Eu estava completamente tonta. Depois de uma batida forte na cabeça por causa do carro e das drogas que aqueles malditos do açougue me deram para ficar quieta... eu não sabia por quanto mais tempo meu corpo aguentava antes de desabar. Tudo estava começando a embaçar, até mesmo as vozes ao fundo pareciam meio abafadas. Senti que os braços do Adam ainda me apoiavam e segurei firme – o quanto pude – para não cair.

– Eu não acredito! – Pude ouvir a voz da Natasha berrando. – Olhe o estado dela! Ela está nua!

Hã? Como assim tem alguém nua? Lembro-me vagamente de um homem negro tirando minha blusa. Oh não... Por favor, que não seja eu.

Natasha continuava esbravejando para cima de Adam, que recuava e tentava se manter calmo.

Adam... Será que ele me viu sem camisa? Ou pior... Espero que eu não esteja nua mesmo.

– Nat, acalme-se, não é o que você está pensando. – A voz do Adam estava tensa.

– Adam, essa é a desculpa mais ridícula que você pode inventar. – Natasha estava meio rouca.

– Isso não é uma desculpa! – Ele explodiu. – Acha o que? Que no meio desse caos que estamos vivendo, eu simplesmente decidi pegar um carro e sair por ai pra foder com a Samantha e te trair?! Sendo que esse nem é a porra do carro que estava na garagem?! – Adam esbravejou.

– Bem...

– Ei pirralho, olha como você fala da Samantha. – A voz do Joe soou grave, bem próxima a mim, o que me fez estremecer.

Ah, ótimo, agora o Joe também está me vendo pelada. Maravilha.

– Ah, cala a boca, velho. – Adam parecia rude, mesmo estando com a voz abafada pela minha tontura.

– E olha como fala comigo. – Joe estava ameaçador. – Eu exijo respeito, ouviu?

– Então que tal dar o fora? Porque, eu não sei se você notou, mas eu tô discutindo com a minha namorada, e você tá se metendo onde eu não te chamei.

– Por acaso preciso que você me chame pra alguma coisa, garotinho arrogante?

– Não sei, mas pelo visto você tá me chamando pra uma briga.

O que está acontecendo? Joe e Adam estão brigando? Senti meu corpo batendo contra o chão, as mãos do Adam estavam cerradas em punhos ao lado do corpo.

– O que está acontecendo aqui? – A voz do Alex ecoa de leve em meus ouvidos, parecendo alarmado. – O que raios aconteceu com a Sam?!

Perfeito, mais um que me viu pelada. Eu deveria estar cobrando por esse show.

– Olha o que você fez! – Joe estava mais irritado, com a apontando para mim. – Deixou ela se machucar!

– E por que se importa?! – Ambos Adam e Joe estavam gritando um com o outro.

– Por que?! – Joe passou de irritado para confuso. – Porque eu...

Senti braços a minha volta novamente, erguendo-me e levando-me para o posto policial, e a voz do Alex soando baixinho próximo ao meu rosto:

– Tá tudo bem, deixe esses dois aí. Eu vou cuidar de você. – Eu queria agradecer, mas o meu corpo não me respondia mais, a única coisa que conseguia fazer era manter os olhos abertos.

– Se realmente se importasse com ela, não a teria levado consigo. A única coisa que fez foi por Samantha em um perigo desnecessário, e olhe como acabou! Você é realmente incompetente.

O rosto do Joe ficou vermelho, e, antes que eu pudesse perceber, ele já tinha dado um murro bem no meio da cara do Adam, que caiu para trás.

– Parabéns, acabou de levar um murro de um incompetente. E– Joe massageou a mão – acho que isso faz de você um verdadeiro inútil.

– Adam! – Natasha gritou e se ajoelhou próxima ao Adam, que a ignorou por completo e chutou o joelho do Joe, fazendo-o cambalear para trás.

– Ok, hora de ir. – Disse Alex, finalmente chegando à porta, adentrando no posto e me impedindo de ver a luta.

– Ver... Luta... – Balbuciei.

– Relaxe, querida, eles ficaram bem. – A voz do moreno falhou na última palavra. – Eu acho...

E assim, meus olhos se fecharam, e aos poucos me vi caindo na inconsciência. Por favor, implorei mentalmente para ninguém em especial, que tudo isso seja apenas um terrível pesadelo...

A claridade foi aos poucos abrindo brechas entre minhas pálpebras, fazendo-me acordar. Olhei em volta, estava numa sala toda coberta de azulejos brancos, uma camada grossa de poeira, sujeira e móveis quebrados, com algumas manchas ocasionais de sangue. As janelas estavam quebradas, fazendo com que o silêncio ficasse ainda mais sinistro, ainda mais com esse sol alaranjado de fim de tarde. Aos poucos, vermelho como sangue...

– Joe... Adam...

Lembrei-me das cenas conturbadas dos dois brigando e pus-me de pé em um salto, sentindo-me tonta e com os membros formigando. Lembrei-me também que estava despida, mas quando olhei para baixo, eu estava vestindo uma camisa velha e gasta de camuflagem – grande demais – uma calça bege surrada com bolsos até o tornozelo e levemente úmida nas coxas, com um pano branco encardido servindo de cinto e... botas pretas? Como diabos eles acharam botas que cabem em mim?

