Adão e Eva, na guerra dos iguanas. PARTE I
12 A caminho do combate
Notas iniciais
Nos hospitais de “L de ALPHA”, nunca houve tantos pacientes como durante os dias que antecederam a partida dos guerreiros. João estava congelado, pois tivera um infarto perigoso, junto de outros pais que não conseguiram segurar a dor da separação daqueles que partiam.
Já Fernando estava a ponto da histeria. Nomeara os tenentes, os sargentos, os soldados, e tinha guerreiros reclamando da classificação e lhes dava bronca, dia após dia, com mensagens telepáticas. Alegavam que havia mais acompanhantes do que militares entre a frota. Principalmente, solteiros das outras cidades, que se haviam formado com louvor nas Universidades de guerra. Fernando então calculou espaços, adicionou dormitórios, diminuiu o tamanho dos corredores, e pediu aos reclamantes que se prepararem para viajar. No fim, eram 120.000 guerreiros, metade homem e metade mulher, entre casados e solteiros.
Na nave central, que era a maior de todas, espalhou seus dez primeiros tenentes além dos tenentes casados. Nas naves circundantes, a distribuição de suítes foi por sorteio, pois havia dez andares internos para serem ocupados. O soldado recebia em casa seu endereço, abria o envelope, e quando entrava nessas naves, seguia um mapa interno. A cabine de pilotagem e a antena receptora de água marcavam o Norte, fictício. Em cada porta das suítes, havia um letreiro com número do apartamento, nome do corredor, número desse andar, com os sinais “Leste, oeste, norte e sul”. O guerreiro abria a porta de sua suíte, onde encontrava uma cama flutuando perto do teto. No chão, estava uma hidromassagem tampada com um vidro azul, com suas águas cristalinas borbulhando. A cama podia ser usada flutuando, na altura que se quisesse, ou encostada por cima dessa banheira. E no centro da suíte, um assento erótico com respaldo duplo era a peça principal. Olhando para cima, no teto, podia-se admirar uma pintura mural com a cor do céu e desenhos de nuvens cor de rosa com passarinhos voejando. Numa parede, defronte à cama, se incluía uma tela panorâmica de televisão, com programas já gravados. Também havia um cubículo com um sanitário, no qual as fezes e urina se desintegravam sozinhas, na sua totalidade. Para guardar os pertences pessoais, estavam os armários embutidos. Ainda se podiam colocar as fotos da família nas outras paredes, um ursinho de pelúcia no chão, ou um instrumento musical, pois Fernando proibiu carregar com animaizinhos de casa, sequer peixinhos de aquários.
Além das ruas internas com seus alojamentos, estavam as grandes áreas onde havia refeitórios, danceterias, butiques, cafés, cinemas, jardins, pois ali dentro existia uma cidade com tudo que uma pessoa necessita para ser feliz. Piscinas com águas mornas, rodeada de mesinhas, cadeiras, plantas em vasos, e robôs que ofereciam frutas frescas, a todo o momento. Um ser humano poderia envelhecer ali dentro sem problemas, e sem sentir a falta da civilização.
As festas de despedidas para os que partiam, foram oferecidas por todas as Universidades de guerra.
Na cidade de Dabelheim, Fernando e Mônica sentaram-se à mesa da frente, para fazer uma alocução aos que ficavam. O diretor da universidade, e, a seguir, o Prefeito de Dabelheim fizeram discurso para os guerreiros. Algumas lágrimas rolaram pelos rostos dos guerreiros, pois a separação doía em todos os corações, e doía muito mais nas famílias que viam um filho partir para a guerra, da qual não haveria retorno. Visitar a Oitava dimensão significava jamais regressar a casa. Um guerreiro se contaminaria com bilhões de micro-organismos, assim que colocassem o pé nesse outro mundo. E trazer de volta os micróbios para a Primeira dimensão nunca seria permitido. Eles teriam que terminar a vida por lá mesmo.
