Notas iniciais
Fernando estudava História Universal. Uma coisa que fazia doer a cabeça, pois os livros que devia ler eram colossais. Essa disciplina se iniciava, contando a história dos homens que nasceram pela primeira vez como homens, na primeira dimensão do Universo. Mostrava os centauros, as primeiras criaturas filhas de cavalos brancos, e que nasceram com os espíritos dos primeiros anjos encarnados. Em seguida, Fernando estudou onde se encontrava esse planeta. Achou-o na terceira dimensão, convertido num mundo seco e desabitado. Os centauros pela sua vez estavam na primeira dimensão, como belíssimos homens, no “Mundo dos Anjos” no planeta mais antigo que existia em todo o Cosmos. Eles praticamente eram vizinhos de “00”, no centro de todas as galáxias.

No planeta “B de ALPHA”, Fernando foi descongelado com calma, lentamente, e depois foi deitado no interior de um tubo branco, para um minucioso exame. Descobriram que seu cérebro nada sofrera com o congelamento. Estava pronto para estudar. A seguir, foi levitado até um quarto e deitado numa cama macia. Colocaram-lhe um tubo diretamente no baço, com nutrientes líquidos, e o fizeram dormir.

O gigantesco mundo de “B” era parecido em tamanho ao planeta dos guerreiros e seus dias possuíam mais ou menos as mesmas horas. Somente o ano era mais longo, pois sua órbita em redor da estrela era maior.

Mas havia outras diferenças. Outros costumes.

O céu estava cheio de naves voando para todos os lados, e a criatividade dos designers desses artefatos era surpreendente. Afinal, esse era o mundo dos gênios, dos NERDs, dos homens mais inteligentes do Universo, dedicados à pesquisa científica desde crianças. As maiorias das naves voadoras possuíam forma de pássaros, havia as corujas voadoras, os Pégaso, as águias gigantes, os lagartos, as libélulas, e os mais modernos, pequeninhos, para voar perto do chão. Já as naves gigantes para cruzar o espaço voavam por cima de tudo isso escurecendo a cidade na sua passagem. Naves que mais pareciam cidades flutuantes, com vidraças translúcidas por onde se podiam ver os viajantes estelares nos seus uniformes dourados.

Poder-se-ia dizer que era um mundo barulhento, cheio de tecnologia.

Os edifícios não possuíam muita diferença entre eles. Altos, imponentes, mas sobre enormes suportes, pois nenhuma residência se encostava ao chão. Somente os alicerces entravam na terra, até grandes profundidades, e para cima os andares se elevavam como tortas de noiva, por cima dos pilares finíssimos. No térreo não havia cimento, nem chão de pedras, só tinha flores, plantas, piscinas, e meninos correndo com seus bichinhos miúdos.

Entre cada edifício tinha que haver luz do Sol. Então a distância entre um e outro era marcada pelo reflexo da luz solar no chão. Dessa maneira as cidades eram intermináveis e as distâncias de um extremo a outro eram gigantes. E para encurtar distâncias, os homens locomoviam-se o tempo todo nesses milhares de artefatos.

Enquanto Fernando dormia no vigésimo andar de um hospital, sonhava com sua amada. Ela apareceu na sua frente com cabelos esvoaçando, boca úmida, olhos brilhando de paixão e os braços estendidos para ele. Quando abriu os olhos, tinha um comitê de recepção ao redor de sua cama. Universitários. Todos riam sem parar. Um professor mexia a cabeça com incredulidade. O que haveria de tão estranho? E um aluno falou:

— Oi, alienígena!... É verdade que você é casado?

— Sou! Mas vocês não gostam de mulher, não? Não me digam que é um mundo gay...

Todos riram às gargalhadas desta vez. E um deles respondeu-lhe:

— Quem nasce aqui é solteiro, cara. E é a nossa última chance de se apaixonar de verdade... Mas, nada de gays...

— Nossa! Eu sou casado há milênios! Estou na quarta encarnação conjugado com a mesma mulher... E vai ser assim pela eternidade... Não sei viver sem ela...

— Então amigo, seja bem-vindo! O que gostaria de fazer em primeiro lugar?

