Adão e Eva, na guerra dos iguanas. PARTE I
10 O planeta das cobras
Notas iniciais
Quando as aeronaves das cobras enfileiraram aos lados, em fileira dupla, Guilherme e Fernando Júnior se posicionaram defronte às janelas da esquerda, para acenar com a mão. Os navios quase se encostavam. Telepaticamente, um homem-cobra deu as saudações para os dois comandantes, falando que os esperava fazia muitos anos, e que era uma felicidade tê-los finalmente em seu mundo. Guilherme pediu que lhes assinalassem o caminho. E, pouco a pouco, a formação foi se delineando.
A nave dos espiões tomou a direção definitiva rumo a esse planeta, posicionada no centro de uma longa fileira.
Entraram na atmosfera desse astro, deram um giro pelo mundo, e baixaram numa cidade onde um aeroporto interestelar os recebeu. Ele era como uma árvore gigante com muitos terraços de ancoradouro. Os espiões entraram na última plataforma, pararam a nave, abriam as portas e saíram para abraçar um mar humano, que chegou correndo a rodeá-los com abraços, beijos no rosto, aperto de mãos, numa euforia geral.
As pessoas se identificavam: — Sou guerreiro estelar, ou: – Sou o tenente Rogério, sem encontrarem nenhuma personalidade. Não havia sacerdote estelar, ou prefeito, nem diretor de escolas, nem coisa alguma. Havia os mais velhos, gênios e sábios, mas jamais eles se identificavam dessa maneira. Apenas deram seu nome e com telepatia os informaram a todos ao respeito de uma reunião nas dependências do Museu.
O Museu era um palácio milenar, coberto de esculturas, vidraçarias coloridas, cortinas de cetim, abajures de até 500 lágrimas de cristal, e móveis entalhados à mão. Tudo muito bem conservado, para manter vivo o passado desse planeta. Relíquias dos tempos pré-históricos quando as cobras eram criminosas, tão terríveis quanto os iguanas modernos. Guilherme ouvia tudo com telepatia, rindo, pois, os anfitriões velhinhos não poupavam detalhes sobre a história dessa civilização.
Nohiki começou a filmar um documentário, captando imagens desse planeta desde o espaço. Uma vez em terra, enquadrava os abraços, onde os homens e as mulheres cobras tinham o rosto úmido em lágrimas. Eram muito emotivos. Pele branca, com tênues manchas coloridas em toda parte do corpo, como homens tatuados. Cabelos escuros, loiros, vermelhos, castanhos, sedosos e longos, olhos amarelos como as cobras, mas os havia também azuis, verdes e castanho-claros.
Metade dos anfitriões eram soldados vestidos de verde-musgo. Metade eram civis elegantes, com roupas muito parecidas com as que Alberta trouxera nas malas. Mas o que chamava atenção eram os penteados, como cascatas, chafariz, ou longos até os joelhos. Nem dava para imaginar como é que essas fêmeas penteavam os longos fios.
Enquanto o grosso dos espiões ia para uma festa de boas-vindas, Fernando Júnior e Guilherme percorreram o Museu com seus mistérios, abraçados nas esposas, e finalmente entraram num salão fastuoso, sentaram numa mesa redonda, acompanhados de uns 50 sábios indignados. Fazia muitos anos que a barbárie dos iguanas rolava solta nesse canto universal. Eles lhes mostraram fotografias e documentários de chacinas macabras, onde sequer as crianças foram poupadas. Todas as vítimas dos ataques iguanas viviam escondidas em cavernas, isolados no mato, assustadas, sem serem mais os donos de seu próprio mundo. E o pior de tudo, os homens-iguanas eram uns cobardes. Só invadiam planetas sem nenhuma evolução, com seres em pleno estado pré-histórico. Sequer chegavam perto das bases lunares das cobras, pois sabiam que iam levar chumbo grosso.
