Notas iniciais
Desta maneira, Eva encontrou nesse castelo de tudo para ser feliz. Ludmila e Dina tinham as despesas da cozinha com latas cheias de biscoitos coloridos, bolos, pães, batatas, aboboras, mandiocas, milhos, enfim. Tudo para ela não trabalhar em nada. Para fazer sopinhas, Dina lhe trouxera uma panela mágica que dispensava fogo. Bastava colocar dentro os legumes com água.

Adão e Eva montaram acampamento numa ilha fumegante, por causa do vapor em redor, numa espécie de camping onde pelo menos 60 pessoas olhavam para os esportistas radicais com binóculos. Fecharam o carro aéreo, que ficou do tamanho de uma mala de passeio, pois era desmontável, e cravaram estacas para colocar uma tenda. Alguns homens chegaram junto para ajudar Adão, se apresentando, trocando nomes e fazendo amizades. Já Eva conheceu novas amigas, que trouxeram sucos em garrafas, pão, doces para passar sobre o pão, sopas, coisas que as pessoas carregavam quando saiam para acampar. Ao anoitecer havia uma festa de índio nesse lugar. As mulheres cantavam, e os homens rebolavam em redor de uma pequena fogueira. Tinha os que tocavam violão, outros uma flauta, gaita de boca, instrumentos pequenos e fáceis de carregar.

Com passar dos dias Adão e Eva viram esses novos amigos partirem um a um. Ficaram sozinhos no lugar, dedicados a uma única coisa, ver a barriga de Eva crescer. Durante a noite, namoravam sobre as areias, escondidos embaixo de um mato amigo, ou sobre as areias. Quando entravam na tenda ficavam na cama macia, dias e noites seguidas, até que a fome os fazia engatinhar para o mato em busca de alimento. Bebiam água do rio, e só comiam frutas, pois Eva sequer fazia uma bolacha. Quando uns casais se juntavam a eles, Adão recebia os banquetes dos outros com gula.

Como Adão recobrara seus conhecimentos de parteiro, quando Amon-rá nasceu Adão deu um espetáculo diferente em meio das cascatas, pois um mar humano desceu na ilha para ver o primeiro nascimento aquático desse mundo. E muitos mergulharam com máscaras junto ao parteiro.

Eva submergiu entre peixes e tartarugas, abriu as pernas, e seu filho saiu como uma bala direto às mãos de seu pai. Adão desintegrou-lhe o cordão umbilical, lhe fechou o umbigo com um dedo, puxou a placenta do útero e lançou-a para uns peixinhos miúdos, que a comeram em pouco tempo. Depois passou o filho para sua mulher, para o bebê receber os beijos que merecia. E Eva subiu com ele no colo, enquanto era puxada para cima tomada da mão de Adão. O recém-nascido respirou, deu um sorriso para a plateia, pois nascera exibido como sempre fora, e em seguida desceu para mergulhar com papai Adão, mais uma vez. Subiram a respirar novamente, enquanto as pessoas iam e desciam junto, pois ninguém queria perder detalhes de nada.

Eva, sentada de pernas cruzadas sobre as areias, acenava para todos cada vez que as cabeças saiam da água aos berros. Todos estavam arrebatados. No fim da tarde Amon-rá mamava, Adão ensinava a uns 20 médicos os segredos do parto aquático, enquanto Eva recebia sopas quentes, bolachas, pois estava cheio de pessoas em redor.

Nos dias seguintes essa ilha lotou.

Apareceu João num carro aéreo, com metade dos filhos. Depois foi Sergei, Ludmila e Oscar, Ênio e Madalena com o filho, e por último Mirim com os trigêmeos, ela com um bebê no colo e Viktor com um em cada braço. E o melhor de tudo, chegaram banquetes prontos para ficarem sobre o chão, em tolhas de pano, para tirar papai Adão da fome.

E essa praia lotou de crianças que engatinhavam ou davam os primeiros passos. O mais velho era Oscar, orgulhoso de ter tantos sobrinhos. E Amon-rá estava um exibicionista. No colo de João gargalhava que dava gosto de ver, e o avô se derretia inteiro. Beijava seu neto, chorava um pouco, relembrando das vidas anteriores, quando sempre fora o neto mais mimado de todos. O guri gargalhava alto, e João beijava-o e dava suas risadas de urso. Depois ia para os braços de Sergei, que nunca tivera tantos netos.