Notei que o casaco de Joe me servira de travesseiro. Peguei-o e segurei firme. Preciso me desculpar com o Joe por ter estragado tudo... e agradecê-lo por ter salvado minha vida. Vesti o casaco – também folgado demais, mas de uma forma confortável – e andei em direção à porta, sentindo pontos na minha perna latejarem provavelmente devido aos ferimentos. Dei uma topada ao passar pela porta, e senti uma coisa... estranha. Olhei para a camisa.

– Oh... Eu preciso de um sutiã. – Senti meu rosto arder. Suspirei e fechei o casaco.

– Os meninos acham pra você. – uma voz infantil ecoou no cômodo.

Soltei um grito baixo e pulei, girando para ficar de frente com o resto do “quarto”. Era a Avery, atrás de uma mesa, tão escondida que quase achei que o susto era proposital.

– Ah... É só você – suspirei. – O que está fazendo aqui?

Ela se levantou e veio saltitando em minha direção.

– O tio Adam e o vovô Joe pediram pra cuidar de você enquanto o tio Alex preparava mais curativos.

Instintivamente, pus a mão na testa, sentindo o esparadrapo. E então ri.

Vovô Joe? Por que ele é o vovô?

– Porque ele é velho, oras! – Sua voz levemente estridente me confortava.

No geral, não gosto de crianças, mas a Avery era diferente. Passou conosco por infectados, sobreviveu a uma briga entre o Joe e o Adam, foi separada do avô, não sabe se verá o pai novamente e ainda assim não está choramingando pelos cantos. Ela tem o meu respeito.

– Mas ele não é velho.

– Não?! — Ela ficou surpresa, como se eu dissesse que árvores falavam.

– Não, claro que não. – Peguei-me rindo outra vez. – Ele deve ter em torno de... uns quarenta, acho que é trinta e sete, trinta e oito que ele disse.

– E isso não é velho? – Ri de novo.

– Não! Quantos anos acha que eu tenho?

– Hm... Você se parece muito com minha prima... e ela tem vinte e cinco. – Avery estava muito concentrada contando números aleatórios em suas mãozinhas pequenas. – Acho que você tem vinte e cinco também!

– Uau, quem dera! – Gostei dela. – Não, não, eu tenho vinte e nove.

– Tudo isso?!

– Eu acho pouco, ok? – Franzi as sobrancelhas.

– Tudo bem, você é bonita, então não importa se é quase velha – A garota abriu um sorriso. – Posso te chamar de prima?

– Prima?

– É, você parece muito com a minha prima Kim.

Dei de ombros.

– Pode sim. – Sorri de volta. – Avery, eu dormi por quando tempo? – Pude sentir minha barriga roncar.

– Por algumas horas, não muito tempo.

Ufa, pensei que tivesse sido mais tempo.

– E... Você viu a briga do titio e do vovô?

– Ah, sim, vi tudinho. – O sorriso dela abriu. – Foi muito engraçado!

Franzi o cenho novamente. Essa menina tem problemas?

– Engraçado por quê?

– Porque o vovô Joe apanhou feio! – O Joe apanhou feio?! – Depois que o titio Adam levantou, ele começou a falar “Você podia ter matado a minha Sammy!” e dar vários socos... – Ela fez uma pausa, e depois cochichou para mim. – Eu acho que o titio gosta muito da prima!

– C-como assim? – Tropecei em minha língua, sentindo meu rosto esquentar de leve.

– É, e o vovô também.

Fiquei meio confusa por alguns instantes, mas logo fiz questão de esquecer. Ela é só uma criança, Samantha, faça o favor de deixar isso para lá.

– Aposto que sim. E... Eles estão bem?

– Ah, estão sim. Depois de brigarem, o titio foi ver o vovô. Eles conversaram por um teeempão, e então fizeram as pazes!

– Oh, isso é ótimo... Tem certeza de que eles estão bem? Não estão machucados?

– Não, estão bem. Tanto que, depois, saíram para procurar roupas novas para você. A camisa é do titio Joe, ele disse que sempre usa essa camisa por debaixo da roupa para disfarce. Não sei pra que, aqui só tem prédio! – Pensei em explicar para ela, mas isso daria trabalho. – A calça, eles disseram que encontraram na rua. – Congelei ao lembrar que ela estava levemente molhada... e que eu estava sem calcinha. Por favor, que seja água. – E as botas eles acharam aqui mesmo, em um dos armários. Bonitas, não?

– Aham... – Ainda tinha nojo na minha voz. – Hm, e a Natasha, a mulher loira? Ela está bem?

– Ah, a Barbie está com uma cara séria desde que o titio e o vovô brigaram. – Oh não.

– Barbie?

– Ela parece a minha boneca Barbie: ela é alta, loira e bonita!

Não pude deixar de rir. Natasha era realmente bonita, por mais que as feições sérias a deixassem mais velha, dava para ver que ela era uma mulher linda. E ideal para o Adam.

– Mas ela e o titio estão bem? Digo, eles também brigaram?

– Hm... – ela pôs o indicador no queixo – eles não parecem ter brigado. Só não estão se falando direito.

– Como assim?

– Ah, eles não estão mais se beijaaando, ou trocando palavras fofas como eles faziam. – A garotinha deu de ombros.

Um forte sentimento de culpa pairou em minha mente. Por que eu estou me culpando? Não é como se eu tivesse me despido e agarrado o Adam. Ainda assim, eu me senti na obrigação de me desculpar com os dois.

– Ave... Quero dizer, prima – eu nunca vou me acostumar com isso –, onde estão todos?

– Estão lá em baixo.

– Hm... Vamos lá ver eles e dizer que eu já estou bem? – Estendi a mão para ela.

