Adão e Eva, na guerra dos iguanas. PARTE I
8 O regresso de Fernando
Notas iniciais
Quando Mônica recebeu a notícia que Fernando estava cruzando a imensidão, começou a passar mal. Não conseguia mais dormir, pois sua libido disparara, e para se distrair começou a dar pancada. Desde o início das aulas até o anoitecer, a magricela surrava homens de até 2,30 metros, e ganhava as primeiras medalhas de ouro no peito.
Nessa altura, Adão voltara a ser o Adão de milênios atrás. Tiago e Mário não conseguiam mais vencê-lo em nenhuma disputa. Principalmente na espada, não existia guerreiro novo, nem combatente veterano que ganhasse dele. Sequer campeões gigantes, chegados de outras cidades, que apontavam de vez em quando para desafiá-lo. Eram armas primitivas, pesadíssimas, capazes de cortar uma cabeça, ou um braço de uma tacada. Além das espadas, Adão também era campeão no lançamento de lanças, arco e flechas, e facas.
E foi também nesses dias, antes de Fernando regressar, que aconteceu algo inesperado. Uma delegação de lutadores de outra cidade chegou a desafiar, não somente Adão, senão que a todos os campeões dessa Universidade de guerra. E os lutadores visitantes ingressaram no ginásio esportivo, para que todos os conhecessem.
Adônis caminhava como um Deus encarnado. Belíssimo! E ao seu lado, Perci ostentava um cabelo muito mais longo que o de Jesus. Cabelos pretos, esvoaçando ao vento, que o faziam fascinante. Em redor, o mulherio se acotovelava se oferecendo para serem cicerones e mostrar-lhes a cidade. Afinal, eram os homens mais belos da criação.
Adão viu seu pai, da sua última encarnação, enternecido. Adônis nesta vida só era cinco anos mais velho do que ele. Depois levou um susto, pois tanto ele quanto Perci sequer lembravam que eram casados de vidas passadas, e chegaram a Dabelheim à busca do amor. Adônis tinha no currículo 50 ex-namoradas e Perci 30. Depois, viu Mariuska e Tatiana na mesa de seleção de lutas, exigindo enfrentar os dois. Adão mexeu a cabeça, pois a confusão estava armada. Eva, ao lado das irmãs, ajudava a aumentar o drama. Mariuska gritava mais do que todas. E havia mais umas 30 amigas de Eva exigindo entrar na briga contra os campeões. Nina e Rosa falavam alto, que nesse mundo não havia machismo não, e que mulher lutava muito melhor do que um macho.
E pouco a pouco, foi sendo falado quem lutava contra quem, em sistema de desqualificação. Quem perdia caía fora.
Antes de ingressar no tatame, Mariuska foi revestida com cotoveleiras, joelheiras, máscara de proteção no rosto, luvas de Box, e Adônis só colocou protetor de genitais e luvas nas mãos. Num outro tatame, bem ao lado deles, Tatiana e Perci adentraram na arena da mesma forma.
Quando Adônis e Perci caíram ao chão, ambos desmaiados, Adônis com nariz quebrado e Perci com um olho inchado, fechado, rosto sangrando, esse ginásio enlouqueceu. Eva ria até engasgar. Adão em meio disso, mexia a cabeça. Ainda bem que seus filhos o haviam escutado. Estavam perdidos na farra eterna do amor, sem jamais ter magoado suas esposas, e sendo adorados como deuses vivos. Depois, ele mesmo teve que se levantar e se aprontar, pois foi chamado para enfrentar um troglodita de 2,40 metros, que mais parecia um matador de um mundo inferior. Tiago no outro tatame enfrentou outro bem parecido.
No final do dia, os dois finalistas eram Adão e Mário. E Mário desmaiou, com o terceiro soco no peito.
Depois da festa e da coroação de Adão, o invencível, antes de ir para casa, Adão e Eva foram ver Adônis no hospital.
Adônis já tinha saído da sala de cirurgia e sua cara estava enfaixada, com seu pescoço imóvel com uma peça metálica. Perci estava com os olhos tampados com gaze e compressas frescas. Eva zombou tanto quando os viu, rindo às gargalhadas, que Perci perguntou:
— Quem é? Se forem as duas loucas, eu vou começar a gritar...
Adão deu-lhe um abraço e lhe disse:
— Que nada, cara... Somos da família...
