Os infectados corriam em nossa direção mancando o mais rápido que podiam, não eram rápidos como humanos normais, mas mesmo assim, eles não cansavam.

– Não foi a coisa mais inteligente que você já fez pirralho. – Eu falei irritado.

– Acho que não temos tempo pra discutir Joe... – Adam disse sério olhando a multidão que se aproximava.

Eu apontei a arma na direção da cabeça de um, foi então que ouvimos um estouro de bala, extremamente alto. Os mortos-vivos pararam no mesmo instante e quase que instantaneamente viraram na direção do som. Sorte.

– O que diabos foi isso? – Natasha falou ainda segurando o machado.

– Eu não sei e não pretendo ficar para descobrir. – Disse sem pensar duas vezes.

O garoto Alex engoliu um seco e chegou perto, eu dei um passo a frente.

– Vamos, o posto policial está perto. – Disse guardando a assault nas costas.

– Mas os infectados foram na direção dele... – Sam argumentou apreensiva.

– Ela tem razão – Natasha pela primeira vez concordou com algo que Sam disse, o que me surpreendeu um pouco – não podemos seguir o mesmo caminho que aquelas coisas, iriam nos pegar.

– E acham que eu não pensei nisso? – Disse, definitivamente não havia pensado... Eu estou mais acostumado a lidar com a minha equipe, eles são mais corajosos, aceitariam partir pra cima dos alterados. – Vamos avançar um quarteirão, vai ser um pouco mais longa a viagem, mas pelo menos não vamos ver aqueles filhos da puta. Porém, antes de irmos... – Todos olharam para mim. –... Nada de balas.

Eu peguei na arma do Adam e empurrei contra seu peito. Ele parecia irritado, mas era o meu jeito de lidar com as coisas, tinha que entender.

Todos me seguiram, a ordem era que fossem o mais silenciosos quanto possível. A rua estava coberta por lixo, papéis, carros parados, casas tão silenciosas que chegavam a me assustar. Sam andava atrás de mim, receosa, olhando para todos os lados. Alex também, tentava não deixar tão visível, mas o suor deixava bem claro. Natasha estava séria também, examinando a área, tentando não transparecer o nervosismo, mas assim como todos ela estava com medo. Bem... Talvez nem todos, acho que o único sentimento que o Adam tinha agora era raiva – não sei se por tê-lo repreendido ou se foi por ter feito merda –, mas aquilo pouco me importava. Ao chegar no final da rua, virando à esquerda, podia ser visto em torno de uns dez cadáveres no chão, espalhados por tudo... Não confiava em passar por eles.

– Eu tive uma ideia... – Sussurrei. Todos viraram os olhares esperançosos para mim. – Estão vendo aqueles cadáveres ali na rua?

Todos assentiram

– Acho que não é confiável passar por eles... Mesmo que consigamos passar sem fazer barulho algum, é muito a perder caso algo dê errado, então o mais fácil a fazer é nos certificar que não teremos problemas com estes aqui.

Apontei na direção dos corpos.

– Está sugerindo que matemos os mortos? – Alex sempre muito perspicaz.

Eu sorri, acho que entenderam onde eu queria chegar. Puxei minha faca e apontei na direção da cabeça, dizendo onde deveriam acertar. Foi então que nos esgueiramos, eu fui na direção do primeiro, Adam foi no segundo e Natasha pegou o que estava ao lado de Adam. Foi rápido, uma facada, uma machadada e uma tacada. Fizemos assim com os outros sete, e logo a rua estava limpa, ou pelo menos era o que eu pensava. Um infectado me agarrou pelo ombro e com um movimento rápido uma lâmina havia atravessado sua têmpora.

– É, você tem razão, Joe. – Era a Sam, me encarando com seu facão ensanguentado na mão. – A retaguarda é bem útil.

A garota sorriu e seguiu andando. Eu estava perplexo, aquela passou muito perto, foi um belo descuido. Seguimos mais alguns quarteirões com as mesmas casas monótonas, aquele era um bairro residencial aparentemente muito caro, ou pelo menos, costumava ser. Ao avaliar o bairro, percebi uma casa à minha direita, sua porta estava fechada e era a que me parecia ter algum suprimento. Sem perceber, comecei a me dirigir na direção da casa.