No dia em que chegaram a viver no castelo, Eva estava prenhe dos gêmeos. Filhos que nem dariam trabalhos. Com o poder de suas mãos, desta vez lavar fraldas ficara no passado para Eva e Adão. Para limpar Amon-rá ela pegava folhas de bananeiras, e as transformava em panos macios, que colocava no filho. Depois de sujas as faziam desaparecer, ou, as enterrava num buraco no chão. E para limpar a bundinha, Dina a havia ensinado a transmutar flores. Elas viravam toalhinhas perfumadas, que deixavam o bebe perfumado.

O interior o castelo possuía somente um andar dentro dele. Andar que ficava a 2 metros sobre o chão. Subia-se então por uma escada de pedras, e se adentrava num salão com janelas gigantes com vitrais coloridos que iluminavam o ambiente. Desde o alto se suspendia um candelabro de 50 luzes, e no teto havia uma pintura com cenas de anjos e paisagens. Também possuía quadros, que Eva trouxera do museu da cidade, um em cada parede. Para completar a decoração do salão principal Adão instalou oito esculturas de mármore branco, quatro assentos para deitar, ou sentar, uma mesa para 20 pessoas com cadeiras altas, entalhadas e pintadas com leves toques dourados, num estilo rococó da Terra. Também instalou lumináriass nas paredes, que quando ascendiam pareciam estrelas. Os dormitórios estavam ao redor desse salão principal, ao todo uns sete deles. O maior possuía uma piscina com águas mornas, uma cama quadrada com véus em redor, e três janelas com vitrais, além de uma sacada com vasos floridos. Um guarda-roupa ocupava metade de uma parede, e no centro havia uma mesa pequena com duas cadeiras para tomar o desjejum. E as alfombras no chão estavam em todo lugar. Saindo para o térreo, estava o jardim e as quatro torres altas. Uma escada interna, num canto do salão, levava a esse telhado, onde flores, arbustos, fariam a delicia dos meninos.

Dina e João praticamente se instalaram nesse castelo esperando os noivos chegar a tomar posse. Dina já tinha um banquete de boas vindas programado, pois metade dos filhos chegara junto. Afinal, Eva e Adão eram mimados pelos pais, em todas as vidas. Sergei dava beijos escandalosos em Adão, e Eva sentava no colo de João, até depois de casada. E enquanto seus velhos os enchiam de mimos, eles os enchiam de beijos. Receita que os filhos dos filhos imitavam a risca nas duas famílias.

Desta maneira, Eva encontrou nesse castelo de tudo para ser feliz. Ludmila e Dina tinham as despesas da cozinha com latas cheias de biscoitos coloridos, bolos, pães, batatas, aboboras, mandiocas, milhos, enfim. Tudo para ela não trabalhar em nada. Para fazer sopinhas, Dina lhe trouxera uma panela mágica que dispensava fogo. Bastava colocar dentro os legumes com água.

Era a vida perfeita. A vida que Eva sempre amara. Desta vez abençoada pelo fato de que as mãos de um anjo impermeabilizava tudo. Nada se descompunha. Nada apodrecia. Apenas secava com o tempo, e frutas secas eram tão comestíveis quanto às frutas frescas. Eva colocava pêssegos secos a ferver com água, mel, cravos e canelas, que Adão comia gulosamente com trigo mote cozido.

E viver nesse lar foi delicioso desde o início. Depois de fazer o bebê dormir, Eva gostava de se alastrar sobre as alfombras como um jacaré. Rindo. E esperava a chegada de seu amado, que a amava com paixão, para namorar até sentir os berros do bebê pedindo suas mamadas.

Às vezes iam fazer piquenique na beira do lago. Comiam frutas, pois as havia em todo lugar, e dormiam a sesta por cima da grama miúda, sempre com o filho entre eles. E foi nesse lago que os gêmeos nasceram. Depois dos três dormirem uma sesta sobre a grama, Eva sentiu a dor das contrações. Imediatamente Adão examinou-a, e lhe apagou a dor com um dedo na testa. Depois continuou a examinar essa vagina a cada minuto, na espera de sentir uma cabeça empurrando. Só então entraram no lago, com Amon-rá eufórico. Ele mergulhou para ver Adão puxando Jesus, que saiu como uma bala, nadando nessa água morna, pronto para dar a primeira respirada. Adão desintegrou-lhe o cordão umbilical, fechou-lhe o umbigo com a ponta dos dedos, e deixou-o sobre a grama ao lado do irmão. Depois saiu Paulo, que foi recebido pelo pai com doçura. Eva saiu da água, engatinhando, beijou os filhotes, e deitou-se na grama esgotada. Adão sentou ao lado dela, com os dois nos braços, beijando um, outro, com Amon-rá passando a mão nas cabecinhas, feliz.

