Notas iniciais
As novidades do dia eram narradas aos poucos, enquanto jantavam, pois, todos os filhos eram bons em contar histórias. Os meninos mostravam desenhos, bordados, tapetes, panos de crochê, luvas de tricô, panos de cozinha pintados à mão, esculturas, colares, pois o estudo começava com o aprendizado de todas as artes e do artesanato. Amon-rá era a revelação familiar. Modelava todo tipo de animais com argila, e mais tarde aprendeu a esculpir madeira com formão. Era o melhor artista da família, depois de Eva, que nunca mais fizera uma obra de arte. Culpava Adão. Adão acusava os filhos. Os meninos incriminavam a maratona de beijinhos. Escarneciam às gargalhadas, pois os filhos eram como os pais. Amavam-se, e brincavam sobre tudo.

Muito longe de Fernando as crianças cresceram depressa.

Antes de completar um ano eles comiam sozinhos, não usavam fraldas, falavam 80 palavras, e eram pequenos homenzinhos sábios. Gênios. Com dois anos faziam desenhos em casa, olhavam televisão, jogavam xadrez, passeavam pela cidade, e quando chegava o dia do futebol do papai Adão e da mamãe Mônica, lhes faziam as maiores torcidas.

Com três anos jogavam bola com amiguinhos do bairro, nos jardins da universidade. E com quatro anos começaram a frequentar a “Escolinha infantil”.

Bem-vestidos e bem penteados, Adão os sentava, com cinto de segurança, no carro aéreo. Acendia as luzes vermelhas, e subia lentamente em busca de uma vaga nas alturas. Descia no aeródromo dessa Escolinha, e dava um beijo nos sete, pois Fernando Júnior e Noemi viajavam juntos. Mônica apenas se dava o trabalho de colocá-los parados na porta da fazenda, onde Adão os recolhia todos os dias, levitando-os para as alturas. Afinal, Filomena estava grávida de gêmeos, dispensada do trabalho, e Eugênio estava realizando o trabalho de ambos, com 5 robôs agricultores. E Mônica, com um robô cozinheiro, cuidava do trabalho doméstico.

Quando Adão voltava para casa, depois de deixar os meninos na escola, aterrissava no terraço do seu edifício, deixava o carro bem alinhado, e entrava no último andar em busca do ascensor de luz. Descia assobiando. O ascensor era uma luz com gravidade zero, que interrompia a força de atração do planeta, e levitava a pessoa, calmamente.

Mas, com os filhos estudando, a licença paternidade terminou, e os enviaram a ambos de volta aos estudos.

Adão, que já estava de agasalho, saía de casa com Eva atravessando ruas, pois os colegas sempre iniciavam a maratona matutina ao raiar do Sol. Percorriam as ruas durante três horas seguidas, sem se deterem para nada, sequer beber água. Tomavam banho na escola, comiam gulosamente o café da manhã, na espera do apito. Assim que uma sirene tocava, entravam em aulas de “desintegração da matéria” e de levitação. Depois do almoço, cochilavam sobre a grama dos jardins, na espera do apito da tarde. Desta vez eram as lutas corpo a corpo, cujas modalidades eram o estudo do karatê, kung-fu, e sumô. Adão saía dos ginásios esportivos antes da hora, para buscar os meninos. Quando chegava a casa, Eva os esperava a todos com uma mesa cheia de delícias, preparada com a ajuda dos seus três robozinhos. Sopa de legumes com ovo mole por cima, saladas de verduras cozidas ao bafo, omeletes, maioneses de maçã e batatas, pastelão de legumes, lasanhas de tomate seco, rúcula e queijo fumegando, e as sobremesas em taças de cristais. Os sorvetes ficavam para o final, servidos com caldas de chocolate derretido, e bolachas.

As novidades do dia eram narradas aos poucos, enquanto jantavam, pois, todos os filhos eram bons em contar histórias. Os meninos mostravam desenhos, bordados, tapetes, panos de crochê, luvas de tricô, panos de cozinha pintados à mão, esculturas, colares, pois o estudo começava com o aprendizado de todas as artes e do artesanato. Amon-rá era a revelação familiar. Modelava todo tipo de animais com argila, e mais tarde aprendeu a esculpir madeira com formão. Era o melhor artista da família, depois de Eva, que nunca mais fizera uma obra de arte. Culpava Adão. Adão acusava os filhos. Os meninos incriminavam a maratona de beijinhos. Escarneciam às gargalhadas, pois os filhos eram como os pais. Amavam-se, e brincavam sobre tudo.

