Adão e Eva, na guerra dos iguanas. PARTE I
3 Nascem os meninos
Notas iniciais
O mirante era um morro localizado entre as fazendas, com avenidas que serpenteavam até o cume, e onde existia um mato florido. As pessoas subiam caminhando, sentados em cavalos, ou voando num veículo apropriado. Desde o alto do Mirante se podia ver o centro da cidade alta, ou, contemplar a parte baixa, onde estavam as mansões. O Mirante era o lugar predileto dos apaixonados de Dabelheim. Os casais se perdiam entre o mato, estendidos por cima da grama macia, ou sentados no alto de um galho de uma árvore frondosa.
E foi deitada nessa grama que Eva engravidou. Deitados na grana, cobertos com uma manta, beijaram com calma, perderam mutuamente a castidade, sem nenhuma dor, iniciando uma nova era, um tempo no qual eles nunca mais seriam duas pessoas, seriam uma, unidas pelo corpo e pela alma.
Subiram novamente no cavalo, quando o Sol começava a se esconder entre as matas como uma bolha vermelha gigante, e fizeram o caminho de regresso voando por cima das árvores. Chegaram à Escola no momento em que o refeitório se enchia de gente pela última vez. Sentaram a comer, abraçados, rindo, se beijando, e comeram pouca coisa, alheios a tudo em redor, pois dali em diante a vida seria isso. Amor, para todo e sempre, e juntos até morrer. Não havia sensação mais nobre para Adão, que sentir que Eva era sua, e de mais ninguém. Já para Eva, ser dona desse belo homem era como ter sido premiada por “00” para sua felicidade plena.
Nos dias seguintes, Adão foi até a enfermaria da Escola e apanhou um vidro vermelho. Escondidos dentro dos armários, o colocou sobre o ventre de Eva. Incrédulo, viu cinco estrelas cintilantes dentro dela.
— Amor, vamos ser pais de cinco pilantras...
— CINCO? Mas eu só queria lhe dar um filho...
— Mas teremos um montão... Já pensou? Um batalhão de malandros bagunçando nossa vida?
— Eu vou amá-los tanto! Vou ser uma mãe muito coruja...
— Aceita ser minha esposa mais uma vez? Agora?
— Não! Vamos ser amantes secretos... Nossas amigas ainda são todas virgens...
— Já pensou se nasce Amon-rá? Nossa nora Noemi vai ter que escolher outros pais... Fernando nunca vai se perdoar...
— Nossa! E a Mônica vai se suicidar, meu amor... Temos que fazer alguma coisa para juntá-los novamente... Já sei! Leve o Fernando ao templo para ver as vidas passadas...
— Isso! Vai ser tiro e queda... Ele tem que saber que é casado e sogro de nosso menino... Mas agora vamos falar só de nós... Tem certeza que me ama muito, mas muito, muito...
— Tenho! E você? Só falou que sou linda... Ama-me, mesmo?
— Morro por você! Morro pelos guris que estão aí dentro! Minha felicidade é minha família!
— A minha felicidade também! Meu pai, minha mãe, eu os adoro também...
— Nem precisa falar. O João deve ser meu sogro há uns 4 milhões de anos...
E começaram a gargalhar. Enquanto riam, Adão mordia-a no pescoço, fazendo-lhe cócegas, perdidos entre os uniformes desse guarda-roupas gigante.
Dias depois, Adão conseguiu finalmente arrastar seu melhor amigo a uma conversa com as almas, dentro desse Santuário de Dabelheim. O templo ficava no centro da cidade, e tinha a forma de uma pirâmide. Era recoberta de pedacinhos de espelhos dourados e prateados, formando figuras angelicais, e no interior só havia uma sala grande, iluminada com velas, e muitos incensos com aromas diferentes. Na parede principal, encontrava-se o espelho, onde se podia contemplar o outro lado da vida, aquele que é exclusivo dos mortos, e onde também se olhava para desvendar os mistérios das existências já vividas.
