Notas iniciais
Alberta desafiou Nohiki, para uma disputa livre. A seguir, o show começou, pois Alberta era ótima em qualquer enfrentamento. Nohiki empatava com ela e ambas suavam, pois não conseguiam derrubar uma a outra. Evitavam as patadas, os socos, parecia uma dança de mulheres leves. Alberta se debruçava para trás, enquanto Nohiki passava por cima dela raspando com os pés. Quando Nohiki caía ao chão, tinha que se equilibrar para não cair sentada e arrebentar seu traseiro. Foram as últimas a sair desse tatame, suadas, cansadas, e festejadas pelos seus homens. Fernando Júnior beijava sua baixinha cheio de orgulho, e falava para Guilherme das suas medalhas, com o quem fala de uma heroína.

Os espiões chegaram num grupo de 100 pessoas, ao comando de Guilherme, abraçado com a esposa Alberta, uma loira tão linda, que mais parecia uma boneca nos seus 1,80m de altura.

A espaçonave dos espiões tinha forma triangular, preta, e ficou estacionada ao lado da nave dos guerreiros, fincando cinco patas no chão, na cidade do deserto. Foram recebidos pela equipe de engenheiros construtores, que os invitaram a se locomover dali em diante num pequeno comboio doméstico, com robôs para passeá-los. Os robôs levantaram voo, cruzaram esse planeta, e desceram a uns 200 metros da Universidade de Guerra de Dabelheim, onde seriam oficialmente homenageados e recebidos.

Os espiões apareceram um a um, carregando uma capa preta nos ombros, que arrastava pelo chão, por cima de um macacão preto, justíssimo, que marcava nas mulheres cada curva do corpo.

Fernando, vestido de branco pela primeira vez, e de Fernando Júnior também de uniforme branco, ao lado de Mônica e Nohiki, ambas de macacão prateado, abraçou Guilherme e sua esposa, e lhe apresentou sua família, e seus dez primeiros tenentes que luziam uniforme cor dourada brilhante. Todos em formação linear, para aperto de mãos. Os dez tenentes eram Adão em primeiro lugar, Amon-rá, Tiago, Mário, Nina, Ênio, (um solteiro de outra cidade), Paulina, Jesus, Eva e Reginaldo. Junto deles, apertando mãos e dando abraços de boas-vindas, Noemi, Paulo, e Rosa luziam uniforme de prata com grau de tenente, Maláqui e Fernanda vestiam de laranja, e grau de soldados.

A seguir, Adão e os tenentes se encarregaram de dar as boas-vindas aos cinquenta casais vestidos de preto que acompanhavam Guilherme. Cada espião com sua esposa, como mandava o regulamento de sua profissão. Nenhum espião podia sair numa missão sem o cônjuge.

Enquanto peregrinavam pelas ruas, os anfitriões mostravam aos recém-chegados a cidade. Os bares, onde se festejava no fim do dia, e as danceterias em cujo lugar se podia dançar até o raiar do Sol.

Na frente dessa comitiva, Fernando explicava para Guilherme que tudo ainda estava sendo feito, pois a data mudara com o andar das coisas. O acabamento interno das naves, a seleção dos suprimentos, a instrução aos robôs assistentes, e que estariam prontos para a partida definitiva, no máximo em mais 500 dias.

Guilherme deu-lhe a seguir um relato interessante.

No Sistema TETHA, havia uma Sociedade superior que desejava se juntar aos guerreiros, como voluntários e esperavam a resposta de Fernando com ansiedade. Guilherme se oferecia para visitá-los e revistar as tropas. Era uma civilização descendente de cobras, que cuidava de todos os mundos inferiores naquele recanto universal. Não haviam entrado em guerra contra os homens-iguanas, só porque “00” os tinha proibido. Estavam revoltados, desiludidos, e com vontade de esmagar os assassinos.

Fernando teve vontade de chorar. Sabia a história dessas cobras de cor, e conhecê-los pessoalmente seria uma felicidade. E falou para seu novo amigo:

— Vou escrever pessoalmente uma carta para esses voluntários, falando o quanto me alegra essa notícia. E saiba que meu filho irá com vocês me representando.

— Aquele gigante? Mas como é que o vou disfarçar? Não existem iguanas com mais de 1,80 metros. Pode ver que todos meus espiões não ultrapassam essa altura.