Para terminar o dia, todos se apinhavam nos sofás para ver televisão.

Adão trazia filmes das lojas da cidade, colocava na TV panorâmica e em terceira dimensão. Quando dormiam os carregava, um a um, até suas camas. Nohiki tinha um dormitório só dela. Jesus e Paulo dormiam no mesmo quarto e Peter compartilhava com Amon-rá. Adão beijava-os, cobria, hipnotizava para não acordarem, e corria a namorar sua mulher na suíte. Faziam amor com paixão e dormiam abraçados, como sempre fizeram. Quem os acordava eram os filhos, com piadas atrás da porta, golpes, e até pontapés.

Eva, ainda de roupão, lhes preparava sucos de frutas, enquanto os meninos iam colocando na mesa tudo que encontravam. Restos da noite anterior. Faziam um lanche rápido, pois na Escolinha se tomava o desjejum. Beijavam a mãe e saíam correndo até o elevador, em cujo lugar se subia para o terraço como folhas ao vento. E Adão cruzava novamente a cidade. Belzier o acompanhava, pois gostava de voar com o ar das manhãs. Fazia piruetas, que encantava os guris, e tinha vezes que ficava passeando em redor da Escolinha, pois havia umas éguas lindas para paquerar.

Na Escolinha infantil, além do estudo de todas as artes, as crianças encontraram matérias jocosas. Um instrutor os coroava Rei do mundo durante dez dias. A eleição era por sorteio, e o rei podia pedir para os súditos de sua sala, o que ele quisesse durante todo o tempo de seu reinado. O rei recebia uma coroa na cabeça, um cetro na mão como sinal de autoridade, e durante esses dias podia escolher o não fazer nada, além de mandar nos colegas de turma a fazerem seus deveres no seu lugar. O docente falava que o melhor rei do ano levaria a coroa para casa.

Quando Nohiki foi eleita, ela pediu para ser vestida de rainha.

Imediatamente, as colegas foram até as salas de teatro, onde havia os guarda-roupas para encenações. Trouxeram-lhe um vestido longo, além de muitas joias, e por último pentearam-na com seus cachos negros caindo como cascatas, entre a coroa. E ela começou a desfilar pelos corredores, para se exibir. Depois, saiu de passeio pelos jardins com Fernando Júnior, sentaram entre as flores, rindo felizes, enquanto seus súditos estudavam por ela, escreviam nos seus cadernos e faziam seus deveres.

Amon-rá foi mais abusado. Exigiu ser carregado durante todo o tempo do seu reinado, e pediu que o servissem com exclusividade nos refeitórios. Todos os dias, ele subia num assento, assim que entrava na Escolinha, e os colegas colocavam mastros de sustentação por baixo e o carregavam pelos corredores. Na hora dos lanches, as meninas lhe serviam os pratos, o suco, e ele pedia guardanapos, prato com água para lavar as mãos, e ria de tudo. Feliz.

Peter, envergonhado com seus irmãos, quando assumiu o trono pediu para seus súditos não fazerem nada para ele. Mesmo assim, teve que colocar a coroa e desfilar com o cetro na mão, pois isso era obrigatório. Paulo fez a mesma coisa. E cada vez que estava longe dos olhares dos mestres, tirava a coroa da cabeça e guardava-a.

Mas quem levou a coroa para casa no fim desse ano foi Jesus.

Quando assumiu seu reinado, ele fez um discurso para sua turma, e falou que um bom governante não subia ao trono para mandar, senão que para servir ao povo. Por tanto, durante esses dias que estavam pela frente, ele acudiria seus súditos em tudo. Cuidaria de quem estivesse com problemas de qualquer espécie. E ficou na sala olhando seus colegas, pronto para ajudá-los a fazer um desenho, ou uma cerâmica, e durante as aulas de jardinagem ajudava a plantar as mudas e a regar as flores.

Mas, nos anos subsequentes, tiveram a pior de todas as tarefas.

Ela se chamava um dia de escravo. E também era por sorteios. Afinal, na Escolinha não havia nenhum robô fazendo serviços. Quem cozinhava eram os escravos mais velhos, da última turma. Quem lavava os pratos e limpava o chão, eram os escravos mais fortes. Geralmente homens. Quem servia as mesas, colocava os pratos, os talheres, guardanapos, servia os sucos para todos, deslocando-se de mesa em mesa, eram geralmente os escravos menores. Os iniciantes na profissão. E a tarefa mais nojenta era a desintegração das fezes em décimos de segundo. Em casa, eles já sabiam desintegrar com o olhar seu cocô na patente, mas na Escolinha devia-se olhar para cima, e desintegrar cocô de passarinhos, olhar para baixo e fazer desaparecer cocô de coelhos, ratos, jabutis, e uma dúzia de bichos, assim que se iniciava o dia. E nessa matéria não havia notas, nem premiações, nem coroa, pois, escravo não tinha direito a nada. Sequer um abraço, e muito menos um muito obrigado de ninguém.

