.
Adam sorriu e balançou a cabeça.
– Não seja ainda mais estúpida. O que eu falei para Nat era só para ela dar uma passeada, não era verdade.
– Ah, era sim. Isso não muda o fato de eu ser uma inútil. – Cruzei os braços.
– Ai meu Deus, ela é um grande bebê gordo.
– Oi?
– Nada não, deixa pra lá. – Ele passou a mão pelos cabelos mais uma vez. – O que eu estou tentando dizer é que... Bem, você só precisa segurar o facão com mais força, e fazer os movimentos na hora certa.
– Olha, força e técnica não são exatamente o meu forte... – Dei de ombros.
– E qual o seu forte então? – Suspirou.
– Eu sou boa em criar misturas estranhas e grotescas capazes de matar um rato em um minuto e de criar um apocalipse zumbi, isso serve?
– A parte dos zumbis não está legal, de morto-vivo nós já temos o suficiente. Agora, a parada do rato é legal, como é que faz isso? – A ironia em sua voz era palpável, bem típico de suas brincadeiras.
– Vamos, sequelados, apertem o passo. – Joe disse, autoritário como sempre.
Adam andou mais depressa, e fez um movimento com a cabeça me chamando para andar mais rápido. Sorrindo, me aproximei e segurei sua mão. Primeiro, a reação dele foi soltar, mas logo em seguida ele não pareceu se importar e continuou andando, apertando de leve meus dedos.
E assim seguimos até... Bem, até, literalmente, acharmos uma luz no fim do túnel.
– Parece que chegamos a uma estação. – Joe parecia aliviado.
– E sem encontrar nenhuma horda. – Sinalizei, olhando para Nat.
Ela revirou os olhos sorrindo, também aliviada, até que eu notei que seus olhos pararam na minha mão e na de Adam, espremendo os olhos para enxergar.
– O que vocês...? – Assim que ela começou, discretamente soltei a mão do Adam.
– Hm? – Fiz de desentendida.
Ela olhou confusa para as duas mãos.
– Nada não... Eu acho. – Confusa, ela parecia muito fofa.
– Hey, venham logo aqui! – Joe disse, animado, e todos foram num piscar de olhos. – Estamos subindo agora. Vamos virar à esquerda, seguir dois blocos, virar à esquerda de novo, seguir reto e então chegaremos aos portões da salvação do arsenal da polícia.
– Eu não entendi nada. – Disse, meio encolhida e esperando desaprovação.
– Em outras palavras, siga a gente e tente não ser morta. – Adam falou calmamente.
– Exato, pirralho. E então, todos com as armas em mãos?
Todos pegaram suas armas, exceto o Alex. Eu girei meu facão – sem fazer o movimento errado, o que me surpreendeu –, Nat se apoiou em seu marchado e o Adam balançou seu taco de baseball, não sem antes dar uns tapinhas na arma guardada na parte de trás da sua calça. Todos olharam para o Alex, que revirou os olhos e bufou.
– Ok, este é o plano. – Joe se abaixou e pegou alguns objetos aleatórios no chão. – Natasha. – Uma latinha de Pepsi. – Adam. – Uma garrafa de Whisky quebrada. – Samantha. — Um papel de biscoito. – Eu. – um panfleto qualquer amaçado em bolinha. – E... Alex. – Uma casca de banana. Não pude deixar de sorrir. – A formação é a seguinte. – Ele foi alinhando os objetos da forma que queria. – Natasha fica da esquerda, Adam na direita e eu no meio. Vocês só avançam com o meu comando, ok?
– Ok. – Disseram em uníssono o casal.
– E quanto a mim e ao Alex? – Disse.
– Bom... O Alex fica atrás da formação, seria bom se você procurasse um lugar para se esconder, garoto, e vai procurando locais diferentes à medida em que avançamos.
– Isso me soa bem. – Alex parecia satisfeito.
– E quanto a você, Samantha... – Joe me analisou um pouco. – Você deve ficar com o Alex e proteger a retaguarda.
– Oi? Por que eu tenho que ficar me escondendo? – Levantei uma sobrancelha.
– Escondendo? Garotinha, a retaguarda é tão importante quanto à frente. Afinal, ter alguém protegendo suas costas diminui consideravelmente a chance de uma emboscada.
– Emboscada? De zumbis? É serio isso?
– Nunca se sabe, é sempre bom se prevenir. – Deu de ombros.
– Você só está usando isso de desculpas para me por em uma posição bem inútil, não é?
– É... É bem isso. – Joe me encarou, com a cara mais limpa do mundo, e eu o fuzilei com os olhos.
– Fala sério.
– Não sei por que reclama tanto, adorei a minha posição. Os riscos são menores e a chance de sobreviver é maior. – Alex cruzou os braços e apoiou seu peso em uma perna só.
Ai meu Deu, isso é uma bichona.
– Para você, talvez, mas eu não quero ser uma inútil. Eu quero lutar também! Odeio ser um fardo. – Entortei a boca como sempre faço quando alguém me repreende.
– Sam... – Adam passou a mão no cabelo e olhou para o chão.
– O que foi?
– Bom, é só que... – Natasha olhou para Adam e Joe, que assentiram. – Você não luta bem.
Eu até contestaria e tentaria protestar, mas sabia que eles tinham razão. Desta vez, eu tenho que aceitar que sou uma inútil. Franzi o cenho enquanto encarava o chão, apertando forte o meu pulso esquerdo, onde tinha a pulseira que o Adam me deu. Sempre que eu estava tensa eu a apertava. As imagens dos mortos pela rua passaram em minha cabeça, me dando calafrios. Talvez seja por isso que eu lute tão mal... Por que eu não quero machucar ninguém. Não quero ser a responsável por mais mortes, eu quero poder curar essas pessoas. Mas acho que, por hora, mata-los seja a melhor opção. Mais digno do que viver quase que possuído por alguma coisa... Viver como um animal.
