Notas iniciais
Enquanto as mulheres falavam sobre as famílias, Adão ficava entre seus genros. E perguntava para os homens o que era ser um anjo, afinal. Até esse momento além de saber converter pedra em madeira, ele não vira muita diferença com as vidas já vividas como homem mortal. E Nestor dizia que não era nada demais. Voavam pelo espaço às vezes, visitando mundos em conflitos. Nestor, Aruma e Tana já participaram de Conselhos cármicos variadas vezes, e haviam castigado alguns milhões de almas pelas suas crueldades. No resto, a vida de um anjo era para fazer amor. Só!

A nave que levou os artistas para outros mundos possuía uma creche para os menores, em cujo lugar havia dois robôs-babas, e brinquedos a vontades. Mais lá, no centro dessa aeronave, estavam às salas de encenação, para músicos e bailarinos, e um teatro para ensaiarem todos juntos. No resto era idêntico a qualquer nave de passeio que Adão já conhecesse. Havia cinema, danceteria com luzes coloridas, muitas piscinas térmicas entre os corredores, e um refeitório entre plantas ornamentais e postes iluminados. Na parte superior estava à horta, o lugar preferido das crianças, onde podiam se deliciar com as frutas frescas em abundância. Eles puxavam bananas maduras, pêssegos, recolhiam uma melancia deliciosa, ou, se estendiam sobre uma grama gostosa a tomar um banho de Sol. Afinal, claridade é o que não faltava no centro universal. Nem era preciso luzes artificiais, pois um brilho entrava pelas cúpulas dessa horta alimentando as árvores.

Os primeiros dias dessa viagem foram tomados de uma preguiça generalizada. Somente os guris corriam bagunçando, subindo e descendo escadas, exigindo para os robôs banquetes a toda hora, ou puxando as roupas na horta para se estender ao Sol, ou, subindo por cima de um coqueiro, ou abacateiro. Na maior felicidade.

Como o espaço sempre mexia com Adão, ele começou o chamego com Eva, trancados na suíte, para namorar até o limite que fosse possível. Desidratado, depois de um tempo incontável, Adão olhou em redor em busca de água. Achou um botão na parede, que dizia: — alimentos a toda hora! Apertou e em breves instantes uma torta cheirosa com uma jarra de 3 litros de suco de melancia ficou a mostra. Na verdade estavam famintos além de desidratados. E comeram e beberam até ficarem fortes.

E essa rotina só foi interrompida, quando Alain os chamou para ensaiar.

A orquestra possuía 300 músicos, com instrumentos de sopros, cordas, batuques, e instrumentos de sons que imitavam a natureza, como canto de passarinhos, ou do vento, enfim. E a companhia de balé era composta de 150 adultos e 30 crianças, com 50 peças para ensaiar. Adão levou os músicos para um teatro e Alain ensaiou com os bailarinos em outro. Depois dos ensaios Alain e Adão estudaram o que apresentariam no primeiro planeta, pois a TV os filmaria para distribuir nas antenas de televisão interplanetária. Cada apresentação seria convertida num filme. Todos seriam vistos na tela dos cinemas dali em diante, e pela eternidade. Haveria que caprichar.

E dali em diante essa foi viagem tumultuada.

Ensaios até doer pé intercalados a cinco dias nas suítes, onde ninguém dormia nada. Após as encenações Eva caía de costas na cama, suada, cansada, e desmaiava logo entre os braços do amado. Mas, quando saia da suíte ela estava mais ágil do que nunca. E Adão a carregava no colo, para não cansar. Os filhos os alcançavam, e caminhavam abraçados. Amon-rá no meio, Jesus no lado de Eva, Paulo ao lado de Adão. Como dois cachorros peludos viajaram junto, eles chegavam escorregando pelo chão de forma engraçada.

Quando desceram no primeiro planeta, um mar humano os aguardava no aeródromo espacial.

Existia uma gritaria ensurdecedora, pois sempre havia conhecidos, ou familiares, se reencontrando nessas viagens entre os mundos. Adão desceu com Jesus nos ombros, Eva com Paulo tomado da mão, e Amon-rá desceu sozinho na frente, pois ele era metido o adulto precoce. Imitando o irmão, Viktor carregava um filho menor nos ombros, e os outros desceram tomados da mão da mãe Mirim. Abraçaram pessoas desconhecidas que estavam os esperando, e quando se viu um homem loiro de olhos azuis, abraçado em duas filhas maravilhosas, Eva deu um grito histérico e saiu correndo seguida dos meninos. Sua irmã Ana, suas filhas Sira e Diana acenavam para eles, e choravam abraçadas que nem bebê.

Adão reconheceu de longe seu irmão Nestor, marido de Ana, e sentiu que sua respiração parara, pois um nó na sua garganta estava matando-o.