— Necessito de um espelho falante. Nossa! Estou morrendo de saudades...

— Seus desejos são uma ordem, Comandante. He, He, He...

Todos riram até sair lágrimas, pois era uma turma de bagunceiros. Havia solteiros nessa cidade com até uns 300 anos, e para eles o Fernando era um guri saindo da infância. Não dava para acreditar.

De repente, um carro apareceu do nada, ficou voando do lado de fora de uma janela desse hospital, e todos pularam dentro com um salto mortal. Como estavam no 20º andar, Fernando sentiu um arrepio. Era tão simples subir para o terraço, e entrar com calma num carro estacionado. Mas não quis questionar costumes esquisitos e muito menos bancar o medroso. Esticou uma perna para o vazio, a seguir a outra, e sentou. Esse carro parecia um ovo. Redondo, que abria a metade para os passageiros entrarem, e depois ele se fechava e girava dando cambalhotas, com todos de cabeça para baixo, a seguir de lado, enquanto os homens riam sem parar. Estacionaram na beira de um jardim, e caminharam em direção ao templo, para observar o espelho falante.

O templo estava no topo de uma haste metalizada, que parecia um palito plantado em meio de uma praça. E na ponta, perto das nuvens, se encontrava uma pirâmide com um espelho, para ver o Universo e conversar com as almas. Ascenderam num elevador que estava localizado na parte externa, e que subiu mostrando a natureza em todo seu esplendor. No último andar Fernando ingressou no santuário sozinho, enquanto seus amigos penetravam em salas contíguas onde robôs serviam um lanche.

Na parede do templo, em meio a penumbras, a imagem de Mônica pouco a pouco se materializou. Ela estava na beira da piscina da Escola, ao lado de Eva, mais linda do que nunca. E de repente viu sete guris bagunçando em redor. Seu filho Fernando Júnior, era o maior, grandão, embora fosse menor em idade. E estava muito sem vergonha. Nohiki não parava de dar beijinhos nele, e ele ria feliz. Sua filha Noemi nascera com seu cabelo vermelho cor do fogo, e não havia adulto que não parasse a caminhada para ver a beleza dessa menina. Amon-rá dormia com a preguiça de sempre. Esticado embaixo do Sol, ele era um guri feliz.

Depois, viu Adão. Estendido sobre a relva entre os filhos, os quais pulavam por cima dele, cavalgando na sua barriga, numa bagunça eterna. Pensando bem, Adão merecia essa felicidade. Nunca olhara para mulher, até o dia em que Eva aparecera num vestido de rainha. E Adão sabia perdoar. Amava tanto sua mulher, que se queimaria vivo por ela. Fernando entendeu finalmente o que era um homem imbecil. E era ele mesmo. Estava contemplando para as pessoas amadas através de um espelho. Engoliu em seco suas mágoas, e se prometeu estudar de dia e de noite, para encurtar o tempo de permanência nesse mundo louco, e regressar à casa onde a felicidade o aguardava.

A seguir, retornaram para o hospital, pois Fernando ainda estava anêmico.

Mais uma vez, o carro encostou-se à janela, para ele passar a perna para seu quarto, com todo mundo rindo, pois isso era uma piada cruel por cima dele. Um batizado de boas-vindas muito louco. Fernando entrou na cama, acenou para os bagunceiros e tentou dormir.

Após 10 dias de repouso, um mestre levou-o a conhecer o campo universitário.

Era um edifício de 50 andares, destinado ao ensino por idades. Crianças recém-chegadas estudavam no térreo. Nos andares subsequentes iam se classificando as matérias de estudos, conforme a complexidade e da ligação entre elas. Iniciava-se com o aprendizado de todas as artes, em seguida as matérias básicas de idiomas, deixando a ciência e a engenharia para o final. A Universidade ocupava desde o 30 º andar até o último, dividida em 10 níveis de conhecimentos. Iniciava-se com medicina, veterinária, geologia, até chegar ao último nível que era o desenvolvimento completo do conhecimento humano. Ou seja, nesse planeta os homens estudavam tudo. Todas as ciências, todas as artes, todas as engenharias, enfim, sem diferenciação de especialidades. E não existiam matérias optativas. Ninguém escapava ao sufoco. Afinal, os NERDs dessa civilização amavam as ciências, tanto quanto os guerreiros como Fernando amavam os esportes.