De repente, chegava todo mundo. Dina e João, Ludmila e Sergei, Ênio com Madalena, para ajudar em tudo. Principalmente nas mamadas.

E tudo continuou a ser uma vida perfeita.

Todos os dias, Eva e Adão tiravam-lhes a roupa para tomar Sol, e os 5 se estendiam na grama como lesmas. Geralmente no térreo do castelo, nesse jardim encantado. Comiam frutas, bebiam um leite, e quando os banhos de Sol terminavam Adão lhes colocava uma fralda de panos, depois que Eva os limpava com os lenços com cheiro de flores. No lago mergulhavam entre peixinhos e tartarugas, até a hora de tomar a sopa. Adão caminhava com Amon-rá sentado nos ombros, e Paulo no colo. Eva carregava Jesus numa sacola pendurada no peito. Cinco tartarugas os seguiam todos os dias como num ritual. Eram os bichinhos de Amon-rá, que lhes dava de comer na boca, e os fazia dormir num curral de areia fora do castelo.

Quando os meninos estavam maiores, Adão colocou escadas por fora para escalar os muros do castelo, como faziam os homens da Terra nos tempos medievais. Eles faziam de contas que lá dentro morava uma princesa e teriam que matar um dragão para resgatá-la. E subiam pelas escadas, como piratas, e pulavam no térreo, rindo, gargalhando, pois Eva era a princesa e o cão pastor era o dragão. A seguir Adão lhes contava historinhas de batalhas entre príncipes e bandidos, estendido no chão, com os três em redor. Eva ficava os olhando enternecida, pois a maior qualidade de seu homem sempre fora a dedicação aos filhos.

Passear a cavalo também fazia parte da rotina. Amon-rá gostava de sentar na frente de Eva, dirigindo a besta pelo mato. Jesus sentava na frente de Adão e Paulo trás dele. Cavalgavam, corriam, e tinha as vezes que se visitava Mirim e Madalena. Os primos então corriam atrás de uma bola, enquanto os irmãos conversavam sobre a vida, estendidos em algum lugar ermo.

Mas a maior aventura era percorrer o mundo no aviãozinho. Desta vez a cachorrada menor ia junto. Cinco peludos que sequer tinham 30 cm de largura. Um casal com três filhotinhos. Adão colocava duas tendas, dois colchões e um barco inflável na bagagem. E voavam direto para as cataratas onde Amon-rá nascera. E chagando lá tudo era festa, pois as crianças amavam o lugar. Ajudavam o pai instalar as tendas, a mãe na colheita de frutos, ovos e legumes, e vestiam os coletes salva-vidas. Adão inflava um bote de quatro remos e empurrava para o rio, e lá iam eles. De um lado Amon-rá com Paulo e do outro Adão com Jesus, o mais miúdo dos irmãos, magrinho, cabeludo, mas que com o pai ao lado remava com euforia. Eva se estendia no meio, com um chapéu gigante na cabeça, só de biquíni. Chegando a um lugar seguro, se lançavam nas águas para nadar.

Os rios desse planeta possuíam criaturas marinhas muito esquisitas. Os mais conhecidos eram as lagostas e camarões que deambulavam pelo chão aquático em bando. Os cardumes de peixes os acompanhavam sem machucar ninguém, pois eles se alimentavam de frutos. Milhares de plantas boiavam por sobre as aguas, com raízes cheias de sementes e caroços, que os peixes abocanhavam com gula. Mas, entre a mata ciliar havia jacas, graviolas, e peras, as frutas que a bicharada aquática adorava. Tudo que despencava sobre o rio incluindo folhas verdes e flores, os bichos abocanhavam com gula. E entre as ilhas os anjos haviam energizado pontes gigantes que estavam convertidas em parques magníficos. Uvas se enroscavam nas cordas dessas pontes, junto a outras trepadeiras cheias de flores maravilhosas. E embaixo das pontes ver as manchas dos cardumes era encantador. Muitos anjos lhes lançavam comidas, pois adoravam migalhas de pão e bolachas. Mas, mergulhar entre eles era a melhor parte. E Adão e Eva caiam entre a correnteza com as crianças com felicidade. Havia os peixões grandes que podiam ser montados, ou abraçados, e cruzar com eles o rio até não se aguentar mais. E Eva era a recordista do mergulho. Depois dela Amon-rá, que nascera naquele lugar.