Guilherme esperou se acalmarem para lhes responder, pausadamente:
— Mas eles são 8 bilhões de homicidas. E preparar uma frota de combate capaz de derrubá-los leva tempo. Uma guerra requer muita preparação, gente! E se “00” os proibiu de fazer a guerra, é porque vocês iam morrer. E o motivo de estarmos frente a frente, neste salão, é para saber se as cobras têm tanta aptidão para a peleja quanta coragem. Se alguma mulher for capaz de derrubar Nohiki numa disputa, ela será classificada. Depois eu próprio quero me medir com os homens. Só quem conseguir me acertar, poderá ir para a guerra conosco.
Uma risada correu dentro e fora dessa reunião, pois havia gente escutando atrás da porta.
Nohiki não sabia se estava sendo elogiada ou insultada. Mas se levantou e deu uma saudação de identificação, enquanto os sábios começavam a se acalmar. Bater nessa baixinha era para qualquer um. Em seguida, as cobras gênios responderam perguntas para Fernando Júnior, como de que materiais eram as naves, como se acoplavam, se possuíam horta de alimentação, se possuíam robôs, coisa doméstica.
Quando essa reunião terminou, os sábios os levaram para a festa, onde o pessoal dançava músicas empolgantes. Experimentaram um banquete delicioso, pois a culinária era acima da imaginação. E Nohiki filmou tudo. Torres altas de frutas onde as caldas escorregavam lambuzando tudo. Castelos de massa folhada recheados com frutas cozinhadas com calda de açúcar, que dava água na boca só de olhar. Melancias esculpidas, abacaxis esculpidos, ou como recipiente de saladas de frutas. Também havia saladas com fruta e verduras, parecia mais arte que comidas. Nossa! Delícia. Eram saladas de maçã com batatas, mangas com alfaces, ou morangos e tomate seco com rúcula, e a lista era longa. E tudo era algo delicioso. Assim que viu uma gelatina em forma de elefante, ficou pasma, pois parecia uma escultura. Entre os salgados havia massas em forma da flor de lótus, abrindo as pétalas com arte, e o recheio do centro eram misturas estranhas. Depois foi experimentando legumes recheados, macarrão com mil molhos diferentes, saladas de arroz com maionese, cebolas, azeitonas, uvas passas, e muita pimenta. Gostoso! Picava a boca, mas era um deleite. Teria que levar sementes de pimentas. Deliciosas. E teria que pedir as receitas.
E todos os recém-chegados comeram, mais uma vez, até ficar atravessados.
Ao final desse dia, foram pernoitar em algo parecido a uns hotéis.
Enquanto caminhavam e cruzavam a cidade, admiravam as maravilhas dessa cultura superior, com mata nativa em avenidas e praças, bichos, e piscinas em meio de parques floridos. Todos os carros voavam muito alto, acima do voo dos passarinhos. Não existiam os grandes edifícios como em Dabelheim. Os maiores eram de 4 andares, e sem elevadores. Mas dentro deles tudo era espaçoso, e os dormitórios possuíam piscina com águas mornas que borbulhavam eternamente. Plantas e luzes coloridas as havia no saguão, nos corredores e nas sacadas. Existiam obras de arte como esculturas, quadros, vasos, em todo lugar. O brilho do ouro estava também em toda parte. Até cadeiras de metal banhado em camadas de ouro puro os receberam.
Como Nohiki estava com uma luta marcada, Fernando Júnior deu-lhe massagens, a fez dar socos em suas mãos para medir força, e a fez dar patadas contra ele, rindo, pois ela nunca o acertava. Quando Nohiki deu um giro para atingi-lo na sua cabeça, Fernando Júnior deteve-a no ar. E a deixou levitando no ar, pouco a pouco a fez dormir, e deitou-a na cama macia. Ligou a televisão e colocou um vídeo de casa. Viu essa festa de Fernando, seus amigos, e foi caindo no sonho naturalmente, com um sorriso nos lábios.