Fernando entrou sozinho, sentou no chão, cruzou as pernas e pediu para as almas lhe desvendar os segredos de seu passado. Imediatamente, se viu a si mesmo num outro mundo, namorando a Mônica, excitadíssimo, e ele tentava possuí-la, sedento de excitação. Mas ela o convencia a esperar pela Lua de mel, pois ela queria casar virgem. A seguir se viu casado, e lhe pedia para dar-lhe um filho. E Mônica mais uma vez o fazia esperar para ser pai. Na última visão, viu Mônica com sua linda filha, dando-lhe conselhos para se manter pura e casta até a noite de núpcias. Seu genro chegava à lua de mel virgem, depois de ter sofrido durante uns cinco anos por causa disso. Fernando estava tão furioso com essas revelações, que seu desejo nesse instante era arrebentar o espelho a socos.
E a única coisa que lhe ocorreu, foi pedir para “00” escolhê-lo como Comandante, pois ficar longe dessa bruxa, e ir embora desse mundo, eram tudo que desejava naquele instante.
Quando saiu do templo, enfurecido, falou para Adão: — Não tem conserto, cara, tenho que esquecer que essa magricela existe! E correu para longe dele, no desespero maior, pois sabia que havia engatinhado atrás de Mônica durante milênios, encantado pelos seus dotes. Afinal, a magricela era a mulher mais linda desse mundo. Cheia de curvas, busto firme, olhos azuis, cabelos loiros encaracolados caindo em cascatas pelas costas, e possuía um caminhar de gazela. Mas, desta vez ela não ia enfeitiçá-lo, não.
Tristes e sem saber o que mais fazer pelos amigos, Adão e Eva desistiram de tentar juntá-los. Para piorar a situação, Fernando perdeu a castidade. Perdia-se nas danceterias, e assim que alguém o paquerava saía em direção para um lugar ermo. E, nos dias seguintes fugia das amantes, como quem foge de uma assombração.
E em meio desse drama, com Eva já luzindo uma barriga notável, o grande dia da revelação do Comandante aconteceu. O escolhido teria que viajar para o centro do universo, durante um longo tempo para se preparar nos assuntos de guerra.
Numa cerimônia solene, o Diretor anunciou que o selecionado era de Dabelheim, e dessa escola de Ensino Superior. Todos começaram a aplaudir, pois no planeta existiam inúmeras universidades com soldados prontos para o combate.
Quando o nome de Fernando foi anunciado, Mônica saiu correndo para longe banhada em lágrimas, enquanto Fernando era rodeado por Tiago e Mário, os mais destacados em todas as provas de resistências desse colégio. Os favoritos. Aqueles que todo mundo apostava que seriam os escolhidos de “00”. Depois foi abraçado pela Escola inteira, enquanto Adão e Eva se dividiam. Eva saiu correndo atrás de Belzier, e voou até a fazenda da Mônica. Adão ficou ao lado de Fernando, noite adentro.
Eva chegou à fazenda de Filomena e Eugênio, que se encontravam perdidos entre as colheitas, e correu pela casa em busca de Mônica. E desta vez foi grossa com ela. Nenhuma palavra de consolação.
— Tu vais te vestir, e sair daqui a pedir perdão para o Fernando... E se for necessário, eu vou te empurrar a soco para fora desta casa...
— Mas pedir perdão de quê? O que é que eu fiz?
— Sei lá! Mas pede perdão assim mesmo... Vamos chutar! Quem sabe ele foi galhudo? Ah? Adão nem com hipnose conseguiu saber de nada... O que é que ele viu no templo ninguém sabe...
— Será? Mas eu não vou... Não vou me humilhar... Ele que vai para lá, que se case com outra, que... hum.....
E Mônica começou a chorar mais uma vez, de partir a alma.
— PARA DE CHORAR! Vai, te veste, que coisa... Tens a última chance de tua vida. Vamos, coloca este vestido, e pede perdão... Ele vai saber de quê... Nós é que não sabemos o que é que tu aprontaste em vidas passadas... Nossa! Quem sabe foste uma bruxa? Ah?