De regresso ao acampamento comiam as frutas, as saladas, os ovos, pois Eva nunca carregava panelas. No máximo um garfo e um prato para cada um. Só. De barriga cheia os três irmãos dormiam lado a lado no mesmo colchão. Em seguida Adão lhes passava a mão na testa para dormir profundamente e acordar quando ele mesmo os tirasse do sonho com um estalar de dedos. Só! Desse jeito, ele podia ser feliz sem se preocupar pela segurança. Mesmo assim, rodeava a tenda dos meninos com energia para que os bichos rasteiros não os incomodassem. A cachorrada dormia fora desta vez para fazer seus cocozinhos e se abastar de frutas caídas ao chão.

E era chegada a hora de papai ser feliz. Numa outra tenda minúscula, estendia-se de costas sobre o colchão inflável esperando que sua amada deitasse junto para namorar até o raiar do Sol, para enfrentar mais um dia. Eva cozinhava ovos entre as mãos, Adão cozinhava batatas, ou mandiocas, ou chuchu, e colocavam nos pratos por sobre uma toalha no chão. Adão dispunha junto os cocos já perfurados com um palito de taquara como canudinho, e frutas a vontade. Só então acordava os meninos, depois de esvaziar o intestino e a bexiga de cada um, com toque de mão sobre a barriga.

Antes de regressar para casa, eles devolviam a mãe natureza o que lhes dera com generosidade. Desta vez com uma pequena pá de mãos, cada um carregava as sementes e os caroços, secos ao Sol. Plantavam, semeavam, pois arrancavam as varas das bananas com tudo. Adão desintegrava um buraco no chão, puxava uma muda, plantava-a, e regavam com água carregada desde o rio. Já Eva gostava de catar sementes das flores, e as soprava ao vento.

Só então desmantelavam o acampamento e voavam em direção ao castelo, onde a vida continuava.

Quando Amon-rá estava com sete anos e os gêmeos com seis, a orquestra chamou Adão e seu irmão Viktor de volta, e Eva foi convocada para dançar. Os três filhos então sentavam nas cadeiras do teatro bem comportados, junto a Mirim e seus trigêmeos, e olhavam para o pai dirigindo a orquestra, ao tio Viktor tocando o violoncelo, e a mãe pulando no palco com o tio Alain. Nos dias de apresentação os aplaudiam em pé por sobre as cadeiras, e por último corriam ao palco para receber os aplausos junto com Eva. Amon-rá levantava os braços como um campeão, fazendo todo mundo rir, e Jesus e Paulo faziam reverências, que nem palhaços. Entre os músicos seus primos repetiam a receita junto a Viktor. Quando os músicos subiam para o palco a receber aclamações, as crianças faziam a festa. Corriam para o palco, e imitavam os primos. Afinal, esse era o mundo dos anjos, um lugar do Universo onde os filhos podem tudo, e nunca são castigados por nada.

E foi assim que Amon-rá, Jesus e Paulo continuaram a crescer, no teatro, bisbilhotando tudo ao lado dos trigêmeos de Mirim. Às vezes ajudavam o avô João com a iluminação, escutando a avó Dina cantar, ou, tentavam dar uns passos ao lado do tio Alain que queria convertê-los em bailarinos. Quando a fome batia, iam para a cozinha do teatro, onde encontravam de tudo. Bolos, bolachas, cucas, frutas secas, que as famílias dos artistas colocavam todos os dias. Afinal, nesse mundo ninguém tinha um robô para os servirem.

Quando o teatro organizou a gira interespacial para outros mundos, levando junto à companhia de balé e a orquestra de Adão, os seis guris foram incluídos nas atrações. Alain lhes deu uma pequena participação numa peça, onde os seis faziam o papel de anjinhos em meio de um jardim de passarinhos. Começaram a ensaiar empolgados, pois ser um bailarino era algo assim como ser famoso. Todo mundo conhecia. E nos ensaios sempre havia gente os paparicando.

Notas finais
Quando o teatro organizou a gira interespacial para outros mundos, levando junto à companhia de balé e a orquestra de Adão, os seis guris foram incluídos nas atrações. Alain lhes deu uma pequena participação numa peça, onde os seis faziam o papel de anjinhos em meio de um jardim de passarinhos. Começaram a ensaiar empolgados, pois ser um bailarino era algo assim como ser famoso. Todo mundo conhecia. E nos ensaios sempre havia gente os paparicando.