— Já sei! A família da vida anterior!
— Isso mesmo... Mas se gostam de estar amnésicos, vão continuar apanhando, estou avisando... E você, pai, não me reconhece? Nem sequer relembra de um mundo cheio de animaizinhos, sereias, cavalos brancos, pôneis, não vai recordar nada de nada?
— Adão? Dá-me um abraço, claro que me lembro... E cadê seu irmão?
— Em “A de ALPHA”, pai! Nasceu anjo desta vez, e a gangue dele também!
— Nem dá para acreditar! Mas como é que nós viemos nascer neste planeta cheio de mulheres loucas? Se eu contar que metade das vezes eu fui seduzindo, embebedado, quem é que vai acreditar?
— Ninguém! Sabe, pai, eu sei por que estou aqui. Na nossa última vida, nessa viagem sem retorno, lembra? Bem, eu morri chacinado pelos homens-iguanas... E vamos enfrentá-los porque os conhecemos, eles são homicidas desprezíveis... Mas vieram comigo todo mundo, meus pais da Terra, meus sogros, meus filhos, meus melhores amigos, vocês dois, eu nunca imaginei que chegaria uma galera inteira...
— Devem ser coisas do João... Só pode ser... Aonde ele viaja, as filhinhas vão atrás do papaizinho... Aonde a Eva se larga, o João parte atrás... É sempre a mesma coisa...
— Pois é, o João não larga a ninhada...
— Dá-me um conselho, filho... O que faço com a Mariuska? Só agora que eu sei como sou apaixonado! Assim que a vi, eu soube que sou uma minhoca que rasteja atrás dela, vida após vida... Nossa! Como ela está linda! E virgem! Nunca deixou um feioso que chegasse perto...
— Revanche, pai... Karatê, chave mestra e beijo com língua...
Adônis começou finalmente a rir.
Deu um último abraço em Adão e Eva, e os viu sair, sem se explicar o porquê ambos haviam nascido pretos. Com certeza para evitar a beleza deslumbrante. Eva possuía um corpo escultural e um cabelo encaracolado que caíam quais cascatas pelas costas. Branca, olhos azuis, fora a mulher mais linda do planeta na vida anterior. E Adão fora seu retrato vivo. Mas, Adão fora sábio, pois nascer lindo nesse planeta de guerreiros, cheio de solteiras quentes, não era uma bênção, era uma droga...
E enquanto os combatentes se machucavam, a chegada de Fernando aconteceu. Ele foi descongelado, examinado, passou por sistema de condicionamento, tomou vitaminas líquidas, e foi levado para a residência de sua família depois de 10 dias de isolamento. Um dia entrou na casa de Filomena, onde os filhos foram os primeiros a abraçar o pai. Fernando Júnior chorava que nem bebezinho. Seu pai e ele eram como irmãos gêmeos. Era como se olhar no espelho. Fernando abraçava seu garoto maravilhoso, igual a ele em tudo, e falava a si mesmo que por fim estava onde tanto sonhara. Com sua família, que amava mais do que nada no Universo. Noemi se juntou aos dois, e Amon-rá com Nohiki vieram junto. Formaram um amontoado de pessoas, e Fernando jamais fora beijado tantas vezes. Seus filhos, casados, lindos, felizes, arrasados pelo encontro. E por último, Carlos e Fabiano abraçaram o cunhado, tristes, pois não teriam idade nem profissão para ir nessa guerra com todos eles.
Em seguida, Mônica o beijou na boca em público, enquanto a turma aplaudia em coro e gritava o beija, beija, de sempre. Depois foi abraçado por Adão, que também lacrimejou, pois Fernando era mais do que um irmão para ele. Em seguida foi abraçado por Eva, por toda a antiga gangue do futebol, e depois por um mar humano. Havia nessa casa uns 300 soldados veteranos de guerra, vindos de todos os cantos do planeta, emocionados em conhecer o Comandante.
A seguir, a festa começou.
Robôs desfilaram com petiscos, bebidas, alguns começaram a dançar em redor da piscina, e Fernando com todos seus amigos sentaram numa roda com as esposas sentadas no colo, embaixo de um jacarandá florido. Era o costume desse mundo. Casado jamais sentava em cadeiras separadas. Nunca. Era o estilo de saber quem estava disponível. Solteiro nesse mundo só olhava para fêmea num canto, sozinha, ou num círculo de fofocas entre mulheres.