E Fernando teria que iniciar essa bateria inteira de conhecimento com matérias do nível básico, com os meninos de 10 anos, algumas matérias com a terceira fase, com adolescentes como ele, e outras com os formandos do último andar. No nível básico, estudaria a telepatia a 1000 metros de distância, idiomas primitivos e ciências básicas. Na terceira fase praticaria telepatia mundial, e com os formandos telepatia universal. Depois viu as outras disciplinas que teria que aprender, em níveis diferentes: — desintegração da matéria, Astronomia, História Universal, idiomas primitivos, estratégia de combates, e matemática avançada.

Para se locomover entre as salas de aula os estudantes dispunham de um elevador, em cada disciplina, em forma de armário. Dentro dele se colocava o dedo no nível desejado e a matéria. Ele entrava num outro curso, em segundos, com outro mestre e em andares diferenciados. Agora, para descansar, bastava sair pelos corredores onde havia lanchonetes com atendimento em tempo integral, atendido por robôs cozinheiros. E banheiros, não existiam mais. Afinal, naquele planeta todos os homens desintegravam as fezes e o xixi dentro do corpo durante o dia, apenas com o pensamento.

No fim do dia foi levado ao seu novo lar. Um apartamento de solteiro, onde um robozinho, bem pequenino, perguntou-lhe: — O que desejaria jantar, senhor? Fernando riu com ele mesmo, pois estava com fome de leão. No hospital só havia tomado sopinhas de bebê e os lanches da Universidade eram na base do pão recheado com alguma coisa. Pensou um pouco, e pediu um banquete de festa. Algum tempo depois, a mesa estava servida, com flores, luz de velas, uma boneca de borracha para fazer amor, sentada numa cadeira, e o festim gastronômico fumegando. Olhou para uma panela, levantou a tampa e sentiu o cheiro de uma sopa de legumes maravilhosa, igual a que preparava sua mãe. Depois havia uma lasanha com recheios de massa de tomates, queijo derretido, nutriente, manjericão, de fazer água na boca. Viu, além de tudo, enroladinhos de repolho com arroz, nutrientes e verduras, e uma salada de cebolas bem pequeninhas, com azeitonas, ovos de codornas, e queijo branco cortado em cubos. Abóboras caramelizadas. Tomates recheados com nutrientes, cebolas, e maionese por cima. Nossa! Era mesmo uma festa! De sobremesas havia claras em neve por sobre várias taças de cristal, com creme de abacaxis, creme de maracujá, suflê de chocolate, e sorvetes com bolachas. Lembrou-se de Mônica. Será que em outras encarnações ela o fazia passar fome? Ela havia pedido perdão porque era péssima cozinheira. Começou a rir.

Nada importava mais. Ele mesmo aprenderia a preparar esses banquetes, e seria o cozinheiro de casa. Pronto. Estava resolvido. E comeu tudo, sem sobrar nada em lugar algum. E, por último foi ao banheiro, pois fazer cocô em casa era obrigação de todo ser superior. Pelo menos a cada 5 dias o intestino devia trabalhar para não adoecer. E ele tinha que fazer isso todos os dias durante 50 dias seguidos, por ordens médicas. Afinal, o cocô desta vez virava ar cada vez que caía no vaso. Uma luz vermelha fazia a desintegração. Sentiu uma água morna lavando seu traseiro com um jato, um ar quente secando-o, e em seguida uma chuva de talco em pó. Riu alto, pois nisso tudo era igual ao seu mundo.

E, por último, se estendeu num sofá, olhando para televisão e dormiu. Mas, antes de tudo, desintegrou a boneca de borracha, pois no hospital solicitara aos médicos que o deixassem estéril e impotente, para se manter fiel a sua amada.

A matéria mais difícil para Fernando aprender foi Astronomia.