No fim da noite, depois dessa festa, Fernando e seus amigos terminaram indo a um café, no centro da cidade. Fernando sentia-se bem-aventurado, embora cansado. Sentaram em círculo para beber os últimos drinques, num bar onde cresceram e namoraram tantas vezes. E foi então que Fernando falou para os amigos que Guilherme ia visitar uns guerreiros aliados, os homens-cobras, vizinhos dos iguanas. Tiago, Mário, Reginaldo e Abelardo começaram a chorar abraçados nas mulheres. Estranho! Sequer estavam bêbados. Mas Adão ficou curioso. Afinal, quem dera origem à raça dos homens-cobras havia sido seu irmãozinho Nestor uns 150.000 anos atrás... Mais ou menos. Quem falou foi Mário com a fala entrecortada pela emoção:
— Nós somos cobras, cara! E metade dos tenentes da frota também! Eu sempre achei que seria o comandante desta missão...
Tiago acrescentou:
— Eu também! Somos os pais das cobras! Eu e Mário ficamos nesse mundo sofrendo o inferno! Se soubesse o que passamos, cara... Foi um terror...
Adão, que estava silencioso, se arriscou a falar:
— Quem os condenou para esse fim do Universo foi meu irmão... Vocês destruíram um planeta com uma guerra nuclear... Não se lembram disso, não?
Mário respondeu-lhe:
— Nossa! Não! Só sei que fui uma cobra, que na Pré-história desse planeta rastejou pelo chão...
Tiago pensou com ele mesmo, refletiu, e começou a rir com euforia.
— Não demos uma surra a quem nos mandou para o inferno, mas surramos o Adão, o irmão dele, várias vezes... Toca aqui, mano...
Tiago e Mário bateram as mãos gargalhando e depois se abraçaram, sem parar de caçoar de Adão.
Fernando deu uma risada gostosa. Sempre se sabia mais das coisas da vida, numa mesa de bar. As cobras que conhecera em livros eram afinal seus melhores amigos de infância. Havia nascido ao lado das cobras e crescido com elas. Depois, deu os parabéns aos amigos, pois reencontrariam seus descendentes. Nesta feita, todos convertidos em bravos guerreiros. Tiago e Mário só de imaginar que regressariam ao lar, lacrimejaram abraçados, mais uma vez.
E fora assim, a despedida final, regada a cervejas e lágrimas.
Depois de escolher coisas mínimas, Eva teve que devolver sua casa para a Prefeitura e repartir seus pertences pessoais. Suas irmãs levaram seus quadros, todas as esculturas, os vasos de cerâmica, e os presentes de casamento, como taças de cristal, porcelanas e joias. Eva tinha tantas joias, que pendurou 12 colares no pescoço, 10 pulseiras nos braços e 5 nos tornozelos, um anel em cada dedo, e nas orelhas os brincos maiores, pois não entrava mais nada na sua mala. Dina levou tudo que era de Amon-rá. Esculturas, altos relevos, e três paisagens. Ludmila levou tudo que era de Adão, sapatos, tênis esportivos, agasalhos, e de Eva recebeu toalhas de mesa, lençóis, e algumas taças de cristais decoradas com arte. As comidas perecíveis Eva as repartiram entre os vizinhos de porta, no último dia, e ficaram nas despensas apenas as frutas secas, os vidros com conserva, e os vinhos. Ficaram também dois robozinhos encarregados de limpar tudo como espelho, e cuidar das plantas e dos passarinhos que se infiltravam através da tela da varanda. Eva deu uma última olhada ao lar, onde fora tão feliz com sua família, e fechou a porta derramando uma lágrima.
Adão sofreu mais do que Eva ao dizer adeus ao seu cavalo. Abraçou-o entre soluços, e marcaram um reencontro para a próxima encarnação. Adão prometeu procurar um planeta com as mais lindas éguas do universo para reencarnar. Belzier esfregou sua cara na de Adão, e o viu deixá-lo mais uma vez. Era o destino.
Para consolá-lo, Serguei levou Belzier para o mato em busca de uma namorada, assim que Adão voou pelo ar. Desceu na mata selvagem, em cujo lugar uma manada de cavalos alados comia capim. Belzier viu uma fêmea branca, que nem ele, asas celestes, de uma beleza desconhecida. Imediatamente a convidou a levar Serguei de volta para casa, e depois a namorar com ele, e ter várias dúzias de cavalinhos.
