Afterlife

1 O que veio fazer aqui?


Notas iniciais
Boa leitura.

Coloquei meu all star surrado no chão e dei impulso para frente. O vento chicoteou meus cabelos para trás, e fizeram meus olhos arderem. Aquela sensação maravilhosa... Um frio na barriga intenso.

Tudo que queria naquela noite de sexta era fugir dos autógrafos, paparazzis, entrevistas e tudo que a fama me dá de presente. Não é o fato de não gostar de ser famosa, é o fato de ser chato ser famosa. Lógico que tem as partes boas. Por exemplo: tenho acesso livre a qualquer lugar que quiser ir. Isso mesmo, até bares e baladas para maiores. Mas tinha o lado ruim, e o pior ao mesmo tempo. A falsidade. Eu era rodeada de pessoas, mas todas elas estão a minha volta como companheiros ou colegas, somente. Nada no mundo da fama é real. Nem mesmo a realidade.

Jacob dava muita pressão para mim. Sei que não sou uma garota nada fácil de domar, ainda mais que prezo a minha raiz nada rica. Mas era sexta, e eu só fugi por algumas horas.

Estava fugindo de tudo. Da minha mãe, que só pensa na economia e estabilidade. Do meu empresário, Jacob, que cuida da minha fama tão bem quanto de sua Ferrari que pagou com o dinheiro da minha fama. De Jason, o sobrinho de Jacob, que me persegue dia e noite, e mesmo sendo lindo, vamos por parte, ele só quer pegar carona.

Enquanto dava leves inclinadas com o tronco, observei o céu preto e infinito. Queria tanto ser uma estrela. Ela brilha, é linda e todos a desejam. Mas a respeitam, porque gostam dela de verdade.

Descia a rua da minha casa em alta velocidade, quando de repente um vulto negro aparece no meu campo de visão. Parece uma pessoa inclinada para o céu, fazendo o mesmo que eu: observando as estrelas. Suas mãos estavam na cintura, e a pessoa, fosse quem fosse, estava virada para mim.

- Hey! – Dou um grito. Aliás, não quero confusão. Seria mais um motivo para Jacob convencer minha mãe a me proibir de vez a sair sozinha pelo bairro. – Cuidado! – Tento expressar minha pressa na voz, mas a pessoa não move um dedo. Na verdade, ela moveu a cabeça e olhou diretamente para mim, então vi uma camisa e calça jeans.

Tenho duas opções: termino de gastar o solado do meu all star ou esbarro no garoto. Segunda opção. Meu allstar ainda tem que durar mais um tempo. Não dá tempo de parar o skate, então não dou mais impulsos. Em meu ouvido M. Shadows fazia um show em Afterlife.

- Droga! – Quando dou por mim, já estou de encontro ao corpo que não moveu um dedo. Levanto a cabeça, um pouco confusa com o tombo, e percebo que estou em cima da pessoa. – Ah, você está bem? – Pergunto me levantando rapidamente. Meu skate está uns dois metros a cima da cabeça do garoto, que começava a se sentar murmurando alguma coisa.

- Olha Savannah. Sinceramente, precisa treinar parar com o skate, não? – Ele ergue a cabeça e se levanta rapidamente. Então percebo um topete se elevando da barra da touca, olhos escuros e pequenos, um pouco puxados, e uma altura que faria você pensar duas vezes antes de pular da cabeça desse ser. A luz da lua, sua pele parecia porcelana.

- Droga, Andrews! – Pulo em seu pescoço, fazendo-o cambalear para trás. Mesmo sendo magro, Andrews é forte, e seus braços em minha cintura comprovam isso. – Cara, o que você está fazendo aqui? – Me solto dele, um pouco envergonhada.

Fomos “namorados” há alguns anos atrás. Eu tinha treze, e ele catorze. Morávamos no mesmo bairro, e na mesma rua. Minha casa era literalmente na frente da sua. A mãe dele me adorava, e tudo que eu pude fazer depois que tudo acabou foi ir embora. Mal me despedi dele, pois fiquei triste ao saber que ele havia ficado com outra garota uma semana depois de eu terminar com ele. Andrews alegava que ficou muito magoado, porque me amava. É, pude ter certeza disso depois que ele quis levar a atual para casa. Isso somente com treze anos. Adiantados? Que nada.

Ajusto minha blusa e pego meu skate, enquanto sinto seu olhar em mim. Quando levanto o meu, vejo que ele está com aquele sorrisinho torto que me tirava o fôlego. Incrível que continua dando o mesmo efeito.

- Como você está baixinha? – Andrews estendeu a mão e bagunçou meus cabelos. A verdade era que eu nunca fui baixinha. Mas comparada a ele eu era uma anã. Segurei seu pulso sobre minha cabeça, depois o abaixei até a altura da minha clavícula.

- Levando uma vida horrorosa e sedutora. E você? – Dou um passo para trás, pois um de seus dedos, sem querer, havia tocado minha pele, e nesse exato momento toda a extensão dela vibrou.