Nestor correu ao encontro. Abraçaram-se longo e estendido, pois finalmente se reencontravam depois de duas encarnações perdidos um do outro. Adão chorava finalmente, e falava entre soluços: - Nossa, que saudades, cara! Olhavam-se, riam, se abraçavam novamente, pois eles foram irmãos durante muitos milênios. E se adoravam. A seguir as filhas Sira e Diana rodearam Adão, muito mais velhas do que ele desta vez, embora no centro do Universo ninguém ganhasse rugas nem cabelos brancos. Enquanto Eva e Ana azoavam o nariz, Alain achegou-se, pois agora ele era parte da família. Alain convivera com todos eles no mundo de “Z de ALPHA”, num tempo longínquo, quando todos cresceram juntos, estudaram nas mesmas escolas, e foram grandes amigos. Alain conhecia todos os filhos de Nestor e todos os seus netos. Os últimos a entrar na roda de abraços foram Aruma, esposo de Diana, e Tana, marido de Sira. Dois irmãos gigantes de corpos perfeitos, que conservavam de suas vidas silvícolas da Terra somente o corte de cabelos. Ao estilo dos índios do Xingu.

Mais além, Viktor passava pelas mesmas emoções fortes. Seus primos Guilherme e Bernardinho, irmãos gêmeos, choravam abraçado nele, enquanto Mirim se derretia em lágrimas ao lado de Alberta e Evita. Os dois grupos familiares finalmente se juntaram, para aperto de mãos, e depois partiram em direções diferentes. Nestor levou Adão para sua casa e Guilherme levou Viktor para sua mansão. E Alain foi invitado a pernoitar no centro da cidade com os que ficaram em redor. Solteiros como ele. Alguns com namorados. Mas a maioria era juventude a busca do amor.

Ana e Nestor já eram anjos muito velhos. Possuíam no currículo muitas aventuras, e contavam que seus outros filhos trigêmeos estavam viajando numa missão, junto com seus netos. E prometia visitar Adão assim que regressassem. Afinal, agora eram anjos. Nunca mais estariam separados uns dos outros. Já em casa jantaram na beira de uma piscina, embaixo de uma instalação redonda, com parreiras enroladas dando cachos de uvas gordas e suculentas. Todos deitados em sofás longos, onde se podia dormir, sentar, comer, de forma aconchegante. Eva abraçada na Sira, Adão abraçado em Diana. Ver de novo as amadas filhas havia sido o melhor dessa viagem.

Ana estava louca por notícias sobre a mãe Dina, papai João, Mariuska, Tathiane e todos seus irmãos e sobrinhos. E Eva lhe dava detalhes de tudo. Que idade eles tinham, narrava que viviam no mato, como fizeram em “Z de ALPHA”, e que a mãe Dina cantava ópera no teatro. Como Alain era agora também mais um irmão, elas riam até engasgar. Com certeza não havia um homem que tivesse mais filhos do que o pai coruja João.

Enquanto as mulheres falavam sobre as famílias, Adão ficava entre seus genros. E perguntava para os homens o que era ser um anjo, afinal. Até esse momento além de saber converter pedra em madeira, ele não vira muita diferença com as vidas já vividas como homem mortal. E Nestor dizia que não era nada demais. Voavam pelo espaço às vezes, visitando mundos em conflitos. Nestor, Aruma e Tana já participaram de Conselhos cármicos variadas vezes, e haviam castigado alguns milhões de almas pelas suas crueldades. No resto, a vida de um anjo era para fazer amor. Só!

Mas Adão queria mais detalhes:

— Eu e Eva somos justiceiros! O que vão nos pedir para fazer?

Aruma respondeu-lhe:

— Dar as sentenças! Ser um Juiz. Castigar sem dó.

— E o que devo fazer para ser justo?

Desta vez falou Nestor:

— Não ter o coração mole. Já vi os piores demônios chorando para mim como crianças. Eles têm o poder da enganação. E basta que sobreviva UM durante um juízo para que tudo regrida. Depois de encarnados eles se enchem de filhos, os ensinam a serem ladrões, desonestos, é o lado negro renasce. Como uma fruta podre que fica no cesto contaminando tudo.

— Estou assustado! Eu vi duas civilizações castigadas. Eu salvei uma delas na minha vida como guerreiro, sem saber o que estava fazendo. Mas, como Espiões chegamos num planeta cheia de gente morta. Esqueletos calcinados, e eu achei que morreram com o calor, mas, não foi nada disso. Os anjos os mataram! Dá para me explicar isso?

Nestor falou de novo:

— Foi uma decisão bem difícil! Um amigo nosso esteve nesse juízo. Esses homens destruíram tudo, os animais, as selvas, intoxicaram as aguas dos rios com sujeira industrial, envenenaram o ar com metano, gás carbônico, e o que é pior esvaziaram os mantos de petróleo. Era salvar a terra, ou salvar os homens. E os anjos escolheram o planeta. Eles caíram no sonho eterno sem saber dos porquês.

