Era tarde de terça-feira, estávamos em um apartamento em Massachussets com um grupo de quatro pessoas que encontrei tentando se esconder. O clima estava frio, porém abafado, talvez devido aos lacres nas portas e janelas que tinham alguma ligação com o lado de fora. A sala estava parcialmente destruída: a mesa de centro estava em pedaços, a televisão estava virada e o sofá também. Havia sangue espalhado por todos os lados, tudo isso devido à luta da noite passada. Quem diria que humanos pudessem se transformar em algo pior que eles mesmos.

O apartamento não estava melhor quando chegamos, a geladeira estava aberta e alguns alimentos estavam fora dela, como se quem quer que estivesse aqui não tivesse tempo algum para fazer uma refeição. A sala era pequena, tinha um sofá bem gasto e uma cozinha americana bem humilde para decorar, o corredor seguia a norte para os outros aposentos: dois quartos e um banheiro. Talvez quem ou o que nos atacou na noite passada fossem os proprietários desse lugar. De qualquer forma, um morto é um morto, isso não os difere de mais ninguém.

– Então, onde estão os outros? – Perguntei à garota loira, que pareceu se assustar com a minha voz. O que é comum, devido à minha rouquidão natural.

– Dormindo — disse, se aninhando nos próprios braços. — O Alex está no quarto de solteiro, e a Natasha está no quarto de casal com o Adam...

– Me chame de louco, garotinha, mas... – Senti um leve pesar em sua voz, como se algo a atormentasse por isso. – ...você não parece muito feliz com a ideia do Adam e a Natasha estarem dormindo juntos.

– Coisa da sua cabeça, Joe – ela colocou os longos cabelos cor de mel atrás da orelha e fitou o chão meio distraída. – Por que eu me importaria com o que o Adam e a Natasha fazem ou deixam de fazer? Eles são namorados, não é da minha conta.

Ela apoiou o rosto na mão e ainda com sua expressão pensativa encarava o chão de uma forma tão focada que fazia parecer que aquele assoalho era o mais incrível de todo o mundo.

– Talvez você se importe por gostar dele.

Sua expressão distraída de dissipou quase que instantaneamente, ela agora estava com os olhos cravados nos meus.

– O que você disse? – Ela estava corada no nariz e nas bochechas.

– Nada demais... – Eu ri inevitavelmente. – Só que você gosta do Adam.

Ela se jogou em cima de mim cobrindo minha boca desesperadamente.

– Não fale isso alto...! Faz ideia da merda que você estaria me botando?

Eu segurei a mão dela tirando-a de minha boca.

– Então, conte-me, como foi que viemos parar nesse horrível apartamento em Boston acompanhados de pessoas ensandecidas, como eu deixei minha bela e tranquila casa em Warwickshire na Inglaterra, e... – Eu fitei-a ainda segurando sua mão, ela não estava mais corada, mas prestava muita atenção em minhas palavras. – E como vocês começaram essa merda toda.

Aos poucos, ela foi se recolhendo e voltou a fitar o assoalho, mas desta vez com um pesar nos olhos.

– Na verdade, a culpa é toda minha... – Ela suspirou e eu soltei sua mão. – É uma longa história. Quer ouvi-la mesmo assim?

– As histórias longas são as melhores. – Acendi um cigarro e me encostei no sofá que estava virado.

Nós estávamos sentados no chão ao redor de um pacote de pães, café frio e mortadela, sim... O melhor café da manhã que poderíamos arranjar naquela situação.

– Prossiga.

Depois de um suspiro longo e pesado, ela começou:

"Eu havia sido chamada pelo governo estadunidense, juntamente com o Adam e o Alex para trabalharmos em uma arma biológica. Eu havia acabado de me pós-graduar, e os meninos já estavam trabalhando com modificação genética há algum tempo. Éramos o grupo perfeito para criar a arma ideal.

Nossa ideia era trabalhar em algum vírus, colocá-lo em uma bomba e explodi-la em um país inimigo, então a doença iria se alastrar gradualmente. Porém tudo estava parecendo muito utópico. Não me dava muito bem com o Adam de início, ele parecia prepotente e arrogante, eu preferia conversar com o Alex. Devido aos nossos... "conflitos internos, os experimentos pareciam bem longe de dar certo. Mas um dia, o Adam resolveu dar trégua, e ficamos a sós no laboratório em Washington, onde fomos chamados orginalmente. A noite foi longa, nós rimos e conversamos, nem parecia que ele me fazia odiá-lo todos os dias.