Mas ser escravo, ou ser rei, todo mundo terminava levando na brincadeira.

A única disciplina que doía na alma era a que se chamava Desprendimento. E essa matéria começava quando o aluno quisesse. Podia passar todos os anos nessa Escolinha, e nunca a fazer, mas, porém, ela possuía qualificações, e quem tirasse nota “0” sequer chegava à Universidade. Seria barrado em todas elas. Era a única matéria que assinalava que um homem não era digno de ser guerreiro, nem médico, nem nada.

Na disciplina Desprendimento o aluno devia trocar um pertence pessoal com os outros colegas, quando tocava a trombeta. Mais ou menos a cada 14 ou 15 dias, sempre de surpresa. Podia ser a calça, ou a camisa, ou um colar, uma pulseira, ou seu ursinho favorito, ou uma escultura maravilhosa, ou uma pintura, enfim. As crianças chegavam ao final do ano, sem nada que era delas. Quem não tinha mais nada para trocar, devia procurar nas lojas da cidade, pois não era aceito que devolvesse um pertence de algum colega, ou trouxesse algo da família.

E quem se deu melhor nessa lição foi Amon-rá. Ele esculpia todos os dias, fazia vasos de cerâmicas maravilhosos, pintava quadros gigantes, que os colegas sempre se brigavam em levar junto. Ele até abusava. Era um negociador. Em troca, ganhava pulseiras de ouro, brinquedos mecanizados, livros com ilustrações divinas, era um afortunado.

Enquanto isso, Adão e Eva estudavam com afinco, mas nos dias feriados saíam para passear. Eva sequer entrava na cozinha, pois ia ao Mirante fazer piquenique. Adão trazia do supermercado um cesto de guloseimas e as crianças levavam seus brinquedos mais amados. Batiam bola, ou faziam voar seus aviõezinhos, ou uma pipa, enquanto Nohiki preferia ser a mimada do papai. Adão saia a catar frutas com ela no colo, enquanto Eva estendia toalhas no chão e colocava bolos, bolachas, sucos, tortas de verduras, enfim.

Outras vezes visitavam Dina, ou Ludmila, ambas com filhos da mesma idade dos netinhos. Era quando Eva e Adão deliciavam-se com os banquetes da mamãe. Já outras vezes deixavam as crianças com as avós. Iam ao cinema, ou a uma danceteria, para beber uma cerveja gelada, e dançar com os amigos. Na cidade, também havia um bar preferido, onde se punham a conversar. Era quando Mônica se consolava da solidão entre os amigos. Mostrava as fotos de Fernando em “B de ALPHA”, e contava tudo o que ele estava estudando. Depois, ela mesma fotografava a turma, para enviar no próximo correio.

Já em casa, Monica se filmava a si mesma, mostrando suas curvas em vestidos deslumbrantes. Seus irmãozinhos Carlos e Fabiano, nascidos nesse tempo transcorrido, também faziam caretas para o cunhado, e riam com suas carinhas de anjinhos.

Quando Carlos e Fabiano começaram a frequentar a Escolinha infantil, seus sobrinhos Noemi e Fernando Júnior entraram no Ensino Superior, ao lado dos filhos de Adão, enquanto a irmã Mônica entrava na Universidade.

As carreiras oferecidas nas Universidades eram Medicina, Construção, Engenharia geral, Pilotagem, Destruidor de asteroides, Professor infantil, Cozinheiro, Faxineiro Espacial, Químico e Físico, Agricultor, Veterinário, Geólogo e Astrônomo.

Adão ficou qualificado nos testes de aptidão para escolher entre Engenharia geral, Veterinária e Medicina e ele preferiu ser veterinário. Eva ficou qualificada para Veterinária, Cozinheira, Faxineira e Destruidora de asteroides. Mônica podia escolher entre Medicina, Veterinária e Pilotagem. Eva decidiu ser “Destruidora de asteroides” e Mônica escolheu ser médica. Mário, Nina, Tiago e Fernanda já estudavam Medicina fazia tempo, e o resto dos amigos estava na Escola de Engenharia geral.