Mônica parou de lacrimejar e começou a rir entre soluços. Depois, começou a choramingar novamente. Eva nem mais sabia o que fazer para acabar com a teimosia dela. Abraçou sua amiga, e esperou com paciência ela se acalmar. A seguir limpou-lhe o rosto, passou cremes, penteou seu cabelo, e passou um perfume atrás da orelha. Quando Filomena e Eugênio chegaram com os braços carregados de milho fresco, elas estavam prontas para sair. Filomena perguntou-lhes:
— E as meninas estão indo para onde?
— Celebrar a festa do Fernando, mãe... Ele foi nomeado Comandante.
— Achei que o Tiaguinho ia ser o escolhido...
— Tiaguinho? Tiago, mãe! Eu não entendo tanta afeição por ele...
— Não estará ficando com ciúmes, ou, está?
Mônica preferiu sorrir. Sua mãe sequer suspeitou que ela estivesse disposta a perder a virgindade naquela noite.
Fernando bebeu tanto durante essa noite de festejos, que Adão ajudou a carregá-lo junto com Tiago e Mário, tão bêbados quanto ele. Os quatro amigos riam pelo caminho, falando besteiras. De vez em quando, sentavam num banquinho, zombando, pois, uma guerra os estava esperando. Pelo menos, Fernando já sabia que ia para lá. Tiago e Mário teriam que mostrar que ambos sabiam dar socos. Mário ensaiava murros no ar e Adão gargalhava. Num momento dado, Fernando começou a chorar. Brigava com Adão, pois ele havia jogado sujo. Gritava que engravidar a mulher para escapar de ser escolhido Comandante, era uma baixeza. Não era coisa de homem. Mário gracejava alto, pois Nina havia tido a mesma ideia, mas não havia dado certo.
Quase amanhecendo, Fernando finalmente entrou na sua casa vazia. Não havia ninguém da família para comemorar. Seus velhos estavam em viagem de férias, e ele era filho único. Entrou no seu dormitório, e viu estendida na sua cama uma mulher nua, tampada até o pescoço. E escutou em meio de sua embriaguez:
— Desculpa-me, meu amor... Eu sei que fui infiel, falsa, traiçoeira, péssima mãe, nunca soube cozinhar direito, mas só sei que sem você, eu vou morrer...
— Mas que estupidez... De que é que está falando... Eu só sei que você é mandona, frígida, e sempre disse a última palavra... E agora eu digo que não... Eu não vou ser mais escravo... Nunca mais... Eu digo NÃO! Ouviu bem? NÃO!
— Tá bem, mas antes de partir, eu queria que soubesse o quanto o amo... Só isso...
— Ama? Jura? Hip! Então me dá dois filhos. AGORA! Neste momento!
— Se é o que você quer, eu engravido. Faço o que você me pedir...
— Jura? Não vai esperar pela noite de núpcias? Hip!
— Não! Eu vou ser sua escrava nesta vida. Juro! Mande! O que você mais quer?
Fernando a olhou nos olhos, e viu que nesta vida ela estava outra mulher. Beijou-a suavemente, e depois enlouqueceu, pois, a magricela tinha o poder de derretê-lo como manteiga. E fizeram amor, até desmaiarem.
Depois de uma semana, encontraram os amigos na cidade, para um bailado.
A danceteria ficava no térreo de um edifício, onde havia muitas lojas de roupas e joias junto aos supermercados de alimentação. Entrava-se na casa de danças por um corredor azul, e finalmente chegava-se numa pista com adolescentes mexendo o corpo, na arte da sedução. Mulher solteira que estava a fim de terminar a noite em namoro, imediatamente aceitava um sedutor. E quem já estava namorando iniciava a dança, interrompendo-a para dar uma fugida rápida aos jardins, que estavam cheios de bons lugares para se esconderem a beijar até cansar.
