Afterlife
32 Ryan – Doce Ilusão
Escutei o barulho de algumas chaves se mexendo, e logo sorri. Eu sabia que ele estava vindo.
— Você vai chegar atrasado — eu disse de maneira brincalhona, ainda sorrindo.
Era bem cedo, e eu preparava várias panquecas na cozinha. Michael, que vinha até mim, abraçou-me por trás ternamente e me beijou carinhosamente.
— Como foi sua noite? — perguntei.
— Ótima — respondeu — Até melhor que o sexo — ele disse baixinho, também de forma brincalhona, e eu o empurrei levemente. Ambos sorríamos.
Michael me virou. Com suas mãos em meu corpo, ele me apreciava.
— Você é tão lindo — ele disse, passando os dedos entre meus fios loiros enquanto encarava meus olhos azuis. Depois, colocou seus lábios nos meus, beijando-me de forma apaixonante. — Eu te amo — ele disse.
— Eu também te amo, Hawky.
O som de vários passos velozes tomou nossa atenção. Eu podia escutar as frases “eu vou chegar primeiro!” e “não, não vai!”. Eram duas crianças que corriam. Até que uma alcançou em primeiro lugar a mesa da cozinha e começou a se mostrar vencedora, enquanto a outra alegava que ganharia da próxima vez. Aqueles dois instantaneamente alegraram mais ainda a mim e a Michael.
— Bom dia, crianças — eu disse.
— Bom dia, pai! — elas responderam, felizes.
— Estão com fome? — Michael perguntou, andando até elas.
— Sim, papai — responderam.
— Em pouco tempo as panquecas estarão prontas — eu disse, enquanto os assistia.
Michael brincava com eles enquanto o café da manhã não ficava pronto. Ele era tão bom com nossos filhos... Aquilo tudo era perfeito. Eu não poderia estar mais feliz.
***
Como num piscar de olhos, tudo mudou. A visão, que começava a normalizar, fez-me perceber alguns detalhes, como o de estar amarrado a uma cadeira. Depois, pude ver William em minha frente. Antes que tudo pudesse fazer sentido, ele passou a mão em minha cabeça e disse:
— Não pensou que aquilo fosse verdadeiro, não é?
Foi quando eu realmente pude perceber que havia sido capturado. Foi quando eu realmente pude perceber que aqueles momentos felizes com Michael não passaram de uma ilusão criada por aquele monstro.
Embora estivesse amarrado, gritei e me impulsionei para frente numa tentativa vã de atacá-lo. Eu demonstrava completo ultraje diante de tamanha crueldade. Em seguida, cabisbaixo, comecei a me sentir desolado. Meu peito doía. Eu queria chorar, e, dessa vez, as lágrimas foram mais fortes que minha vontade de segurá-las.
William, então, agarrou meus cabelos escuros e puxou com força minha cabeça, podendo observar minha dor e aflição.
— Oh... Combina com você — ele disse. Era evidente o prazer que estava sentindo.
— Seu doente filho da puta! — eu disse, aterrorizado, porém colérico. Mas aquilo só servia para fazê-lo se deliciar ainda mais — Por que não me mata logo?! — gritei.
— Oh, querida... Onde estaria a diversão nisso? — ele perguntou sarcasticamente com sua expressão perversa. — Em vez disso... Que tal outra ilusão?
Minha respiração descompassada ficou ainda mais descontrolada. Eu não queria mais daquilo. Eu não suportaria mais aquilo!
Mas ele o fez. William me fez ficar vivendo uma vida perfeita e acordando dela por várias e várias vezes seguidas dentro de poucos minutos. E ele continuou com isso durante horas.
*
— Como está se sentindo? — William perguntou.
Eu estava extremamente exausto de toda aquela manipulação que ele fazia com minha mente.
— Sabe, você até que fez muito bem o seu plano para viver a vida de Claire — ele disse — Você até mesmo mudou seu corpo original para o dela, não foi? Se te encontrasse por aí eu não seria capaz de saber que é você, mesmo com minha habilidade. Diga-me, como fez isso?
— Vá para o inferno — eu disse.
— Alguém te ajudou, não foi? Que tal me dizer quem fez isso? Não posso deixar ninguém que tenha te ajudado viver.
— Você realmente acha que o deixaria viver? Eu já o matei — menti.
— Faz sentido — ele acreditou. Ou pelo menos fingiu. — Enfim... Que tal mais uma vez? — ele indagou de forma sarcástica, referindo-se às ilusões que criava.
Foi quando eu mudei a forma de meu corpo. Ele começou a perceber em quem eu realmente estava me transformando quando a forma de meu rosto começou a mudar para uma mais “madura”, quando os fios de meu cabelo já não eram mais escuros, porém loiros e radiantes. Eu “virara” Lauren.