Serguei, que nunca conseguiu falar com bichos, parado na porta de sua casa, viu o cavalo de seu filho e sua fêmea nas alturas, e voando mais alto do que nunca. Era incrível. Dois voando por sobre a cidade. Depois fechou a porta, para consolar sua mulher e a ele mesmo. Abraçou-se nela e disse:
— Amor, uma guerra dura pouco. Assim que eles morrerem, nós vamos estar lá, esperando por eles...
— Mas, como vamos saber em que planeta eles vão nascer de novo?
— Isso nós vamos deixar com o João. Ele nunca falha. Eva nasce sempre dele...
E começaram a rir e a se consolar.
Na fazenda de Filomena, onde pairava um ar de melancolia, Fabiano e Carlos decidiram casar, e ficar a viver com os pais por algum tempo. Até eles terminarem com tanta dor. Mas, Filomena, convenceu o marido para ir ao templo desta vez, pois havia um fio ainda não desvendado na vida deles.
Sentados no chão escuro, uma luz começou a tomar forma no espelho falante.
Pouco a pouco, o Planeta das Cobras ficou nítido. Filomena se viu numa casa humilde, trabalhando num tanque de roupas, rodeada de sete guris. Ela também fora cobra, Eugênio já fora seu marido, e Carlos e Tiago eram seus filhos gêmeos. Depois viu Carlos, Fabiano e Tiago numa revolução como bravos guerreiros, e sendo adorados pelo povo. E, finalmente se viram a si mesmos dentro de uma casa maravilhosa, abraçados, bem velhinhos, em meio de netos, bisnetos, como patriarcas de um grande clã. Saíram do templo, com as lágrimas escorrendo, pois, a vida era assim mesmo. Como dizia João, as famílias que se amavam de verdade ficavam juntas pela eternidade. E o que era uma vida, afinal? Apenas um instante numa existência interminável. Com certeza estariam juntos para sempre, em todas as vidas do futuro.
Enquanto as famílias tentavam se consolar, na cidade do deserto, os guerreiros finalmente partiram.
Toda a cidade os ajudou a subir. Com a “força do pensamento”, as pessoas elevaram o monstro metálico, enquanto Fernando e os guerreiros faziam força dentro dela. Nave e homens se interligaram até o ponto de ser uma coisa só. Matéria e energia. Força e pensamento. Cada partícula metálica obedeceu como uma serva a vontade de todos os homens. Uma vez no espaço, veio o empurrão final. A nave entrou na velocidade invisível, e desapareceu rumo à escuridão como um cometa incandescente. Para não desintegrar com a velocidade, a força mental dos guerreiros alastrava-se fora da nave como uma nuvem cor de rosa. Nuvem composta da mais pura energia humana, cheia de eletricidade, luz, que afastaria qualquer pedregulho que passasse perto.
Desta vez, não haveria congelamento. Viveriam longos anos e teriam que levar uma vida normal. Solteiro poderia casar e casado podia ter seus filhos, pois havia ali dentro Escolinhas para crianças, Escolas de Ensino Superior e Universidades. Tudo o que há numa sociedade civilizada, estava no interior dessa nave gigante.
Os guerreiros também foram chamados a trabalhar nas suas profissões durante os longíssimos anos dessa viagem. Engenheiros revistariam tudo, à procura de falhas mecânicas, ou inventariam objetos novos para o convívio geral. Também teriam que tomar conta dos robôs e de sua manutenção. Destruidor de asteroide trabalharia lado ao lado dos pilotos. Embora a nave fosse impermeabilizada, eles destruiriam com o olhar tudo que houvesse na frente dos olhos. Sujeira cósmica, asteroides enlouquecidos, limpando a rota para uma passagem calma e tranquila. Cozinheiros fariam os banquetes, em turnos. Médicos cuidariam da saúde e dos partos futuros. Biólogos tomariam conta da horta e das plantas, e os Veterinários cuidariam de bichinhos que deambulavam nos jardins e nas hortas. E faxineiros manteriam essa nave como um espelho.
Os irmãos de Amon-rá, já antes da partida, começaram a lhe fazer piadas pesadas por cima dele.