— Utilize minha nora em terra. Meu filho vai ficar numa cápsula aérea, redonda. É um invento maravilhoso. Reflete a paisagem, por tanto é invisível. Voa, flutua, corre, e de dentro se pode fazer de tudo. Filmar, gravar, espionar, enfim.

Quando chegaram à Universidade, o ginásio principal os esperava com uma festa. Havia as mesas com delícias gastronômicas, ao lado de cadeiras confortáveis para uma longa conversa, e personalidades desse mundo que já estavam ali. Fernando apresentou a Guilherme três Sacerdotes Estelares, cinco Prefeitos, o Diretor da Escola de Ensino Superior, o Diretor da Escolinha Infantil e 5 Diretores de Universidades de guerra, além de tenentes já classificados, com uniformes prateados.

Guilherme teve que fazer um discurso, pois a curiosidade por notícias de outro mundo era grande. Um espírito de luta pairava no ar. Um entusiasmo repentino. E Guilherme era o homem que mais sabia sobre o inimigo. Lera um dossiê volumoso antes de partir, e tinha todas as respostas que afligiam os soldados. Quem eram os iguanas afinal, e o que os faziam tão perversos?

E com simplicidade falou que os iguanas eram homens que exploravam as riquezas intocáveis da natureza, como metais e petróleo, não reflorestavam... imediatamente foi interrompido, pois um: -OOOOIIIIIIIIIIIIII, que cruzou o ambiente. Retomou a palavra enfatizando que para evitar o caos da falta de energias estavam trazendo petróleo de outros mundos. Também carregavam esmeraldas, diamantes, prata e ouro. Adoravam o ouro. Para evitar resistência, matavam quem cruzasse o caminho. Sem perguntar nada. O lema deles era devastar para depois roubar.

Um tenente levantou a mão e perguntou se os iguanas se reproduziam com ovos, ou coisa similar. Guilherme deu uma risada gostosa. Explicou que não, que eles geravam filhos no útero, e que os homens gostavam do sexo e do amor de uma mulher, mas que havia coisas excêntricas. Por exemplo, em Dabelheim os homens desintegravam o sêmen após a ejaculação, para não fecundar uma mulher. Ou, evitavam a fertilidade no hospital, com uma vasectomia. Já os homens iguanas eram assassinos de bebês. Engravidavam mulheres e depois as induziam a eliminar o filho dentro do útero. Havia damas que trucidavam o feto com um mês de vida, mas se dava o caso de outras mais relaxadas, que o faziam até com 4 meses. Algumas dessas fêmeas eram levadas condenadas à morte, quando descobertas. Mas o homem que as fertilizava ficava imune. Inocente como um passarinho.

Para quebrar o gelo, pois a plateia estava petrificada, Fernando pediu que deixassem as perguntas para os dias seguintes, pois os espiões estariam visitando todas as Universidades de guerra, para desvendar a todos os mistérios dessa civilização inferior. Pediu para aproveitar as guloseimas, dançar, para que os visitantes fossem bem acolhidos.

Imediatamente, a orquestra da cidade, composta de 60 músicos, entrou num cenário com os instrumentos, o maestro pegou a batuta na mão, e a música invadiu o ambiente com sua magia. Danças populares para rodopiar ou simplesmente se deleitar, escutando-as.

No resto da noite, se falou de informalidades. Os espiões e seus anfitriões dançaram, riram, beberam cervejas, e as mesas foram ficando cada vez mais limpas. Sobraram só os pratos vazios. O Prefeito convidou os espiões para pernoitar num edifício especial para visitas distintas, algo assim como um hotel, em cujo lugar havia 50 robôs para servi-los, dentro de suítes encantadoras.

Já no saguão desse edifício, Adão desafiou Guilherme a um enfrentamento amistoso em kung-fu. Guilherme aceitou imediatamente. Necessitava de ação após meses voando congelado como um picolé. Fazia apenas 20 dias que haviam acordado, para buscar no mapa estelar o mundo dos guerreiros.

Nos dias seguintes, os espiões lutavam kung-fu com Eva, esgrima com Adão, Box com os filhos de Adão, e Guilherme treinou com Tiago uma partida de karatê. As mulheres espiãs se mediram com Noemi, Paulina, Nina e Rosa. Sem brutalidades. Coisa simples, leve, só para diversão.

Alberta desafiou Nohiki, para uma disputa livre.