Telepatia ele tirava de letra. Falava com pessoas desse mundo, de outros mundos, e um dia terminou falando com Adão, que possuía uma cabeça maior que a dele, pois Adão falava até com “00” fora do templo. Contou-lhe da boneca de borracha, rindo, pois queria que sua esposa soubesse que seria fiel até em pensamentos. Terminou a conversa chorando, pedindo ao amigo que cuidasse de seus meninos, e com Adão jurando que seria como um pai verdadeiro para eles.

Depois de 380 dias de estada nesse mundo, as primeiras remessas enviadas de “L de ALPHA” chegaram numa cápsula espacial. E Fernando invitou todos seus colegas para que conhecessem sua família. Correram até o anfiteatro da Universidade, e colocaram três documentários, onde a primeira pessoa que se viu foi Noemi, de goleiro, com uma turma de guris, e com Fernando brigando com ela.

Fernando explicava que era um filme velho, quando ainda eram só vizinhos de bairro.

Depois se viu o casamento, com todos os detalhes, mostrando os amigos, as famílias, e Fernando explicando quem era quem. Quando apareceu Eva, a turma assobiava. Nossa! Como as pretas eram lindas! Em “B de ALPHA”, não existia essa cor de pele. Depois conheceram o marido dela, um negão gigante, musculoso, com cara de guri e sorriso de anjo. A mulherada aplaudia. Também gostaram muito de Mário, loiro de olhos azuis, e Tiago, branco, cabelos escuros, pois eram os homens mais lindos entre todos os amigos de Fernando.

Mas quando apareceu a filharada, Fernando não falou mais nada. Ele chorava e assoava o nariz e as lágrimas escorriam pelo rosto enquanto os amigos falavam o quanto eram lindos seus filhos. Eles acenavam para ele com suas mãozinhas, enviavam beijinhos, e Mônica lhe gritava aos berros o quanto o amava.

Para levantar o ânimo de Fernando, o qual estava arrasado com as miragens, os colegas levaram-no à danceteria. E desta vez Fernando viu o quanto seus amigos eram doidos.

Novamente, encostaram o carro numa janela, de um edifício de 28 andares, e pularam como piratas invadindo um navio. A seguir, correram num corredor com os braços abertos, tentando pegar seios desprevenidos, enquanto as mulheres driblavam as investidas. Alguns beijavam na boca as desavisadas. Outros tomavam pela cintura uma gata caminhando, e convidavam-na para ir dançar. Outros assumiam as bebidas de alguém, rindo, pois era uma gangue desordeira. Teve os que receberam um sopapo na cara pela sem-vergonhice.

Mas “B de ALPHA” era um mundo superior. Nenhuma briga de verdade, nenhuma mulher mal-humorada, ou ofendida, e ninguém com dor de corno.

Fernando bebeu cerveja, comeu petiscos variados, e contou que seu robô era o melhor cozinheiro do universo. Quando os amigos falaram que esse robô lhe pertencia pela eternidade, e que podia levá-lo à guerra se quisesse, ele começou a recuperar o ânimo. Não precisaria aprender a cozinhar, e sua família não passaria fome. Bebeu, e ficou a olhar como se namorava nesse mundo. Observou beijos aos milhares em todo lugar. Amasso. Mas, as mulheres eram difíceis de convencer a terminar a noite num namoro. Elas buscavam o romance, e sabiam que quando um homem queria só o prazer, não havia futuro para o amor. Nossa! Teria que dar alguns conselhos. E riu com ele mesmo. No fim da noite, regressou para casa cambaleando. Não bebia tanto desde o dia em que a magricela entrara na sua cama e o convertera em minhoca rastejante, e num homem fiel.