Ela sorriu e a segurou com força. Ela lembrava-me de mim quando criança: levemente roliça, a pele alva, cabelos claros e olhos castanhos com toque de mel. Agora, tanto meu cabelo quanto meus olhos haviam escurecido, somente restando a minha pele branca e o meu corpo roliço, agora com curvas consideráveis.

Assim que chegamos ao andar de baixo, avistei o Alex no balcão central, vasculhando freneticamente uma caixa retangular branca com uma cruz vermelha na tampa. Primeiros socorros, pude reconhecer. Quando chegamos ao último degrau soltei um gemido baixo, mas audível. Ah... o que há de errado com minha perna? Alex pareceu ter escutado, pois levantou as vistas e congelou os olhos em mim, como se tivesse tomado um susto.

– Sam! – Alex deu um gritinho frenético, mas eu o contive com um “sh”. – Sam, o que está fazendo em pé?!

Pude sentir a Avery segurando mais firmemente minha mão.

– Eu... acordei, e vim ver se estava tudo bem. – Dei de ombros. – Ai! – Agora, a pontada de dor veio abaixo da omoplata esquerda, agora coberta pela minha mão como se assim a dor fosse menor.

Alex soltou um gemido reprovador e correu em minha direção. Assim como um médico, ele examinou a lateral da minha costela esquerda, subindo até onde eu pus instintivamente a mão.

– Você seria um bom médico – comentei.

– Já fui um botânico, cientista, cientista botânico – ele ia listando enquanto analisava minha costela – mas a minha paixão sempre foi medicina... – Ele parou e me olhou nos olhos. – Como soube? – Soou meio irônico, mas eu ignorei.

– Sempre está cuidando da gente, e desde que estávamos trabalhando no projeto da arma química, você foi sempre contra justamente por ferir os Direitos Humanos, ou até mesmo os seus próprios princípios. E, a julgar que você deseja muito ajudar a quem quer que precise de sua ajuda e do seu amplo interesse na fisiologia humana...

– Ah, pare, querida, está ficando chato. – Ele pôs a palma da mão entre nossos rostos, me cortando. – O que temos aqui é um hematoma gigantesco, provavelmente por causa do cinto de segurança quando o carro capotou.

– Oh, então... O Joe já contou tudo? – Encolhi-me, meio sem graça.

Alex bufou e voltou ao balcão, para o kit improvisado.

– Acho que ele e o Adam falaram muito mais do que apenas o que aconteceu. – Pude ver um leve sorriso em seus lábios.

– Como assim? – Senti meu rosto arder nas bochechas, lembrando-me das palavras de Avery: “Eu acho que o titio gosta muito da prima!”.

– Eles tiveram uma baita discursão.

– Ela sabe! Eu contei tudinho! – Disse Avery, muito satisfeita, mas encolheu-se logo que avistou meu olhar, repreendendo-a.

– Olha, parece que temos uma informante. – Brincou Alex.

– Ela é só uma criança – comentei baixo e bem próximo a Alex –, não sei se tudo o que disse é verdade, ela pode ter entendido errado.

– Ei! – Avery choramingou, mas eu ignorei.

– Diga-me... O Adam está bem? – Senti que estava apertando a mão da Avery, então a soltei.

Alex suspirou e voltou a sua atenção à caixa branca em sua frente.

– Eu não sei. Sabe que eu e o Adam nunca fomos próximos, então nem adianta perguntar a mim. – Alex deu de ombros.

– Avery, pode dar uma volta? – Seus grandes olhos me olharam, confusos. – Eu e o titio Alex temos que conversar.

Ela ainda estava confusa, mas assentiu e subiu os degraus, voltando para o quarto.

– Titio Alex? Essa é nova. – Alex estava mais relaxado com a saída da Avery, talvez ficasse mais confortável em falar sério sem crianças por perto.

A luz do fim da tarde batia nos cabelos negros de Alex, que caíam em pequenas mechas em seu rosto pálido. Era um homem bonito – o rosto bem marcado e anguloso, e por mais que fosse alto, era gracioso em seus movimentos. Droga, Alex, você tinha mesmo que ser gay?

– Ah, Alex, me deixe – bufei. – Foi o apelido que ela te deu.

Alex parecia muito entretido em seu trabalho – estava agora organizando frascos e fazendo algumas misturas – e, por estar tão relaxado, eu me senti menos tensa também. Se tivesse algo errado, ele com certeza não estaria tão calmo, certo?

– E então, está tudo bem com o Adam?

– Oh, ele e a Nat terminaram – Ele falou com tranquilidade, como se estivesse falando que gosta de bolo.

Se eu estivesse segurando alguma coisa naquele momento, ela já estaria no chão em pedacinhos. Pude sentir um aperto no meu peito, e um flash de cenas passaram pelos meus olhos: Nat e Adam juntos no laboratório; Nat e Adam de mãos dadas, contando para mim e para o Alex de que estavam juntos, mas que tínhamos que manter segredo para não separarem os dois no trabalho; Nat e Adam andando abraçados no cinema quando fomos comemorar o sucesso do projeto; Nat e Adam se beijando no lavabo do laboratório; Nat e Adam se beijando no fim do mundo...

Nat e Adam. Eles eram um casal, e se amavam muito... E eu acabei com isso.

Oh não, eu fui a culpada? Ok, isso me faz ter uma chance com o Adam, mas... Não é o que eu queria, de forma alguma.

– O que?! – A falha em minha voz era audível até para mim. – Isso é sério?

– Claro que não – Alex deu de ombros.