– Ei... – Ignorei a voz do Adam e continuei andando. – Ei! Onde você pensa que está indo?

Me virei imediatamente.

– Eu acho – disse com acidez – que deve ter comida nessa casa, pirralho, e nós estamos morrendo de fome.

Consegui ver de canto de olho a Sam colocar a mão na barriga.

– Ta, mas você deveria ter avisado antes. – Ele disse calmo mas firme. – Pretendia fazer o que, entrar sozinho e pegar a comida pra nós?!

Na verdade era exatamente o que eu estava pensando.

– Joe... – Ouvi a voz doce da Sam virando minha atenção pra ela. – O Adam tem razão, você não pode entrar lá sozinho, e se tiver algum infectado?

– Eu... – Tentei deixar minha voz um pouco menos autoritária – vou, pego a comida e volto, essa casa não é muito grande, se tiver infectados eu dou conta, quantos deles podem caber aí dentro?!

– Eu vou com você – Natasha disse decidida.

– Definitivamente não. – Adam disse quase que agredindo a russa. – Eu vou com Joe, vocês três esperam aqui.

Natasha não conseguiu discutir.

– Por favor, tome cuidado e não demore.

A garota russa disse começando um beijo, um beijo mais longo do que todos gostariam, especialmente Sam... Não gostava de vê-la daquele jeito.

– Acho que já deu, não é mesmo pombinhos?! – Eu disse empurrando o rosto dos dois.

Adam deu uma última olhada para trás e seus olhos encontraram quase que instantaneamente Sam. Eu o puxei.

– Não vamos morrer garoto. – Eu disse um pouco irritado. – Se formos nos despedir assim toda vez que formos buscar comida, quando morrermos não vai fazer tanto sentido.

Ele assentiu e nós chegamos à porta da casa. Nós nos olhamos e eu girei a maçaneta devagar fiz sinal para que ele entrasse, seguindo-o logo atrás.

A cozinha está logo à esquerda. – Ouvi o Adam sussurrar. Tudo estava calmo, não havia corpos na sala, o que me surpreendia um pouco, mas não sei se isso me tranquilizava. – Acho que consigo chegar lá, não vejo nada perigoso.

Eu hesitei.

Adam, fique atrás de mim, eu vou na frente e você me cobre.

– Ta brincando Joe? – Ele parecia indignado – Acha que eu não posso fazer isso?

– Não é isso garoto, só acho perigoso, qualquer movimento errado pode nos comprometer.

– Para de achar que é melhor que a gente Joe. – Ele estava chateado, mas já fazia algum tempo. Se algo acontecesse a ele, provavelmente eu não me perdoaria.

Quer ir na frente?! Ok, agora se alguma merda acontecer, não me culpe.

Ele sorriu.

Dirigimo-nos para a cozinha, silenciosos o quanto nos era possível. Atravessamos o corredor onde tinha uma escada, e ao lado uma porta seguia para a sala de jantar, até que eu pensei ter visto um vulto.

Você viu aquilo? – Indaguei olhando fixo para a sala.

Vi o que?

Eu não queria assustá-lo.

Nada... – passei a mão na testa para enxugar o suor. – Foi coisa da minha cabeça.

Ele ignorou e nós continuamos. A cozinha era ampla, com um balcão no meio, um belo forno, uma geladeira grande e um chão branco e limpo.

Veja a geladeira. – Eu disse mais calmo guardando a faca. – Eu vou vasculhar os armários.

Cara, essa casa tá cheia... – Ele segurava algumas latas. – Atum enlatado, salsicha enlatada, feijão enlatado, latas enlatadas...

Eu soltei um riso leve

Vamos ter que arranjar uma sacola maior pra levar tudo isso.

– Tranquilo, eu vou olhar lá em cima.

– Adam, espera...

O garoto saiu pela porta da cozinha, mas logo pude ouvir sua voz um tanto assustada.

– Joe...