Enquanto Fernando narrava, para seus filhos, cunhados e amigos em redor, tudo que fizera, ocasionando gargalhadas gerais, Adônis e Perci, ainda com curativos no rosto, paravam entre os solteiros, a ouvir piadas sobre eles mesmos, pois ambos eram as chacotas dessa cidade. Tatiana e Mariuska os estavam ignorando, reunidas com amigas que já sabiam que elas eram casadas olvidadas. O pior lance desse mundo. Nem se era solteira para namorar alguém, e tinha que suportar os galhos na testa. Tatiana falava para as amigas que tentara conquistar 4 homens ultimamente, mas eles perderam-se correndo como lebres, pois casada de outras encarnações trazia junto a revanche do marido ciumento. E nesse planeta, fazer amor com a mulher de um campeão de lutas, era só para homens muito valentes, ou desavisados. Mariuska dizia que estava mais do que humilhada. Desde a sua infância, havia desprezado 80 homens, esperando pelo príncipe de sua vida, e em lugar de príncipe lhe aparecia um sapo. E as lamúrias das duas irmãs foram noite adentro. As amigas mais chegadas tentavam evitar as gargalhadas, pois sabiam o quanto estavam sofrendo. Já o resto ria até a histeria.
Depois de beber cerveja até ficar tonto, Fernando se retirou com Mônica para uma casa, que ganhara da Prefeitura. Uma mansão perto da Universidade de guerra, enorme, pois dali para frente sua vida seria festas e mais festas, para falar com seus soldados na descontração. Subiu num carrinho pequenino, e voaram para sua nova moradia. Adão e seus filhos ficaram ainda na fazenda, pois estavam empolgados com as novidades. Fernando havia-lhes dito que um deles deveria acompanhar uma frota de espiões de “E de ALPHA”, e esses espiões estavam para chegar a qualquer momento. E Adão falava que só podia ser ele. Afinal, ninguém o derrubava em luta alguma. Mas, Mário e Tiago juravam a mesma coisa. Iam fazer um campeonato. Quem ganhasse seria o escolhido. Parecia conversa de bêbado em fim de festa.
Fernando entrou em casa ainda tonto desse recebimento com álcool, mas com uma sobra de energia para namorar sua mulher, beijou-a contra a parede, num canto almofadado, assim que entraram em casa. Deixaram que a noite os envolvesse com seu silêncio, pois eles usaram a boca apenas para beijar. Falar o quando se amavam não era mais necessário. No teste de amor verdadeiro, ambos estavam qualificados para a eternidade. Quando Fernando acordou, era meio-dia, do dia seguinte.
Mônica se achava na cozinha preparando-lhe um banquete, ao lado de seu robô que chegara junto. A sopa estava pronta, as sobremesas esfriavam na geladeira, e sua mulher batia as claras em neve para fazer um suflê. Fernando abraçou-a por atrás, beijou pescoço, e seu robô, então, pegou as claras para terminar esse suflê.
Passados uns trinta dias, durante os quais só falou com telepatia com os amigos, Fernando entrou na rotina de sua vida.
Visitou todas as Universidades de guerra desse mundo, num giro internacional, acompanhado de sua esposa e seu robô cozinheiro, dando palestras para narrar aos aspirantes de guerra como eram os inimigos. Os iguanas eram impiedosos, matavam sem dor, e o mundo deles era uma sociedade decadente. Seria uma guerra corpo a corpo. Cara a cara. E por último, Fernando falava que tudo isso iria ser feito em surdina, com disfarce de iguana. No anonimato. Ele colocava uma máscara no rosto, verde, enrugada, e na língua uma coisa pontuda, que saía fora em forma engraçada. Era difícil falar com isso, mas teriam que ir ensaiando. Também falava algumas frases no idioma dos iguanas, pois dali para frente esse idioma era uma matéria obrigatória em todas as Universidades de guerra.
Depois desse giro internacional Fernando teve que vistoriar a construção das naves interespaciais, que estavam sendo terminadas numa cidade desértica.
E a cidade desse lugar solitário era algo surreal.
