After Ever After-Interativa
30 Chapter XXVIII-Ter Irmãos Deveria Ser Mais Fácil
Notas iniciais
Eu mal pude acreditar quando o professor de Física, o senhor Robinson, passou para casa. Eu realmente esperava que as coisas não fossem ser tão puxadas quanto em minha escola antiga, que nos levava ao extremo e perto da insanidade, mas pelo menos era um trabalho em grupo.
Festus e Sean não eram PA em Física, então não vieram comigo para casa depois de almoçar. Na verdade, quase nenhum decimanista era PA em Física. Sean insistia que era um desperdício de tempo criar a matéria.
Mas, bom, não era. Sem ofensas aos meus amigos, que são inclusive muito inteligentes (pelo menos, Festus é), mas eles nunca conseguiriam manter o ritmo do professor Robinson em PA. A classe era pequena, nove pessoas, mas nós nove estaríamos perdidos sem essa aula em específico. Fomos divididos em três trios, para esta lição em específico, provavelmente porque se tratava de uma profunda e cansativa análise em critérios inimaginavelmente complicados das Leis de Newton (que, para quem não sabe, são três). Alguns momentos depois de eu chegar em casa, a campainha tocou: Syaoran Li havia chegado.
O garoto estava lá, parado à minha porta, sorrindo. Ele trazia seu material dentro de uma mochila vermelha em forma de dragão pendurada em seu ombro esquerdo. Convidei-o a entrar, mas, quando eu estava fechando a porta, um pé se colocou entre a porta e o portal. Abri a porta para encontrar Uriah Bezerra, que tentava sorrir em meio à dor, e fiz ele entrar também. Levei-os até a biblioteca, o melhor lugar para fazer qualquer para casa, principalmente com Destiny e sua amiga Spencer em casa. No caminho para lá, Uriah assoviou.
–Cara- ele disse, e eu olhei para o garoto –Sua casa é enorme.
–Casa? Isso aqui é um palacete- Syaoran concordou.
–Exagerados- eu devolvo, olhando para baixo. Odiava quando falavam que nossa casa era um palacete.
–Exagerados?- Uriah perguntou, meio exasperado –Jasper, minha mãe passou a vida inteira presa numa torre minúscula. Ela me ensinou bem sobre distinção de espaços grandes e pequenos.
–Não é tão grande assim- replico, gesticulando.
–Tem razão- Syaoran concorda, e eu estranho –É maior.
–Nem vem, Li, porque a sua casa é-
–Tão grande quanto? Nem em sonho- o oriental rebate, sorrindo –Temos um quintal grande e quartos confortáveis, é verdade, mas até esse ponto… Veja bem, os Bezerra têm um estábulo.
–É, com metade das colcheiras dos Snow- Uriah responde, a língua afiada.
–Nós só temos dez colcheiras- me defend.
–Dez colcheiras? Só?- o Bezerra ironiza –Nós temos quatro, que é tudo de quê precisamos.
–E eu aqui, sem colcheiras ou cavalos- Syaoran comenta.
–Sai dessa, Syaoran-
–Shun- ele me corrige –Syaoran é muito complicado.
–Shun, que seja- continuo –Ouvi dizer que vocês têm um templo chinês no quintal.
A expressão dele se fechou um pouco.
–É uma tradição- Shun se defendeu –E já foi difícil o sufficiente para meus pais para conseguirem o templo do jeito que tinha de ser. Não é questão de riqueza, toda família chinesa deve ter um.
Uriah o mirou com estranheza mas acabou por dar de ombros. Finalmente chegamos à biblioteca, cujas portas de mogno estavam escancaradas, e eu pude ouvir barulho de uma leve discussão dentro do ambiente. Justo hoje, Apple? Girei em meus calcanhares, no objetivo de ficar de frente para Shun e Uriah.