A seguir, o show começou, pois Alberta era ótima em qualquer enfrentamento. Nohiki empatava com ela e ambas suavam, pois não conseguiam derrubar uma a outra. Evitavam as patadas, os socos, parecia uma dança de mulheres leves. Alberta se debruçava para trás, enquanto Nohiki passava por cima dela raspando com os pés. Quando Nohiki caía ao chão, tinha que se equilibrar para não cair sentada e arrebentar seu traseiro. Foram as últimas a sair desse tatame, suadas, cansadas, e festejadas pelos seus homens. Fernando Júnior beijava sua baixinha cheio de orgulho, e falava para Guilherme das suas medalhas, com o quem fala de uma heroína.

Para terminar o dia de convivência, espiões e anfitriões foram num bar da cidade a conversar e saborear algumas cervejas.

Quando todos estavam levemente soltos com a bebedeira, a conversa sobre a guerra tomou conta. Guilherme e Alberta narravam histórias de outras guerras, que já visitaram de longe, e contavam para todos como os homens primitivos se matavam sem dó nem piedade, e que um guerreiro como eles não estava fora de perigo, não. Por mais bem preparados, a morte podia chegar para qualquer um.

Adão lhes contou aos novos amigos sobre suas filhas heroínas, que haviam lutado na Guerra dos três mundos fazia milênios atrás, ao lado de seus sobrinhos. E acrescentava que sua filha Areti havia ficado viúva, e teve que continuar a invasão sozinha, ao mando da tropa. Então, a morte estava os esperando, sim.

Guilherme ficou curioso. Numa de suas encarnações, ele nascera num mundo em guerra com dois planetas vizinhos. Conhecera os guerreiros Alexandro e Zezé, e Aruma, casado com uma deusa loura, maravilhosa. E Areti era o comandante das tropas estelares, uma pretinha baixinha. Era essa a guerra dos três mundos?

Adão falou eufórico:

— É claro que é! A loura é Diana, minha outra filha. Mas você era o quê?

— Empresário! Eu sei como funciona a riqueza num planeta inferior... Rico não é tão ruim assim... Metade deles é prisioneiro dos donos do poder. Vai ver com seus próprios olhos, Adão... Num mundo inferior, é muito pior nascer rico do que ser pobre. Acredita em mim... As dores de cabeça são maiores...

— Eu, na verdade, só conheço a pobreza. Na Terra nasci carente, pobre, paupérrimo, passávamos frio, fome, mas meus pais eram maravilhosos. Cheios de ternura. E nesta vida, eles estão mais uma vez comigo, como meus pais definitivos...

— Não falei? Pobre não mata filho na barriga. Tem sempre uma dúzia em redor. Quem mata são os que têm dinheiro... E fazem coisas piores... Já ouviu falar sobre as drogas?

— Na Terra, eu vi drogado durante as Olimpíadas. Mas jamais entendi para quê?

— Para sobreviver! Numa sociedade inferior à vida se torna tão terrível que as pessoas necessitam esquecer a realidade. E é ali que entra a droga. Dá uma ilusão da felicidade. Então resumindo, enquanto a maioria dos homens vive a irrealidade, totalmente drogados, os que estão no poder, podem fazer tudo na impunidade... É bom que o povo se drogue. É muito bom para os que mandam...

— Mas que eu me lembre, quem vendia drogas era a Máfia. Eu lutei contra isso. Espionei mafiosos na Terra, que controlavam o comércio ilegal de entorpecentes...

— Mas são protegidos pelos governantes... Os policiais apreendem 90 quilos de drogas, só para enganar o povo. Mas em surdina deixam entrar, nas rotas do tráfico, 10.000 quilos.

— Então tudo obedece a um plano maior?

— Podes crer que sim...

Tarde da noite, as visitas foram descansar e Adão e seus amigos os deixaram no saguão do edifício, marcando novos encontros de diversão, trabalhos ou bebedeiras.

Guilherme não parava de gargalhar. Os guerreiros pareciam guris indo para viagem de férias. Ninguém estava com medo dos homens-iguanas, por mais terríveis que eles fossem.

Enquanto isso, Fernando Júnior e Nohiki se preparavam para viajar com Guilherme.

