Adão e Eva, na guerra dos iguanas. PARTE I
13 A caminho do combate (continuação)
Notas iniciais
Entre os cadáveres estava Peter, com um quarto do cérebro inutilizado, e Eva com metade do cérebro.
Em seguida, veio a pior parte, a mais difícil. Tentar trazê-los de volta à vida.
Fernando escolheu as cabeças com o maior poder mental e chamou a todos para as salas de cirurgias. Os médicos os faziam entrar no centro cirúrgico, quatro cada vez. A seguir, os posicionavam a uma distância de 10 centímetros do cadáver. A um sinal teriam que colocar as mãos na cabeça do morto, mas sem encostar. O resto ficava por conta dos médicos.
Jesus começou a ressuscitar finados, pois sabia fazer isso na perfeição, desde o tempo que fizera isso na Terra, numa época muito longínqua. Mas, de um modo mais prático, graças à sabedoria de uma sociedade superior. Transpunha a energia da vida dos doadores para os mortos. Bastavam 5 minutos. Só. O cérebro entrava em rebuliço e as células sadias adotavam todas as funções. Pouco a pouco, o cérebro começava a enviar energia ao corpo, o coração começava a bater e o sangue a se mexer, e o doente abria os olhos. A seguir, todo o sangue era limpo. Ele saía e voltava para as veias através de mangueiras nas pernas e nos braços, pois o sangue entrava numa máquina que absorvia impurezas. Depois Jesus introduzia outra mangueira no baço. Era a vez de colocar plasma enriquecido, com nutrientes, para alimentar cada célula do organismo, e puxar do corpo tudo que havia perecido.
Adão ficou correndo entre Eva e Peter, examinando um e outro, até que Fernando o mandou parar. Adão ganhou uma injeção no pescoço para relaxar. Depois ele sentou em meio do tumulto, abraçado a Amon-rá, que chorava que nem bebê. Paulo também abraçava Adão e lacrimejava, sem saber como consolar seu pai. Os três estavam passando uma prova de fogo. A morte lhes chegara sem aviso prévio, e a temida viuvez havia entrado nessa nave sem permissão.
Miriam dormiu na suíte totalmente sedada. Ao lado dela Maláqui e Paulina estavam acompanhando-a, deitadas junto, como nos tempos da faculdade, pois com certeza ela acordaria aos berros.
Quando Eva saiu do coma e abriu os olhos, viu seu amado, seus garotos, Noemi com sua neta preta no colo, todos com cara de quem chorara muito. Levantou os braços, abraçou Adão e recebeu o beijo de seu homem. Novamente havia pulado para o outro lado antes de tempo, e regressado da morte. Beijou o rosto pálido de Adão, que ainda continuava conturbado pelo medo. Pavor de viver sem ela, terror de ver um filho morrer antes dele.
Eva foi levada para a suíte pelo filho Paulo, que a carregou nos braços. A seguir, ela foi estendida na sua cama sem travesseiro, com repouso absoluto de um mês. Nada de trabalho. Só podia andar no colinho do marido e tomar sopinha na boca. Adão beijou seus filhos, os viu sair da suíte aliviado, sorrindo. Adão chegou perto de sua mulher suavemente e lhe deu um beijo longo e delicado. Eva dizia a si mesma que ter essa boca doce era suficiente para ressuscitá-la definitivamente. A seguir, Adão se estendeu ao seu lado, abraçou-a contra si, e ela dormiu com um sorriso na boca.
Peter abriu os olhos, e viu Miriam pálida qual papel, junto de Maláqui e Paulina, e lhes sorriu com dificuldade. Depois foi beijado, abraçado, embora ele não conseguisse falar nada, pois estava com uma dor de cabeça profunda. Amon-rá o carregou no colo, para sua suíte, e colocou-o na cama. Paulo molhou toalhas com água gelada, colocou na barriga e na testa, enquanto Mônica media sua temperatura, pois ele estava quente. Deu-lhe uma injeção no baço com uma droga forte e ele se apagou.
