Afterlife

1 Rick – O encontro


De longe, pude vê-lo. Um rapaz perfeito junto de uma garota qualquer acabou de ser empurrado para aquele cômodo nada interessante. O local era redondo, com algumas portas de metal e guardas atrás delas portando enormes metralhadoras. Acima desse espaço, que possuía algumas mesas e cadeiras extremamente desconfortáveis, havia uma área que circundava o local, com uma grade protegendo aqueles que nos observavam, também havendo guardas ali. Mas naquele momento, tudo o que eu conseguia prestar atenção era no rapaz perfeito.

Aquele rapaz é alto, forte, tem o corpo bem proporcional, músculos definidos, olhos verdes, pele clara e cabelos lisos de cor castanho-claros, em forma de topete. Meu coração começara a bater mais rápido. Fiquei ofegante. Em seguida, pude perceber que aquela garota “qualquer” era, na verdade, amiga do rapaz com o qual fora empurrada para ali. Ele, mais calmo que sua companheira, tentava confortá-la enquanto a garota tremia e respirava de forma descompassada. Já não gostei dela.

Ela é alta, magra, tem a cintura fina e peitos volumosos. Seu cabelo era bem longo, liso e de cor preta. A parte da frente era mais curta, porém não formava nenhuma franja, pois usava seu cabelo dividido ao meio. Seus olhos são castanho-escuros. Eu a achei bonita, porém extremamente mal “arrumada”. As condições não ajudavam, já que estávamos todos vestindo aquela “farda” horrenda que só indicava nosso estado de prisão. Ah, e maquiagem provavelmente seria a última coisa na qual ela pensaria ali, porém imaginei inúmeras formas nas quais o cabelo dela poderia ser melhor.

O rapaz de olhos verdes e a garota começaram a visualizar o local, como se procurassem onde sentar. Todos olhavam para eles, embora não parassem suas atividades — uns jogavam xadrez ou jogo da velha, outros conversavam, etc. As mesas, com exceção da minha e de duas outras, com pessoas não tão convidativas, estavam cheias, então eles vieram para a em que eu estava. Em nenhum momento enquanto os dois andavam até minha mesa eu desviei o olhar dos olhos do rapaz.

Eles finalmente encostaram à mesa.

— Podemos sentar? — o homem perguntou. Sua voz é um pouco grossa, firme e ao mesmo tempo suave.

— Claro — respondi, sem dar muita atenção à garota.

— Obrigado.

Sorri.

— Eu sou o Michael e essa é a Claire — o homem de olhos tão lindos quanto esmeralda disse.

— Eu sou o Rick — eu disse — Eu diria que é bom conhecê-los se não estivéssemos aqui — brinquei.

— O que é esse lugar? — Michael perguntou.

— Uma prisão para pessoas como nós.

— Pessoas como nós...? — Claire parecia não querer acreditar.

— Ezs — eu disse.

Ela frisou a testa, como se não houvesse entendido.

— Extra-humanos — tentei. Continuei olhando para a mesma feição de desentendida — Mutantes — arqueei as sobrancelhas, com a paciência já quase esgotada.

Claire respirou fundo e passou a mão na testa, em desespero. Michael tentou reconfortá-la novamente, dizendo que tudo ficaria bem. Dei uma leve risada.

— O quê?! — Michael se voltou a mim.

— “Tudo ficará bem”? Passe alguns dias aqui e mudará de pensamento.

A garota franziu a testa e demonstrou ainda mais desespero. Não era o que eu necessariamente queria, mas havia sido divertido. Michael parecia começar a ficar um pouco menos calmo.

— O que eles vão fazer conosco? — o rapaz de olhos verdes perguntou, apreensivo.

— Experimentos. Muitos experimentos. Vão tratá-los de forma horrível: apanharão, serão mal alimentados, etc. — De certa forma, eu sentia um deleite em deixá-los nervosos. Bom, pelo menos a garota.

— Meu deus — Claire disse, assustada. Michael também estava.

— Eles não podem fazer isso com a gente. Quem são eles, afinal? Nós temos nossos direitos, como qualquer outro ser humano! — Michael se exaltou.

— Porém não somos como os outros humanos, somos? — retruquei. — Eles não se importam com os nossos direitos. Não são a polícia ou o governo. São outras pessoas.

— Mas o que eles querem?! — ele ficava cada vez mais nervoso.

— Não faço ideia — Dei de ombros — Uma coisa eu sei: dependendo do poder de vocês, serão tratados de forma melhor — eu disse. Um fio de esperança pôde ser visível no rosto dos dois. — Qual o poder de vocês?

— Posso controlar o fogo — ele respondeu.

Ergui minhas sobrancelhas, não demonstrando surpresa, mas sim indiferença. Em seguida olhei para a mulher.

— Posso me regenerar — ela disse.

Meus olhos se abriram mais. Realmente fiquei admirado, e sorri de lado, maliciosamente.

— O que foi? — ela indagou, atônita.

— Você é uma garota de sorte — eu disse.

— O que você quer dizer com isso? — ela obviamente se interessou. Michael se inclinou para frente.

— O poder de regeneração é provavelmente o mais importante para eles. É o que irão considerar prioridade. Farão muitos testes com você, provavelmente até mais do que com os outros, porém terá um quarto só para si, o qual é bem confortável. Além disso, poderá ter certas regalias.

— Por quê?

— Eles não querem nem que um simples pensamento de “se matar” chegue à sua cabeça, então não irão tratar mal alguém como você.

— Isso é bom — disse Michael — Você será tratada bem até descobrirmos como fugir daqui.

— Mas e você? — ela perguntou — E ele? — a garota se voltou para mim — Quão importante é o poder dele?

— Tanto quanto qualquer outro — respondi, fazendo uma feição de pena com um leve tom sarcástico.

— Você disse que, dependendo do poder, seríamos tratados de forma melhor...

— Eu menti — disse, sorrindo — A verdade é que o único poder que realmente importa é o seu. Só falei aquilo para que pudesse saber qual era os de vocês.

Eles claramente não gostaram.

— Desculpe... Mas já sabem que você — apontei para ela — será tratada bem, não é? Isso já é alguma coisa.

— E quais são os seus? — Michael perguntou.

Dei uma leve gargalhada, respondendo, em seguida:

— Desculpe, mas não irei contar.

— Nós dissemos os nossos — ele contestou.

— Escolha de vocês — eu disse, notando seu desapontamento.

— Por que não podemos usar nossos poderes aqui? — Michael perguntou após alguns segundos.

— Eles possuem certos dispositivos que inibem nossas habilidades. Simplesmente não podemos utilizá-las dentro dessa prisão. — Olhei para uma das portas. — Oh, aqui vem eles.

As portas se abriram. Os guardas começaram a vir, gritando para que fizéssemos filas.

— Para onde estão nos levando? — Michael perguntou.

— Para nossos quartos. Como vocês são novatos, minutos após serem entregues aos seus quartos serão levados para os experimentos. Oh, e Claire... Não conte sobre seus poderes a nenhum dos outros prisioneiros.

— Por que não? — Ela se virou para mim.

—Você tem habilidades que todos queremos para que pudéssemos ter as regalias que você terá. Se descobrirem, provavelmente irão atrás de você para tentar fazer algo de ruim.

Claire ficou ainda mais espantada, mas parecia estar aguentando melhor que anteriormente. Eu apenas me deleitava, e imaginava como seria tendo Michael como meu companheiro de quarto. Seria perfeito, se não fosse pelo repugnante Milo, que já era o meu.