Em roda só de machos, Fernando começou a contar como se conquistavam as gatas em seu planeta. Primeiro era “o beijo na mão”. Na parte interna. O segundo lance era beijo no pescoço, e língua na orelha. Só isso. Passeios, onde a companheira podia falar o quanto quisesse. À vontade. Entremeado de beijos na mão, no pescoço e língua na orelha. Beijo na boca, só depois dela fechar a boca e parar de falar como matraca. As gargalhadas dos homens eram hilariantes. E principalmente, Fernando dizia que não se podia sequer olhar para outra fêmea. Devia ser só ela e mais ninguém. E quando ela dissesse sim, se devia ser fiel enquanto durasse o namoro. Mas fiel de verdade, nada de desejar outras, ou pensar em outras enquanto se estivesse fazendo amor. Não havia de se esquecer da telepatia. Mulher imaginária era causa de, no mínimo, uma patada no saco. E seus amigos riam até sair lágrimas. Contavam de causos variados, pois nesse planeta nenhum deles havia namorado dessa forma. Na verdade, eles as tratavam mal. Nada de beijos, só penetração, muitas e muitas vezes, e depois o esquecimento e a fuga. E tinha aqueles que exigiam coisas bizarras. As amarravam na cama com cordas e depois as abandonavam. E claro, nos dias seguintes havia que desaparecer para fugir da surra de algum irmão.

E, de alguma maneira, seus amigos começaram a buscar as sem maquiagem, inocentes, carinhas de anjo, dadas mais ao estudo do que as festas. A maioria sem nunca terem se apaixonado por homem. Eram mais amantes de minhocas, micro-organismos, enfim. Mas, que depois de perdida a timidez, elas viravam onças no cio.

Enquanto os amigos viravam minhocas rasteiras, Fernando estudava História Universal. Uma coisa que fazia doer a cabeça, pois os livros que devia ler eram colossais.

Essa disciplina se iniciava, contando a história dos homens que nasceram pela primeira vez como homens, na primeira dimensão do Universo. Mostrava os centauros, as primeiras criaturas filhas de cavalos brancos, e que nasceram com os espíritos dos primeiros anjos encarnados. Em seguida, Fernando estudou onde se encontrava esse planeta. Achou-o na terceira dimensão, convertido num mundo seco e desabitado. Os centauros pela sua vez estavam na primeira dimensão, como belíssimos homens, no “Mundo dos Anjos” no planeta mais antigo que existia em todo o Cosmos. Eles praticamente eram vizinhos de “00”, no centro de todas as galáxias. A seguir, Fernando viu o surgimento dos mundos inferiores, que nasceram quando os centauros mataram os homens maus numa guerra mundial. Os espíritos desses condenados haviam encarnado nos elefantes, dando início aos nascimentos dos maiores homens do Universo. Fernando teve que rastrear onde permanecia esse planeta. Sua posição era na sétima dimensão, congelado, deserto e estéril. Depois pesquisou o lugar para onde os espíritos dos homens-elefantes haviam migrado. Teve vontade de chorar. Era seu mundo, onde nascera pela primeira vez, o planeta “C de BETHA” da Segunda Dimensão, e ele próprio era gigante por causa desses ancestrais.

Cada vez que estudava história universal, Fernando terminava dormindo por cima desses livros, e era acordado por algum amigo, para ir para alguma festa. Quando chegava a casa estendia-se vestido na cama e desmaiava. Acordava ao amanhecer com o cheiro da cozinha e seu café suculento na mesa esperando-o. Para não ficar gordo com tantos banquetes desse robô maravilhoso, corria até a universidade, e depois dava cinco voltas numa pista de atletismo ao lado de uns 300 jovens que faziam a mesma coisa.

Nas escolas desse mundo não existiam os esportes brutos, e muito menos o Box. Apenas uma ginástica básica ao amanhecer.

Quando Fernando lhes narrava aos colegas de sua rotina em “L de ALPHA” seus companheiros gracejavam em coro. Nossa! Ir para Escola a fazer esportes era incrível. Nem dava para acreditar, pois para eles a escola servia para estudar uns 5.000 livros.

E o tempo alastrou-se, sempre igual.

Durante todos os anos em que viveram separados, Mônica e Fernando sonharam um com o outro, em cada noite dormida. As melhores lembranças eram da encarnação no Mundo de “Z de ALPHA”, onde foram muito felizes. Onde morreram de velhos, depois que os dinossauros chegaram nesse lugar, numa nave espacial. Onde tiveram a felicidade de conhecer essas criaturas gigantes, passeando na selva, comendo folhas das árvores, e colocando ovos enormes em ninhos na beira dos lagos. Ver nascerem os filhotes era a coisa mais linda de se ver. Os veterinários colocavam os ovos em praça pública, em cabines de vidros aquecidos, para que o povo acompanhasse o nascimento dos bichinhos. Depois, eles iam para a casa de alguém. Ficavam nas cidades, até o dia em que eram levados para o lago por causa de seu crescimento gigantesco. Quando os filhotes entravam nos lagos, as pessoas iam vê-los, e ficavam chamando-os por nomes esquisitos.

