Afterlife

31 Michael – Fogos de Artifício


31 de dezembro de 2014.

Era noite. 23h57min, para ser mais preciso. Faltavam três minutos para o ano novo, mas Michael já podia ouvir os estrondos dos fogos de artifício ao longe.

Sentado em sua cama, ele pensava sobre como seria estar lá fora, divertindo-se, assistindo aos fogos. Ele adorava ver a beleza dos fogos iluminando o céu escuro. Ele sempre gostou de anos novos. Mas, desde a morte de sua mãe, ele não saía mais nessa época. Não que não quisesse. Embora tivesse certo peso emocional para ele, ainda valia a pena, pois todas as memórias de uma época bem mais harmoniosa e cheia de vida surgiam em sua mente. As lembranças de quando sua mãe era viva. Porém seu pai não o deixava.

Três batidinhas foram dadas na janela que dava para sua varanda. Michael virou para olhar, e pôde avistar Ryan do outro lado.

— O que está fazendo aqui? — Michael perguntou, após deixar seu amigo entrar, com sua voz levemente fraca.

— Você adora fogos de artifício, não? — Ryan indagou, sorrindo com o canto da boca.

— Sim. Mas eu não te disse que não posso sair? E você sabe o que ele vai fazer comigo se eu for...

— Não é como se você nunca o tivesse enfrentado nenhuma vez... Mas, de qualquer jeito, não foi para isso que vim — Michael se mostrou confuso. — Vem aqui — Ryan o chamou para a varanda.

Ainda sem entender, Michael atendeu a seu chamado. Ryan olhou para o céu, e Michael, ao seu lado, fez o mesmo. Em seguida virou para o mais baixo e perguntou:

— O que foi...?

Ryan não precisou responder. Um relance de algo vermelho se elevando ao céu capturou a atenção do mais alto, que logo voltou a fitar o alto. Em meio aos vários outros estrondos, houve um que pôde ser escutado melhor, por estar mais próximo. Poucos segundos depois, vários outros fogos de artifícios foram lançados ao céu na mesma proximidade daquele anterior.

Uma mistura de cores explodia e iluminava aquela imensidão escura. Michael observava e apreciava aquilo com um brilho no olhar. Ryan, por sua vez, observava e apreciava o mais alto. E o sorriso de Michael era a razão para o outro sorrir.

— Obrigado — Michael disse, ligeiramente nostálgico, enquanto ainda olhava para o céu. Ele não se lembrava da morte de sua mãe. Não. Ele se lembrava de todos os momentos felizes que teve com ela.

***

Era como se a cada passo que eu desse uma memória surgisse em minha cabeça. Uma lembrança na qual Ryan se faz presente. Um turbilhão de emoções me perpassava, e eu me sentia como se pudesse explodir a qualquer momento. Estava com raiva, tristeza, angústia, aflição, remorso... “Como ele pudera me trair daquela forma? Me enganar... Me usar daquele jeito, como se eu não importasse? Como se eu fosse um objeto?” eu refletia. Era como se tudo o que tivéssemos vivido fosse jogado fora novamente. “Novamente” porque, antigamente, ele havia sumido e me deixado. Me deixado... Sentia-me furioso por utilizar aquele conjunto de palavras como se fôssemos algo...

Cessei meus passos, voltando à superfície após me afogar em pensamentos e lamentações acerca de Ryan. Finalmente chegara onde desejava. Assim que adentrei o local, ela roubou minha atenção: Claire, com um rabo-de-cavalo, suada, e claramente transtornada, esmurrava um saco de pancadas.

— Claire, nós devíamos voltar — eu disse, aproximando-me lentamente.

Mesmo que estivesse levemente preocupado com seus comportamentos, eu entendia aquilo. Mas eu queria que eu voltasse comigo. Claire, porém, continuou na mesma: desferindo socos no saco de pancada à sua frente, com uma expressão séria e de aversão.

Aquele era um local onde pessoas treinavam para aprender a lutar boxe. E além de aquele comportamento de Claire me preocupar um pouco, nós não estávamos no “lugar seguro”, e eu sentia medo por ela. Eu já a levara para o lugar de Killian, porém nós ainda não havíamos contado a ninguém o que acontecera, que, na verdade, a “Claire” que estava conosco anteriormente era Ryan.

Não contamos porque não sabíamos como eles iriam receber isso. Bom, na verdade essa preocupação fora minha, pois parecia que Claire não se importava muito com nada durante aqueles momentos. Parecia estar com raiva, mas ao mesmo tempo indiferente. Eu não conseguia compreender o que ela realmente estava sentindo, mas sabia da razão: ela esteve em muitas situações horríveis. Além disso, ela havia sido “esquecida”, de acordo com o que dissera a mim. Culpara-me por não ter percebido que era Ryan e não ela mesma ali comigo. Mas não bastava Claire me culpar, eu já carregava o peso disso sem ela ter que achar nada. Eu já me sentia terrível por não ter percebido, embora Ryan tivesse sido perfeito em suas “performances”, e por ter sido enganado por quem uma vez já tanto me importei. Ainda era difícil acreditar que Ryan fora capaz de fazer aquilo. Era difícil aceitar que aquele Ryan que eu conhecia faria algo assim. Mas fez.

— Claire...

— Para, Michael! — ela disse, irritada — Eu cansei de você estar sempre querendo cuidar de mim, como se eu fosse algo frágil que pode se quebrar a qualquer momento. — Ela parou de acertar o saco de pancada e se virou para mim. — Do jeito que estou não posso fazer nada. Não posso me defender, e estou cansada disso. Mas eu não sou frágil! Então se não irá concordar comigo nisso, pode ir embora. Do contrário... me apoie!

Naquele momento eu pude notar. Não poderia protegê-la para sempre, mesmo que quisesse. Não... Eu simplesmente não podia protegê-la, pois sequer havia feito isso nos últimos tempos. Eu a “abandonei”.

Cerrei meus punhos. Estava com raiva. De Ryan, sim — o que trazia mais inúmeras linhas de pensamentos em minha cabeça sobre tudo que passara com ele, sobre sua traição, sobre nossa antiga amizade... — mas também de mim mesmo. Estava com raiva de mim por tê-la “esquecido”, por não ter percebido que não era ela ali. Por não tê-la protegido como prometi a mim que faria.

Acenei com a cabeça positivamente. Eu iria apoiá-la no que viesse. Não fazia aquilo porque necessitava de seu perdão, mas porque acreditava ser o certo. Não podia mais tratá-la como se fosse frágil. Até porque mesmo passando por tudo que passou, sozinha, traída, Claire conseguira se manter viva e se salvar sem mim.