Depois de muito pensar e conversar, conseguimos chegar a um acordo, além de ter sido uma brilhante ideia. Nós decidimos manipular o vírus da raiva, fazendo-o afetar o cérebro humano com mais intensidade. Os sintomas eram: uma febre arrasadora, seguida de mal-estar. Em questão de horas, a vítima já estaria sentindo disfunção cerebral, delírio, ansiedade e agitação. Depois dessa etapa, a vitima morre em miminutos.

Era perfeito, pois, além de efetivo, se espalharia como uma epidemia, como fizeram na Segunda Guerra Mundial: jogavam cadáveres com doenças como peste bubônica ou varíola, em áreas inimigas e logo a doença se espalhava rapidamente, em poucos dias todos estavam ajoelhados frente a morte. O único problema é que era difícil naquela época controlar tais epidemias e o feitiço muitas vezes se virava contra o feiticeiro. Eu e o Alex estávamos dispostos a criar uma cura, porém, para tal precisaríamos de uma doença primeiro. Nós três trabalhamos nisso por um longo tempo, mas sem sucesso – todos os experimentos acabavam falhando. O governo dos EUA achavam que não estávamos dando conta de tudo a sós, mas, apesar de concordar com eles, não queria desistir.

Aquele tempo, por mais que difícil devido ao trabalho árduo, me deixava feliz, por estar com o Alex e por algum motivo o Adam também. Eles deram o prazo de um mês para que conseguíssemos avançar nos estudos, e por algum milagre nós conseguimos. A doença estava fazendo efeito e os ratos que usamos para fazer os testes morreram em uuma média de 8h. Era o que precisávamos. O Adam estava visivelmente feliz com tudo aquilo e por mais estranho que possa parecer, era a felicidade dele que me deixava bem... N-não que isso importe para você, Joe...!

Enfim, semanas depois, apresentamos o trabalho para os nossos superiores e eles aprovaram, porém ainda achavam o nossos grupo desorganizado.

Foi então que conhecemos a nossa suposta líder: Natasha Schlabitz. Ela começou se apresentando e eu por algum motivo não tinha gostado muito dela de cara. Natasha era loira e tinha um sotaque russo muito fofo, na verdade ela em si era muito bonita. Ela pediu os projetos para o Adam, já que tinha que saber com o que estava lidando, e desde então começou a se ocupar mais e sempre chamando o Adam para trabalhar com ela. Sim, Joe, isso me incomodava profundamente, mas na época eu não sabia o “porque”. Na verdade, eu talvez soubesse, mas não queria aceitar.

Um dia, eu estava manipulando alguns últimos resultados da experiência e ela se dirigiu a mim de forma quase cordial, mas minha raiva por ela era tão crescente que talvez não tivesse percebido seu tom de voz e nós logo começamos uma discussão. Para minha surpresa, ela não comunicou o ocorrido para nenhum superior, mas sim para o Adam, o que foi muito pior. Ele reclamou sério comigo pela primeira vez, e eu nunca imaginei que seria tão ruim.

No dia seguinte, iriamos aplicar a nossa provável arma em cobaias humanas no laboratório subterrâneo em Boston, Massachussets. Tudo estava preparado, mas talvez no meio de nossa discussão eu tenha modificado a pauta de resultados, onde afirmava que um dos testes para atividade dava positivo, eu por acidente bati no teclado do computador e este por sua vez fez o trabalho de adulterar o resultado para negativo. Eu ainda com raiva, li todo o relatório, foquei no que mais interessava, justo aquele que eu havia alterado: “Atividade cerebral: Negativo”.

Imprimi o relatório e coloquei-o dentro da pasta e enviei uma das cópias para o centro de pesquisa de Massachussets, tudo estava em mais perfeita ordem. Se o pessoal dos Direitos Humanos soubessem o que estávamos prontos e dispostos a fazer no dia seguinte, provavelmente iriamos ver o sol nascer quadrado. O Alex não apoiava a ideia de ter que acompanhar, ele é muito pacifista, não sei o que fazia metido numa pesquisa de arma biológica. Provavelmente tem um motivo bom qual eu nunca tive tempo para perguntar.

Chegando o dia do grande experimento, nós estávamos embarcando num avião para Boston, e nove horas depois deveríamos estar exatamente no local requisitado: Base de Experimentos Científicos de Boston (BECB), a vários metros abaixo do nível da terra. O Alex colocou a substância líquida na seringa e deu para um dos ajudantes da base, ele entrou na prisão de vidro onde as três cobaias estavam e aplicou em cada uma delas, dois homens e uma mulher aparentemente saudáveis. O nosso “anfitrião”, o chefe de base, nos disse para ficarmos tranquilos, as cobaias eram presos que já estavam sob pena de morte. Eu vi o Alex cobrir o rosto com as mãos, o Adam disse para ele deixar de ser fresco, e então eu o abracei, não gostava de ver o Alex daquele jeito. Em alguns minutos, talvez dez ou quinze, as três cobaias que estavam de pé a nossa frente dentro da caixa de vidro, reviraram os olhos e caíram subitamente no chão.