Eu fiquei piscando para o Alex por alguns segundos. Não, espera...O que?!

– Alex... Como assim? Que brincadeira é essa? – Pensei em marchar até ele, mas minhas pernas se recusaram a se mover.

Alex sorriu de canto, e me olhou direto nos olhos, com aquele olhar morno que ele faz quando vai me dar uma missão de moral.

– Não é brincadeira, querida – ele soava mais gay que nunca. – Eu queria testar uma teoria, uma que eu estou considerando já faz tempo.

– E qual seria? – Cruzei os braços, mas logo me arrependo, pois a dor na omoplata esquerda vem à tona. Ainda assim, não descruzo os braços, não queria perder a pose.

– Admita, Sammy – ele veio andando até mim, olhou para os lados e sussurrou: – você ama o Adam.

Descruzei os braços e suspirei.

– Tão óbvio assim?

– Querida, só sendo o Adam pra não notar – ele apoiou uma das mãos no quadril e deixou a outra dobrada sobre o peito, e por um segundo eu pensei que ele fosse estalar os dedos para mim.

Suspirei e sentei no degrau da escada, com o rosto apoiado nas mãos.

– Ainda não me falou, estão todos bem?

– Oh, agora sua atenção é para todos? –Alex brincou, claramente divertido pela recém-descoberta. Cerrei os olhos para ele, fazendo seu sorriso diminuir, mas não sumir por completo. – Nat está mais calada que o normal, mas isso é o esperado – ele começou, sentando-se um degrau abaixo de mim. – Ela sempre fica assim depois que o Adam discute com ela.

– Na verdade, quando o Adam ganha uma discussão – corrigi.

– De fato – ele concordou. – O Adam... Bem, depois da terrível briga dos dois lá fora...

– Espere, o que aconteceu na briga? – O cortei.

– Hm, danada, quer saber dos mínimos detalhes. – Ele me deu um tapinha no meu joelho. – Eu não vi muita coisa, estava carregando você para dentro da casa, e quando fui lá para fora de novo foi para separá-los. Por sinal, deve agradecer a essa tal de Elise Hess, ela me ajudou a limpá-la e a vesti-la. – Senti meu rosto enrubescer. – Enfim, começou com o Adam discutindo com a Natasha, o Joe se meteu, o Adam estava irritado não sei com que, mas acabou descarregando no Joe. O Joe ficou puto, deu um murro no Adam, um muito bom por sinal, e este caiu no chão. Adam chutou o joelho do Joe para dar tempo de se levantar e ai eu entrei na casa. Deixei você com a Elise e fui lá para fora, pois a Nat não estava sendo muito útil... Na verdade, ela estava parada assistindo, a tadinha não estava entendendo nada do que acontecia.

– Uau, se empolgou, hein?

– Adoro contar os babados. – Alex deu um riso afetado. Não importa a sua sexualidade, esse cara é incrível, e incrivelmente engraçado. – Assim que eu separei a briga, o Adam entrou furioso dentro do posto, e se entocou em uma das salas. Quando fui ver Joe... Coitado, estava acabado.

– Uau, o general estava acabado? Ok, talvez já estivesse na hora do Joe se aposentar. – Nós dois rimos por um tempo. Era bom poder rir mesmo sabendo que o mundo está em crise por minha culpa.

– Não, boba, te garanto que um cara normal no lugar do Joe já estaria bebendo com a Amy Winehouse.

– Como assim?

– Sammy, a droga que você tomou dá sonolência, não lerdeza. – Fiz um bico, que logo cedeu espaço para meu sorriso. – Primeiro, Joe levou uma pancada forte na cabeça quando o carro capotou, ficou desacordado e tudo. Segundo, ele levou outra pancada na cabeça quando aquela gangue sem noção apareceu, e desmaiou outra vez. Terceiro, ele executou um plano de fuga brilhante, onde só ele estava em ação já que o Adam estava te rebocando. E quarto, ele estava machucado antes dessa confusão toda, lembra que ele estava mancando um pouco e com o braço ferido? Depois desses quatro fatores, acha mesmo que o Joe não tem uma boa resistência?

Nossa, o Joe é realmente um bom general. Não que eu duvidasse antes, mas é que eu sempre achei que os generais eram velhos ranzinzas que comandavam tudo, mas, num campo de batalha, não sabiam nem atirar sequer uma pedra.

– Tá, tá, o Joe é incrível – levantei os braços, me rendendo. – E como ele está?

– Depois de cuidar de você, desci para dar um jeito nos cortes de vidro do carro e das pancadas que ele levou na cabeça. Ah... Que homem teimoso. – Alex suspirou.

– Hm, vejo que alguém está interessado no general. – Brinquei, tentando segurar o riso.

Alex me fuzilou com o olhar e me deu um pequeno empurrão na perna.

– Não, Sam, ele é teimoso mesmo, aquele bastardo simplesmente recusou a minha ajuda.

– Ele não deixou você fazer os curativos?

– Inicialmente, não, mas depois ele me deixou ajudar com a cabeça. – Ele bufou.

– Hm... Não esquenta. – Dei de ombros. – Ele só precisa se acostumar a confiar na gente, e ai você pode brincar de ”Operando” com o seu amado ruivo. – Coloquei uma mecha de seu cabelo atrás da orelha, mas ele me impediu de terminar o movimento com um tapa na minha mão.

– Ah, será que a droga conseguiu te deixar mais irritante? – Alex revirou os olhos.

Eu simplesmente sorri e o abracei forte. Primeiramente, ele congelou, mas logo depois retribuiu o abraço.