— E eu vou ter que matar? Meu! Vou me encher de filhos, cara. Todo ano vou ter um.

Rindo, Tana tomou a palavra:

— Sogro, vocês chegaram aqui com três crianças e estão trabalhando! Em “Z de ALPHA” nos davam 10 anos de licença para cada filho, ou seja, ser anjo significa trabalho. Se se tem ou não tem filho, não é tomado em conta.

Nestor acrescentou:

— Por aqui temos anjos que viajam com bebês de colo por ali... É uma loucura, cara... “00” te chama, e te envia a lugares horripilantes, pois para ele nós temos a responsabilidade de evitar a destruição universal. Ele tem medo que o “acaso”, que deu origem ao Universo, possa um dia interferir para que tudo termine. E o perigo está em todo lugar, cara. Se tu não tivesses salvado a Terra, eu agora sei, ela teria explodido e se convertido em buraco negro, e teria absorvido uma boa parte da Via Láctea. E esse mundo cheio de morte, teria atingido uns 80 planetas com vida humana numa explosão. Imagina os pedregulhos caindo, ocasionando explosões gigantescas, tudo não passa de matemática. E os planetas férteis são a coisa mais importante nessa matemática. É ali que vivemos.

— Nossa! Eu nunca pensei que o “acaso” fosse mau. E que pudesse existir o perigo de uma reversão...

— Na verdade ninguém sabe. Mas tem anjos que acreditam que se “00” não fosse o guardião, junto com todos seus primeiros filhos, os anjos veteranos, o Universo não existiria mais. O “acaso” explode estrelas sem aviso, ou, empurra planetas para fora de suas órbitas, ou nascem buracos negros em lugares perigosos, e a correria dos anjos para recobrar o equilíbrio perdido é geral. E se o anjo tem filhos, ou é solteiro, ou velho, isso é irrelevante, cara. A gente corre, e enfrenta o perigo. Que nem bombeiros da Terra. Lembram-se disso? Soou o apito da delegacia a lá iam os homens apagar o fogo. Seria a mesma coisa num nível macrocósmico.

— Mas, quantos tempos duram essas viagens, cara?

— Milênios! Mas como agora somos anjos, isso significa um mês, um ano, no máximo uns dez anos nossos.

— Estou mais confuso, cara.

— Acorda! Estamos no centro. Nas vidas passadas sempre viajávamos dando voltas elípticas em redor das Dimensões. Nossas naves demoravam anos e anos no espaço, girando, dando curvas, mas agora não, viajamos reto, e agora podemos cruzar lugares escuros, bater contra estrelas, pois não nos acontece nada, cara. Atravessamos distâncias através de tuneis pretos encurtando as distâncias. Temos uma vestimenta que parece roupa de águia. Voamos que é coisa de arrepiar. Vás gostar.

— Dá para namorar com a esposa?

— Claro! A roupa é para o homem. Tu tens que carrega-la dentro dessa vestimenta!

E os homens começaram a gargalhar até sair lágrimas. Fins da noite, quase amanhecendo, as filhas foram para casa, e Eva caiu na cama feliz. E disse:

— Gostaria de ficar aqui com elas para sempre!

— Eu também! Mas, as podemos levar conosco, o que acha?

— Isso! Elas vão amar o castelo!

E dormiram como os anjos, sorrindo. Nada faltava no cardápio da felicidade completa. Era uma vida perfeita, para todo o resto da existência. Um prêmio, uma compensação a tantas, e tantas vidas de dores e separações.

Na primeira apresentação nesse planeta maravilhoso, eles dançaram ao ar livre, num palco flutuante, no centro de uma urbe com edifícios altos. Adão começou a dirigir a orquestra, enquanto janelas dos edifícios se abriam e o som inundava toda a cidade. Desde as sacadas dos apartamentos as pessoas olhavam para o palco com binóculos, pois dava para ver os bailarinos desde longe. Eva estava vestida com uma saia rodada curta, um sutiã no peito, sentada no chão, na espera do som marcar o inicio dessa dança. Levantou-se, caminhou na ponta dos pés até o centro do palco, enquanto Alain cruzava o espaço dando giros. Em seguida veio à dança de todo o corpo de balé, o baile dos meninos, depois dos adolescentes, e em seguida todos juntos num espetáculo encantador, que duraram oito atos, e sem intervalos.

Quando o baile terminou, um carro voou por cima deles deixando cair uma chuva de pétalas de flores, enquanto das sacadas dos apartamentos as pessoas aplaudiam eufóricas.