Corri para ele, mas o que vi foi um velho grisalho com uma camisa quadriculada de gola e uma calça social, apontando um rifle para a cabeça do cientista.

– Saiam e deixem nossa comida.

– Desculpe senhor, não sabíamos que a comida era sua, ou que a casa era sua. – Eu disse tentando conciliar.

– Não importa, agora saiam.

Atrás dele estava uma garotinha com mais ou menos sete anos.

– Senhor, vamos sair, mas, por favor, deixe que levemos apenas alguma comida, estamos morrendo de fome, deve ter o suficiente para você e sua filha. – Negociei.

– Não é minha filha... É minha neta. – Ele respondeu um pouco melancólico, consegui ver um pouco de lágrima em seus olhos. – O pai dela, meu filho, saiu à alguns dias para buscar ajuda e transporte, mas até agora não voltou.

– Eu sinto muito. – Adam disse complacente.

O velho abaixou a arma, com o rosto vermelho prendia a lágrima em seus olhos.

– Levem o que precisarem, só deixem comida para ela. – Ele andou para o lado mostrando a garotinha.

– Por que não vem conosco? — Eu olhei para o Adam e ele assentiu.

– Verdade, temos espaço para mais dois integrantes.

– É muita gentileza da parte de vocês... – Ele disse fitando a arma. – Mas eu tenho que ficar e esperar o Anthony, ele ainda pode estar vivo.

Eu e o Adam nos entreolhamos.

– Eu entendo o senhor. Mas se o pior tiver acontecido, como vai seguir em frente? – Eu argumentei. – O senhor está sozinho com uma garotinha... Não vai durar muito tempo lá fora.

– Eu sei que não. – Ele suspirou. – É por isso que quero que levem-na.

Adam olhou para mim quase que instantaneamente. Ao fundo, podíamos escutar a garotinha sussurrando “vovô”.

– Por favor, levem-na e eu deixo que peguem tudo... Tudo! – Ele implorou. – Eu posso encontrar vocês depois com o Anthony e leva-la conosco, mas por hora, fiquem com ela, façam isso por mim.

Eu não conseguiria dizer não para um velho que provavelmente perdeu o filho e não sabe o que fazer para sobreviver com a neta.

– “Impõe-se ter mais espírito para inspirar amor... – Ele disse me olhando fixo.

– ... Do que para comandar um exército.” – Completei. – Vamos levá-la, em dois dias estarei aqui de novo para ver se o senhor encontrou seu filho.

Ele sorriu encostando a arma na parede.

– Carter... Meu nome é Carter Wilkens – ele sorriu, virando-se para a garota e começou a conversar com ela.

A garota começou a chorar e o abraçou.

– Joe... Vamos pegar as coisas e sair, eles devem estar preocupados lá fora.

Eu assenti, peguei mais algumas sacolas e coloquei as latas, alguns refrigerantes, sucos e tudo que era possível. Deixei algumas coisas para o senhor Carter, foi então que o Adam deu a mão a pequena garota e perguntou seu nome.

– Avery Wilkens Russel.

A garota tinha uma voz doce e um sotaque do sul, um cabelo castanho bem claro como os olhos e o rosto corado em suas maçãs, ela era linda.

– Vamos cuidar bem da sua neta senhor Wilkens.

Ele sorriu abrindo a porta. Deu um último abraço na neta e nós saímos. Sam e Alex estavam sentados na escada da casa enquanto Natasha olhava a porta com o machado apoiado no ombro.

– Que diabos é isso? – Ela não conteve a surpresa. O que fez os dois nos olharem. – É uma criança?

Adam assentiu segurando a mão de Avery.

– Discutimos isso no caminho, agora temos que ir. – Eu disse andando para a frente com uma das sacolas de comida.

Adam explicou toda a situação para os três, Natasha não parecia ter gostado muito da ideia, Alex tinha achado a garota a coisa mais fofa do mundo e Sam, estava preocupada...

Seguimos calmamente, nada nos ocorreu, o posto policial já estava visível, um infectado cruzou a rua e se jogou em cima de um cadáver que estava deitado para devorá-lo. Avery soltou um breve gemido, mas adam cobriu sua boca.