Esperamos cinco minutos e um oficial com máscara de gás entrou na sala para checar o pulso deles – todos mortos. A guerra se aproximava e não tínhamos muito tempo para reavaliar a efetividade da nossa arma, nem ler novamente o relatório. Precisávamos entregar o exemplar o quanto antes para nossos superiores, eles se encarregariam do resto.

Nosso trabalho estava concluído, mas eu não me sentia feliz. Era aquilo que me mantinha junto ao Adam e... Eu não aguentaria ficar longe dele, não sei dizer o porquê, mas sei que sim. Cada vez mais a Natasha se aproximava dele, cada vez mais ele a deixava e cada vez mais eu sentia que iria perdê-lo.

Até que, no mês de aprovação do experimento, a guerra chegou aos Estados Unidos, e a primeira bomba explodiu no porto de Seattle. Nosso tempo tinha se esgotado; a equipe de Boston mandou os experimentos, que foram postos em bombas, o que na verdade não era o projeto inicial. Fizemos isso para ser injetado em pessoas e então elas começariam por si só a espalhar a doença, mas eles nos enganaram. Se bem que o projeto, querendo ou não pertencia ao Governo, então não me surpreende que eles tenham alterado a forma de contaminação – mas eu esperava ser, ao menos, informada. As bombas foram lançadas em três países inimigos, o que significava que nós tínhamos que sair dali o quanto antes. Os Estados Unidos convocaram a Inglaterra como aliada e, por consequência, você, Joe, General do Exército Britânico, foi chamado para assinar um acordo de convenção entre a Inglaterra e os Estados Unidos com relação às armas e aos soldados. Foi quando nos conhecemos pela primeira vez, embora tenha sido bem breve, e você me explicou do que se tratava a sua vinda, mas parecia complicado e eu ignorei boa parte... Desculpa.

Lembro também que um dos supervisores da BECB que estava ao meu lado me falou sobre você. Ele disse que você tinha um currículo fantástico para alguém com 37 anos, e que você e sua equipe tinham um dos melhores... “rendimentos”, se eu posso dizer assim. Não, Joe, eu não sei esses termos técnicos de exército, eu sinto muito. E pare de ser tão convencido.

Enfim! Voltando à história... Tudo estava desesperador devido aos ataques, para variar. Quando chegamos ao centro de Boston, conseguimos ver pessoas roubando pessoas explicitamente, o que era muito estranho. Todos corriam, outros choravam, lojas estavam sendo arrombadas... tudo estava insano, descontrolado. Eu vi um dos policiais correndo com um saco que parecia estar cheio de enlatados, para você ter uma ideia. Eu, Alex, Adam e Natasha não conseguíamos expressar outro sentimento se não horror, a guerra realmente havia chegado aos Estados Unidos e estávamos prestes a saber o porquê. Uma pequena bomba havia explodido na baía de Boston, uma onda enorme cobriu os prédios e muitas pessoas morreram, mas por pouco não foi um desastre ainda maior.

Nós tivemos de parar devido ao congestionamento, até que o motorista foi arrancado para fora do carro. Eu e a Nat entramos em desespero, e teríamos surtado se o Adam não fosse rápido e cuidasse para que o “invasor” não entrasse. Alex deu a ideia de fugirmos para o carro-forte com as supostas cobaias mortas, logo atrás de nós. Os soldados estavam tendo problemas em controlar a multidão, que mais queria entrar no carro blindado achando que lá havia dinheiro. Conseguiram abrir a porta traseira do carro-forte, isso nós vimos, mas logo um dos rebeldes foi bruscamente arrastado para dentro. Primeiro, ficamos estagnados, apenas olhando para o rio de sangue que se formava no asfalto, bem debaixo da porta aberta. Logo em seguida, as três cobaias saíram correndo, como loucas, atacando violentamente qualquer um que aparecesse na frente – o que não foi difícil de achar. Nem mesmo os tiros dos oficiais foram capazes de parar aquelas bestas.