No dia seguinte, no maior ginásio da cidade, 300 mulheres-cobras falavam entre si que teriam que bater numa baixinha. Estavam com pena dela. Tadinha. E foram se alinhando num salão de lutas.
Depois, Fernando Júnior falou para o pelotão de fêmeas que deveriam avançar primeiramente dez lutadoras, todas de uma vez, na corrida, atacando o alvo, ou seja, sua esposa amada. Podiam bater juntas, e dar-lhe uma surra. Segurar os braços, enquanto outras socavam, podia-se fazer de tudo. Se Nohiki vencesse as dez, mais vinte a teriam que atacar correndo. Imediatamente. Depois, se ela continuasse em pé, entrariam 40, em seguida 60, logo mais 80, e finalmente o resto.
Nohiki olhou para seu amado, sem entender nada de nada. Mas logo percebeu que o que desejava saber, era se ela ia deixá-lo viúvo, ou não. Imaginou ele sozinho e rodeado de todas essas mulheres maravilhosas de pele pintada, corpinhos perfeitos, cinturinha de vespa, que o estavam olhando com discrição porque era casado, mas se fosse viúvo, iam cair por cima dele como aranhas. Uma raiva nevoou sua vista e esperou as mulheres-cobras vir até ela. As dez primeiras voaram em dez direções diferentes. Dormindo. Depois se defendeu contra as vinte, depois contra as 40, as 80, e o resto. Todas ficavam dormindo no chão, e tinha as que estavam apinhadas umas acima das outras. Pulava dando pontapés, caía dando cotoveladas, se arrastava girando e pateando, e as últimas cobras saíram correndo dali em debandada geral.
Alberta deu-lhe um abraço, gargalhando, mas foi então que Nohiki começou a chorar. Depois, articulava para ela: — Tu juras para mim que se eu morrer, tu matas a patadas as mulheres que chegarem perto do Fernando, jura para mim... Alberta falou-lhe: — Só se tu prometeres para mim a mesma coisa! E começaram a rir as gargalhadas.
Guilherme e Fernando Júnior tiveram que encarar as velhas cobras, que alegavam que essa baixinha era com certeza a melhor lutadora. E aos berros, reivindicavam outras desafiantes. E Fernando Júnior explicou que os cobras teriam que aprender a lutar de verdade. E o máximo que podiam ficar nesse mundo para instruí-los seria 100 dias. Todos os soldados teriam que entrar nos treinos ao amanhecer. Em jejum. Duas horas de corrida, café da manhã, descanso, treinos. Almoço, descanso e treinos. E os velhinhos acabaram concordando. Fizeram um discurso para seus soldados, e os enviaram para casa a descansar, pois dali para frente, todos eles teriam que se preparar com rigor, pois quem desmaiasse percorrendo as ruas, o comandante Fernando Júnior ia desqualificá-lo.
Foi a vez de Fernando Júnior e Nohiki voltarem ao passado, quando ficavam longe um do outro, correndo a maratona matutina, exercitando dias inteiros, e caíam na cama a dormir. Mas isso ia assegurar-lhes a sobrevivência no mundo dos iguanas. Passaram a namorar nos assentos eróticos para não cansar, e saíam percorrendo estradas quando a aurora se iniciava. O combatente ia entrando no grupo aos poucos, correndo com calma, pois a finalidade era aumentar a resistência física. Quem ficava para trás, respiração afoita, ou com tonturas, Guilherme o desqualificava sem choro, e os sábios desse mundo corriam em busca de mais alguém, apavorados.
Nos treinos de luta, as cobras treinaram o corpo a corpo com todos os espiões.
Mulher contra mulher, no começo. Depois de 20 dias os combates eram por sorteios. Mulher ganhava máscara no rosto, proteção de cotovelos, joelhos, e entravam para matar.