– Obrigada por cuidar de mim, Lex.

– É um prazer poder ajudar em alguma coisa – disse, em tom pesaroso demais para o Alex que eu conhecia.

Desfiz o abraço e me levantei, ignorando a resistência de minha perna e de minha omoplata.

– Ok, hora de me desculpar com os meninos... e com a Nat. – Suspirei.

– Boa sorte.

Procurei forças e pus-me a andar, explorando o andar de baixo. Estranho, pensei que o Joe tinha dito que haveria gente por aqui... Passei por um corredor completamente acabado – tinha sangue até mesmo nas lâmpadas – e senti um calafrio. Fui olhando de sala em sala, tomando o cuidado de não abrir as portas, pois, assim como lá em cima, poderiam ter infectados presos dentro.

Estava tudo muito quieto, como se todos tivessem ido embora. Uma voz na minha cabeça gritava desesperadamente para que eu voltasse para o Alex, mas eu a ignorei. Estava tudo bem, certo? Se não estivesse, o próprio Alex saberia. Chegando ao fim do corredor, pude notar que a porta dos fundos estava semiaberta. Corri para fechá-la, e assim que o fiz, uma voz rouca ecoou no corredor.

Adam, é você? – A voz, além de rouca, estava muito baixa, mas ainda assim parecia a da Natasha.

– Nat? – Estranhei.

Alguns segundos se passaram, e antes que eu pudesse chama-la novamente, Nat apareceu na porta da última sala, com uma aparência trágica – as roupas, assim como as de todos, estavam bastante sujas e gastas, mas o que realmente me surpreendeu foi o seu rosto, muito mais magro e cansado.

– Você não se parece com o Adam – disse ela, irônica.

– E você não se parece com a Natasha – indaguei. Nat me olhou confusa, virando a cabeça de leve. – Você parece exausta!

Ela me deu um sorriso amarelo, se apoiando na lateral da porta.

– Diga-me, Sammy, você já se olhou no espelho?

Primeiramente, eu tomei isso como uma ofensa, mas antes de retrucar, meus olhos correram instantaneamente para o vidro da sala onde Nat estava. Como o vidro naturalmente tinha um efeito meio esfumaçado por dentro, meu reflexo estava mais nítido, e então eu me assustei.

O que eu via ali não era exatamente o que eu esperava – uma Samantha de corpo roliço, mas com boas curvas, olhos grandes e redondos e cabelos ondulados e bem cuidados – mas olhos grandes embora semicerrados, completamente exaustos e meio macabros com a olheira que acabara de se formar, um emaranhado de cabelos castanho-claros, e um corpo bem mais magro do que eu lembrava.

– Nossa, só assim para eu emagrecer – comentei baixinho, mais para mim mesma. Nat sorriu e balançou a cabeça.

– Nunca perde a piada, não é?

– Nunca se sabe quando poderemos rir novamente – respondi, me arrependendo logo em seguida.

O silêncio estava me deixando desconfortável, mas me deu tempo para analisá-la melhor. Vendo Natasha nesse estado, notei que todos, até o Joe, haviam emagrecido bastante, olheiras profundas começaram a brotar (brotar xD), e os traços de exaustão pareciam cada vez mais profundos. E então eu percebi que já faziam três dias que estamos vivendo neste apocalipse.

– Você está bem?

– Como assim? – Nat estava distraída olhando para nenhum lugar em específico.

– Você sabe... Antes de desmaiar... Eu pude ouvir você e o Adam meio que brigarando.

Natasha suspirou, pesarosa. Abraçou a si mesma e, pela primeira vez, eu a vi em um estado frágil, em que seus olhos ameaçavam chorar a cada segundo. Instintivamente, pus-me ao seu lado, pondo a mão em seu ombro.

– Nat?

– Eu... Eu não sei mais o que faço! – Sua voz ia sumindo aos poucos, ao passo que suas lágrimas iam caindo. – Eu estou com medo, Samantha. Medo de perder o amor da minha vida ou para um maldito zumbi ou para a minha estupidez!

– Como assim? – É impressão minha os ela está se abrindo comigo?! Natasha sacudiu a cabeça.

– Você não entende...

– Então me faça entender – tentei soar o mais doce possível.

Eu sei, eu estava confortando a namorada do cara que eu amo e isso não faz sentido algum, mas... Não sei, olhando para a Nat assim, ela não me parece tão sangue-frio como ela sempre aparentara ser. É, talvez eles sejam mesmo um bom casal.

– Sam, você não entende – Ela recuou alguns passos, parecendo evitar meu toque. – Eu e o Adam não estamos tão bem assim.

– É sério? Para mim, sempre pareceu que vocês nunca iam se largar – tentei fazer parecer menos dramático.

– Sam, eu e o Adam já estávamos brigando já faz um tempo, mas decidimos que não valia a pena continuar discutindo sendo que cada dia poderia ser o nosso último...

Com um barulho alto, a porta se abriu repentinamente, fazendo eu e Natasha saltarmos, emitindo um grito baixo.

– Poxa, Nat, eu não disse para você deixara a porta encostada...? – Adam surgiu da porta, carregando um saco com armas, cassetetes e outros objetos que eu não pude identificar.

Olhei cuidadosamente para Adam, verificando se tinha algum ferimento, enquanto ele apenas me encarava como se visse um fantasma, e então pareceu preocupado. Alguns segundos se passaram e Nat pigarreou algo, fazendo-o desviar os olhos para a namorada, e depois voltou a olhar para mim, mas desta vez com o olhar menos preocupado e mais fechado.