E entre sonhos e realidade, Fernando conseguiu finalmente aprender de cor todo o mapa universal. Passou a distinguir com clareza como se alinhavam as dimensões, onde estavam os Sistemas desde ALPHA até OMEGA, e principalmente como se abrir caminho até o Sistema onde viviam os iguanas.

Nas aulas de "Evolução humana", Fernando se deparou com algo insólito, impensado, sobrenatural. Sabia que os homens da Sétima e da Oitava dimensão eram homens em evolução, mas nos livros eles eram classificados como bestas. Havia apenas duas civilizações consideradas humanas nesse confim universal, os descendentes de cobras e os descendentes de gorilas. Depois foi lendo o que diferenciava as bestas dos homens, pois os iguanas eram tão civilizados quanto as cobras, enquanto os gorilas viviam em plena pré-história.

No planeta “W de TETHA” da Oitava dimensão, os gorilas primitivos, embora cabeludos ao extremo, eram pessoas adoráveis. Monógamos, amavam os filhotes, eram vegetarianos e compartilhavam tudo. Em contrapartida, em “X de TETHA” os vizinhos iguanas matavam ursos para fazer casaco de peles, baleias para fazer óleo, crocodilos para fazer bolsas e sapatos, borboletas para enfeitar quadros, faziam experiências em laboratório com ratos e serpentes, criando criaturas estranhas. Para se alimentar comiam gafanhotos, baratas com caramelo, moscas ao molho de mostarda, lagartixas com alcaparras, na verdade, os iguanas tinham um péssimo paladar. E o que era mais inverossímil ainda, a missão de Fernando não seria fazer a mudança alimentar, seria apenas impedir que os iguanas bestas dominassem e escravizassem os homens gorilas e conquistassem esse planeta. Apenas isso. Fernando teria que deter uma invasão para pacificação. Apenas isso.

Para descobrir como eram os iguanas, Fernando utilizou o espelho falante.

Viu em meio de uma névoa um mundo gigante, soberbo, lindíssimo, com uma sociedade moderna. O aniquilamento das próprias riquezas naturais os tinha levado a invadir sua Galáxia em busca de novas jazidas de petróleo, e tudo que uma sociedade burra utiliza até a exaustão. Os iguanas estavam desmatando e assaltando planetas vizinhos, e chacinando seres indefesos. Os homens-lagartos de “U”, tanto quanto os homens-gorilas de “W” eram queimados vivos com armas mortais. O pior de tudo eram as explosões no chão. Dinamitavam-se montanhas para se abrir caminho em busca de riquezas, sem sequer verificar se alguma pessoa estava nas redondezas. Afinal, a Oitava dimensão era o lugar cósmico onde tudo começava pela primeira vez. Onde nasciam homens de aspectos horripilantes. Nascer nelas significava castigo. Punição. Mas ao mesmo tempo, o surgimento de uma nova espécie universal. Fernando viu também os Mundos dos homens-moscas, e finalmente a dos homens-cobras, que possuíam uma civilização encantadora. Fantástica.

Desesperado, Fernando visualizou o mundo de “E de ALPHA”, e pediu para falar com um espião. Imediatamente, a imagem de Guilherme lhe apareceu nítida. Um homem imponente, vestido de preto da cabeça aos pés e noivo da loira mais deslumbrante desse mundo. E esse belo homem falou-lhe:

— Que honra, Comandante! Necessita de nossa ajuda?

— Espionagem na Oitava Dimensão, “Sistema TETHA”, planeta X, imediatamente, com registro em vídeo. Isso seria possível?

— Será um prazer ajudá-lo... Mas necessitaríamos que viajasse conosco seu melhor guerreiro.

— Ótimo... Quanto demoraria em chegar a meu planeta, “L de ALPHA”?

— Se sairmos neste momento, eu acredito que estaremos com você, no dia exato do seu regresso.