Havia nascido sobre um rio fininho, que trazia água dos oceanos. Uma usina convertia a água salgada em água doce, e empurrava a correnteza em direção ao deserto seco a árido. Durante todo o percurso, sulcos nasciam na horizontal, pois o verde se alinhava nas beiradas desse rio produzindo os frutos para os humanos e para os animais. Coelhos, raposas, onças, cobras, lagartos, tomavam banho, compartilhando a comida que crescia abundante para todos. Melões e abóboras enormes se alastravam, serpenteando no chão, junto às melancias gigantes de sabor refrescante.
Todos os animais herbívoros do deserto possuíam comida farta. Para evitar carnificinas, os lobos, onças e raposas eram alimentadas com ração vinda da Escola de cozinheiros. Um comboio percorria as planícies, e a comida chovia como um ritual. Algo encantador, pois os animaizinhos estavam sempre olhando para as alturas, e corriam embaixo de qualquer nave que cruzasse o deserto, como faziam os cachorros nas cidades, atrás dos carros.
E entre o rio e as areias sem fim, estava à cidade. Ela era como uma aranha gigante, com oito pés de sustentação, ruas aéreas, edifícios nas alturas, cinemas, danceterias, supermercados, e indivíduos de passagem. Pessoas que chegavam a trabalhar na construção das aeronaves espaciais, ou cientistas de todos os cantos desse mundo a estudar como se faz brotar o mato onde não existe nada, além de areias.
As naves dos guerreiros estavam estacionadas além da cidade. Elas foram construídas com Super metalponita, o único material indestrutível, pois nada o desintegrava, nem sequer a velocidade sideral.
Ao todo, eram onze naves encaixadas umas nas outras. A nave central era circular e as demais possuíam cinco lados, como um pentágono. Nos telhados de todas as dez naves, em forma de pentágono, havia uma cúpula de cristal, que absorvia nutrientes do espaço e alimentava dez pomares. Legumes eram alimentados com água, umidade do ar, com milhares de frutos pendurados em galhos, caindo em cascatas, se nutrindo com vapor do ar. No centro da nave central estava à entrada de acesso principal. Nesse lugar as pessoas levitavam, para todos os andares, através de um elevador de luz.
Fernando desenhou um horário para ele mesmo, para supervisionar esses colossos milímetro a milímetro Além do mais, com seu conhecimento em engenharia teria que supervisionar cada canto, mudar o que estava errado, inventar o que estava faltando, enfim. Trazia conhecimento suficiente para descobrir um buraquinho de décimos de milímetros, que poderia fazer as naves se desprenderem umas das outras, e ocasionar desastres.
E a rotina do comandante começou. Seria uma jornada que se alastraria através de anos, pois a missão ainda estava longe. Pulava da cama quando um sino invadia a cidade ao amanhecer, e corria de agasalho pelas ruas aéreas, até que algum amigo parava o carro e dava-lhe carona. Voavam para as montadoras, onde todos os homens se juntavam no refeitório a tomar o café da manhã. Um banquete gastronômico que incluía sucos de frutas deliciosas, tortas de frutas, cucas, empadas de nutrientes, pastelão de legumes, chás quentes, e pão recém-saído da fornalha, que com manteiga derretendo por cima fazia a todos se babarem. Ovos os havia de todos os tamanhos. Ovos de codornas, pequeninos, com pimenta por cima, ovos moles de galinhas, ovos de avestruz, gigantes, com os quais se faziam omeletes, misturados com ervas finas.
Depois das refeições, o trabalho começava. 800 engenheiros faziam tudo, ladeados de um robô aprendiz. Fernando percorria tudo a pé, escutando detalhes de engenharia e dava sugestões para melhorar o que achava pertinente. De vez em quando, se deparava com grupos de Estagiários das Escolas de Engenharia, que os visitavam para fazer pesquisas. E cada vez que Paulo e Paulina chegavam, Noemi e Fernando Júnior abordavam junto para ver o papai, misturados ao grupo de engenheiros, rindo, como quem apronta fugindo da Escola em dia de aulas.
Mônica só acompanhava Fernando ao trabalho quando os filhos os visitavam.
Abraçava-se em Noemi, a cada dia mais bela. Almoçavam juntas, e riam de tudo um pouco. E, principalmente, Noemi narrava em detalhes o dia a dia de Filomena, Eugênio, Carlos e Fabiano. Afinal, Filomena fazia questão de enviar-lhe frutas da fazenda.