Fernando Júnior estocou equipamentos de filmagens, e pediu a Nohiki para fazer um documentário de despedida. Do cume do Mirante filmaram a cidade, intercalada de volúpia na grama, sensualidade por cima de galhos frondosos, pois a natureza acordava o desejo de fazer amor. Sobre o futuro, Fernando Júnior só tinha medo de uma coisa, ficar viúvo. Nohiki o consolava, contando que Eva estava costurando para ela um colete especial, com fibras metalizadas, que repeliam balas e facadas. A seguir, o beijava com doçura e acariciava seus cabelos, pois seu amado era um gigante só para assustar os inimigos. Por dentro, era um bebezinho. Uma alma pura, translúcida, que presenciou os maiores horrores da Terra, sem nunca ficar contagiado com a maldade.

No longínquo passado na Terra, cada vez que Adão o enviava numa missão pelo mundo, Fernando Júnior descia nas tribos assassinas e se protegia dos atacantes. Depois que os homicidas abrandavam a luta, filmava o povo, os meninos, as viúvas, os animaizinhos, e os escravos. Adorava registrar sequências de escravizados. Geralmente os salvava dos opressores, lhes desintegrava as argolas, e os deixava cair de sua nave voadora numa ilha, ou um Oásis.

E foi assim também que conhecera a Nohiki. Ela transportava água de uma fonte, abatida pelo peso, e Fernando Júnior lhe desintegrou a carga, o grilhão das mãos, e depois lhe deu um beijo. Transportou-a para sua nave, desceram num Oásis, e se apaixonaram para a eternidade.

O que é que Fernando Júnior viu na baixinha, para se amarrar assim? Era algo que Nohiki se perguntava vida após vida, pois ele era escravo de seus encantos. Agora, o que é que Fernando Júnior tinha para ser amado pela sua esposa? TUDO! Não havia ser mais lindo em lugar nenhum do Universo para ela.

E agora, antes de partir para uma guerra, Nohiki jurava que nunca o deixaria viúvo. Acariciava seus cabelos, enquanto Nohiki jurava que nada, mais nada, era capaz de separá-lo dela, pois o amava, adorava, idolatrava. Na medida em que ia falando, Fernando Júnior apertava-a cada vez com mais ânsia, num abraço de urso, pois ela mal conseguia respirar. Depois sentaram na grama até o anoitecer.

Em outro lugar, Adão e Eva se consolavam mutuamente. Durante milênios, eles haviam partido deixando seus pais em meio às lágrimas num mar de tristezas. Agora eles estavam no lado oposto. Vendo uma filha partir, e não havia nenhuma certeza que a encontrariam viva quando chegassem nessa guerra.

Para descontrair da angústia que estava tomando conta da família, e dele mesmo, Fernando fez uma festa de despedida para os espiões e para seu filhote. Chamou todos seus tenentes, todos os amigos, e o salão do ginásio esportivo lotou de alegria com música, banquete para todos, e proibiu a palavra tristeza e as lágrimas.

Mas, mesmo assim, num canto escondido, Eva junto a Dina, Filomena e Mônica lacrimejavam, se consolando mutuamente, pois a viuvez podia acontecer e o suicídio era proibido desta vez. João se arrepiava todo só de imaginar sua netinha em meio de criminosos. Mas postergou sua parada cardíaca. Ainda teria que ver a partida de Eva, de seus quatro netos, acontecimento que com certeza ia matá-lo de verdade. Eugênio, Carlos e Fabiano passavam por emoções diferentes. Eugênio estava furioso porque ele detestava guerra e mortes. Carlos e Fabiano tristes, com inveja sã do sobrinho, pois teriam gostado de ir com ele nessa viagem para outro mundo.

Quando a luz do Sol começou a iluminar a aurora de um novo dia, a nave dos espiões já estava no ar, voejando por cima da cidade, como uma arraia gigante escurecendo o alvorecer. Acendeu uma luz branca, de 100 metros de diâmetro, e os que partiam foram içados no ar, lentamente, enquanto lá embaixo as lágrimas escorregavam nos rostos dos que ficavam.

Todos os irmãos rodearam a Adão e Eva, formando um grupo carinhoso, para que seus velhos minguassem o sofrimento. Nunca pensaram que um dia a baixinha os faria sofrer a todos desse jeito.