– Eu cuido disso. – Eu disse andando rápido na direção do infectado, chegando atrás dele, cravei a faca em sua cabeça e ele desabou para o lado, ao olhar o corpo no chão percebi que não havia sido mordido e sim baleado. – Parece que não estamos sozinhos aqui.

Limpei a faca e segui em frente, Adam cobriu os olhos de Avery até conseguirmos chegar no posto, ou pelo menos quase.

Cuidado! – Eu sussurrei empurrando todos de volta, a rua do posto estava coberta de infectados, aparentemente uns vinte, principalmente na porta que deveríamos entrar. – A rua está coberta de carros, acho que podemos passar sem que nos percebam, vou limpar a porta e em seguida vocês vem... De acordo?

Todos assentiram, com exceção de Adam que queria ir também, ele achava que eu o estava subestimando.

– Adam fique aqui... É importante que cuide das garotas... – Eu hesitei. – E do garoto.

Ele pareceu mais tranquilo com a ideia. Puxei a faca de trás das minhas costas e me agachei atrás dos carros. Consegui não parecer nervoso, mas estava me cagando de medo. Me arrastei por alguns carros até conseguir chegar perto da porta. Ao olhar o morto-vivo na porta, percebi que ele estava cheirando o ar... Os filhos da puta também sentem cheiro. Agarrei um caco grande de vidro no chão e o arremessei longe, o barulho dele se quebrando no chão chamou a atenção deles, menos a do que sentia o meu cheiro no ar. Os olhos dele me encontraram, permaneci imóvel, ele cheirava e se aproximava cada vez mais, mancando em uma das pernas, se contorcendo, eu estava suando, o filho da puta fedia à carne podre. Quando ele chegou bem perto rosnou, ele havia me percebido, não podia deixar que chamasse a atenção, agarrei ele enfiando minha faca de sua garganta para cima. Ele apagou com um gemido, deitei o corpo do infectado no chão lentamente e andei agachado na direção da porta. Estava aberta. Aquilo não estava certo, mas o desespero falou primeiro. Fiz sinal para que viessem. Primeiro veio Alex e Avery, depois Natasha com a Sam e logo atrás o Adam. Até lá, tudo tinha dado certo. Fechei a porta. A sala principal estava limpa, o balcão da recepção estava vazio, papeis espalhados por todo o lugar, os departamentos estavam silenciosos, computadores desligados e monotonia.

– Vou subir com o Adam para ver se lá em cima está limpo, tratem de se alimentar. Voltamos em breve.

O Adam sorriu tentando disfarçar, pegou a arma que o dei e colocou no balcão, tirando o taco de baseball de dentro da mochila. Puxei minha faca e deixamos as mochilas com as garotas. Subimos as escadas, tudo estava tranquilo, até chegarmos no primeiro andar e o cheiro podre tomou conta.

– Mas que porra é essa? – Adam indagou cobrindo o nariz com a camisa, enquanto tossia.

– Cheiro de putrefação.

– Parece que está vindo daquela sala. – Adam apontou com o bastão. – Eu vou dar uma olhada. Me cobre.

Normalmente eu diria isso, mas eu deixei que ele fosse. Ele conseguiu alcançar a porta, colocando o rosto no vidro para ver o que tinha dentro.

– Não dá pra ver nada... Ta muito escuro aqui.

No mesmo momento um rosto semidecomposto foi de encontro ao vidro onde Adam se encostava.

– PORRA! – Ele se afastou da porta com o susto.

Não vou mentir, eu também me assustei.

– Vamos acabar logo com essa merda. – Eu disse me dirigindo para a sala de departamento onde o infectado estava.

– Calma... – Ele colocou a mão no meu peito e abaixou a faca que estava segurando. – Vamos fazer o seguinte: Você chama a atenção dele pra fora. Quando ele sair eu o acerto na cabeça com o bastão. Menos riscos não acha?!

