Afterlife

3 Rick – Desejo


O som dos outros prisioneiros conversando podia ser escutado em basicamente todos os lugares. Já era um novo dia, e, enquanto eu andava, passava o olhar pelos vidros existentes nas portas de cada quarto. Quase todos já estavam acordados e fora de seus cômodos, pois na maioria do tempo podemos andar livremente, a não ser quando capturam novos prisioneiros. Quando isso acontece, eles colocam todos nós em determinados locais para fazer a contagem, e depois nos levam para celas nas quais aguardamos os primeiros experimentos, que são sempre mais demorados. É só depois de tudo isso que finalmente somos trazidos para esses “aposentos”, que eram pelo menos mais agradáveis que aquelas celas imundas.

Naquele momento, eu ia a caminho de meu novo quarto. Isso porque eu havia sido atacado logo quando acordei pelo meu companheiro de quarto. Milo, que era muito instável, tentara me matar.

A porta já estava aberta, e antes mesmo de entrar pude sentir um cheiro muito desagradável. Eu havia sido colocado no quarto de Michael, e ao vê-lo completamente fatigado e com vários machucados, sentado no chão com suas costas na lateral da cama, corri até ele.

Eu simpatizava com o que ele estava passando e até me senti mal por ele ter que estar naquela situação, mas também não pude deixar de pensar no quanto aquele era o momento perfeito para consolá-lo.

— Michael! — chamei seu nome de forma apreensiva. Sentei-me ao seu lado.

— Me sinto horrível — ele disse, sua voz falha.

— Eu sei como está se sentindo — eu disse. Ele olhou para mim, seus olhos quase fechando de cansaço. Tudo que queria fazer era confortá-lo — Você deveria se deitar...

— Estou muito cansado para levantar.

— Vou te ajudar — falei, erguendo-me.

Estendi minhas mãos, esperando ele as alcançar. Apertei as suas com força, ao sentir seu agarro ineficiente, e puxei-o. Ele não tinha muita energia, e então logo se jogou sobre mim. Segurei-o com força para que não fôssemos ao chão, meus braços enlaçando seu corpo e um dos dele enlaçando o meu. Saboreei cada segundo daquele momento. Ele é bem pesado, mas também fazia força para não cair completamente. Em seguida, consegui sentá-lo na cama, e fui abaixando-o para repousá-lo completamente, com meu rosto bem próximo ao dele.

Meu coração estava acelerado. Seus olhos estavam fechados, e eu não queria me erguer. Eu observava cada detalhe de sua face, enquanto sentia um enorme desejo de beijar seus lábios. Podia sentir sua respiração descompassada. Passei devagar minha mão em seu rosto.

Poucos segundos depois ele abriu os olhos, os quais se encontraram imediatamente com os meus. Ergui-me da forma mais rápida possível, desviando meu olhar completamente.

— Obrigado — ele disse.

— De nada — Sorri.

Continuei sentado na cama, perto dele, por algum tempo, sentindo-me constrangido não só pelo que ele vira, mas pelo silêncio também. Até que ele disse:

— Estou muito preocupado...

— Não se preocupe, você ficará bem. Todos nós passamos por isso aqui — Tentei acalmá-lo.

— Não estou preocupado comigo. Estou preocupado com ela — ele disse.

Eu já havia me esquecido da existência daquela garota. Revirei os olhos mentalmente quando notei que ele falava dela. Não era bem de minha importância se Claire fosse ou não ficar bem, mas com certeza não queria ele se preocupando com ela. Então eu disse:

— Michael, ela vai ficar bem. Eles não a irão tratar mal de forma alguma. Provavelmente estará cansada pela quantidade de experimentos iniciais que são feitos, mas só isso. Se bobear ela já deve estar no quarto especial dela — Sorri, olhando-o.

— Você acha?

— Tenho certeza.

Pude perceber que ele ficara menos ansioso.

— O que você veio fazer aqui, de qualquer forma? — ele perguntou.

— Eu fui atacado por meu companheiro de quarto — eu disse.

— Meu deus... Você está bem?

— Está tudo bem agora. Eles me mudaram de quarto. Vou ficar aqui.

— Oh... — ele pareceu não ter gostado de escutar aquilo, talvez por isso criar a certeza de que sua amiga não mais voltaria para lá. — Pelo menos estarei com alguém conhecido — ele falou pouco tempo depois.

Meus olhos com certeza brilharam ao vê-lo sorrir para mim. Fazia tempo que eu não contemplava aquele sorriso.