Não ficamos assistindo a cena e começamos a correr, precisávamos achar um lugar para ficar. Depois de muito tempo encontramos um apartamento que parecia ter sido deixado às pressas, e decidimos ficar lá até tudo ficar um pouco mais calmo. Alex estava com a mão do rosto de uma forma tão delicada que me fazia lembrar uma garota, Adam e Natasha estavam abraçados e, no meio de toda aquela confusão, eles ainda conseguiram se beijar, o que sinceramente me enojou. Eu estava exausta, encostada na parede, assistindo ao fim do mundo... Meu mundo.

No dia seguinte saímos para procurar comida no mercado. Foi aí que você apontou uma arma para a cabeça do Adam, isso eu não esqueço. Você achou que ele queria te roubar, e estama meio desesperado – sim, Joe, admita que estava – pois tinha levado um tiro no braço. O Adam disse que te ajudaria se você não atirasse na cabeça dele, e – graças a Deus – você confiou em nós. Daí ficamos juntos, nada mais seguro que ficar com o General do Exército Britânico durante a Terceira Guerra Mundial.”

– Por sinal, o que fazia no supermercado? O senhor não tem uma equipe de proteção pessoal ou algo assim? – Samantha me olhou com seus olhos redondos parecendo confusa.

– Eu me separei da minha equipe no momento, estava sozinho no carro. E não me chame de senhor.

– Ok... – Lentamente, desviou os olhos.

– Vamos, continue.

– Certo... – Disse a garota, parecendo perdida em suas lembranças. – Foi por aí que eu comecei a lembrar das armas biológicas da Segunda Guerra Mundial, e percebi o quão burros nós fomos por não termos sido capazes de aprender com os erros deles. Quero dizer, como não notar que, uma hora ou outra, o feitiço ia voltar contra o feiticeiro?

Fomos interrompidos por um barulho vindo do lado de fora do apartamento. Eu olhei para Sam e ela parou de falar rapidamente, e só para se assegurar disso colocou as mãos na boca. Era tão linda, lembrava-me uma criança, mas com um corpo de mulher. Eu coloquei o dedo em cima dos lábios e ela assentiu, sabia que eu queria que ela fizesse silêncio. Levantei-me cautelosamente, mas o assoalho não permitia que eu fosse discreto, e cada passo era um rangido. Consegui ficar de frente para a porta e ver dentro do olho mágico o corredor vazio. Olhei de novo só para ter certeza...

Nada.

Tínhamos que sair dali o quanto antes. As coisas haviam mudado muito desde a última semana, a semana em que eu conheci Sam, e não pra melhor, devo dizer.

Andei devagar até o quarto de Alex e o acordei. O pobre coitado pareceu ter um ataque cardíaco ao ouvir que estava escutando barulhos estranhos... Admito que foi engraçado. Em seguida, fui para o quarto de Adam e Natasha, porém, por mais que a mulher ainda dormisse o jovem rapaz já estava sentado na ponta da cama, com o cabelo bagunçado e me fitava com um leve desagrado. Estava sem camisa, sua namorada estava coberta com uma colcha bem gasta.

– Eu vim acordar vocês. – Consegui dizer dando a última tragada no cigarro e jogando-o no chão.

– Eu sei... – Ele disse num tom áspero, talvez por ter acordado cedo, talvez por não gostar de mim, ficava difícil saber. – Eu ouvi o barulho.

– Que seja – devolvi no mesmo tom. – Acorde sua namorada, temos que sair daqui e tentar ir o quanto antes para Seattle.

Ele vestiu a camisa e eu me retirei do quarto. Peguei minha faca, minha Magnum 44, minha M4 Carbine e uma velha Desert Eagle que “arranjei” no departamento das Forças Armadas assim que deixei o local.

– Está pronta, garotinha? – Olhei para Sam enquanto guardava meus objetos pessoais.

Ela estava com uma roupa surrada, o jaleco de cientista já tinha sido deixado há muito tempo. Agora, vestia uma blusa que parecia ter sido branca há alguns dias e uma calça jeans também muito gasta, prendeu o cabelo e colocou o seu facão em uma bainha improvisada que havia feito alguns minutos antes. Alex, Adam e Natasha chegaram na sala, aguardando ordens, eu acho.

– O que está acontecendo? – Natasha disse ainda um pouco sonolenta, porém vestida.

– Temos que evacuar, é perigoso continuarmos aqui. Aquelas coisas podem estar sentindo nosso cheiro – expliquei.

– Ou podem ter ouvido o barulho que fizemos noite passada – disse Alex olhando tão fixamente para mim que chegava a ser incomodo, porém foi uma boa observação.

– De uma forma ou de outra nós temos que sair – Sam falou apertando o cinto da calça.

Eu suspirei e me dirigi em direção à porta, para ver o olho mágico novamente.