Eu fiz que sim com a cabeça... Realmente era um bom plano, minhas estratégias normalmente são mais agressivas. Abri a porta empurrando-o para trás, ele rosnou se virando para mim depois de cambalear um pouco.

– Você quer um pedaço de mim otário? VEM PEGAR!

Corri para trás olhando para ele até sair da sala, como previsto o infectado me seguiu e quando quase me agarrou BAM uma tacada bem na nuca do infeliz.

– Essa foi ótima pirralho – o elogiei.

Ele deu um sorriso sarcástico como se já soubesse disso.

– Mas, é melhor prevenir do que remediar.

Pisei com força na cabeça do morto-vivo e essa por sua vez, se despedaçou. O cheiro podre ainda vinha do quarto, talvez houvesse mais corpos lá dentro, ou esse desgraçado estava lá dentro por muito tempo.

– Vou ver o que tem aí dentro. – Ele disse com um tom firme.

– Eu vou com você...

Adam parecia mais estável, mais decidido. Eu gostava disso.

– Olha aqueles armários ali, eu olho os de... – Ele foi interrompido quando um cano metálico encostou em sua cabeça... – MAS QUE PORRA.... Será que eu não posso olhar em lugar algum sem que alguém aponte uma arma para a minha cabeça?!

Eu saquei a Desert Eagle e me virei para trás, uma mulher tremia enquanto segurava um rifle de caça na direção da testa do Adam.

– Vamos deixar isso mais fácil minha senhora... – Eu disse tentando parecer calmo, mas estava evidentemente impaciente. – A senhora larga a arma e eu juro que não faremos nada.

Eu levantei a pistola e a mão esquerda aberta mostrando que estava em paz. Foi aí que Natasha seguida de Sam entraram no quarto.

– MAS QUE MERDA É ESSA?! – Natasha gritou alto o suficiente chamando a atenção de boa parte dos infectados lá fora. – Ela está apontando uma arma para a cabeça do meu namorado Joe, faça alguma coisa!

– E acha que eu já não estou fazendo, Stalin?!

Me alterei um pouco e acho que a russa não gostou do apelidinho.

– Eu abaixo a minha arma se você chutar a sua pra cá... – Ela disse com a voz tremendo.

Era obvio que aquela garota estava assustada e presa lá já fazia algum tempo, mesmo com a arma devia estar com medo de chamar a atenção de mais infectados... Ou então, estava sem balas. Eu deixei um riso escapar. Ela me olhou com dúvida como o resto do pessoal. Eu coloquei a pistola de volta no coldre e comecei a andar lentamente na direção dela.

– Eu estou avisando, não chegue perto! Ou os miolos do seu amigo bonitinho vão voar. – Ela tremia mais ainda e parecia suada a medida que eu chegava perto.

Agarrei o cano da arma e o puxei, arrancando-o de suas mãos. Senti os olhares pasmos pesarem sobre mim enquanto eu puxava o cartucho. Como eu imaginava. Estava vazio. Larguei a arma no chão e desci as escadas para ver como a Avery estava.

– O que foi isso? – Sam quebrou o silencio constrangedor entre eles.

Adam e a garota nova estavam se olhando demais para o gosto de Natasha.

– Então?! O que faremos com ela? – A russa foi logo se apressando em dizer.

– Vamos cuidar dela Nat. – Adam disse um pouco distraído. – Pelo menos até que ela possa sair sozinha, na certa ela não toma banho faz algum tempo.

A garota se sentiu um pouco ofendida, mas sabia que era verdade.

– Eu é que não volto lá fora. Se duvidar morro aqui dentro só pra não precisar ir lá fora de novo.

– Foi você quem chamou os alterados pra cá com o tiro? — Adam fixou o olhar na garota.

– Não, na verdade não, eu já estava aqui quando atiraram, o bom foi que desviou a atenção do morto vivo que estava aqui, de mim. Ele parou de bater no armário que estava me escondendo.

Adam parecia surpreso, poderia jurar que tinha sido aquela garota a causa dos infectados batendo na porta da delegacia.

– Faz quanto tempo que você está aqui?

– Fica difícil saber sem olhar a luz do sol, mas algo entre cinco dias ou quatro.