–É o seguinte- começei –minha irmã resolveu fazer lição aqui hoje também. Mas, se vocês têm uma irmã com amigas, sabem o que isso quer dizer.
–Minha única irmã é mais ou menos nove anos mais velha- Uriah dá de ombros novamente,como que se desculpando –Nunca fomos próximos desse tanto.
–Minha irmã tem mais amigos do que amigas- Shun admite.
–Certo- digo, e penso em como explicar –Minha irmã, Apple, está lá dentro com uma de suas amigas. Só que eu já separei os livros de física, então ela vai ter de nos dar licença hoje.
–Ui.
–Quietinho aí- eu apontei para Uriah –Andem até o final desse corridor principal, até a escrivaninha perto da janela grande. Eu vou pra lá em um minuto.
Eles assentem e fazem como indicado, enquanto eu vou atrás de Apple. Eu realmente havia ocupado a biblioteca primeiro, e não conseguiria fazer nada se ela e seja-lá-quem-fosse continuassem discutindo daquele tanto. Agora, prestando mais atenção nas vozes para achar sua origem, reparei que a que não era de minha irmã parecia ser de um garoto. Apple estava trazendo um garoto pra nossa casa?
Mas, bom, admito que tudo só ficou mais estranho quando eu encontrei eles. O garoto era um branquelo vestido de preto, cuja varinha negra no bolso traseiro me fez definí-lo como Ahren Queen.
Apple estava trazendo Ahren Queen para casa?
–Apple- chamei, limpando a garganta. Os dois automaticamente se viraram para mim, e Apple parou de se esticar. Aparentemente, ela estava tentando alcançar algum livro enquanto Ahren ria dela. Minha irmã me fuzilou em um aviso mais que claro: sem comentários. Que seja –Oi, Ahren.
–Oi, Jasper- o garoto diz, meio sarcástico.
–Apple- me centro de novo no que eu precisava fazer –Preciso fazer lição de física. Tem como fazer silêncio?
–Ué, Jasp, vai pro teu quarto- minha irmã devolve, fazendo cara de quem vê alien.
–Estou com alguns colegas. É trabalho em grupo, eu separei alguns livros na escrivaninha- expliquei.
–Bom, Jasp, eu saio assim que achar o que preciso.
–E do quê você precisa?
–Um livro que minha mãe pediu emprestado- foi Ahren a devolver, umedecendo os lábios –Se chama Reconstruindo Reinos: Como Sobreviver Ao Furacão Dos Desastres Mágicos.
–Não que eu saiba porquê a mãe dele quer isso- minha irmã fuzilou o garoto, que levantou as mãos.
–Ela não me contou também.
–Mas mamãe me mandou procurar e entregar à ele- Apple o ignorou, menando a cabeça em sua direção.
–Apple- eu a chamei –O livro está literalmente debaixo do seu nariz.
–O quê?
–Olha pra baixo.
Ela olhou, e, vendo o livro, voltou a fuzilar Ahren.
–Eu vou te matar- ameaçou.
–Que reviravolta. A filha da heroína querendo matar o filho da vilã- Ahren devolve, irônico, e concluí que ele estava escondendo o livro.
–Eu juro, Queen, que se n-
–Vai, continua, Snow. Vou adorar ouvir sua ameaça vazia, eu lhe garanto- ele levantou as sobrancelhas, e eu podia sentir a raiva nos olhos de minha irmã.
–Vocês poderiam pelo menos brigar lá fora?- perguntei, atraindo a atenção de Apple, ainda fuzilante.
Minha irmã murmurou um claro e saiu empurrando Ahren para fora do lugar. Ele bateu com os dois dedos na testa num sinal de até mais que eu retribuí. Ri baixinho observando os dois sumirem de vista em alguns momentos, até me lembrar de Shun e Uriah. Corri até os dois o mais rápido que pude, me desculpando pela demora, e me sentei na mesa de mogno com os dois. Aquela lição não se faria sozinha, no final das contas.