– Já está se sentindo melhor? – Disse seco, mas ainda cauteloso.

Assenti com a cabeça.

– Se machucou? – Minha voz saiu mais afetada do que nunca. Suspirei e tentei voltar ao meu tom de escárnio usual. – Soube que andou arrumando briga. E depois pergunta por que queriam te expulsar do seu colégio de rico.

Adam sorriu, parecendo menos tenso.

– E então? Conseguiu? – Disse Natasha, voltando ao seu “normal”. Adam levantou o saco cheio de trecos.

– Está tudo aqui, baby. – Ele parecia orgulhoso.

– O que é isso tudo? – Perguntei.

– Depois que eu e o Joe discutimos – ele pôs o saco no chão e começou a vasculha-lo, entretido – eu fui até ele pedir desculpas. – Adam? Pedindo desculpas? Estava prestes a me manifestar com um comentário irônico, mas ele foi mais rápido. – Sim, Samantha, eu pedi desculpas. Estava apenas descontando a raiva, e aquilo não foi justo com ele. Enfim, assim que fizemos as pazes, fomos impedidos de ver se você estava bem porque... bem...

Ele olhou meio apologético. Ah, sim, eu estava nua. Um clima meio desconfortante pairou entre o casal, e eu me senti meio culpada por ter que fazê-lo reviver esse assunto.

– É, eu acho que todos já entendemos o porquê – tentei aliviar a tensão.

– Bem, por causa disso – Adam continuou antes de algum comentário da Nat – eu e o Joe fomos buscar roupas para você.

– Muito obrigada – disse, instintivamente agarrando a camisa militar do Joe.

Disponha, garotinha. – Até mesmo Nat sorriu quando Adam imitou a voz do Heffman. – E, graças a isso, descobrimos que haviam alguns objetos largados na rua que deveriam pertencer aos policiais que estavam aqui.

– Oh, agora entendi qual foi a do saco.

– Saca só isso! – Mais uma vez, Adam parecia animado, remexendo o saco em estado deplorável.

Adam pôs o saco no chão e tirou uma arma, que pôs atrás da calça, um porrete, que deu para Nat e um spray vermelho, que deu para mim. Fiquei olhando para o spray por um tempo, procurando o rótulo.

– Há-há, muito engraçado, Adam. Um spray de pimenta? – Estendi o spray de volta para ele, mas estava muito ocupado tentando não rir, assim como a Nat.

– Sammy, você é a criança do grupo, e, até onde eu sei, crianças não devem portar armas. – Claro que ele tinha que zoar com a minha idade, como sempre.

– A criança do grupo é Avery, não eu. Ela não pode usar uma arma, eu posso – fiz questão de destacar cada palavra.

– Não sei não, Sam, acho que ela te vence numa briga de tapa – dessa vez foi Nat, visivelmente mais confortável. Bem, pelo menos eles parecem bem de novo.

– Nossa, gente, um casal de comediantes. – Revirei os olhos.

Vendo as armas dentro do saco, lembrei-me de um certo ruivo que provavelmente estaria agora inventando desculpa para nos dar bronca.

– Ei, Adam, onde está o Joe? – Os dois pararam de rir gradualmente, e pude ver o Adam estremecer e fechar a cara.

– Ele está, literalmente, dando voltas com o carro pelo perímetro. Quer ter certeza de que os caras não nos seguiram. – Adam parecia levemente chateado, talvez porque não foi junto.

– E a fedentina? – Falei casualmente. Os dois se entreolharam, e então percebi que “fedentina” foi o apelido que dei mentalmente. – Digo, a Elise, Elise Hess.

– Ah, a garota que não tomava banho? – Disse Nat. – Ela estava rondando pelo posto policial, acho que ficou louca. – Deu de ombros.

– Bem, louca ou não, preciso agradecer por ter ajudado o Alex cuidando de mim. Sabe onde ela está?

– Está por aí – Nat levantou o indicador e o dedo do meio, fazendo círculos no ar, assim como o sinal que Joe nos ensinou: “Isso significa vistoriar o local”.

Suspirei e, mais uma vez, fui perambular pelos corredores macabros – e desertos – do posto policial. Não demorou muito, e eu pude escutar a voz da fedentina juntamente com a do Joe e do Alex na entrada.

Eu avisei a todos para ficarem aqui dentro! – Joe não parecia só com raiva, e sim completamente pirado.

Eu só estava tentando ajudar! – A fedentina tentou se defender, parecendo em pânico.

Ei, gente, calma! O que aconteceu? – Alex, como sempre, tentava acalmar as coisas.

Assim que cheguei ao saguão principal, estavam Joe e Elise na entrada, Joe a arrastando pelo braço, e o Alex ainda em seu balcão. Pude perceber também que Avery estava no topo da escadaria, assistindo a tudo.

– Joe, solte-a, deve estar machucando! – Implorei, assim que notei que talvez ele a estivesse apertando demais.

Joe olhou para mim, primeiro com preocupação, depois a máscara de raiva que ele estava usando se formou novamente.

– Essa... Essa... – Ele estava tentando buscar as palavras certas para não magoá-la. – Essa louca simplesmente estragou tudo!

– Calma, ok? Solte ela... — Eu o encarei com cuidado, analisando sua expressão. Aos poucos, ele foi soltando a fendentina, que rastejou para perto do Alex, completamente apavorada. — Ótimo. Agora me diga, o que aconteceu lá fora?