Em meio do deserto e embaixo de um Sol escaldante, ele teve que limpar as naves por fora e por dentro, correndo, pois, a profissão que tinha menos pessoas e mais trabalho era faxineiro espacial. Quando partiram, ele desmaiou na suíte, cansado como nunca. Para cúmulo seu turno era a cada três dias. Dois dias de amor e um dia inteiro de judiação, pois seus irmãos não paravam de rir as suas custas. Assinalavam lhe sujeiras no chão, nos vidros, sempre gargalhando. Afinal, Amon-rá havia feito de tudo para ser faxineiro e ter uma vida mansa como o avô João. Mas tudo lhe saíra ao contrário.
Noemi como veterinária não tinha trabalho algum. Havia mais veterinários do que bichos desta vez. E sem nada para fazer começou a estudar, pois todos os médicos, que passavam pelo mesmo dilema da ociosidade, começaram a oferecer cursos especiais para leigos, na Universidade. Estudou medicina infantil, pois no mundo dos iguanas as crianças morriam até de tosse. Enquanto o marido limpava o chão, ela lia livros volumosos, assistia a vídeos e terminava fazendo pequenas cirurgias em bonecos.
Eva assumiu seu turno em demolição de detritos, iniciando seu turno depois de almoço, uma vez a cada 15 dias, pelo tempo de 4 horas conforme o relógio dessa nave. Peter possuía uma jornada maior, a cada 10 dias, no turno matutino. Em pé, defronte a uma pilastra, Eva era cingida por 4 correntes firmes, uma na testa, outra na altura dos ombros, mais uma nos quadris e a última nas canelas. Ela dilatava as pupilas olhando para o infinito e limpava a escuridão fazendo pó todo tipo de entulho cósmico, até onde seu olhar conseguia alcançar. Outros demolidores formavam uma corrente, lado a lado, a 5 metros de distância entre si, defronte às janelas das demais naves circundantes.
Os engenheiros Paulo, Maláqui, Paulina e Miriam trabalhavam em grupo, contando piadas, ao lado de Rosa, Marlene, Reginaldo e Abelardo, que eram verdadeiros gênios da engenharia. Não possuíam nenhum horário. Mas, eles gostavam de pesquisar entre os apetrechos nos depósitos. Para qualquer falha, elétrica ou mecânica, eles encontravam uma solução rápida. Reparavam lavadoras de roupas, lavadoras de louças, trituradores de sementes, máquinas manuseadas por robôs no dia a dia. Nos tempos livres inventavam brinquedos, faziam joias, carrinhos, patins, coisas que iam distribuindo nas lojas.
No fim do dia, todos eles se juntavam numa mesa ao redor de Fernando, para jantar juntos, conversar, e desfrutar do convívio. Às vezes iam dançar, ou treinavam um jogo de boliche.
Ênio, o único tenente solteiro dessa cúpula com grau máximo, demorou em se enturmar com Fernando e a família de Adão. Seus amigos de infância estavam em outras naves, o que significava que estava sempre perdido. Mas Fernando sempre o requisitava, porque era um gênio em desenho de mapas. Fernando lhe pedia que desenhasse a localização das constelações, e a refazer a rota, para chegar com menos curvas ao destino final. Ênio esquematizava as Galáxias conturbadas, principalmente aquelas que abriam os braços e desenhava o caminho entre elas. Fernando olhava no telescópio, conferia, e a seguir entregavam a rota para os pilotos.
Quando Ênio descobriu Maria Madalena, solteira como ele, sem namorado, dedicada a comandar a cabine de pilotagem como um relógio, ele perdeu o costume de visitar seus amigos das outras naves. Pessoalmente, lhe mostrava seus desenhos, com as novas rotas, e ficava ao lado dela mirando para o espaço, tentando encontrar uma forma de continuar a conversa fora dessas cabines.
Mas quem os juntou foi Jesus.
Maria Madalena e Jesus se encontraram frente a frente, em meio de uma praça. Ela correu a abraçá-lo, lágrimas escorregando, com Maláqui tentando se lembrar de onde é que ela era.
Maria Madalena lhe falou aos gritos:
— Que surpresa, mestre! Mas como é que estamos mais uma vez no mesmo barco?
— Coisas de “00”! Ele gosta de nos matar de emoção, com milagres como este. Quero que venhas ver minha família... Estou com meus pais Adão e Eva, Paulo, ou seja, João Batista para ti, e uma enorme galera de amigos.