Até mesmo Natasha se assustou ao ouvir a resposta.

– Cinco dias?! – Sam indagou indignada. – Você está sem comer por todo esse tempo?

A garota fez que sim com a cabeça. Adam agarrou-a pelo braço com um movimento rápido e começou a puxá-la na direção da porta.

– Pra onde você está me levando?

– Para comer... Obvio.

Descendo as escadas eles encontraram eu o Alex, devorando um dos enlatados enquanto a pequena Avery comia um sanduíche de atum que o Adam havia feito.

– Mais um garota?! – Alex parecia indignado. – Quando é que os homens vão aparecer?

Eu e o Adam nos entreolhamos e em seguida focamos no Alex.

– Só estou dizendo...

Aquilo tinha sido estranho, mas um tanto cômico. Adam ajeitou algumas latas diferenciadas para mostrar para a garota do armário. Sim, eu acabara de dar um apelido a garota pela preguiça de perguntar seu nome. Mas parecia até que a Sam tinha lido meus pensamentos.

– Qual o seu nome? – Sam dizia enquanto descia os degraus da escada.

– Elise... Hess...

Ela olhou para Sam se sentando no chão, escolheu um dos enlatados e abriu com voracidade.

– Ei Joe... Não foi ela que atirou naquela hora que saímos do metrô.

Adam disse se dirigindo à Natasha que se encontrava encostada no corrimão da escada. Não fazia sentido. Se não havia sido ela... Quem mais poderia?!

Levantei-me. Os olhos de Sam me encontraram.

– Aonde vai, velhote? – Adam disse antes de beijar a russa.

– Não é da sua conta pirralho. Vá se agarrar com sua namorada.

Ele deu de ombros e subiu as escadas sendo puxado pela garota loira. Me dirigi ao corredor que seguia à direita da recepção, passando por dois departamentos, tinham mais dois infectados dentro de um deles, mas não poderiam fazer mal algum presos ali. Eu os ignorei e segui até a garagem, uma viatura estava parada lá, não sabia onde estava a chave, me agachei, tinha que abrir com a faca. Eu só pensei na possibilidade do alarme depois de ter aberto o carro, mas por sorte, ele não alertou. Suspirei.

– Dotes interessantes para um general.

Ouvi a voz delicada de dirigindo à mim. Era Sam, encostada na porta da garagem me encarando.

– A gente aprende de tudo nessa vida... – Eu me levantei do chão guardando a faca. – A quanto tempo está aí?

– Tanto tempo quanto você.

Ela sorriu para mim.

– O que? Pretende vir comigo?! – Dei uma breve gargalhada. – Não permito nem que o Adam venha comigo, imagina você. É muito perigoso, mocinha.

– Precisa de alguém pra cobrir suas costas não é? Além do mais, você só vai ver de onde veio o tiro... O que poderia dar errado?

Eu odiava a frase “O que poderia dar errado?”. Normalmente, era ela que fazia tudo dar errado.

– Eu deixo você vir comigo se ficar na sua. Vou fazer isso, mas era uma missão para ser feita sozinho.

Ela assentiu, sorrindo. Correu para abrir o portão da garagem enquanto eu fazia ligação direta no carro. Eu ouvi o portão abrir e logo em seguida fechar rapidamente.

– Joe?!

Eu ergui a cabeça para olhá-la

– Tem zumbis lá fora...

O jeito como ela falou foi extremamente fofo, eu quase derreti.

– Não precisa se preocupar, abra o portão, vou passar por cima deles, daí você fecha o portão e entra no carro.

Ela fez o que pedi, consegui esmagar em torno de uns quatro com os pneus do carro, depois de ouvir o som do portão sendo fechado, ela sentou no banco do carona e eu acelerei.

– Você sabe para onde vamos? – Ela se apoiou com o cotovelo na janela.

– Vou rodar por essas ruas aqui, talvez encontremos alguma coisa... Ou pessoa.

Eu passei a mão no cabelo bagunçando-o.

– Não acha que temos pessoas demais?