– Sammy, eu não tenho tempo pra isso! — Esbravejou o ruivo.

Espera aí... Ele me chamou de Sammy?

– Se não tem tempo, fala logo! — Disse Adam, perdendo a paciência também.

– Eu fui fazer uma ronda com o carro, para ver se algum filho da puta do frigorífero nos seguiu até aqui — Joe balançava a arma, os movimentos ficando mais brutos a medida que ele prosseguia. — Só que essa gênia me seguiu à pé, e acabou estragando tudo!

Todos se entreolharam, tentando entender o por quê de tanto drama.

– Você disse que Elise estragou tudo... — Alex tomou a frente. — Como, exatamente?

– Eu só queria avisá-lo — Elise se encolhia num canto, sua voz falhava e seu corpo tremia. — Mas acabei chamando mais deles...

– Por favor — choraminguei — me diz que não é o que eu tô pensando...

– Exatamente — Joe assentiu. — Ela tentou jogar uma pedra para chamam minha atenção, mas acabou acertando um grupo de carros ao fundo. O alarme disparou, e agora tem uma caralhada desses desgraçados em volta do local. Não vai demorar muito para eles acharem o posto.

O silêncio reinou por alguns segundos. Eu já estava começando a ter flashbacks de toda a minha vida, quando Avery apareceu no topo da escada.

– Nós podemos ir para a casa do vovô.

– Avery, a casa do seu avô é muito perigosa... — Natasha começou.

– Não — Joe a cortou. — Na verdade, é brilhante — um sorriso diabólico abriu em seu rosto. — Agora, temos duas viaturas policiais e mais um carro extra. Podemos fugir, salvar o velho, o pai da pequena e ainda estocar os carros com a comida que acharmos na casa e nos mandar.

Era um plano bom... Exceto pela parte que os zumbis já estavam correndo loucamente na nossa direção. Eu dei alguns gritinhos e já estava me preparando para correr quando Joe deu um grito.

– TODO MUNDO, QUIETO. Samantha, você vai junto com o Alex, Elise e Avery para a garagem. Entrem nos carros e tentem chegar até a porta principal. — Joe se aproximo e me entregou um saco de pano encardido um pouco pesado. — Só use isso se realmente não der para abrir caminho do jeito tradicional, o barulho só vai atrair mais deles e aí a gente morre.

Dei uma olhada dentro do saco; granadas. É, o Joe não estava de brincadeira.

– Adam, Natasha, se preparem para o massacre.

– Nosso ou deles? — Disse o Adam, usando a ironia para disfarçar a vontade de fugir o quanto antes. — Ei, Sammy, pega. — Ele jogou uma arma de dentro do saco. — Dessa vez, não estamos para brincadeira. É uma pistola Glock, tem 18 balas. Dá pra você atirar feito uma louca. — Ele piscou para mim. Não sei como ele ainda tem tempo pra zoeira.

Depois de por a arma no cós da calça, como vejo em seriados policiais, corri para a garagem, olhando para trás para me certificar de que todos estavam me seguindo. Chegando na garagem, já dava para escutar os tiros e grunhidos que viam da recepção, fazendo minha espinha congelar.

– Samantha, essa viatura tá sem gasolina — Alex estava pálido ao volante, o que me deixava ainda mais nervosa.

– Vai pra outra! Avery, vai com o tio Alex, agora! — A menina não pensou duas vezes ao entrar no carro. enquanto isso, eu dava partida no carro preto que roubamos do açougue. — Elise, será que esse carro consegue arrancar o portão da garagem?

Elise se apoiou na janela da minha porta e engoliu em seco.

– Aqui é um posto policial... acho que a porta foi feita para aguentar arrombamentos. — Antes mesmo que eu pudesse protestar, Avery pegou um pedaço de cano no chão e correu para o portão. — Eu vou abrir e corro até você. Liga o motor! Aqui vai!

E então, aquela insana abriu a porta. no mesmo segundo, uma onda de corpos adentrou o local, e a única coisa que pensei foi estamos fodidos. Strike 2, Fedentina.

Inutilmente, Elise tentava atravessar o espaço — agora parecendo imenso — até a porta do carona. No meio do caminho, ela já tinha sido arranhada, socada, chutada e mordida. Vendo seu próprio estado, ela desistiu de continuar, ou simplesmente não conseguia mais.

– Samantha, vai sem mim! Atropele esse bando de miseráveis e salve o resto! – Só de olhar para o seu rosto, dava para sentir todo o seu pânico.

Ela estava se deixando para trás... Por nós. Por pessoas que ela nem conhecia.

– Mas e você?! – Gritou Adam, Tapando os olhos de Avery.

Encarei-a nos olhos e assenti. Ela não tem chances, agora que foi mordida.

– Alex, liga a merda do seu motor.

Engatando a primeira e esfregando os olhos para tirar as lágrimas do caminho, pisei fundo no acelerador, esperando atropelar todos aqueles malditos. Bem, tinha malditos demais. Alguns zumbis já estavam indo para a porta que levava para a recepção quando eu abaixei o vidro e comecei a atirar em qualquer coisa que se mexesse.

Até que o som de uma buzina me atrapalhou. Alex?

Não, Avery.

– Você tem a droga de um saco de granadas e fica dando tiro na cabeça de cada um?! Explode logo tudo, garota!

Só me faltava essa. Uma garotinha de 8 anos me dando ordens.