E os três correram, até chegar onde à gangue familiar jantava. Paulo chorou ao vê-la, e ficaram abraçados por muito tempo. A seguir Adão e Eva a cingiram como a uma filha muito amada. Depois, Jesus contava para seus amigos a história de todos eles durante os dias do Império Romano na Terra. Tiago e Mário nem acreditavam que Jesus e Paulo haviam lutado contra leões famintos. Nossa! E quando Fernando apareceu com Ênio, o grupo ficou completo “para sempre”.
Em pouco tempo, Ênio ficava arrepiado com as conversas, pois a tortura suportada por Jesus ele só vira em filmes de terror. Depois, ele próprio teve que contar de seu passado, quando Areti lhe fez um pacto de aliança, durante uma guerra de uma vida anterior. Ele escondera os guerreiros de Areti na sua ilha, e de lá fizeram a revolução. Acabaram com todas as ditaduras e ele próprio virou líder de seu mundo.
Adão escutava a todos eles emocionado.
Na sua sabedoria, “00” juntara os melhores dos melhores desta vez. Cada tenente nessa mesa possuía histórias que os ligavam como numa teia de aranha. Quando Ênio terminou sua narrativa, Adão lhe deu um abraço e contou-lhe que Diana e Areti eram suas filhas, que agora estavam transformadas em Anjos.
Dias depois aconteceu o namoro entre Ênio e Madalena, que em vidas passadas amaram pessoas que ficaram para trás. Ênio, que sempre fora mulherengo e colecionador de fêmeas, pois acreditava que a felicidade estava na variedade, foi sentindo uma atração diferente por ela, atraído como por um imã. Era a primeira vez que achava sentido em ter uma mulher para sempre. Ênio seduziu-a com delicadeza, para não a afugentar. Dançavam de rosto colado, olhavam filmes no cinema de mãos dadas, jantavam com os amigos, e se beijavam na boca.
Maria Madalena demorou a se entregar para Ênio de verdade. Para se apaixonar com tudo. Sempre o medo da desilusão a controlava como uma bomba interna. Mas se deixou levar, e cada vez que se juntavam com Jesus e sua família, ela sentava no colo de Ênio, como era o costume dos casais. E a suíte dela ficou definitivamente vaga, pois passaram a viver juntos.
E enquanto o tempo e os anos se passavam, Amon-rá começou a ter pesadelos.
Noemi acordava assustada com o choro dele, pois sempre eram sonhos com os quíntuplos. Seus filhinhos de vidas anteriores. Eles estavam sofrendo, e não sabiam por quê. Noemi, assustada, o abraçou chorando numa noite, e falou-lhe:
— Querido, necessitamos saber o que se passou com eles... Quem sabe estão numa missão suicida, ou algo pior...
— Isso é que me arrepia todo... Não vamos poder ajudá-los...
— E se estiverem por aqui perto?... Ah?... Pegamos uma nave pequena e vamos atrás deles...
— Tem razão... Vamos ao templo a descobrir o que se passa... Estou que nem meu avô João, a ponto de um enfarte...
Quando entraram na escuridão do templo dessa nave, onde o Universo se manifestava, os espíritos de cinco pilantras rindo na cara deles lhes apareceram imediatamente, fazendo caretas engraçadas. Seus cinco filhos estavam acenando do outro lado da vida. Noemi começou a beijar esse espelho, na cara de cada um, chorando, pois eles os haviam seguido. Amon-rá lhes passava a mão pelos cabelos, rindo, pois, seus garotos o amavam tanto, que com certeza desprezaram serem anjos, e vieram atrás deles para uma guerra, com papai e mamãe.
Jorge, o filho moreno, lhes falou primeiro:
— Gostaram da surpresa? Vimos te livrar do sufoco, pai. Vamos nascer um, a cada dois anos, isso vai te dar uns 10 anos de licença de paternidade...
Depois, falou Patrícia, tão escura quanto Eva:
— Gostou pai? Nada de vassouras na mão daqui para frente... E o avô Adão tá na hora de ter uma preta na família que nem ele...