— Então, eu me encarregarei da festa de boas-vindas...

E a imagem de Guilherme desapareceu pouco a pouco.

Dias seguinte Fernando estudou outras Dimensões. Da Quinta dimensão para cima só encontrou mundos superiores, ou mundos em transição. E numa empolgação repentina, procurou pela Terra, o mundo de Adão e Eva. Encontrou-a na Quinta dimensão. Não existiam mais assassinos, nem ladrões. A sociedade havia se constituído nos 5 bilhões de habitantes, eram vegetarianos, cuidavam dos animaizinhos, e a inferioridade só existiam no uso do dinheiro e na existência dos milionários. Mas os miseráveis não os haviam mais. Encontrou duas classes sociais, a classe média e a classe milionária.

Quando chegou a casa escreveu tudo que viu da Terra para Adão, para ele saber que sua luta valera a pena. Não haviam salvado a Terra apenas do holocausto atômico, pois ela seria uma Sociedade Superior, assim que abolissem o uso do dinheiro. E tudo assinalava que a Terra seria no futuro um mundo de Guerreiros intergalácticos. Colocou a carta numa caixa, onde depositou também presentes para as crianças, fotografias dele e seus amigos, e para Mônica um baú com joias de ouro puro, deslumbrantes. Carregou embaixo do braço, e foi até um escritório da Base de lançamentos. Algo assim como um correio entre planetas. Perguntou se havia algo para ele, e sorriu. O estava esperando uma caixa com presentes, fotos, filmes, para consolá-lo da solidão.

E os anos continuaram se passando, na longa espera do reencontro.

Quando Fernando estava com um poder mental, suficientemente desenvolvido para falar com o outro extremo do Universo, ele foi convidado ao Templo da sabedoria.

O Templo da sabedoria era uma torre de uns 100 andares, em meio da cidade, em cuja cobertura existia um telescópio que se abria para a imensidão. No interior do templo havia um espelho falante gigante, para “00” e os anjos aparecerem regularmente, e uns 10 espelhos menores para dialogar com homens de outros mundos. E dentro desse lugar, estavam os maiores cérebros desse planeta. Homens gênios, sábios, que sabiam as respostas para todas as perguntas. Fernando levou um susto, pois genialidade nada tinha a ver com idade. Havia desde guris de 10 anos até velhos com 8.000 anos.

Em pouco tempo, Fernando percebeu que estava no centro do Universo.

Não geologicamente, mas cientificamente. Era naquele lugar aonde chegavam os relatórios dos Espiões intergalácticos, descrevendo algum desastre universal. Mundos morrendo, sociedades humanas em guerras mortais, Sóis esfriando, homens agonizando de frio, ou de calor, enfim. Depois eles faziam um dossiê para os anjos, os quais decidiam o que fazer. E os anjos geralmente solucionavam tudo pessoalmente, enviando anjos a trabalhar nos lugares mais distantes. Mas quando se tratava de guerras entre os homens, “B de ALPHA” tinha que assumir. O templo da sabedoria se comunicava com todos os sacerdotes estelares, de todos os mundos superiores, em busca de soldados valentes para as missões estelares. Depois da seleção, os guerreiros iam morrendo e reencarnando, em “L de ALPHA”, para formar um pelotão de combatentes.

Assim que Fernando entrou, uma mulher vestida de branco, colar de pérolas douradas e três homens vestidos de amarelo, com um medalhão de ouro no peito, correram para dar-lhe um abraço. E a seguir, sentaram em redor de uma mesa de reuniões, para Fernando tirar dúvidas, esclarecer incógnitas, ou simplesmente fazer alguma piada. E Fernando deu sua melhor gargalhada, pois tinha 5 amigos de farra andando por ali perto, fazendo caretas engraçadas e sinais com o dedo. Ele sentou e falou que a única coisa que ele não sabia, era como terminar com a maldade. Só isso.

E os sábios começaram explicando que a maldade não existia.

O que havia era apenas a evolução dos homens: — de BESTA para seres divinos. Só. Portanto Fernando só devia ver as porcentagens, em qualquer circunstância futura. Para entender melhor explicaram que ele mesmo, Fernando, era 30% homem, 1% besta, e quase anjo.