Peguei o saco que o Joe me deu e tirei uma granada. Ok, não deve ser tão difícil. É só tirar esse pino aqui e jogar, certo? Sem muito tempo para pensar, fui no instinto mesmo. Uma última olhada para Elise, que se contorcia de dor enquanto os zumbis arrancavam pedaços dela. Desculpa por não fazer mais do que isso, Fedentina. E então, joguei o mais longe que pude, e me encolhi debaixo do volante. Assim que a granada explodiu, voltei a acelerar o carro. Que vocês queimem no fogo do inferno, desgraçados.

Acelerei, derrubando alguns enquanto seguia em direção à entrada principal. A cena que encontrei foi caótica: Joe segurando as portas de vido fechadas enquanto um amontoado – literalmente, um amontoado – de infectados tentavam quebrar o vidro à prova de balas, enquanto lá dentro Adam e Nat atiravam nos que já tinham entrado, protegendo as costas de Joe.

Bem, é um vidro à prova de balas. Veremos se é à prova de granadas também.

Abaixei a janela, puxei mais uma granada do saco e que eu não me arrependa da merda que eu estou prestes a fazer. Assim que tirei o pino, acertei o amontoado de zumbis em cheio... mas estava perto demais da porta, perto demais do Joe. Puta merda, eu vou matar todo mundo. Não deu tempo de pensar em outra coisa. A granada explodiu, e em questão de segundos o cenário se tornou um amontoado de partes humanas cobertas de um sangue escuro e espesso. O vidro frontal rachou um pouco, mas a porta já não estava mais lá. Procurei desesperadamente pelo Joe, e o encontrei no pé da escada, em cima do Adam e da Nat.

Todos pareciam bem exceto Nat, que mancava com a perna direita, mas aparentemente não tinha corte nenhum, o que já era bom o suficiente. Adam a ajudou a chegar até a porta e o Alex ajudou, levando o carro até eles. Me aproximei também, até notar a caralhada de zumbis que viraram a esquina e chegaram até os carros numa velocidade assombrosa. Bem que o Joe falou que o barulho não era uma boa...

Abri a janela do carona e comecei a atirar no máximo de zumbis possíveis, o que não foi lá grande coisa. Seria um exagero dizer que acertei dez. Quando estava começando a pegar o jeito, a arma parecia engasgada, e não queria mais atirar.

– Mas que merda, arma, por que não me ama mais? – Bati a pistola na porta, para ver se pegava de novo.

– Eu não sei se você sabe, mas uma pistola não atira amor, e sim balas, coisa que a sua não tem mais – uma voz rouca soou atrás de mim, no banco do motorista.

– Joe! – Abracei o seu pescoço. – Pensei que tinha te matado também – algumas lágrimas acidentalmente escaparam. Essa definitivamente não era hora para chorar.

Também? O que você... – Ele olhou para o banco de trás, e depois para mim. – Cadê a mulher insana?

Olhei pesarosa para seus olhos verdes, não conseguindo por uma palavra pra fora. Eu explodi o que restou dela. Joe suspirou e acelerou o carro, buzinando para o Alex segui-lo, que o fez.

– Bem, ela teve o que mereceu – ele deu de ombros.

Olhei incrédula para o Joe. Por um instante, tive nojo de mim por ter me preocupado com ele. E uma tremenda vontade de explodir uma granada na sua garganta me veio à mente.

Como você pode dizer isso? – Tive o cuidado de despejar todo o meu desgosto em cada palavra.

Ele apenas me olhou de canto e depois voltou sua atenção à pista cheia de infectados.

– Sammy, você...

– Não me chame de Sammy – cortei-o.

Joe apenas suspirou e prosseguiu.

– Você realmente vai ficar sentida por cada morte que presenciar? – Ele falava devagar, como se tomasse cuidado ao dizer cada palavra.

– o que você quer dizer?

Samantha – ele deu ênfase no meu nome – você é uma adulta, não uma criança. Com essa praga, a única coisa que podemos fazer é tirar da consciência o peso de cada morte que presenciarmos daqui pra frente.

– Mas... – Mas a culpa foi minha.

– Quando eu era apenas um cabo, muitos dos meus colegas morreram, e por burradas minhas – Joe estava sério, com a voz gelada. – Se eu carregasse a culpa de todas elas, eu acho que teria surtado. Mas surtar não ia fazê-los voltar, muito menos salvar outras vidas, então eu segui em frente.

Ficamos alguns segundos em silêncio. De alguma forma, o Joe estava certo; não adiantaria nada remoer a culpa pela morte de Elise. Mas não quer dizer que ela tenha merecido.

– Mesmo assim, ela não mereceu morrer – balbuciei.

– Ah, lógico que mereceu! – Joe levantou as duas mãos do volante, em sinal de revolta. – Se aquela burra tivesse feito o que eu mandei e ficasse lá dentro com os outros, nós não teríamos que nos arriscar tanto numa manobra de fuga improvisada. Sinceramente? Ela morreu na própria merda.

Me encolhi na porta do carona, me afastando o máximo possível do Joe.

– Se for assim, eu também deveria morrer – sussurrei.

– Ah, pelo amor de Deus, o que eu disse sobre ficar melancólica...

– Eu que errei a fórmula, eu que criei essa doença.

Joe ficou calado, pensativo.

– É melhor ficar quieta, não me faça odiá-la agora que estou começando a me acostumar com vocês – disse, com uma voz ríspida.

Seguimos o resto do caminho em silêncio, enquanto as imagens da morte de Elise se repetiam em minha mente, e as palavras de Joe ecoavam em minha mente.

Ela deveria ter morrido... A culpa foi dela... Ela mereceu morrer.