Foi a vez de todos eles estudarem em Educandários distantes, com uns para as Universidades, os filhos para a Escola de Ensino Superior.

Enquanto Eugênio saia da fazenda com seus gêmeos rumo à Escolinha infantil, Mônica levava os filhos até o centro da cidade. Detinha o carro no ar, pois eles pulavam através da luz azul, e corriam ao encontro dos filhos de Adão que sempre chegavam antes. Só então, ela girava e voava até alcançar a Escola de medicina, que estava além dos cinemas e danceterias, no lado oposto da cidade.

Belzier levava Adão para a Escola Veterinária, que ficava perto da selva, e depois continuava voando para deixar Eva numa Universidade longínqua. Canteiros de pedras os havia em toda parte, pois essa Universidade mais parecia um Aterro sanitário de um mundo primitivo. Cheio de entulhos e sucatas. Tudo que havia de sobra nesse mundo era encaminhado até lá, para exercitar os alunos na desintegração.

Eva iniciava o dia com as matérias telepatia, levitação, história universal, idiomas, ciências biológicas, matemática experimental, e durante a tarde estudava a principal. Desintegração da matéria, em todas suas formas. Começava com pedrinhas miúdas, que desmaterializavam com sua mirada. Depois, fazia ar às pedras maiores, e por último desintegrava um cerro gigante de entulhos. Finalizavam os exercícios em meio do espaço destruindo asteroides.

Mas Eva possuía um poder destruidor fora do comum. Por esse motivo, foi subindo rápido de graus, eliminando patamares, e foi a primeira a se formar, e a primeira a dar exame de admissão na “Universidade de guerra”. Foram 400 perguntas em frente a um robô, além das provas de capacidades mentais. E iniciou o que seria a pior fase de sua vida. Lutar cara a cara com homens além de 2 metros, que adoravam desmaiar mulher com um soco na cara.

Entretanto, isso sacudiu a rotina de sua família.

Adão chegava aos ginásios com os cinco filhos, e Mônica com seus gêmeos, para ver Eva dando uma surra em alguém. Gritavam, faziam torcidas, e Adão só ficava assustado quando ela caía ferida no chão. Mas quando Eva desmaiava um homem, a criançada entrava no tatame gritando em coro, feliz, porque todos eles ambicionavam estar ali, algum dia, fazendo a mesma coisa.

E foi também quando Adão se transformou num homem louco pela mulher. Ver sua esposa vestida de guerreira, maiô de couro sintético grudado ao corpo, cinto na cabeça segurando os cabelos, botas até o joelho, e uma cimitarra primitiva na mão, o deixavam paralisado. Primeiro era o medo das feridas, pois as espadas possuíam lâminas cortantes. Mas, Eva dava cambalhotas no chão, ou girava o corpo em 360º, derrubava o adversário com uma patada no peito e lhe colocava a ponta da arma no pescoço. Imediatamente os juízes apitavam e ela levantava os braços como uma guerreira de um mundo primitivo. Chegando a casa, essas miragens gravadas na cabeça convertiam Adão num selvagem. Caia por cima, como brigando, Eva evitava o assalto, e riam até engasgar. Pareciam crianças brincando de fazer amor. Mordiam os lábios enquanto se beijavam, e namoravam entre gargalhadas.

Quando Eva estava no terceiro ano, e já era campeã de muitas modalidades, foi a vez de Adão fazer os testes. Como todos os amigos do time de futebol já eram veteranos, eles se reencontraram nos ginásios de formas diferentes. Era com o soco na cara, ou a patada no peito, e não se permitia pedir desculpas. E as mulheres como Rosa e Nina eram tão selvagens, que em pouco tempo surravam Adão rindo, gargalhando, pois elas eram campeãs imbatíveis.

Adão começou a recuperar a forma de “papai cansado”, aos poucos.

Eva adorava lutar com ele. Agarrava-se em abraços mortais, e Adão a beijava. Ela se distraía e era desqualificada num tombo técnico. Os filhos na plateia riam até engasgar. Mas quando Adão desmaiava no chão de um soco de Nina, ou de Rosa, Eva ficava assustada. Beijava-o, carregava fora do tatame, cuidava das feridas, enquanto os filhos zombavam do pai sem pena.

— Puxa, pai, você só dá vexame! Perdeu para uma mulher, pai!

— Cadê o Adão de antigamente, pai?

— Nossa, pai! Porque está tão fraco?

E ele se defendia:

— Porque eu tive de limpar a bunda de 5 cagões até pouco tempo...