Dentro da nave, defronte a uma janela gigantesca, Nohiki chorava como uma criança, acenando com a mão para sua família. Fernando Júnior como representante de seu pai manteve a altivez. Acenou, enviou beijos com a mão, e se fez de engraçado fazendo caretas esquisitas. Subiram lentamente, deram um giro pelo mundo, e cruzaram as alturas com rumo para a escuridão.

De repente, estavam na velocidade invisível. O mundo ficara para trás e só as luzes das estrelas se enxergavam. Sempre abraçados, Fernando Júnior estava mudo, e Nohiki havia parado o drama. E ficaram assim até que Guilherme chegou perto, para lhes avisar que deveriam se congelar. Cruzaram então os corredores, entraram numa sala fria, e deitaram sobre um leito duro. Um robô médico lhes desintegrou as fezes internas, e lhes deu um banho de luz violeta para desinfecção. Em seguida, uma cúpula redonda os envolveu, e eles dormiram. Uma vez congelados, foram alinhados na parede, em cavidades verticais.

Enquanto isso, na cabine dos comandos, Guilherme com os pilotos procuravam o túnel do tempo. Uma minhoca que “00” inventara para dar mais rapidez às missões dos espiões. De repente, ela ficou nítida, na forma de um círculo amarelo com o centro preto como breu. Guilherme mostrou a rota espacial aos robôs pilotos, enquanto ele e os pilotos humanos correram para se fechar nas cabines, antes de entrar nessa minhoca escura. A nave foi absorvida com tanta força, que cruzou o universo de ponta a ponta, num tempo recorde.

No dia em que saíram do túnel do tempo, os robôs começaram a descongelar a tripulação humana. Primeiro Guilherme e Alberta, e por último Fernando Júnior e sua esposa. Os corpos foram acondicionados pouco a pouco à temperatura normal. Em seguida mangueiras foram introduzidas diretamente no baço com um líquido verde pastoso, para dar energias ao corpo e colocar os órgãos em movimento. Como quem nasce de novo. Depois, flutuaram na câmera com gravidade zero, na espera dos medicamentos terminarem seu trabalho. E finalmente, foram levitados até a cama de cada casal, nas suítes, para sair dela no dia em que aprendessem a caminhar de novo.

Guilherme e sua mulher deram a cara nos comandos depois de um mês a fio nessa cama maravilhosa. Não havia nada melhor para recuperar a forma do que fazer amor sem trégua. O resto da tripulação foram aparecendo aos poucos, se encontrando ao redor da mesa da cozinha, ou numa piscina, ou num ginásio a dar patadas contra sacolas de areia. Caminhavam com lentidão, e tinha vezes que os homens se estendiam no chão com os braços em cruz. Também boiavam na piscina, na espera do corpo recuperar toda sua força, e ser mais uma vez um lobo feroz com capacidade de fazer amor sem trégua.

Fernando Júnior mostrou a cara com sua pequena, com ela nos braços, rindo que nem recém-casados, e caiu na piscina, um dia qualquer. Nadaram, conversaram com todo mundo, beberam sucos de frutas, se lambuzaram com sanduíches de ovos com legumes, e foram dar uma volta pela nave, caminhando pelos corredores, sempre abraçados.

Guilherme lhes apresentou Olaf e China, pois Nohiki e China eram idênticas. As de menor estatura de todos eles, olhos puxados, boca vermelha, e lindíssimas. Eram bonequinhas de luxo. E China e Nohiki se amaram na hora, pois pareciam gêmeas.

Numa tarde de ócio, Nohiki e China foram até as cozinhas, pois Nohiki achava a comida dessa tripulação um absurdo. Horrível. Tudo era colocado entre um pão. Era tanta massa que seu estômago estava estufado. Preparou legumes com cogumelos e molhos de soja, acompanhados de macarrão finíssimo. Pegou folhas das parreiras da horta, ferveu, e enrolou com recheio de arroz com nutrientes. Também encheu abobrinhas com o mesmo recheio e cozinhou numa sopa vermelha de tomates. Fez cozido de berinjelas com pimentões, cebolas, alho, tomates, com azeites variados. Em seguida, fez panquecas de tapioca recheadas de legumes e nutrientes, cobertas com queijo ralado e verduras picadas bem fininhas. China bateu claras em neve para fazer suflês de cenouras, e de milho verde. Depois, fez uma maionese batendo ovos com azeite, misturou com azeitonas, cebolas, cenouras, beterrabas, couve e feijão de vara, tudo cozinhado previamente ao vapor. Por cima, decorou com cascas de tomates em forma de rosas, e folhas de manjericão. China também fez moranga cortada, flutuando em calda de caramelo, um doce de leite que mexeu com a ajuda de um robô durante duas horas, fez pêssegos em caldas em mais uma panela de barro, aos cuidados de mais um robô. E finalmente misturou os morangos com suspiros brancos e creme batido numa bacia gigante.