– Infelizmente, tenho que concordar... Eu odeio gente. – Cocei a barba. – Mas, quanto mais, maior a chance de sobreviver.

Ela ficou pensativa por alguns minutos.

– Ei, você viu aquilo?

Ela olhava fixo para fora da janela.

– Vi o que?

– Uma coisa veio rolando pra baixo do carro.

– Rolando?

O barulho ensurdecedor de explosão tomou conta dos nossos ouvidos e em seguida, consegui ver pelo para-brisa a paisagem girar. Instintivamente, coloquei as mãos sobre a cabeça, assim como a cientista, e em seguida o carro foi de encontro ao chão. Nós apagamos.

Algum tempo se passou, e eu só voltei a mim quando ouvi gemidos e gritos se aproximando, ao abrir os olhos a situação era desesperadora, Samantha estava do meu lado, de cabeça para baixo assim como eu, pendurada pelo cinto de segurança com um enorme corte na testa. A garota me balançava desesperadamente tentando me fazer acordar, os infectados estavam correndo na direção do carro e este por sua vez – para melhorar a nossa situação – estava em chamas. Tentei soltar o cinto dela, após algumas tentativas frustradas, ela se soltou apoiando seu braço no teto do carro para sair por um dos vidros quebrados. Eu acha que pior não poderia ficar, até ouvir o barulho de tiros vindos de trás da gente, alguns infectados caíram de início, mas em alguns segundos eu vi a garota ser puxada para fora do carro.

– JOE!

Ao ouvir o grito, meu corpo gelou. Peguei a faca em minha bainha serrando o cinto o mais rápido que podia. Aguenta Sam, já tô indo. Arrastei-me para fora do carro, mas quando me pus de pé, senti uma pancada em minha nuca. Tudo escureceu de novo.

Não sei quantas vezes eu aguentaria desmaiar no mesmo dia, minha cabeça estava doendo e minha visão demorou um pouco até focar. Era um lugar frio e escuro, parecia um açougue, as portas e janelas estavam lacradas por tábuas, e quase que automaticamente meus olhos correram procurando a garota.

– Ah! O velhote acordou. – Não sei porque me chamam de velho, eu tenho menos de quarenta anos, porra. – Se está procurando a menina, ela está no salão... Não se preocupe, ela será bem aproveitada.

O homem mascarado riu me dando as costas. Eles tinham tirado todas as minhas armas, com exceção do canivete que eu guardo no tornozelo. Eu estava amarrado na cadeira, o que dificultava o alcance da lâmina, mas finalmente consegui agarrá-la, cortei as cordas da minha perna e em seguida as de cada braço. O filho da puta que me chamou de velho estava de costas para mim, encostado no aro da porta daquela pequena sala lacrada. Eu andei silenciosamente na direção dele. Com um movimento rápido, tapei sua boca com a mão esquerda e rasguei sua garganta com a faca na direita, ele gemeu caindo pesadamente, mas eu o segurei, deitando levemente seu corpo no chão. Estava na hora de encontrar aquela pirralha. Peguei a pistola dele só por garantia, mas não pretendia usá-la de fato. Me esgueirei pelos corredores até finalmente achar o salão que o sequestrador de merda tinha falado, entrei no cômodo, o lugar parecia iluminado por um gerador, olhei ao redor e lá estava Sam, amarrada por correntes e... Totalmente despida.

– Mais um passo e a garota morre.

Uma voz me apanhou de surpresa, era um negro extremamente alto, que vestia uma jaqueta de couro sem camisa por baixo, apontava um revolver na direção da cabeça da Sam. Eu larguei a faca em prova de rendição.

– Agora... – Ele disse, imponente. – De joelhos.

Quando me ajoelhei, um dos caras mascarados apontou uma arma para mim. A pistola estava bem guardada na minha calça, mas qualquer movimento agora, poderia resultar no meu fim, ou pior... No da Sam.