Como no dia anterior, foi Tristan a nos levar para a escola. É claro que eu nunca havia sequer imaginado sobre papai e mamãe nos levarem, como uma família minimamente normal, mas tenho lá minhas suspeitas sobre a imaginação de Speedy.
Ela foi o percurso inteiro no banco de trás, fones de ouvido cor de rosa enfiados em amabas as orelhas. Eu não era lá um gênio quanto à moda, mas chutava que aqueles fones haviam sido escolhidos especialmente para combiner com a roupa que ela usava.
Ew, Speedy. Eu tinha fé em você.
–Malik, para de olhar assim- minha irmã praticamente me cospe as palavras, sem tirar os olhos do cellular. Meu santo Tupã, as unhas dela também estavam cor-de-rosa –Você não tem nem metade do senso de moda requerido para me acusar de fazer combinações.
–Como sabe disso?- eu devolvo, e ela levanta as sobrancelhas, ainda fazendo algo no aparelho.
–Você olhou pros meus fones, pro meu casaco e pras minhas unhas, Malik. Não é exatamente discreto, sabe?- ironizou Spencer.
–Estava falando sobre o senso de moda- jogo de volta, embora não estivesse.
–Por favor, Henry- ela me chama pelo primeiro nome –Você só usa essa Bermuda jeans com camisetas variadas, não é como se houvesse algum mistério. Acho que nem de cueca você troca.
–O que disse, sua-
–Henry, Spencer- Tristan nos chama a atenção, sem levantar a voz ou tirar os olhos da rua, e nós nos calamos imediatamente. Eu nunca vou entender como ele fazia aquil. Parecia um superpoder de irmão mais velho, sabe? –Por favor, parem de brigar. Minha cabeça já está doendo o suficiente.
–Por que não ficou em casa, cabeça?- eu e Speedy perguntamos juntos, mas o loiro nos lança um olhar cético pelo retrovisor antes de voltar para a rua.
–Acho que nós três sabemos que só iria me ajudar a piorar.
Eu sabia do que ele estava falando. Papai e mamãe haviam começado cedo naquele dia, nos acordando com seus gritos às cinco da manhã. Nós três tomamos café e saímos da maneira mais discreta que pudemos, mas eles continuaram brigando como se nem tivessem filhos.
Como sempre, aliás. De uns tempos para cá, Tristan havia agido mais como um pai para mim do que meu pai de verdade. E, com de uns tempos pra cá, eu quero dizer de uns quinze anos pra cá.
Não é como se eles não se amassem, ou não se amassem. Acho que o ponto era que, embora eles se amassem, o amor dele não foi feito para resistir à rotina. É como aquela garota que você conhece no verão, de férias, e fica apaixonado por. Você está apaixonado e é ligado à ela, mas se chama amor de verão por um motivo: não resistiria às outras rotineiras estações, porque vocês vivem em mundos completamente diferentes.
Além disso, os dois sempre quiseram a melhor criação para nós três. Mas, exatamente por serem de mundos opostos, nunca conseguiram entrar em um consenso. O que, como se precisássemos de mais problemas, nos colocou no fogo cruzado entre John e Pocahontas.
Eu costumava brincar que sempre preferi Tristan como pai, de qualquer jeito.
Olhei para meu irmão mais velho, que virava a esquina da casa de Moony. Ele ainda era, como nós, só um adolescente. Um adolescente que queria poder viver sua vida de adolescente: namorar, sair com os amigos, fazer coisas inconsequentes. Em vez disso, ele havia se forçado a amadurecer infinitamente no objetivo de tirar os irmãos mais novos de um inferno na terra.
E ali estávamos eu e Spencer, discutindo sobre meu senso de moda (que, aliás, era horrível. Odeio admitir que Speedy tenha razão, mas é a verdade). Sem nem pensar em agradecer ao nosso irmão.
Que bela família disfuncional nós formávamos.
Fale com o autor