Fernando Júnior preferia acompanhar o pai. Caminhavam abraçados, provocando risos ao passar, pois pareciam gêmeos. Depois, se separavam. Os filhos regressavam, e Mônica ficava os olhando, acenando com a mão enquanto o comboio subia no ar e se perdia rumo a Dabelheim. E Paulo sempre lhe falava a Fernando aos gritos: — Não pense que vai ir para essa guerra sem nós...
E o tempo continuou a se alastrar.
Os dias de Fernando era trabalho, enquanto os de sua mulher turismo, pois como médica dava plantão no hospital apenas algumas horas do dia. Nos momentos de ócio, costumava sentar em frente ao espelho falante para conversar com Eva, ou com Nina, Rosa, fofocando as novidades. Ordenava seu lindo apartamento, tomava banhos de Sol na varanda, e quando o marido voltava do batente estava pronta para fazer amor, até desmaiar.
Enquanto isso, em Dabelheim quando Adão e Eva se formaram como tenentes de combate, ambos foram convidados a lecionar para a nova safra de guerreiros que entrava nessa Universidade de guerra. E os principais calouros eram os cinco filhos de Adão, prontos para aprender a surrar o inimigo. Eva foi convidada a lecionar kung-fu e Adão luta com espadas primitivas.
Mas antes dos filhos entrarem na Universidade de guerra, o casamento de Tatiana com Perci e de Mariuska com Adônis transformou-se à sensação dessa cidade. Depois de muitas lutas corpo a corpo, os dois casais terminaram se entendendo fora e dentro do tatame. A cidade nunca se divertiu tanto, pois as pancadas eram terríveis, onde rolava beijo com língua, apertada de seios, e tentativa de estupro.
Os quatro foram desclassificados nas Universidades de guerra, pois os mestres lhes deram nota “0” no quesito “equilíbrio emocional”. Matéria básica para ir numa guerra contra primitivos ignorantes. Mas como nesse mundo havia que trabalhar, Mariuska e Tatiana foram designadas para o ensino das artes nas Escolinhas Infantis, e Perci e Adônis como treinadores de corridas, para os calouros da Escola Superior.
O homem mais feliz nessa festa de casamento era João. “00” tinha escutado suas preces. Suas filhinhas ficariam em casa, longe da matança, e lhe dariam muitos netinhos.
Mariuska ganhou uma mansão perto da casa de Dina, e Tatiana mais outra, ao lado dela. Seus maridos, que ficaram um doce depois de tantas pancadas, passaram a ser surrados de forma diferente dentro de casa. As lutadoras os recebiam com beijos ardentes, e caricias intermináveis, eles eram felizes como nunca. E elas, donas dos homens mais belos do planeta, estavam com todos os sonhos realizados. Afinal, “00” lá no alto, apenas colocara os homens a prova. Os tentou com outras damas, mas eles só amaram, mais uma vez, as esposas das vidas passadas.
Depois do casamento de suas irmãs, Eva iniciou sua carreira de professora num horário folgado.
A cada quatro dias, durante a tarde, ela ensinava aos calouros o básico. Eva mostrava como controlar as emoções, perder o medo, e realizar o terrível ataque para matar. O inimigo devia morrer com um simples toque de mãos. Eva lhes mostrava através de um boneco, os principais pontos do corpo humano, que não resistiam a um golpe certeiro. Fatais. Depois, mostrava-lhes como enterrar a ponta dos dedos nesses lugares, para ver o inimigo cair de joelhos, com parada cardíaca fulminante. Em seguida, um grupo de robôs enfileirava em frente dos alunos, para receber os golpes mortíferos. Robôs guerreiros, que se defendiam evitando os golpes com abaixadas, saltos, ou movimentos circulares. Quando o robô morria, a prova estava terminada.
Quando todos seus aprendizes estavam convertidos em assassinos profissionais, capazes de matar sem dó uns 50 robôs cada um, Eva explicava que isso só se fazia como o último recurso, numa guerra muito, mas muito primitiva. Matar na missão dos homens-iguana estava proibido. Esses pontos deveriam ser evitados. Só teriam licença para desmaiar os iguanas. E para desmaiar o adversário e deixá-lo fora de combate, Eva iniciou o ensino dos saltos. Um de cada vez. Mostrou-lhes os movimentos do corpo, das mãos, da cabeça, e por último os segredos dos golpes. Tudo em frente aos robôs, reanimados, ressuscitados, e prontos para apanhar.