Quando todos saíram e ficou a sós com seu amado, Miriam, que já havia chorado que chega, beijou-o no rosto. Depois se estendeu ao seu lado suavemente, ainda sem recuperar o sorriso, porque o susto fora demais para ela.
Com dificuldade Peter falou-lhe, quando acordou:
— Eu nunca a deixaria viúva, minha querida...
— Espero que não... Eu não conseguiria fazer nada... Sequer pensar... Viraria um zumbi...
— E eu uma alma errante desesperada... Só o pensar que pode se apaixonar por outro, é torturante...
— Mas que bobagem, eu nem sei respirar sem você...
— Nem eu...
Depois se beijaram docemente, e mais tarde Peter dormiu pelo período de 5 dias.
Uns 20 dias depois desse desastre, nascia Rubinho, um loiro maravilhoso, que terminou de ressuscitar Peter de vez. Amon-rá estendeu-o para Peter, assim que o guri saiu da banheira, pois com certeza ele chegou para fazer o tio renascer. Peter o beijou com doçura, e perguntou a si mesmo se encarava ou não a paternidade. Mas só de pensar que podia morrer e deixar seu filho sem pai lhe tirou a ideia da cabeça. Afinal, tinha um sobrinho para carregar, igualzinho a ele em tudo. Uma criança com seus olhos azuis cristalinos, sorriso de anjinho, que sabia dar gargalhadas gostosas, para tirar a família da depressão.
Os últimos filhos de Amon-rá e Noemi chegaram juntos num parto triplo, e nasceram na piscina grande, com crianças maiores que olhavam com curiosidade, pois o parto aquático era uma raridade. Jesus recebeu Jorge, o moreno, cabeça grande, que saiu nadando e chacoalhando como peixinho, que olhava às pessoas como quem diz:- Cheguei para azucrinar. Adão recebeu Júlia, a menina cabelos vermelho como fogo, igual a Noemi, enquanto o público gritava um oooiii... assombrados com a beleza dessa guria. E por último, nasceu Dennis, mais um loiro, cabelos arrepiados, lindíssimo, olhos cristalinos como essa água em redor. Os soldados aplaudiam, pois estavam ali também os irmãozinhos, mostrando que em conjunto eram os cinco irmãos mais lindos dessa nave.
Depois, acontecera a festa e o relax.
Amon-rá, com sua mulher no colo, beijando-a muito, estava feliz como nunca, enquanto seus garotos mamavam de todo mundo, pois todas as mulheres da família tinham leite. A seguir, chegaram Tiago e Mário com as esposas, Ênio e Madalena, e a vida mais uma vez entrava no rumo da felicidade. Brindaram com vinho, comeram tudo que os robôs trouxeram em bandeja, e ninguém mais se lembrava do medo que passaram nos dias da tormenta.
E a doce rotina retomara definitivamente seu lugar.
Os anos dessa longa viagem alastraram-se, com os filhos de Amon-rá crescendo, e iniciando atividades que estavam paradas. Junto a outras crianças, nascidas durante todos esses anos, eles inauguraram a Escolinha Infantil, a Escola Superior, as Universidades, e depois começaram a trabalhar como todos os adultos.
Todos os filhos de Amon-rá assumiram a profissão de faxineiros, para ajudar o pai em tudo. Com o passar do tempo casaram, mas não tiveram filhos por em quanto, pois o mundo dos iguanas estava a poucos anos de viagem.
E, um dia, as sirenes tocaram mais uma vez, pois uma frota de naves primitivas estava a caminho.
Mais uma vez, os Destruidores se amarraram em frente das janelas e todos os guerreiros se isolaram nas suítes. As naves primitivas eram tantas que pareciam um enxame de gafanhotos. Uma nuvem negra que avançava para eles como uma tormenta. Fernando entrou no templo, para visualizar os tripulantes. Quando lhes viu a pele de cobra, deu um berro telepático para toda sua tripulação e chamou Tiago e os amigos ao templo para ver as cobras guerreiras.