Mas nessa noite, quando Fernando chegou abraçado a Mônica, Adão estava num canto com Eva sentada no colo, acariciando seu ventre, e de vez em quando, ele colocava o ouvido para escutar os meninos falar para o papai. Fernando sentiu vontades de arrebentar a cara do malandro. Era lógico que se Eva não tivesse engravidado, quem ia virar picolé rumo a “B de ALPHA” era Adão.
Eva percebeu a cara de fúria, e gritou para os amigos:
— Ele finalmente descobriu o amor verdadeiro! Olha a cara dele!
Adão gritou mais alto ainda:
— Pois é! O elefante virou minhoca rasteira!
O resto dos amigos começou a rir, a fazer piadas, ainda mais pesadas, lembrando sadicamente as patadas de Mônica nos testículos, e Fernando preferiu entrar na brincadeira. Embarcou na dança com Mônica, aos beijos, pois teria apenas alguns dias de felicidade plena. Em redor deles, Tiago e Fernanda beijavam-se, Mário e Nina mexiam o corpo com movimentos sensuais, Marlene dava de beber na boquinha de Abelardo um concentrado de sucos, afrodisíaco, e Rosa com Reginaldo estavam sentados, sussurrando aos ouvidos palavras de amor. E Adão continuou num canto, rindo, com Eva sentada no joelho, sem parar de amassar essa barriga. Eva o beijava de vez em quando, olhos brilhando, pois ela estava radiante. Sequer “00” lá no alto conseguia separá-la de seu homem.
Quando o Sol começou a iluminar a cidade, a danceteria parou a música e colocou os bailarinos para fora. Como os garçons eram robôs mal-humorados, nem dava para encarar. O grupo de amigos fez então o caminho para a Escola, sem dormir. Entraram nos refeitórios a curar a ressaca, tomaram o café da manhã juntos, sem parar de fazer piadas, rir de tudo, e até marcaram uma partida de futebol para despedir-se de Fernando.
Uma semana antes de Fernando viajar, ele e Adão casaram com suas mulheres, numa cerimônia dupla. Primeiro entraram no templo Adão e Eva, sozinhos, para receber a bênção de “00” em pessoa, que riu com eles de toda essa bagunça. “00” adorava uma confusão e uma boa fofoca. Depois, entraram Fernando e Mônica, com “00” muito sério desta vez, os unindo pela eternidade.
Em seguida, os quatro noivos subiram numa carruagem aérea, que cruzou a cidade rumo à fazenda de Filomena e Eugênio, onde uma festa os estava esperando.
Na entrada da casa, um caminho de brilhos os recebeu. Lamparinas douradas circundavam o lugar, e na entrada havia luzes entre as árvores, no chão, formando um caminho brilhante, para que as vidas dos casais fossem como uma constelação de estrelas.
Enquanto cruzavam essa senda iluminada, todos os convidados lhes lançaram flores na cabeça, enquanto um grupo de amigos iniciava o som. Era uma banda composta de piano, contrabaixo, clarinete, fagote, violinos, tímpano, trombeta, tuba, timbales, cítaras, violões, tambores e flautas. Orquestra que estava sempre em festas de casamentos, aniversários, ou no centro da cidade ao ar livre, alegrando as pessoas no fim do dia.
Dançaram, beberam, brindaram ao futuro, enquanto o pai de Fernando ladeado de João e Serguei (pai de Adão), ficavam lado a lado. Ludmila, mãe de Adão, contava para Dina que enfrentar bandidos era a habilidade de seu garoto em todas as vidas. E Dina completava falando que Eva tinha propensão para a briga, e que já morrera em outras encarnações lutando ao lado de Adão contra bandidos. Eram na verdade uma dupla explosiva. E entre lágrimas e risos, abraçavam as pessoas que chegavam a parabenizá-las pelo casamento. Recebiam os presentes para os noivos, guardavam, enquanto Filomena enlouquecia com tanta gente em redor. Afinal, era o casamento do Comandante dos guerreiros. Um acontecimento para essa cidade.