– Peguem toda a comida que puderem, mas deem prioridade aos remédios. Não sei se já disse, mas temos que sair de Boston ainda hoje.

Todos se apreçaram e colocaram tudo que nos era necessário dentro das mochilas. Adam armou-se com um taco de Baseball, Natasha conseguira um machado de um alarme de incêndio qualquer, e Alex se recusava a portar qualquer tipo de arma, não importa o que lhe dissessem.

Todos, até mesmo eu, veterano de guerra, sentiam um calafrio. Respirei fundo mais uma vez e abri lentamente a porta, para que não fizesse barulho. Olhei para os lados, as luzes estavam falhando no corredor, mas até onde a vista alcançava, não havia ninguém. Fiz sinal para que me seguissem, mas algo dentro de mim dizia que a situação ainda ia piorar bastante antes de melhorar... Se é que ia melhorar.

Seguimos pelo corredor até chegar à escada, o chão era coberto por carpete e isso ajudava nossa movimentação. Descemos sem problema até chegar ao terceiro andar, onde um homem ,com provavelmente minha idade, andava lentamente pelo vão da escada, a alguns metros do grupo. Sim, talvez nós devêssemos chamá-lo para juntar-se a nós e escaparmos dessa situação a qual nos encontramos. Porém, estranhei ver um homem deveras calmo, durante uma guerra, caminhando sem rumo pelo corredor de um prédio abandonado.

– Joe, vamos sair daqui... – Sam havia sussurrado no meu ouvido.

Não é como se eu não tivesse pensado nisso, mas talvez, naquela hora e naquele lugar, ter sussurrado pode ter sido a pior coisa que ela resolveu fazer em toda a vida dela. Bem... Isso depois de criar uma arma biológica.

O homem se virou para nós na mesma hora. Ah sim, eu quase me esqueci de falar, estamos lutando contra mortos-vivos.

– Corram! – Consegui dizer firme tentando conter a adrenalina.

Eles me obedeceram subindo as escadas o mais rápido que podiam em fila indiana, teria sido hilário se não fosse tão trágico. O doente – como chamamos as pessoas infectadas – partiu para cima de mim, tropeçando escada acima, rosnando e emitindo sons estridentes. Tentei manter a calma sentando em um dos degraus à espera que ele chegasse mais perto. Ao tentar me morder puxei a faca e atravessei sua têmpora. Consegui segurá-lo pela camisa para que não caísse, sua queda poderia chamar a atenção de mais mortos-vivos, e tive o cuidado de não deixar seu sangue chegara até meu ferimento, isso seria um desastre. Eu o carreguei, chamando os outros em seguida para que descessem comigo, e, depois de largar o corpo em qualquer lugar, conseguimos chegar ao térreo sem mais problemas.

Na portaria, era possível ver o lado de fora do prédio por uma janela aberta: tudo muito desértico e de alguma forma nostálgico. Não havia uma alma viva andando por lá, e fiquei feliz de sentir o vento acariciar minha barba de novo. O céu estava tão cinza que parecia fumaça, mas eram nuvens – ou pelo menos eu esperava que fossem. Havia alguns corpos na portaria, mas o que me preocupava era que eles não estavam lá quando chegamos. Virei-me para o grupo fazendo mais uma vez sinal de silêncio, e todos entenderam que era suspeito que tivessem pessoas mortas sendo que ninguém os matou. Boa parte da cidade havia sido evacuada, então era muito improvável que alguém pudesse ter matado em torno de sete pessoas e simplesmente saído por aí. Além de que matar pessoas não é uma tarefa fácil, e nós sequer ouvimos barulho de alguém sendo morto.

Caminhei silenciosamente pela portaria, o mais cuidadoso quanto me era cabível. Não tive problema em passar pelos três primeiros, até chegar nos degraus que davam para a porta de entrada. Lá, bem abaixo da pequena escada, estava um corpo jogado no vão. Não daria para descer a escada sem ter que pular aquele cadáver, mas, se pulássemos, era capaz de acordar qualquer coisa que estivesse perto.

Tive uma ideia.

Peguei um papel de rascunho velho dentro do meu bolso e uma caneta em cima do balcão da portaria.

“Vou carregar um de vocês para a parte de baixo sem que encostem no morto, depois ajudamos o resto a descer.”

Todos me olharam como se estivesse louco, mas sabia que ia dar certo. Puxei Alexander pelo braço e fiz ele me seguir até a pequena escada onde estava o defunto na parte de baixo. Ele quis correr, mas eu o segurei, coloquei-o contra a parede e fiz com que lesse meus lábios.

– “Eu preciso que você faça isso”. – Disse sem emitir qualquer som.