E os cinco o abraçavam, lhe davam beijos, e caminhavam para casa com o ferido, sem parar de fazer piadas do guerreiro fraquinho.

E foi nesse tempo que Amon-rá e Nohiki começaram a se desligar da família.

Nos fins de semana iam passear com Noemi e Fernando Júnior, e os quatro se perdiam no amasso no escurinho do cinema. Fernando Júnior sentava na última fila com Nohiki no colo, se beijando, enquanto Amon-rá levava Noemi para um banheiro, pois nesta vida ela falava sim para tudo. E ele nunca foi tão feliz. Cresceu beijando-a na Escolinha Infantil, e agora que estava adolescente, ela estava uma mulher ardente, que permitia o que ele quisesse. Desta maneira, Amon-rá foi o primeiro a perder a virgindade. O único que perturbava sua felicidade era que o estudo os separava. Desde o amanhecer até o pôr do Sol, a Escola os mantinha numa rotina rígida. Mal dava para dar uns beijinhos nos recreios. Ria com ele mesmo. Necessitava se aconselhar com seu avô João. Faxineiro era a profissão mais calma desse mundo, e buscaria o jeito de ser enquadrado nela.

Fernando Júnior, que crescera sendo beijado desde que nasceu, era menos afobado que seu cunhado. Gostava sempre de ir passo a passo, nas delícias do amor. Nohiki sentava em seu colo, e ele ficava acariciando esse corpo miúdo que ele adorava.

Ao contrário deles, Jesus, Paulo e Peter demoraram em encontrar suas esposas, pois esse mundo tinha uma população enorme.

Os três irmãos iam para o cinema, e ficavam na entrada examinando as mulheres solteiras. Depois iam à danceteria e faziam o mesmo. No entanto, Peter era belíssimo. Em pouco tempo, era rodeado de solteiras que o convidavam para tudo, dançar, beber, namorar, casar, com a maior cara de pau. Jesus com seus olhos azuis e cabelo castanho-claro, até a cintura, era algo que derretia qualquer mulher. Recebia cartas de amor desde a Escolinha Infantil. Paulo, moreno, forte, sensual, sempre tinha alguém o convidando a dar um passeio, em becos escuros, onde a juventude se atravancava.

Mas, Adão dentro de casa, sempre lhes lembrava do caso de Fernando e Mônica, e os aconselhava para que não caíssem em tentação. E ainda era mais dramático. Se descobrissem que eram galhudos, lhes pedia para perdoar. Jesus se arrepiava inteiro, só de imaginar sua Maláqui dando um beijo em outro macho. Nem precisava imaginar como ficaria o oponente. Ia dar tanta patada, mas tanta, que o sujeito ia ter que correr para outro planeta para escapar da morte.

Eva os ouvia desabafar em casa ao lado de Adão e mexia a cabeça gargalhando. Coitadas de suas noras, que não tiveram a graça de encontrar seus homens bem cedo. Eva tentava a telepatia com elas, mas havia mulheres espertas nesse mundo. Já encontrara 8 Maláqui, 5 Paulinas, e 50 Miriam. Todas ponderavam que eram as legítimas esposas de seus filhos.

E os três solteirões se dedicaram a estudar, correr como lebres, dar patadas de urso, para esfriar a cabeça, enquanto o tempo transcorria, e a vida de todos tomava seu rumo.

Quando todos terminaram o Ensino Superior, Paulo entrou para Escola de engenharia, Jesus para Escola de Medicina, Peter para Escola de Destruidor de asteroides, e Fernando Júnior e Amon-rá para Escola de Faxineiros Espaciais. Noemi entrou para Escola de veterinária e Nohiki foi para a Escola de cozinheiro.

Notas finais
Adão começou a recuperar a forma de “papai cansado”, aos poucos. Eva adorava lutar com ele. Agarrava-se em abraços mortais, e Adão a beijava. Ela se distraía e era desqualificada num tombo técnico. Os filhos na plateia riam até engasgar. Mas quando Adão desmaiava no chão de um soco de Nina, ou de Rosa, Eva ficava assustada. Beijava-o, carregava fora do tatame, cuidava das feridas, enquanto os filhos zombavam do pai sem pena. — Puxa, pai, você só dá vexame! Perdeu para uma mulher, pai! — Cadê o Adão de antigamente, pai? — Nossa, pai! Porque está tão fraco? E ele se defendia: — Porque eu tive de limpar a bunda de 5 cagões até pouco tempo... E os cinco o abraçavam, lhe davam beijos, e caminhavam para casa com o ferido, sem parar de fazer piadas do guerreiro fraquinho.