Amon-rá começou a rir:
— E vocês devem ter gostado de me ver ralando... Riram de mim este tempo todo... Confessem, seus piratas...
— Dennis, um filho loiro, respondeu:
— Mas não dava para não rir, pai... Ver-te por cima dessas naves suando ao Sol foi demais...
— Quem vai nascer primeiro?
— SURPRESA! E nada de vidro vermelho para saber quem é... Amamos-te, pai... Adoramos-te mãe... E vai fazer cirurgia de reversão logo, e comecem a namorar...
E desapareceram como fumaça, deixando Noemi e Amon-rá chorando abraçados. O amor era assim mesmo. Indestrutível. Aonde ia o pai ia o filho, o neto, o bisneto, a gangue toda até a quinta geração, pois com certeza seus filhos trouxeram junto os netinhos de Amon-rá.
Quem fez a cirurgia de reversão foi Jesus. Rindo. Nem dava para acreditar que os malandros estavam por ali em forma de espíritos. Amon-rá ficou fértil como um adolescente. Podia gerar todos os filhos que quisesse.
Amon-rá foi dispensado do trabalho quando a gravidez de Noemi foi confirmada pela médica Fernanda. Mônica e Fernando estavam mais do que felizes, igualmente Eva e Adão, pois essas naves estavam precisando da alegria das crianças. A família e os amigos faziam apostas de quem nasceria primeiro, pois havia entre os meninos um moreno igual a Amon-rá, uma branca de cabelos vermelhos igual à Noemi, uma preta igual à Eva, e dois loiros iguais a Peter.
Ênio e Madalena escutavam tudo sorrindo, pois se eles não tinham cônjuge que os seguisse, da mesma maneira não tinham filhos. E muito menos netos, ou bisnetos, nada. Com curiosidade Ênio perguntou para Adão:
— Quando iniciaram a construção desta família tão maravilhosa?
— Deixa ver... Só na Terra estivemos todos juntos, uns três milhões e meio de anos... Eu tenho nove filhos com 4 milhões de anos cada um. Menos Amon-rá, que nasceu há uns 150.000 anos. E tenho mais uma filha, Sira, que nasceu na vida anterior.
Ênio e Madalena se entreolharam, riram, e continuaram a escutar as aventuras dessa família, sem fazer planos para o futuro. Quando se viaja com destino a uma guerra, o destino era incerto. Mesmo assim, a ideia de ter filhos ficou guardada no coração de Ênio. Já para Madalena a ideia de ser mãe em meio de uma matança não tinha cabimento. E como Ênio fizera cirurgia de vasectomia, continuaram esse namoro com ardor. Nos dias de folga, sequer saíam mais da suíte.
O nascimento de Patrícia agitou ainda mais essas reuniões familiares. A menina era negra, olhos azuis, cabelos encaracolados, que com Adão e Eva formariam o triângulo escuro da família. Com certeza, Patrícia nasceu para que eles tivessem essa felicidade.
Enquanto tomava banho refrescante, Noemi sentiu algo estranho, abriu as pernas e viu uma cabeça preta como ébano saindo sozinha. Amon-rá só atinou a dar um berro telepático para Adão e vestir um roupão e colocar uma blusa na sua mulher. Adão chegou correndo, ajeitou sua cabecinha de sua neta com delicadeza, e a puxou com calma. Desintegrou o cordão umbilical, fechou o umbigo, e a fez respirar com uma mão no peito, desentupindo lhe todas as vias respiratórias. Deixou-a nos braços de Eva, que já começara a chorar, pois finalmente alguém se parecia com ela.
Depois, chegou todo mundo nessa suíte.
A pequena passeou de braços em braços de todos os tios, e recebeu todos os beijos a que tinha direito. Foi colocada entre toalhas de papéis especiais, e em seguida numa caminha que saía das paredes e possuía forma de uma caixa. Enquanto a menina sorria para os tios, Noemi foi deitada na cama para massagens relaxantes, que a fizeram dormir. Adão examinou o colo, desintegrou o que restava de placenta, colocou-lhe uma fralda para sangramentos, e sorriu. Era a primeira vez que os quíntuplos nasciam separados. E Noemi estava feliz. Sequer engordara. Estava em forma.