E então ele cedeu, mais rápido do que eu esperava. Ele não seria a minha primeira opção, mas era o único homem além de mim e do Adam, só que eu não vou com a cara do Adam, então que seja o Alexander mesmo.

Segurei os braços do garoto até ele conseguir colocar o pé no chão sem que se encostasse ao corpo. Ele conseguiu, e logo em seguida veio Natasha. Eu a segurei até que o Alex conseguisse carregá-la, fizemos isso com o Adam também, apesar dele ter odiado a ideia – não que eu ligue muito para a opinião dele –, e por fim veio a Sam. Ela se embolou um pouco com o corrimão tentando apoiar-se nele, até que Alex a carregou, colocando-a a seu lado. Agora era minha vez. Consegui segurar o braço de Adam – pois concordamos que o Alex não iria ser muito útil – e tocar o chão da forma mais delicada que a minha bota permitia. Houve uma rápida troca de sorrisos entre os quatro, talvez por alívio. Quer dizer, eu não sei bem, já que não sou muito de sorrisos.

Dirigimo-nos até a porta do prédio e uma doce sensação de liberdade invadia meu corpo. Alcancei o arco da porta com um suspiro e puxei a maçaneta, numa ansiedade por pisar fora daquele prédio horroroso. Quando a porta se abriu, o sino de entrada soou, e tudo que eu consegui pensar naquela hora foi...

–... Merda.

Adam estava encarando um dos corpos à esquerda da porta se erguendo, assim aconteceu com todo o resto, inclusive o que estava deitado na frente da escada que tivemos a maior dificuldade para passar. Puxei Natasha pelo braço e coloquei-a para fora do prédio, logo em seguida vieram Adam, Sam e Alex... assim como os mortos. Sem esperar nem um segundo a mais, fechei a porta logo depois que saí.

– Essa foi por pouco – Disse Natasha, ofegante.

– Verdade... E agora? – Adam falou olhando para os exumamos, que se debatiam contra a porta de vidro do prédio. – Como vamos para Seattle?

– Aeroporto? – A garotinha conseguiu dizer.

– Está louca, Sam?! Estamos em guerra, mulher, que aeroporto funcionaria no meio de uma guerra? – Adam disse irônico. – Principalmente com essa endemia louca que nó provavelmente criamos – concluiu com um tom mais baixo, provavelmente pela culpa.

Provavelmente? – Retrucou a ruiva.

– Vamos para o arsenal da polícia – todos encararam Alex. – Além de armamento, tenho quase certeza que tem um helicóptero no terraço do prédio.

– Boa ideia garoto. Aliás, boa não, excelente – afaguei seu cabelo. – Vamos tentar ir pelo caminho do metrô. Deve estar vazio por lá, provavelmente vai ser mais seguro do que se fossemos pelo chão. Todos de acordo?

Como todos assentiram, corremos para a estação de metrô mais próxima que tínhamos no momento, que no caso era a Estação Bowdoin, na Cambridge Street. Descemos a Stainford sem problemas, correndo sem chamar atenção indesejada, e em alguns minutos conseguíamos ver a estação. Falta pouco, disse para mim mesmo. O silencio de todos estava me matando, e, embora eu não seja expert no assunto, tentei puxar conversa.

– Vamos rapazes, acho que não tem problema falar agora, aqui é desolado demais para chamar a atenção de alguém... – Cocei a barba pensativo. – Ou alguma coisa.

– Não nos falamos muito desde que nos conhecemos – eu olhei para trás, era a garota mais velha que falava, que por sinal estava com o sotaque mais carregado do que nunca. – Meu nome é Natasha Schlabtz. Sou graduada e fiz doutorado de ciências biológicas, além de ter trabalhado no instituto de Biologia de Minsk em Belarus, Rússia e eu...

– Garota... – Eu suspirei esfregando os olhos com os dedos. – Eu não sou seu patrão, e saber que você é formada ou pós-graduada em qualquer porcaria dessas não vai fazer muita diferença pra mim. Então fico contente em saber apenas seu nome e sua idade.

Ela provavelmente se sentiu muito insultada, mas não gosto quando as pessoas ficam se glorificando... Ou talvez seja porque tem muito “eu” na frase dela. Pode ter sido loucura, mas tenho uma ligeira impressão de que ouvi o Adam rir rapidamente.

– O nome dela você já sabe. Ela tem trinta e um anos e acho que dá pra perceber que é Russa – disse o moreno com o cabelo castanho claro e olhos da mesma cor. – Eu sou Adam Huntman, caso não se lembre, tenho trinta e dois e sou de Pittsburgh.