No transcorrer dessa festa, o Prefeito da cidade deu um presente especial para Eva e Adão, as chaves de um lindo cômodo, num edifício que ficava ao lado da Escola de Ensino Superior, com jardins no térreo, para os bichos de estimação. Poderiam fazer o percurso no lombo de Belzier, ou, caminhando da casa para as aulas, pois gravidez não era doença. Eva teria que continuar estudando.
E a festa continuou até o amanhecer.
No meio da noite, Fernando e Mônica subiram num carro aéreo, acenderam as luzes, e se elevaram lentamente, enquanto os amigos acenavam para eles. Uma curta viagem de Lua de mel estava os esperando, num navio ancorado numa cidade costeira para navegar pelo mar. Quando chegaram ao ancoradouro, 50 iates se enfileiravam, na espera de um navegador. Como nesse mundo nada era propriedade particular, Fernando escolheu um iate que tinha a forma de tubarão, com uma cabeça assustadora, boca aberta, por onde se entrava para a suíte inferior. Fernando tomou sua esposa nos braços, entrou nessa boca, desceu correndo até uma cama redonda, rodeada de plantas e flores em vasos, num chão de vidro para ver os peixes do mar, e um banquete preparado por dois robôs numa mesa ao lado da cama.
Adão e Eva se retiraram logo, depois deles partirem.
Subiram em Belzier e saíram dessa fazenda voando. Atrás deles, um carro aéreo ocupado por Mário e Nina levava-lhes os presentes.
Tiago e Fernanda ficaram na fazenda para ajudar Filomena e Eugênio a limpar a bagunça dessa festa. Além do que, Eugênio estava muito triste, e Tiago o consolava como podia:
— Se alegra, tio, em pouco tempo esta casa vai estar cheia de netinhos...
— E um dia vão partir todos para uma guerra... Que felicidade há em tudo isso?
— Nenhuma, mas há orgulho. Afinal, todos nós somos reencarnações de revolucionários. Homens que derrubamos um ditador e lutamos pela igualdade. E você deveria saber disso...
— Por isso mesmo não acho certo. Deveríamos ter nascido para umas férias...
Enquanto isso, no quarto andar de um edifício de 50 andares, Adão abriu a porta de seu novo lar com Eva nos braços. Ela vestida de branco, flores na cabeça, e com seus cabelos pretos encaracolados caindo como cascatas pelas costas. Atrás deles, entraram Mário e Nina, carregados de pacotes, que foram lançando pela porta sem cerimônias. Levitando, pois havia coisas frágeis. Eva ria, pois, esses amigos não paravam de falar besteiras e bisbilhotavam em tudo. Entraram da despesa em busca de vinho. Encontraram champanhe, espumante, levemente adocicada, que abriram para beber fazendo os últimos brindes aos amigos, que seriam os primeiros a dar à luz filhos de guerreiros.
E antes de sair, Mário lhes disse:
— Sabes, Adão, acho que temos a melhor das vidas vividas... Estamos num mundo onde não se faz nada além de beijar a mulher que se ama...
— Concordo contigo, cara... Ninguém trabalha mais do que três dias, a cada dez, usando levitação, desintegração, e as mãos ficam sobrando para fazer carinho na mulher... E quando é que vocês vão casar?
— Quando a senhora aqui menstrue, cara... Deve ter algo errado... A que idade Eva menstruou?
— No dia em que a gente se conheceu... É que eu sei de uns truques, cara... Fui médico em outras vidas... Se quiser, eu te ensino...
— Trapaceiro! Sabia! Tu és um trapaceiro... Tudo para não ser nomeado Comandante...
E finalmente os amigos os deixaram a sós.
Só então Eva e Adão começaram a percorrer seu lindo lar, examinando tudo com carinho, caminhando com dificuldades sobre um chão com caixas com cristais, porcelanas, esculturas douradas, abajures, plantas, joias, panelas, tudo que receberam para enriquecer o ambiente desse lindo apartamento.