Quando Guilherme sentiu o cheiro disso tudo, entrou nas cozinhas e viu de olhos arregalados o maior espetáculo do universo. Um banquete para todos. Assobiou para sua turma, que chegou correndo incrédula. Nossa! Essa viagem começava a ficar boa. Sentaram nas mesas da cozinha, parabenizando Fernando Júnior e Olaf pelas cozinheiras, e comeram até ficar atravessados.

Dali para frente, essa rotina foi maravilhosa.

Faziam amor nas suítes até cair exaustos, e comiam banquetes na cozinha até ficar desfalecidos. Guilherme falava que estavam engordando, e os mandava a dar patadas nos sacos de areias ou a jogar futebol de salão. Mas um ar de preguiça havia tomado conta dessa tripulação. Tudo culpa de Fernando Júnior, que dava o mau exemplo. Fernando Júnior beijava sua baixinha, ria com os novos amigos, pois essa nave mais parecia colônia de férias. Ninguém mais usava uniforme. Eram bermudas, camisetas sem mangas, chinelo no pé, no tempo em que as mulheres vestiam coisas que torturavam os machos. Vestidos apertadíssimos, decotes com metade dos seios à mostra, blusas tomaram que caia com saias com abertura para mostrar uma perna. Complementavam o visual fashion com colares, brincos, perfumes, maquiagem, para seduzi-los sem piedade. Isso era culpa de Alberta, que trouxera um guarda-roupa de festa grande e volumoso, e que emprestava para todo mundo.

O mais engraçado que Alberta transportara, eram os calçados. Uma coleção de sapatos de vários mundos primitivos. Nohiki colocou um salto alto, e ficou equilibrando o corpo, pois era divertido. Começou a andar ajudada pela China, como quem aprende a andar pela primeira vez.

Depois, tudo virou bagunça.

Organizaram um desfile de moda entre os homens, de salto alto, mexendo os quadris, taça de vinho na mão, luvas pretas até o cotovelo, penteados estranhos, com os vestidos apertados como luva, e apinhadas de joias. Após o desfile, os homens as levaram a dançar. Nossa! Foi a melhor noite dessa viagem, pois a mulherada havia exagerado no visual. Aconteceram danças enquanto as bocas beijavam, escorregando a baba. Ainda beberam cerveja, vinho, e quando chegaram às suítes tiveram que tirar o vestido das esposas aos poucos, com paciência, pois eram emprestados. Nada de desintegração, como faziam com os agasalhos.

Depois de 20 dias desse desfile, a sirene começou a tocar um barulho ensurdecedor, e todos correram para as cabines de pilotagem, vestidos a rigor. O mundo das cobras estava na frente. E uma comitiva de recepção avançava pelo espaço para escoltá-los até o planeta. Naves espaciais menores, formando um batalhão de combatentes.

Notas finais
Numa tarde de ócio, Nohiki e China foram até as cozinhas, pois Nohiki achava a comida dessa tripulação um absurdo. Horrível. Tudo era colocado entre um pão. Era tanta massa que seu estômago estava estufado. Preparou legumes com cogumelos e molhos de soja, acompanhados de macarrão finíssimo. Pegou folhas das parreiras da horta, ferveu, e enrolou com recheio de arroz com nutrientes. Também encheu abobrinhas com o mesmo recheio e cozinhou numa sopa vermelha de tomates. Fez cozido de berinjelas com pimentões, cebolas, alho, tomates, com azeites variados. Em seguida, fez panquecas de tapioca recheadas de legumes e nutrientes, cobertas com queijo ralado e verduras picadas bem fininhas. China bateu claras em neve para fazer suflês de cenouras, e de milho verde. Depois, fez uma maionese batendo ovos com azeite, misturou com azeitonas, cebolas, cenouras, beterrabas, couve e feijão de vara, tudo cozinhado previamente ao vapor. Por cima, decorou com cascas de tomates em forma de rosas, e folhas de manjericão.