- Idem. – Ele olha em volta, como se procurasse algo. – Uhm. Savannah, eu vou ter que ir. Vim na casa de um amigo, mas foi algo rápido. Te vejo depois? – Ele inclinou a cabeça e ergueu uma sobrancelha, seguido de um sorriso malicioso e torto.

- Uhm, claro. – Pisco, já jogando meu skate no chão e virando de costas para ele. Não quero saber como, nem quando o verei de novo. Só queria ir para longe dele. Para longe do garoto que amei intensamente aos treze, mas que nunca saiu da minha cabeça.

Uma vez um garoto me disse que é possível encontrar o amor da vida com pouca idade. Na época eu super duvidei, dei até risada. Mas vou começar a repensar sobre o assunto.

De acordo que ganhava velocidade novamente, meu coração se acalmou, e só então me dei conta sobre o quanto ele estava acelerado.

Logo cheguei à entrada de casa. Parei e esperei. Talvez Jason não estivesse mais lá, como sempre, enchendo a paciência do tio: Jacob. Vi que todas as luzes do segundo andar estavam apagadas, mas a da sala e da cozinha, no primeiro, estavam acesas. Isso significava: gente em casa, além de lógico, minha mãe.

Abro a porta com cuidado e deixo o skate com uma caveira em chamas ao lado da porta. Respiro fundo e passo pela porta da sala.

- Savannah. – Ouço a voz da minha mãe assim que começo a subir as escadas. Um tom de alerta e desaprovação.

- Mãe. – Entro na sala e vejo que Jason está sim em minha casa. Logo os olhos azuis dele caem sobre mim, e ele inclina a cabeça para a direita, de leve quando me vê. Um pouco confuso por causa da roupa que estou usando. – Oi. – Aceno para Jacob, que está sentado no sofá, ao lado de Rose, minha mãe, escrevendo algo no computador. Ele somente acena com a cabeça.

- Onde estava? – Ela me repreende com o olhar. Mas sua voz era calma e dócil. Incrível como ela consegue ter duas personalidades ao mesmo tempo.

- Dando uma volta. Esfriando a cabeça. Disse que não demoraria. Aqui estou. Pronto. Xau. – Começo a subir as escadas o mais rápido possível, e logo ouço passos atrás de mim. Bato a porta do meu quarto, imaginando ser minha mãe, e me jogo na cama.

Ouço uma batida na porta, seguida de uma voz conhecida.

- Sav? – Era Jason. O modo como me chamou, sussurrando, me fez imaginar se eu não deveria dar uma chance para ele. Pelo menos, uma chance.

- Entra. – Respiro fundo e me sento.

Ele obedece rapidamente e adentra no quarto, que é invadido por seu perfume másculo. Esse cheiro me dá vontade de agarrá-lo. Na noite em questão, ele usava uma camisa do Nirvana, e calça jeans preta. Estranho, não sabia que ele gostava de rock.

- Nossa. Até que você fica sexy assim. – Provoquei-o. Ele sorri torto. A parte de sorrir torto me lembra imediatamente de Andrews, mas em Jason não era tão pervertido, e não causava o mesmo efeito.

- E você também fica sexy com esse short jeans... ahm... Uma camisa masculina branca, e ah, uma camisa também masculina amarrada na cintura. Legal. – Jason se senta na beirada da cama, de lado para mim. Sua bunda encosta na minha perna, então trato logo de puxá-la para junto a mim. Abraço as duas pernas e fico encarando-o.

- O que veio fazer aqui?

- Ver se está bem. – Ele responde como se fosse óbvio, franzindo as sobrancelhas.

- Não Jason. Quis dizer, aqui em casa. – Ele murmura um ‘ah’, e dá de ombros. – Legal. Já que veio me ver. Aproveita e dorme ai. – Dou de ombros também, mas brincando e rindo.

- Não, obrigado. – Sua voz expressava pura vontade, sinceridade e ao mesmo tempo soou sádica.

De repente ouço a voz de Jacob e Rosa próximo a minha porta.

- Já que fofocam tanto na porta do meu quarto, que tal compartilhar comigo e com Jason? – Dou um grito. E em seguida as vozes se calam. Rosa abre a porta e me encara, sendo seguida por Jacob, que inicia:

- Savannah. Sei que vai odiar a idéia. Mas vou dormir aqui hoje. E... – Ele olha na direção de Jason, depois abaixa o olhar para o pulso. – Nossa já são três da manhã? – Então se vira para mamãe e sussurra: — Será que Jason pode...

- Claro. Vai ser bom para a Savannah ter uma companhia de verdade pelo fim de semana.

- O QUE? – Eu e Jason gritamos ao mesmo tempo.

- Ele vai dormir aqui hoje? – Aponto para Jason.

- E amanhã também? Poxa, tio. – Ele balança a cabeça e tomba pra trás. – Eu vou morrer com essa garota aqui. Ela vai me matar! – Ele aponta na minha direção e finge estar desesperado.

Por incrível que pareça, ele não parece estar tão chato como nos outros dias. Posso até aceitar a ideia de ele dormir na mesma casa que eu por duas noites. Só duas noites.

Notas finais
;u; É isso.