– Meu nome é Alexander Fletcher, também tenho trinta e dois nasci em Winsconsin – disse o homem magrelo, alguns dedos mais alto que o Adam, com olhos azuis e cabelos pretos como o ébano.

– Samantha Black, vinte e nove, Austin – Ah sim, aquele sotaque era do Texas, pensei comigo. Ela fez a apresentação mais breve, do jeito que eu queria...

– É engraçado não ter passado pela minha cabeça perguntar a idade e o nome completo de vocês até agora – sorri, tentando descontrair um pouco. – Meu nome é Johann Heffman Jenkins, tenho trinta e sete anos, sou visivelmente inglês... – Disse com orgulho. – É um prazer conhecer vocês.

A Rua Stainford estava cheia de carros parados bloqueando completamente a passagem, ou seja, teríamos que pulá-los quando chegássemos perto. Comecei a pensar que talvez não fosse uma boa ideia, mas ignorei, já que não tínhamos outra escolha.

– O que faziam antes dessa merda toda acontecer? Digo... Antes de começarem o trabalho para o governo – bocejei.

Sam olhou fixamente para Adam, esperava que ele fosse o primeiro a falar. Alex parecia pensativo, como se tentasse lembrar da resposta. Natasha olhava para mim um tanto irritadiça, mas também não conseguia uma resposta.

– Já faz muito tempo... – Adam quebrou o breve silêncio. – Acho que mesmo que quisesse, não conseguiria lembrar como era minha vida antes dessa merda de trabalho me aparecer. Bem que minha mãe disse que era bom demais para ser verdade... – Sussurrou para si, mas alto demais. – Talvez só fiz questão de esquecer... – Ele passou a mão no cabelo tentando tirá-lo do rosto. – O passado é só uma lembrança. Mas trabalhava no Centro Médico de Pittsburgh.

Se eu fosse com a cara dele, até faria uma boa observação sobre o que ele disse, mas achei melhor deixar quieto.

– Eu era dono de uma floricultura – Alex disse delicadamente, delicado até demais para um homem. – Me formei em biologia, me especializei em botânica, depois abri uma floricultura, gostava disso.

Singelo, mas me agradou.

– Eu morava com minha mãe e meu padrasto em uma fazenda no sul de Minsk, eles plantavam tomate e... – Natasha, ela parecia querer falar mais alguma coisa, mas se conteve. – É, é isso.

– Eu estudei em Austin minha vida toda, depois fui morar em Washington D.C., para terminar o mestrado e para trabalhar em um laboratório – disse a Sam, simples como a sua introdução.

– Lembranças interessantes... – Eu disse tentando parecer indiferente, mas aquela conversa realmente me agradava. – Certo, chegamos à estação, só precisamos passar por cima desses carros e logo poderemos entrar... De acordo?

– Sim – todos disseram em uníssono.

Eu fui o primeiro a tentar atravessar: pisei no capô de um dos carros e fui andando por cima do resto.

– Só tomem cuidado com esses que têm uma luz vermelha dentro, que é um al...

Fui interrompido pelo barulho ensurdecedor do alarme do carro. Olhei rapidamente para ver quem tinha sido o infeliz que fez a merda.

– Foi mal! – Não precisei procurar muito, pois o idiota havia se denunciado.

– Alex! Eu disse para tomar cuidado! – Gritei, puto da vida.

Consegui ouvir um barulho irritadiço que começava a aumentar a cada segundo. No final da rua, uma multidão enfurecida corria para o nosso encontro.

– Entrem! – Gritei enfurecido.

Alex, Natasha e Sam correram para as escadas da estação, mas alguns mortos também saíram de lá. Eram apenas quatro infectados no total, três mulheres e um homem.

– Sam! – Adam gritou preocupado. – Cuidado! Pega logo a merda do facão!

A loira, meio estabanada, tentou puxar o facão da bainha improvisada, e quase conseguiu amputar o próprio pulso da mão esquerda. O pior foi quando começou a correr – ninguém ensinou a ela que não pode sair por aí correndo com uma faca e agitar os braços ao mesmo tempo?

Com os gritos, pude perceber que o Adam estava do meu lado, o que não era exatamente o que eu queria. A situação estava tensa que eu não conseguia pensar direito, muito menos notar o marmanjo ali, do meu lado.

– Garoto, eu não disse pra você entrar com eles?

– Eu vou ajudar você, velhote – ele disse com o tom irônico de sempre. Talvez fosse um jeito de devolver o meu jeito de tratar todos eles como se fossem crianças.