Com a mulher e a filha dormindo, Amon-rá abriu uma garrafa de champanhe adocicado, serviu as taças, beberam, e depois mandou todo mundo para fora. Estava na hora de ficar a sós com a sua felicidade. Deitou ao lado de sua mulher, abraçou-a por trás e beijou seu pescoço. Dormiu junto com ela.
Nos dias seguintes, cada vez que Noemi saía dessa suíte, a preta ia para os braços dos avós, dos tios, dos amigos dos tios, e de algum curioso que chegava perto. Mas quem mais tempo ficava com ela era Eva. Beijava sua netinha negra como carvão, ou dava-lhe de mamar, ou levava para a piscina a mergulhar como peixinho.
Outras crianças nasceram de outros casais. Pouco a pouco, as piscinas ficavam cheias de gente miúda, que alegrava a vida de todos os adultos.
Mas, nem tudo foi alegria durante essa longa viagem.
Quando Noemi estava mais uma vez com um barrigão de oito meses, a sirene interna tocou com energias, e todos os guerreiros tiveram que se fechar nas suítes. Apenas os Destruidores de asteroides foram chamados aos berros, todos de uma vez, pois estavam para entrar numa tempestade, e não havia como desviar o caminho. As pessoas subiram nas camas, levitaram em meio dos dormitórios, piscina tampada hermeticamente, enquanto os Destruidores de asteroides se amarravam com cordas às colunas, defronte a todas as janelas.
E a chuva de pedras os chacoalhou, sem piedade. Parecia que estavam sendo atacados por bilhões de pedregulhos desgovernados, de tamanhos gigantes, pois a cauda de uma Galáxia gigante os abraçou para matar.
Peter e Eva dilataram as pupilas, pois desta vez o Universo estava marrom, de tanta porcaria batendo contra eles. Embora não os atingissem, pois, a nave possuía uma camada de energia quântica repelente, as ondas os mexiam dando giros no ar, como um disco sem controle. As pedras apareciam em frente às janelas tão perto, que dava para ver-lhes a cor. Douradas, prateadas, verdes, era uma sucessão de pigmentos que desapareciam no espaço cada vez que o olhar dos demolidores os descobria.
No começou, Eva os contava, para se concentrar. Um a um os pedregulhos viravam pó, mas depois nem teve mais tempo disso, pois eram milhões deles. Ela simplesmente desintegrava tudo. O que passava em frente de seus olhos virava pó.
Adão, trancado na suíte, sozinho, nem sequer podia tentar contato telepático com ninguém, para não distrair o trabalho da demolição. Mas começou a sentir sede, cansaço, fraqueza, enquanto a angústia tomava conta dele sem piedade. Como é que se vive sem mulher? Eva não ia aguentar tamanha pressão cerebral. E começou a chorar. Se “00” o deixasse viúvo, morria, e ia até o centro do Universo brigar com ele, pois estava nessa aventura como voluntário. Lembrou-se quando Eva morrera demolindo bombas no passado, e se odiou até a última célula. Nossa! Estava na cara que ela não poderia ser Destruidora desta vez. Já nascera com o cérebro danificado. Ela deveria ter sido Faxineira, algo similar, mas em outro patamar. Faxineiro destrói o microcosmo, enquanto o Destruidor desintegrava o macrocosmo. Ambos necessitavam fazer a mesma coisa, mas com esforços diferentes.
Como piloto, Maria Madalena tentava os espaços entre a sujeira espacial, sem girar nem ficarem virados, pois a cabine de pilotagem era isolada da nave com 10 cm de energia entre as paredes. Quando viu mais uma vez o espaço preto, cheio de luzes ao longe, respirou aliviada. Haviam sobrevivido. Olhou para trás dela e deu um grito telepático, pois havia uns 20 Destruidores desmaiados, tendo infarto, e três deles já estavam mortos.
Fernando chamou seu batalhão de robôs, os colocou a desintegrar pedras, enquanto os médicos se espalharam em todas as direções a cuidar dos feridos e dos defuntos.
Entre os cadáveres estava Peter, com um quarto do cérebro inutilizado, e Eva com metade do cérebro.
Em seguida, veio a pior parte, a mais difícil. Tentar trazê-los de volta à vida.
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