Depois de noventa dias de treino, os soldados cobras eram outros, prontos para lutar contra os iguanas, sem piedade. Os sábios abraçaram todos os preparadores físicos e lhes deram um festão, pois eles só partiriam para a guerra quando a nave de Fernando passasse a sua procura. E juravam que nunca mais parariam os treinos.
E foi a vez de reiniciar a viagem.
Ao amanhecer, depois de dançar a noite inteira, numa farra cheia de soldados e velhinhos sábios, a nave dos espiões saiu lentamente do aeródromo espacial. Elevou-se com calma, e voou com destino à imensidão. Lá embaixo, as cobras acenavam e lhes gritavam que se veriam em breve. Alguns enviavam beijos no ar com a mão.
Dentro da nave, Nohiki correu para as cozinhas, com uma mala cheia de materiais que trouxera desse mundo. O pó de gelatina era uma raridade nunca vista. Preparou uma gelatina com morangos e pêssegos pré-cozidos, como determinava a receita. Modelou dentro de uma forma de torta, e depois que ficou gelada virou por cima de uma bandeja rasa. Nossa! Havia uma maravilha gastronômica na mesa, que duraria pouco tempo para ser apreciada. Riu com ela mesma. Em seguida, veio China, que carregara gelatinas sem sabor junto a moldes de girafas, elefantes, cavalos, joaninhas, centopeias, na maior afobação. Misturaram com legumes pré-cozidos, com nutrientes, com claras em neve, cremes, e foram inventando esculturas comestíveis dentro dos moldes, esfriando e desenformando. Quando uma fileira de estatuária comível ficou pronta sobre a mesa, como uma exposição de arte, chamaram os maridos e os amigos.
E um dia a sirene tocou novamente, deteve a marcha, parou os motores, pois o mundo dos iguanas estava na frente.
Fecharam todas as janelas com acortinado preto, apagaram as luzes externas, tamparam o telhado da horta com uma cobertura metálica, e essa nave ficou invisível aos telescópios iguanas.
Sobre um mapa, ainda sem nenhuma representação, Guilherme pediu a Fernando Júnior fazer os desenhos cartográficos desse mundo. Queria saber a localização de cada ilha, de cada continente, e o número de habitantes em cada canto desse mundo. Fernando Júnior acomodou o material embaixo do braço, deu um beijo na sua mulher, e saiu a caminho do hangar.
A seguir, Guilherme informou que Nohiki e Olaf trabalhariam juntos, com o disfarce de casal em lua de mel. China iria para lhes dar cobertura, sempre a uma distância de 70 metros. A missão de Nohiki e Olaf era fazer o registro de imagem dos miseráveis. Orfanatos, bordéis, casas de abrigos, mendigos de rua, asilos e presídios.
O resto dos espiões recebeu encomendas diferenciadas, para saber o número exato da criminalidade. As mulheres-espiãs frequentariam festas de milionários, vestidas de rainhas da noite, escoltadas pelos homens uns 20 passos atrás. E tudo, mais tudo, deveria ser filmado, fotografado e registrado.
Mas a pior missão foi colocar os disfarces. Pele verde de iguana no rosto, nas mãos, braços e pernas. Depois o colete contra balas, justíssimo, como outra pele por cima. E por cima disso tudo, roupas na moda desse mundo. Alberta esvaziou a mala, e foi dando os lindos vestidos, e os sapatos taco agulha para rebolar com sensualidade. Já os homens colocaram qualquer coisa, pois não havia nenhuma roupa masculina apropriada. Teriam que comprar.
E um a um, os espiões foram descendo nesse mundo.
Guilherme os deixava cair no lado escuro, durante a noite, através do raio ultravioleta. Uma vez no chão, eles caminhavam, ou corriam, até chegar numa cidade. Ficaram nessa nave apenas Guilherme e Alberta, cinco casais faxineiros, um casal agricultor, dois casais pilotos, um casal engenheiro, com os robôs que continuaram a lhes preparar banquetes deliciosos, com sobremesas de gelatinas.
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