Afterlife
2 Claire – Desamparo
Eu estava muito assustada com tudo o que acontecia. Aquilo não era certo, de jeito nenhum. Mas não havia o que fazer. Os guardas não respondiam se tentasse falar com eles. Um até me empurrou, e disse que iria me bater da próxima vez que abrisse minha boca.
Eu ainda não havia chorado. Estava segurando durante todo aquele tempo. Tentava me fazer forte, mas sabia que iria desabar. Ontem mesmo eu havia ido à escola. Havia assistido às aulas, conversado durante a de física, dormido durante a de química... Havia sonhado beijando Kyle, minha paixão, que é um colega de classe que com certeza não se sente da mesma forma que eu... Ontem mesmo Michael havia dito o quanto gostava de mim. Não só isso, também disse que me amava. E eu tive que dizer que não sentia o mesmo, pois amava outra pessoa, e que ele seria sempre meu amigo.
Ontem mesmo estava em casa, olhando-me no espelho enquanto me cortava com a gilete de barbear do meu pai para que pudesse sentir algo. E agora estava ali, presa, sendo levada à minha cela. Eu não fiz nada. Mas estava sofrendo basicamente por ter nascido. Queria poder me cortar naquele momento. Ao fazer isso, podia me focar naquela dor, esquecer tudo ao meu redor. Podia sentir controle, de mim, do mundo. Além de poder ver minha ferida se curar e sentir minha pele se reunir e voltar a sua forma anterior. Mas nada disso poderia fazer ali.
O nó na minha garganta estava para arrebentar. Eu queria chorar. Não, eu precisava chorar. Fui jogada em uma cela onde havia duas camas. Era horrenda aquela situação, e eu sinceramente não conseguia imaginar algo pior. Ao ouvir o barulho da grade nos prendendo ali, notei que Michael fora colocado no mesmo quarto que eu, e, juntando tudo, decompus-me em lágrimas. Ele me segurou, antes que eu caísse no chão, e pude-me sentir apoiada em uma rocha enquanto uma enorme corrente oceânica tentava me levar.
Apesar de ter sido muito bom tê-lo ali comigo, aquilo não durou muito. Após poucos minutos, enquanto tentava me recompor, dois homens entraram no quarto e me chamaram. Avistei-os vindo em minha direção.
— O que vocês querem? — Michael indagou, furioso, entrando na minha frente.
Eles não paravam, e meu amigo tentou empurrá-los. Um deles sacou uma pistola e apontou para a cabeça dele, ameaçando atirar.
— Michael, para! — gritei, desesperadamente. Ele levantou os braços.
— Calma, garoto! — o guarda falou. — Logo, logo será você, tenha paciência.
O guarda continuou apontando a arma, enquanto o outro veio me pegar. Rick havia falado que em pouco tempo seríamos levados para os testes, e eu não conseguia parar de imaginar atrocidades que poderiam ser cometidas contra mim ou contra meu amigo. Estava completamente assombrada.
Enquanto eu era levada, pude notar que a expressão no rosto de Michael era puro ódio por não poder fazer nada. Ele realmente me amava, e meu coração se enchia ainda mais de tristeza por não poder correspondê-lo.
Fale com o autor