Encontraram um assento erótico num canto da sala principal, que fazia conjunto a dois sofás que ladeavam as paredes. No solo, havia uma alfombra macia e em cujo lugar se podia deitar, estendidos sobre almofadas. Nas mesas adjuntas, bem baixinhas, encontraram vasos com plantas floridas, perfumadas, de variadas cores. Observaram que do teto descia uma luz indireta, que mudava de vez em quando. Azul, verde, amarelo, branca e preta.
Fora dessa sala, descobriram uma varanda circular que rodeava todos os cômodos de lado a lado, com teias de arame até o teto como proteção para crianças. Nessa varanda, encontraram mais plantas, palmeiras anãs, e um canteiro com verdinhas como salsas, cebolinhas, manjericão, orégano, menta. Depois, percorreram as suítes. Havia uma para o casal, com uma cama formidável, e três dormitórios para os filhos. Três banheiros com uma hidromassagem em cada uma. Patente para esvaziar intestinos, onde uma luz desintegrava o cocô e uma água desinfetava o ânus. Lavabo para as mãos, e onde também havia duas samambaias caindo de cima.
A cozinha era maravilhosa e possuía uma mesa gigante. Dava para preparar um banquete para 10 pessoas. Tudo que a mente humana é capaz de inventar para dar conforto a uma dona de casa estava ali dentro, embutido nas paredes. Fogões diversos, geladeiras, congeladores, batedeiras, liquidificadores, e panelas de cerâmicas. O “transformador de detritos” ficava ao lado da pia, coberto por uma tampa metálica. Cascas de verduras e frutas cairiam nesse buraco por tubulações que terminavam no subsolo do edifício. Uma batedeira gigante mexeria os detritos, e o lixo orgânico se transformaria em adubos para as fazendas. As embalagens de comidas e bebidas iam para outro buraco da parede, em cujo lugar havia um cano que os fazia flutuar até o telhado desse edifício. Lá em cima, um robozinho juntava-os, ensacava, amontoava, pois, o lixeiro aéreo da cidade passava voando sobre as casas durante as noites e sugava o material de reciclados através de um raio.
Agora, tudo que não fosse reciclado, Eva, como toda dona de casa, desintegraria com um olhar destruidor.
Adão abriu as torneiras da banheira hidromassagem, cuja parte inferior era macia. Enquanto vivessem ali, as torneiras deveriam permanecer sempre abertas, pois outra fresta sugava essa água para sair, eternamente. Correria através desses canos e não sairia desse edifício para lugar nenhum. Ela giraria em tubulações ionizadas, que eliminavam sujeiras e purificavam essas águas. Água que era morna, de uma cor azul, e que limpava os corpos sem necessidade de sabão. Após os banhos, a pessoa ficava em pé e um ar seco transformava a água dos corpos em vapor.
Tomaram banho, e ficaram amor na banheira, e nessa cama aconchegante, até que a fome os tirou do conforto. Embora barriguda, Eva entrou na cozinha a preparar um banquete para os dois. Adão ajudou com as compras, pois havia um supermercado nesse mesmo edifício, no segundo andar. Recolhera geleias, pão, uma pizza pronta, uma torta de morangos, chás aromáticos, verduras, frutas, caixas de madeira com 60 ovos, e carregou tudo num carrinho.
Jantaram rindo, entremeados de beijos, colocaram as panelas sujas na lavadora, e sentaram a ver televisão. Eva sentou no colo do marido e olhou para o filme que se iniciava com um casal fazendo amor na praia, num mundo primitivo.
Longe dali, e viajando em meio do mar, Mônica abriu seu vestido aos poucos. Ele era branco, justíssimo, cheio de bordados, com incrustações douradas e prateadas, um decote generoso e mangas até metade dos braços. Soltou o cabelo, e viu seu amor com seu sorriso de menino estampado no rosto, hipnotizado na sua beleza deslumbrante. Os cílios de Fernando eram tão longos que faziam sombra aos seus olhos negros. Sua boca era tão sensual, que incitava ao beijo. E Fernando era viciado em beijos. Embora fosse um homem gigante, com mais de dois metros de altura e um corpo forte, era doce, suave e o mais terno dos homens.
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