– Tá... Tanto faz, só não atrapalha. E nem seja morto, não quero ter que cuidar da sua carcaça – eu disse fazendo ele sorrir. – Toma essa Shotgun aqui, deve ajudar. Pegue os que chegarem perto, eu pego os de longe.

– Vou humilhar você em um segundo, velhote – ele sorriu.

– Essa eu quero ver, pirralho.

Peguei a M4 nas minhas costas e comecei a atirar, fazia tempo que não ouvia aquele barulho no meu ouvido. Os infectados estavam muito raivosos, corriam e tropeçavam uns nos outros, os rosnados ficavam cada vez mais perto. Adam estava ao meu lado atirando, e... Realmente, estava sendo muito útil. Mas não chegou nem perto de me humilhar.

– Adam! – Era a voz da Sam. – Socorro!

Ela estava jogada no chão com um canibal em cima dela, o facão estava distante e Natasha estava ocupada com outro morto, mesmo se quisesse ajudar não poderia – não que aquela ruiva fizesse muita menção de ajuda-la. Alex era pacifista, além de fresco, e não conseguiria ver sangue sem desmaiar. Adam mirou a Shotgun na direção do infectado.

– Não! – Gritei enquanto dava um chute em um dos mortos que tentava subir o carro. – Tiros de Shotgun se espalham, se você atirar nele, mesmo que acerte, a chance de acertar nela também é maior que noventa por cento. Desça e vá ajuda-la!

Adam assentiu me devolvendo a arma. Os mortos que vinham em nossa direção agora eram algo entre quinze e vinte. Melhor do que antes, que pareciam ser uns quarenta.

Eu estava tendo dificuldade em acertá-los, pois eram muito rápidos para serem acertados na cabeça. Enquanto isso, Adam havia pulado do carro agarrando o facão que estava ao lado de sua amiga, puxou o morto que se debruçava sobre Sam da forma mais agressiva que podia e jogou-o para a esquerda. O doente rosnou e partiu para cima do pirralho moreno, tentando mordê-lo. Adam enfiou a lâmina em sua boca fazendo-a atravessar o palato, esperando alguns segundos antes de puxar a arma de volta. Sorriu e foi em direção a mais nova para ajudá-la a se levantar.

– Acho que isso é seu – ele fitava os olhos dela.

– Obrigada por me ajudar – ela se arrependeu do que havia dito quando lembrou com quem estava falando.

– Não precisa me agradecer, vai acabar te cansando, já que eu te salvo o tempo todo... – Ele riu. – É cortesia da casa.

O moreno tirou o taco de Baseball de dentro da mochila e partiu para ajudar sua namorada e o Alex, que estava cercado por duas infectadas. Esse daí não toma jeito.

– Hey Alex, só assim para as mulheres te desejarem, hein? – Brincou a garotinha, já de pé.

Ela então, correu para o lado de uma das que estavam indo na direção de Alex e tentou bater a lâmina contra o pescoço da morta, mas não foi muito efetivo, acabou atraindo a atenção das duas.

– Alex, faz alguma coisa! – Ela gritou.

– Eu não posso! – Devolveu ele, erguendo os braços como se dissesse “Tô desarmado, o que quer que eu faça?!”

Eu já havia quase terminado de atirar nos infectados, faltavam apenas três, mas queria economizar a munição da minha M4. Saquei a Magnum e dei três tiros, um para cada cabeça de merda daqueles desgraçados. Pulei do carro e guardei a Magnum, tirando a faca na mesma velocidade, puxei uma das mulheres que estavam atrás da Sam pelo cabelo e rasguei a garganta, depois segurei a outra pelos braços.

– Enfie a faca no olho rápido!

Ela me ouviu e fez exatamente o que eu mandei, logo em seguida a morta-viva estava caída no chão.

– Essa foi por pouco – disse Alex nervoso.

– Graças a você! Deveria deixar sua frescura de lado pra salvar a sua pele pelo menos! – Disse Adam visivelmente agressivo. Parecia até que ia começar uma briga, mas Natasha o segurou.

– Calma Adam... – Recomendou Sam. – Nós conseguimos, agora temos que descer o metrô, não podemos perder tempo aqui.

– Odeio ter que concordar com a Samantha, mas é verdade – disse Natasha com seu sotaque naturalmente russo, num tom profissional demais. Como assim você odeia concordar com alguém que era para ser sua amiga...?

Mesmo depois das duas garotas terem se pronunciado, o clima ainda parecia tenso demais para mim.

– Certo – eu disse calmo. – Então, pelo visto, todos concordam em não brigar e pegar o metrô... Não é? – Ninguém falou nada, então entendi como sim. – Ótimo, vamos então.