E finalmente seus alunos chegaram ao enfrentamento corpo a corpo, por sexo, peso, altura, para ninguém se machucar.
Adão, em outro ginásio, fazia coisa parecida.
Iniciava suas aulas com o ensino de anatomia, mostrando os lugares mortais do corpo humano. Artérias do pescoço, da virilha, do coração, do baço, onde o inimigo morria com trauma generalizado, ou hemorragias fulminantes. Depois, ensinava a lutar, evitando esses lugares. E nas suas aulas não existiam os robôs. Os rapazes empunhavam as pesadas espadas com as duas mãos, pernas bambas, e seguiam o mestre nas manobras. Quando se conseguiu lutar só com uma mão, ele iniciou enfrentamentos corpo a corpo.
E entre os calouros, cada filho de Adão imitava os pais em tudo. Os cinco só lutavam para ganhar. Cada irmão queria ser o melhor, depois do papai, ou da mamãe.
Nohiki passou a ser, ao lado da mãe, um espetáculo dando pulos no ar. Parecia uma pena leve, que saltava mais alto do que ninguém, e que quando atingia o combatente contrário, caía por cima dele como pedra. A patada dela era fulminante. Eva esquecia que era sua professora e gritava fazendo torcidas. Pedia desculpas, atendia os feridos, os enviava a exame médico, e contava para Adão da filhinha imbatível, com telepatia.
Melhor do que Nohiki só a Noemi. Melhor que as duas juntas, era Paulina. Ela era fantástica. Tinha uma energia que desmaiava os oponentes com socos, cotovelos, joelhos, era uma máquina mortífera ambulante. Mas as outras noras não conseguiam igualá-las. Miriam evitava bem os ataques, mas não desmaiava ninguém. Ganhava por pontos, pois sua resistência física era acima da média. Podia lutar o dia todo, sem cair nem ser atingida, nem por homem, nem por mulheres. E Maláqui, definitivamente, nunca seria uma campeã. Passou mais tempo na enfermaria recuperando-se dos machucados do que lutando.
Entre os homens, Jesus e Paulo eram os melhores no kung-fu. Os mais ágeis, mais rápidos, mais mortíferos, e só perdiam um do outro. Peter resistia, voava dando pulos no ar, mas não possuía força nas patadas. Enfrentando Amon-rá, caía no tatame que nem passarinho.
Adão pela sua vez examinava seus garotos nos outros esportes, frente a outros mestres. Amon-rá e Fernando Júnior lutando Box eram dois brutamontes, que desmaiavam todo mundo. Eles só perdiam um do outro, alternadamente. E Peter, definitivamente, sangrava no Box em frente de qualquer um. Antes de terminar o ano, ele estava disputando campeonatos apenas com a esgrima. Esporte elegante que combinava com ele. Espadas grosseiras combinavam mais com Amon-rá e Fernando Júnior, que mais pareciam samurais da Terra. Imbatíveis. Invencíveis.
E pouco a pouco, o tempo começou a mostrar o rosto dos novos campeões da nova geração.
De vez em quando, Fernando e Mônica chegavam de surpresa, para ver Noemi ganhando uma medalha, ou Fernando Júnior derrotando homens com mais quilos do que ele. Ao fim do dia, festejavam ao lado dos garotos, e regressavam para a cidade do deserto em meio da noite.
Os antigos amigos do time de futebol também corriam a ver os campeonatos e a fazer torcida, afinal, se consideravam tios dos filhos de Fernando e Adão. Cada vez que ganhavam medalhas saíram com Adão para festejar, fazer piadas, pois os velhos guerreiros estavam com medo da nova geração. Quando chegava Fernando, então, terminavam bêbados de tanto tomar cervejas, brindando pelos novos tempos. Tudo indicava que os filhos de Adão e Fernando partiriam junto com eles, o que era uma felicidade, pois deixar um filho para trás, para ir numa guerra, era motivo para terríveis depressões emocionais. As piores doenças desse mundo.
E, finalmente, Fernando recebeu a ordem de “00” para organizar a partida, a qual seria dentro de 400 dias. E Fernando então, pediu aos mestres de todas as Universidades de guerra, para organizar os “campeonatos de classificação” para formar a frota de guerreiros. Podiam aspirar às vagas os veteranos que tivessem mais de 100 medalhas acumuladas, e aspirantes jovens com mais de 10.