Balancei a cabeça, tentando esquecer meus pensamentos. Isso não vai ajudar de nada agora.
– Que seja. – Andei em direção às escadas.
– Opa, opa, opa, para onde está indo? – Adam tendeu a me seguir.
– Subir, não é? – Olhei para trás, todos tinham uma feição confusa. – O “momento estratégia” não acabou? Vamos lá para cima e acabar logo com isso.
Todos se entreolharam, depois deram de ombro. Joe se levantou com alguma dificuldade, e seguiu na frente. Logo em seguida veio Natasha, que deu dois tapinhas no meu ombro, por último veio o Adam, que parou para sussurrar:
– Lembre-se de ficar atrás de mim, ok?
Franzi a sobrancelha para ele, que sorriu e continuou em frente.
Estúpido, tenho cara de princesa da Disney para precisar de sua proteção? E então considerei a possibilidade de ser muito parecida com a Rapunzel.
Bufei. Geralmente não me importo, mas do jeito que o Joe falou aquelas coisas lá embaixo... Isso me deixou virada. Vou mostrar para aquele velho quem é o peso-morto aqui. Ri com a ironia, sentindo o sol do fim da tarde bater em meu rosto. Senti um alívio imediato. Não importa o discurso que todos fizeram na estação, eu me sinto mais confortável com o sol... Ou luz no geral. Desde que descemos para o metrô, eu estava esperando morrer. Agora, parecia que Deus nos deu mais uma chance, e farei de tudo para não desperdiçá-la.
– Ei vocês, juntem aqui. — O Ruivo gesticulou para que todos vissem. — Vamos começar com a formação, e como vocês não são minha equipe, vou passar para vocês alguns comandos básicos para executar operações de campo.
– Agora eu estou gostando. — Adam sorriu, parecendo animado com o risco absurdo de vida que estamos prestes a encarar.
– Adam! — Repreendeu Natasha.
– Bastardos, foco aqui? — Todos se calaram e encararam Joe, sentado no capô de um carro. — Ok, vamos começar com o básico dos básicos, avançar.– Ele agitou o indicador e o dedo do meio para frente. — Vistoriar o local. — Com os mesmos dedos, ele os movimentou, formando um círculo no ar. — manter a posição.– Ele abriu todos os dedos e os fechou, formando um punho. — De pé. — Ele estendeu o polegar verticalmente para cima. — Agachar.– Ele virou o polegar horizontalmente. — Deitar. – Ele virou o polegar verticalmente para baixo. — E o mais importante, espero que não esqueçam.
Ninguém deu uma palavra, dava para sentir toda a atenção e tensão para cima do Joe, que sorriu ligeiramente. Ele estendeu uma mão com a palma virada para o chão e a bateu com a outra mão, em punho.
– Isso significa que... Bem, que fudeu. É cada um por si, e Deus por todos.
– Nossa, Joe, valeu aí. – Adam estendeu o polegar para ele. – Me senti superprotegido.
– E quem disse que eu estou protegendo vocês, pirralhos? – Joe levantou uma sobrancelha. – Eu só quero sobreviver, e acredito que, em equipe, as chances aumentam.
Engoli em seco. Porra, e eu aqui achando que ele era um cara legal! Que filho da mãe. Se bem que... Bem, a gente nem se conhece. É, acho que é justo, daremos um jeito de nos virarmos assim que chegarmos ao departamento de polícia.
– Uau. – Disse o Alex, com sua cara de bicha chocada.
– Vamos andando? – Apressei antes que a Nat e o Adam se manifestassem também. – Independente do que o Joe pense de nós, ele ainda está nos ajudando, certo? – Cerrei meus olhos para o ruivo, que assentiu. – Pronto, isso me é suficiente. Agora, que tal sobrevivermos alguns quarteirões?
– Pegou o ânimo, hein garotinha? – Joe sorriu pra mim, e eu bufei. Não quero papo contigo, você me chamou de inútil
– Hm, gente... desculpe incomodar o momento lindo de vocês, mas... – Alex olhava tenso para o final da rua, sua voz era trêmula e ele parecia tenso. – Aquilo ali... Não é um homem?
De fato, havia um homem vagando lentamente há poucos metros de onde estávamos. Alex soltou um gemido, alto o suficiente para o infectado ouvir. Aos poucos, o semimorto virou o rosto para nossa direção, como se não houvessem tendões que limitasse o movimento. Ele soltou um gemido agudo e correu em nossa direção, seus braços incontroláveis ao vento, a cada passo mais desequilibrado e mais rápido.
– Puta que o pariu... – Escutei Natasha praguejar.
Adam sacou a arma e deu um tiro, acertando em cheio o centro de seu peitoral.
– Mas que porra você acha que está fazendo?! – Joe esbravejou, pânico e raiva se misturavam em suas expressões.
– Relaxa, mesmo sendo no peito, foi o suficiente para derrubá-lo. – Adam estava seguro.
Aos poucos, podíamos escutar gemidos e passos rápidos de uma multidão.
– Que merda é essa? – Sussurrei, mais para mim mesma. Cogitando as possibilidades, aquilo só podia ser uma coisa. – Diz que é brincadeira... – Gemi baixinho.
Uma horda de doentes virou a avenida, muitos ainda com sangue na boca, escorrendo por todo o corpo. Homens e mulheres, de diversas idades, se contorciam em uma corrida macabra até nós, e eu pude seguir meu estômago revirar, a adrenalina arder em meu sangue e o medo pairar em minha mente. De novo não...
– Todos em suas posições! – Gritou Joe. – E seja o que Deus quiser.
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