Imediatamente as gargalhadas irromperam no ambiente.

Num planeta onde todos são telepáticos não há segredos, e as brigas de Fernando e sua esposa Mônica não era mistério para ninguém.

Mais sérios, os sábios explicavam que na Primeira Dimensão os homens variavam entre 75% anjos, e 25% homens. E, havia ainda os anjos que se negavam a nascerem anjos, como era o caso de Adão, seu melhor amigo, e todos seus filhos. Esse planeta da guerra não era o lugar de Adão. E com certeza no futuro ele iria ir, sabe lá para onde. E por causa dessa Lei do livre arbítrio, Adão podia ser homem pela eternidade, embora fosse um anjo 100% evoluído. E não existia castigo para isso.

Fernando riu sozinho desta vez. E falou para todos:

— O pior é que para onde ele vai, eu vou junto com ele... Meus filhos se negam a me seguir, vão atrás do sogro... Dá para acreditar?

— Culpa dessa porcentagem que os separa... Seus filhos amam Adão tanto quanto a você, e adoram os filhos dele. Se conforme.

Fernando falou:

— Eu fiquei mais confuso ainda. Os animais são encantadores. Eu amo todo tipo de bicho. Adão tem um cavalo, ao qual ama como a um irmão. É a terceira vez que nascem juntos. Essa besta na encarnação anterior até dormia dentro de casa. Era incrível. Você entrava na mansão, e lá estava o cavalo sentado no meio da sala.

E eles responderam:

— Mas, os animais lutam por territórios. Um gato é o senhor de sua fazenda, e se outro gato invadir sua área haverá brigas. Um leão é dono de seu harém de fêmeas. Ele mata por elas. Um leopardo mata outro bichinho para se alimentar. E quando um anjo os converte em homens, eles continuam a fazer a mesma coisa. Os homens-iguanas se matam por fronteiras, às vezes alguns metros de terra apenas. E os machos matam os amantes das esposas. O perdão, infelizmente, é a coisa mais difícil de absorver. Enquanto se é besta, a lei sempre será: olho por olho, e dente por dente.

Outro gênio acrescentou:

— Você teve a experiência da Terra. Quando você esteve lá, os terráqueos eram 80% bestas. Não existe nada pior que um homem se comportando de forma selvagem.

E Fernando terminou:

— Nossa! Só lembrar-se dos escravos do Egito me arrepio todo. Eles os chicoteavam, matavam, exploravam sem dó nem piedade.

— E se prepare para ver tudo isso, mais uma vez. Os iguanas possuem uma civilização majestosa. Mas, como seres humanos, acho que o cavalo de Adão é melhor do que eles...

Mas a descoberta principal dessa conversa Fernando encontrou-a nele mesmo. Os sábios lhe explicaram que na verdade ele já era um escolhido, desde o longínquo dia em que saiu a caminho da Terra. Quando ele e Adão se conheceram. Era um homem famoso no centro universal. Um herói. Um espírito destinado desde longa data a assumir essa missão.

Notas finais
E os sábios começaram explicando que a maldade não existia. O que havia era apenas a evolução dos homens: - de BESTA para seres divinos. Só. Portanto Fernando só devia ver as porcentagens, em qualquer circunstância futura. Para entender melhor explicaram que ele mesmo, Fernando, era 30% homem, 1% besta, e quase anjo. Imediatamente as gargalhadas irromperam no ambiente. Num planeta onde todos são telepáticos não há segredos, e as brigas de Fernando e sua esposa Mônica não era mistério para ninguém. Mais sérios, os sábios explicavam que na Primeira Dimensão os homens variavam entre 75% anjos, e 25% homens. E, havia ainda os anjos que se negavam a nascerem anjos, como era o caso de Adão, seu melhor amigo, e todos seus filhos. Esse planeta da guerra não era o lugar de Adão. E com certeza no futuro ele iria ir, sabe lá para onde. E por causa dessa Lei do livre arbítrio, Adão podia ser homem pela eternidade, embora fosse um anjo 100% evoluído. E não existia castigo para isso.