O alto guardou a arma e se dirigiu até a garota estendendo a mão para era, conseguia ler em seus lábios “Joe, me ajuda”, mas não tinha muito o que eu pudesse fazer, precisava aguardar o momento certo. Quando então consegui ouvir um som de disparo. O tiro havia acertado a mão do filho da puta, aproveitei a deixa e puxei a arma na parte de trás da calça, segurei o mascarado pelo braço da arma e atirei em sua cabeça. Já fazia algum tempo que eu não atirava em pessoas vivas. Depois que ele caiu, atirei na cabeça do seu colega, lá na frente, próximo da Sam, apareceu o Adam, por uma das portas que davam acesso ao lugar, ele estava sozinho – Não sei como não estava surpreso – o garoto correu na direção dela tão aparentemente preocupado que nem parecia o mesmo Adam. Ele atirou nas correntes que prendiam a Sam e ela caiu no chão, mas foi aparada por Adam.

– Sammy, você está bem? – Ele olhava para ela procurando por ferimentos, mas a garota parecia em choque. – Você está machucada Sam, é melhor sairmos daqui.

Ela não conseguia se mover, foi então que o Adam a segurou pelos braços, carregando-a.

– Joe! Temos que sair daqui rápido.

O garoto falou de forma tão firme que me fez assentir imediatamente. Ao me dirigir para eles, percebi o negro alto com a mão ensanguentada caído no chão. Apontei o revolver em sua direção.

– Te vejo no inferno ruivo. – Ele rosnou para mim.

– Mande lembranças ao capeta.

Dei um tiro no meio de sua testa e ele desabou.

Adam estava me olhando com pesar e Sam tentava cobrir seu corpo com seus braços. Eu tirei meu capote e coloquei por cima dela. Seguimos para fora do frigorifico. Mas a porta estava com dois guardas sentinelas. Pedi para que o Adam esperasse segurando a Sam, eu cuidaria disso. Do outro lado da porta de saída era onde se encontravam os filhos da puta, ou pelo menos um deles. Dei duas batidas leves na porta para chamar a atenção de um deles, foi aí que ouvi:

– Ei... Eu ouvi alguma coisa, vou dar uma checada.

Quando ele disse isso, a porta se abriu do meu lado esquerdo, antes que ele pudesse me ver, agarrei-o pela camisa e o estrangulei. Aproveitei para procurar algo útil, tudo que encontrei foi: Chicletes, carteira de cigarro, dinheiro – 20 dólares – e uma chave de carro. Bingo! Coloquei a máscara dele e fiz sinal para que o seu companheiro viesse, ao acreditar que eu era seu colega morto, ele se aproximou e eu o agarrei colocando o revolver em sua têmpora.

– Onde estão minhas armas?

Eu disse com um tom de voz mais agressivo do que necessário.

– No freezer!

Ele respondeu rápido e assustado.

– Ótimo... Você vai me levar lá, e se tentar alguma coisa...

Puxei o cão da arma fazendo um click.

Ele assentiu nervoso e eu fui guiando seus comandos. Mandei que abrisse a porta do freezer, e lá estavam minhas armas e colete, junto de algumas carnes penduradas, parecia que toca a área elétrica daquele lugar funcionava, o freezer estava mais frio que nunca. Peguei meu equipamento e antes que me esquecesse, amarrei o pulso dele em uma das correntes que prendiam a carne.

– EI! Você não pode me deixar aqui! Disse que não ia me matar se eu te levasse pro seu equipamento.

– E eu mantive minha palavra. – Sorri, fechando o coldre na minha perna. – Não se preocupe, mais cedo ou mais tarde seus amiguinhos vão te encontrar. Passar bem, companheiro.

Bati continência de forma sarcástica para ele e me retirei de lá. Saindo do frigorifico, o carro deles estava parado na frente. O pegamos e seguimos para o posto policial. Ao chegar à base, entramos pelos fundos mas foi inevitável passar pela recepção. Quando Adam colocou Sam no chão, ela não conseguiu aguentar e acabou abraçando-o, meu capote caiu de suas costas, e Natasha apareceu exatamente na mesma hora. Acho que a partir dali, as coisas não poderiam ficar melhores.

Notas finais
[CGBR]: Devo dizer, eu fiquei constrangida no lugar dessa garota .-.