E os torneios se iniciaram, em todas as cidades desse mundo ao mesmo tempo, com Fernando dando um giro, apertando a mão de soldados que começaram a ser classificados. Quem era casado, registrava o nome do cônjuge e sua profissão, pois ele viajaria como acompanhante, com grau de soldado raso, e teria que trabalhar ajudando os guerreiros.
Quando uns 100.000 soldados foram eleitos, chegou a vez dos torneios de todos eles entre si, para definição dos cargos de tenentes, sargentos e soldados. E, pouco a pouco, a frota foi se definindo, até chegar aos números de 30.000 tenentes, 30.000 sargentos, e o resto soldado.
Porém, a mais importante de todas as competições foi a briga dos tenentes entre si, pelos dez primeiros lugares. Eram veteranos e jovens, que desta vez se misturavam a dar pancadas, em lutas curtas, onde cair no chão era sinal de desqualificação imediata.
Adão e Eva entraram nas disputas ao lado dos amigos Tiago, Reginaldo, Abelardo, Rosa, Nina e Mário, e de todos seus filhos. O campeão desta vez viajaria para o Mundo dos iguanas, junto aos 200 espiões, de “E de ALPHA”, e isso era o desejo de todo mundo. Além do que, quem fosse nessa viagem de espionagem, seria o Segundo Comandante. A pessoa que assumiria o cargo de chefe, em caso da morte de Fernando.
No dia em que Fernando entrou no ginásio para ver o ganhador, seu sucessor, viu Adão e Fernando Júnior como os dois últimos desafiantes. Era a última luta, e ambos estavam empatados. Quem ganhasse nesse dia, viajaria com os espiões e seria nomeado segundo comandante de toda a frota.
Fernando entrou de fininho, para não distrair os brigantes, e ficou sentado ao lado de sua mulher, para ver seu garoto dando patadas, com superioridade de tudo. Era maior, e sua força nesta vida era de urso. Agarrava Adão, e o empurrava para cima, voando, e Adão tinha que usar sua força mental para cair dentro do tatame, e descer em pé. Depois recebia os socos impiedosos de Fernando Júnior, que faziam seu coração tremer de agitação. Dava impressão que ia ter um enfarte a cada instante. Adão se rendeu, cansado, dor profunda no peito, e disfarçou sua derrota caindo ao chão de costas, em forma engraçada. Fernando Júnior começou a berrar, pois sua vitória estava dedicada ao seu velho. Fernando controlou as lágrimas de orgulho, e foi abraçar o filhote, para lhe pendurar a medalha de campeão, e de Comandante-substituto, pessoalmente.
Enquanto pai e filho festejavam eufóricos, ao lado de Carlos e Fabiano que gritavam como porcos, festejando a glória do sobrinho, Mônica choramingava ao lado de Eva, pois seu garotinho iria junto com os espiões. Eva acompanhava as lamúrias em coro duplo, pois Nohiki, sua baixinha, iria enfrentar assassino antes de todos eles. Lembravam-se deles em “Z de ALPHA”, onde fizeram uma única coisa, namorar desde crianças, e correr a cavalo. Quem ia pensar que seriam dois futuros guerreiros bons de briga?
Depois chegou a hora da festa. Mais de 200 pessoas invadiram a fazenda de Filomena e Eugênio. Chegaram Adão e seus garotos, abraçados as suas mulheres, todos os amigos do time de futebol, que fizeram muitos brindes para Nohiki, a baixinha, que nunca escutou tanta piada sobre ela. Nem dava para acreditar que ela estava convertida numa heroína e no orgulho de toda a família. Apenas Filomena aguentava as lágrimas. Eugênio não parava de falar: — Ali se vai o primeiro! Fabiano e Carlos o abraçavam, pois, afinal, eles eram o consolo deles. João e Dina, cada um com um neto no colo, passavam pelo mesmo drama. Um filho de Mariuska, e uma filha de Tatiana, nascida durante todo esse tempo das pelejas, tentavam lhes dar coragem.
No meio da festa, Perci e Adônis riam felizes. De vez em quando, escutavam alguma piada sobre eles mesmos, pois estavam com licença-maternidade, e não faziam nada além de lavar fraldas e carregar filhos no colo. Mas eles viam pela frente apenas felicidade. Para eles vontade de ir para a guerra havia ficado no esquecimento.
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