— Por favor, William... Pare com essa bobagem — eu disse. Eu o olhava com ternura e nostalgia — Sou eu, Lauren... Não se lembra de mim? — perguntei, mostrando uma feição de tristeza — Por que está me machucando? Você não se lembra de seu amor por mim? Eu... Eu te amo — Tentava manipulá-lo de alguma forma.
Embora parecesse que aquilo afetara William, ele se aproximou de mim e disse:
— Você teve sua chance. Você me fez sofrer, e eu a farei sofrer também.
Instantaneamente mudei minha expressão — que o fazia se lembrar daquela Lauren apaixonante e carinhosa com a qual se casara — para uma séria e que demonstrava meu desprezo por ele. Em seguida, cuspi em sua cara, e recebi um soco no rosto logo após.
— Chega de ilusões — William disse — Vamos fazer algo físico agora.
Aquele homem abominável pegou uma faca extremamente afiada e rapidamente a utilizou para fazer um corte bem profundo em um de meus pulsos, fazendo-me gritar de dor e desespero.
— O que você fez?! — indaguei atônito — Assim eu vou morrer!
Eu sabia que podia me curar a qualquer momento que quisesse, mas William não sabia. Aquela era a única vantagem que eu possuía sobre ele. Não a habilidade de me regenerar, mas o fato de ele não saber isso sobre mim. E, por isso, eu agia como se realmente fosse morrer.
— Relaxe! — ele disse em um tom alto, mostrando-me um vidro pequeno contendo sangue. — Está vendo isso? Esse é o sangue de Claire. Bom, eu tenho bem mais que isso, e é o que vai me ajudar nessa nossa nova brincadeira. Vou te fazer chegar bem próximo à morte e, depois, vou usar esse sangue para te curar! Depois eu te corto novamente e fico fazendo isso inúmeras vezes! — Era nítida em sua voz a empolgação que apenas aumentava.
Poucos segundos depois, já não bastando a imensa quantidade de sangue que jorrava de meu braço, William enfiou uma faca em meu abdômen, fazendo aquele líquido escarlate sair ainda mais. Ele se preparava para cortar-me mais uma vez, quando, já me sentindo fraco, com a cabeça caída em meu ombro, disse:
— Eu tenho uma proposta.
William parou imediatamente antes de enfiar outro objeto cortante em mim. Mostrando-se interessado, perguntou:
— Que proposta?
— Você quer poder. Você sempre quis poder. E eu posso te ajudar. Eu sei onde Claire e Michael estão ficando, e há várias outras pessoas com habilidades como as nossas lá. É uma mina de ouro para você — Minha voz fraquejava — Se me deixar ir, eu te direi onde eles estão! — Eu finalmente tinha alguma esperança de sair dali, mesmo que fosse uma que levasse várias pessoas, inclusive Killian, às ruínas.
— Sabe como fiz para conseguir contatar Michael? — ele perguntou e logo começou a responder — Fui até esse homem, Aaron, para tentar descobrir onde era esse tal local. O problema é que ele magicamente não se lembrava de nada! E creio que você teve algo a ver com isso, não é?
Eu sorri levemente como se o zombasse.
— De qualquer maneira, eu fui mexendo em sua mente para conseguir essa parte da memória dele, mas simplesmente acabei fritando sua consciência — William deu de ombros — Enfim... Eu não consegui a localização, porém consegui com que Aaron fosse até o lugar e implantei nele o que ele falaria a Michael. Sabe, eu poderia tê-lo seguido e, então, ter adquirido o poder de todos dali. Mas eu sabia que você notaria minha presença, e, por isso, eu não fui atrás dele. O que significa que eu preferi capturar você a obter todas aquelas habilidades. Então você acha mesmo que eu vou aceitar esse acordo com você agora?
“Merda”, pensei. Achava que aquilo funcionaria, mas claramente a vontade de me fazer pagar pelo que fiz era bem maior do que sua sede por poder.
— Além disso, eu já sei onde eles estão.
— Como? — perguntei, completamente indiferente.
— Dispositivo de rastreamento — William respondeu — Amo a tecnologia de hoje em dia! — ele disse alegremente — Não sei exatamente como funciona, mas foi algo que coloquei na bebida de Claire. Depois de certo tempo foi ativado e um de meus lacaios pôde obter a localização dela.
— Então o que diabos está fazendo aqui? — indaguei lentamente, sentindo que minhas energias já estavam se esvaindo por completo.
— Eu o mandei sondar o lugar. Assim que ele voltar com um relatório, irei até lá. E, então, matarei todos eles e obterei todos seus poderes. E, agora, com a habilidade de Claire, serei imortal — ele gargalhou maleficamente.
Engoli em seco. William já era assombroso tal como era. Só de imaginá-lo incapaz de ser morto... Aquilo não podia acontecer. Mas eu felizmente daria Claire para ele se isso significasse minha liberdade.
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