No dia seguinte o espetáculo foi dentro de um teatro fechado, que possuía uma sala gigante, com estrado escondida na parte baixa para a orquestra, e um cenário colorido no fundo do palco. E em meio de tudo, num estrado alto, havia gente com câmeras fotográficas e filmadoras para gravar esse show nos mais mínimos detalhes. Novamente Eva iniciou a dança, mas desta vez ela levitou no ar, cabelos esvoaçando, e caiu como uma pena leve no momento que Alain a recebia no colo e girava com ela nos braços. Depois entraram os outros bailarinos, as crianças, onde Amon-rá pulou no ar que nem o tio, arrancando alaridos da plateia.

A única coisa que os pegou de surpresa, foi quando os amigos de Nestor rodearam Adão, aos berros, no fim do espetáculo. A turma de bagunceiros que inventavam as mais bobas das brincadeiras em vidas passadas, estava todos lá. Eva e Adão se emocionaram até as lágrimas abraçando esses amigos. Haviam compartilhado duas encarnações com esses baderneiros, e Adão lhes contava aos berros que iam ter que ir conhecer as cataratas de seu mundo. Iam adorar se deixar cair de nariz no vazio, num barco pirata, pois isso tinha a cara deles. Depois, mais calmos, sentados no palco, com o teatro vazio, se lembravam das vezes que se lançaram de coqueiros de 50 metros numa Escolinha Infantil, num planeta muito distante, e gargalhavam com nas recordações até sair lágrimas. Depois se lembraram do mundo primitivo, quando Adão construiu uma casa de tijolo gigante, onde se juntavam a fazer farra todos juntos. Jesus e seus irmãos, ainda de memória apagada, eram beijados, abraçados, por gente que jurava que os conhecia de milênios. E Nestor, em meio deles ria as gargalhadas. Nunca foram tão felizes como nesse mundo primitivo quando cruzavam a selva correndo em cavalos alucinados. E ficaram por ali mesmo até tarde da noite, lembrando tantas e tantas emoções.

E os dias seguintes foram todos maravilhosos.

Guilherme ofereceu um banquete para seu primo Viktor, e Adão invadiu essa mansão com a família inteira, Nestor, Ana, suas filhas, seus genros, seu cunhado Alain, para entrar em intermináveis conversas sobre o passado. Lembrar-se de outras vidas era um vicio de todos os anjos. Adão contava para Nestor sobre a Guerra dos iguanas e das aventuras com Bernardinho. Aliás, Amon-rá, no colo de Bernardinho, escutava que durante essa guerra Amon-rá havia levado Bernardinho à Presidência de uma grande nação. E Bernardinho o beijava, ria, pois o guri o mirava com cara estranha sem acreditar em nada disso.

Foi assim que Diana e Aruma também os reconheceram, pois eles tinham compartilhado com eles a Guerra dos três mundos. Mirim e Evita eram guerreiras que nem ela, que se apaixonaram por dois barbudos. Guilherme até arriscou a contar para todos da primeira vez que vira Diana na televisão, ao lado de um homem gigante, escuro como a noite, e como ele e mais uns 50 amigos, se apaixonaram dela perdidamente. Aruma ria só por educação. Alberta acrescentava que depois de esse dia, como ela não era burra, havia tingido os cabelos de loiro loiríssimo, e Diana ficara no esquecimento. Adão e Eva riam às gargalhadas. Afinal, Alberta e Diana pareciam irmãs gêmeas. Eram duas loiras deslumbrantes, rainhas absolutas desse mundo, como as mais belas de todas as belas. E Aruma, já não era mais o preto musculoso que assustava só com a presença, agora era um moreno fascinante, sensual, másculo, que continuava cheio de músculos, mas só para derreter o coração de Diana.

E o tempo se alastrou por quase mais de um ano, pois dançaram em todas as cidades do planeta, esgotando metade do repertório. E em todas essas viagens Nestor com as filhas, Bernardinho e Guilherme iam junto para fazer a festa depois dos espetáculos. Tanto a orquestra quanto a companhia de balé estava cheia de familiares e amigos de vidas passadas, e ninguém desejava mais partir. Um encantamento tomara conta das visitas e dos anfitriões.

Por tudo isso, a espera pelos bailarinos nos outros mundos foi em meio da ansiedade. Todas as peças que a televisão filmara entraram em exibição nas TV de todos os aparelhos do Centro do Universo, e dali em diante Alain tentava explicar o inexplicável para os anjos no templo.

Notas finais
E o tempo se alastrou por quase mais de um ano, pois dançaram em todas as cidades do planeta, esgotando metade do repertório. E em todas essas viagens Nestor com as filhas, Bernardinho e Guilherme iam junto para fazer a festa depois dos espetáculos. Tanto a orquestra quanto a companhia de balé estava cheia de familiares e amigos de vidas passadas, e ninguém desejava mais partir. Um encantamento tomara conta das visitas e dos anfitriões.