Afterlife

6 Michael – Tóxico


A forma em que tínhamos que conviver ali era humilhante. A situação em que me encontrara, ao tomar aquele banho, fora inteiramente constrangedora. Além disso, não sei se era algo da minha cabeça, mas tinha a sensação de que Rick ficara olhando para mim, para meu corpo, o que tornava aquilo ainda pior. De qualquer jeito, eu esperava que fosse apenas algo da minha cabeça.

Após o banho, enquanto voltávamos ao quarto, permaneci calado. Não sabia bem o que falar, nem me sentia com vontade. O silêncio — que não era completo, pois podíamos ouvir ao longe o barulho de outras pessoas andando, conversando, etc. — era quase tão constrangedor quanto aquele banho. Até que Rick o quebrou:

— Você tem que ser forte.

— Hã? — Aquilo tinha sido muito repentino, e eu não havia entendido.

— Você tem que ser forte — ele repetiu. — Para aguentar esse lugar, você tem que ser. E eu sei que você é — completou.

Aquilo me deixou um pouco acanhado. Rick estava sendo um ótimo apoio ali, e eu já o via como um amigo. Não podia deixar de pensar se ele me via da mesma forma ou se mais além. “Espero que não” — pensei. Eu não queria me encontrar numa situação dessas. Mas também não conseguia entender aquilo que eu sentia quando ele estava comigo. Era como se houvesse uma conexão. Como se já o conhecesse de algum lugar. Eu me sentia bem estando perto dele, e ao mesmo tempo me reprimia por isso, pois achava estranho e não queria me sentir assim com um homem.

— Obrigado — eu disse.

Ao chegarmos ao quarto, pude vê-la, e meu coração acelerou. Claire estava de costas, mas eu sabia com certeza que era ela, e não só pelos seus longos cabelos. Sorri imediatamente, e chamei por ela, a qual logo se virou. Fui velozmente abraçá-la.

— Michael! — Foi ótimo poder ouvi-la chamando meu nome enquanto nos apertávamos.

— Eu estava tão preocupado — eu disse bem próximo a ela logo após nos desvencilharmos.

— Eu também. É bom ver que está bem — ela sorriu.

Ela não sabia pelo que eu tinha passado, por isso disse aquilo. Mas para falar a verdade, eu havia esquecido dos experimentos quando a vi. Ela era linda, e provavelmente a única capaz de fazer com que eu não ficasse acabado com a situação com a qual nos encontrávamos. E talvez também a única que alimentava meu desejo de sair dali. “Não quero vê-la nesse lugar dos infernos mais nenhum segundo” — pensei.

— O que fizeram com você? — perguntei. Ela logo se demonstrou assombrada com sua feição.

— Eles fizeram inúmeros testes comigo. Foi apavorante — ela respondeu — Esse lugar é terrível.

— Sério? — Rick perguntou subitamente. O tom sarcástico em sua voz era facilmente perceptível.

Ele estava encostado na porta com os braços cruzados e com uma feição séria. Logo continuou a falar:

— Você descobriu isso agora ou quando estava no seu quarto com a temperatura perfeitamente ajustada? — ele falava de forma esnobe e sarcástica. — Oh, onde estou com a cabeça... — Riu falsamente — Esqueci-me da sua ótima televisão e das suas refeições deliciosas.

Eu não sabia de onde aquilo tudo surgira. Ele parecia falar como se a odiasse. Eu, assim como Claire, fiquei perplexo, mas também irritado. Não gostei nenhum pouco da maneira na qual ele falara com ela.

— Por que está falando isso? — Claire perguntou, claramente chateada.

— Porque é a verdade — ele respondeu.

— Você não pode falar assim com ela, cara — eu disse, alguns tons mais alto.

— Ela não passa por nada do que passamos — ele voltou a falar — Você, por exemplo. Há pouco tempo estava aí, no chão, completamente destruído, sem conseguir nem andar... E ela é quem está sofrendo?!

Claire voltou-se a mim prontamente, com um semblante apreensivo. Eu não queria que ela soubesse daquilo, não a queria se preocupando comigo.

— Isso é verdade? — ela perguntou.

— Sim — eu disse, desgostoso.

— Meu deus... Por que não me disse antes?

— Por que ele não queria que você se preocupasse com ele — Rick disse logo em seguida. — Ele obviamente a ama. É trágico que não se sente da mesma forma — ele parecia ter um dom de usar as palavras para atacar ao mesmo momento em que sua voz e sua pose permaneciam tranquilas.

— Acho que você deveria sair — eu falei, extremamente sério.

— Este também é meu quarto, mas tudo bem. Vou deixá-los a sós.

Não importava se ele havia sido uma ótima pessoa comigo, eu não gostava nem um pouco da forma que ele estava agindo naquele momento. Mas também não podia deixar de pensar que tudo aquilo era verdade. Eu já havia aceitado que ela não me amava do mesmo jeito, mas não deixaria de me importar com ela, nem de me sentir daquela forma.

Depois de Rick sair do quarto, Claire e eu ficamos sem falar por alguns segundos, até que ela comentou:

— Não pensei que ele fosse assim.

— Ele não é. Não sei o que deu nele — Logo em seguida fiquei um pouco surpreso por tê-lo defendido.

— Existe alguma forma de mudar de quarto? — Claire indagou.

— Como assim? — Eu não sabia o que ela queria dizer com aquilo.

— Você não vai querer continuar no mesmo quarto que ele, não é? — ela disse — Ele parece... Tóxico.

— Eu não vou mudar de quarto — falei, alguns tons mais alto.

— Mas...

— Ele me ajudou bastante enquanto você estava curtindo seu novo quarto — exaltei-me, interrompendo-a.

Ela se mostrou primeiramente surpresa e depois desapontada. Eu me arrependi de ter falado aquilo logo em seguida. Não é só por ela estar sendo tratada de forma diferente que eu podia minimizar sua situação.

— Sinto muito pelo jeito que reagi — pedi, olhando-a nos olhos.

— Eu também — ela disse, dirigindo-se à saída pouco tempo depois.

— Para onde você vai? — perguntei, franzindo a testa.

Ela cessou seus passos, virou para mim e falou tristemente:

— Para o meu luxo.

E então ela foi embora.

Notas finais
Por favor, deixem comentários (críticas são bem vindas, porém por favor as façam direito, não somente "tá ruim" ou algo do tipo)! Ajudarão muito! Obrigado!