Enquanto o templo lotava de curiosos, Eva e Peter os viram desde as janelas, pois as naves enfileiraram ao lado, acenando com a mão a quem conseguisse vê-los. Algumas mulheres lhes enviavam beijos com a mão. Depois, todos os soldados debruçaram-se nas janelas acenando para as cobras, pois sabiam que eram os combatentes voluntários.
Eva correu para o templo, pois Adão chamava por ela, aos berros.
Quando entrou, viu os amigos Tiago e Mário chorando, pois do outro lado do espelho havia uns 30 sábios, que os reconheceram. Eles significavam para as cobras o mesmo que Adão e Eva representavam na Terra. Eram os pais desse mundo. Os sábios falavam que se sentiam orgulhosos de lutar ao lado deles, e que depois dessa guerra estavam intimados a morrer em seu planeta. Todos tinham o mundo a sua espera, para um final de vida feliz, e para matar a saudade de uma vida em meio de suas raízes.
Fernando teve que pedir a todos saírem, para poder se comunicar com o Comandante das cobras guerreiras e falar coisas mais sérias. Tiago e Mário então correram para as janelas da cabine de pilotagem, para dar sinais ao vivo aos manchados, que sorriam, acenavam, enviavam beijos, e enfileiravam na frente, dos lados e atrás, deixando a gigantesca nave dos guerreiros no meio.
E um dia, as naves começaram a segurar os motores. O lugar universal, onde estava a “Mundo dos iguanas”, estava por ali perto. Uns 20 planetas giravam em redor de um Sol gigante, e um deles era do inimigo.
Madalena, pouco a pouco foi estabilizando a velocidade, e Fernando vasculhou um lugar apropriado para pousar. Percebeu um pequeno Mundo incipiente, com três Luas, que parecia ter ar puro e respirável. Enviou uma equipe de robôs para pesquisas, e ficou à espera de resultados. Os robôs trouxeram amostra de ar, de água, e do chão, do planeta e das Luas. Os biólogos e os geofísicos examinaram tudo, e concluíram que uma das Luas era bastante apropriada para aterrissagem, embora houvesse uma temperatura de 80°.
Fernando fez contato com as naves das cobras, e sugeriu aterrissar nessa Lua e construir uma ponte de acesso, entre todas elas, pois o calor os obrigaria a viver dentro delas.
E um a um, todos desceram.
Madalena esticou dez pés metálicos, que formaram uma sombra sobre esse chão seco e quente. A seguir, esticou dez pontes de acesso, ao encontro das naves das cobras. As cobras pela sua vez formaram um círculo gigante, encostando e encaixando umas nas outras. Abriram todos os acessos que os comunicavam com as naves de Fernando, e esperaram com ansiedade que a ponte dos guerreiros fosse aberta.
Fernando, de branco da cabeça aos pés, com um medalhão dourado no peito, em companhia de seus tenentes Adão, Tiago, Mário, Nina, Amon-rá, Ênio, Paulina, Jesus, Eva e Reginaldo, com seus uniformes dourados, os esperaram na abertura principal. Assim que as cobras embarcaram, os abraços começaram com emoção, pois os soldados cobras os olhavam como quem vê anjos.
Fernando com seus 2,30 metros impressionava, pois era idêntico ao outro Fernando, que um dia do passado os visitasse em seu mundo. Mas Eva e Adão foram quem mais chamou a atenção. As cobras os rodearam para ver de perto uma pessoa com pele preta, algo jamais imaginado que pudesse existir.
Nas outras pontes de conexão, as pessoas se abraçavam, falavam seu nome, e as cobras invadiam as ruas conhecendo tudo com curiosidade. Entretanto, os mais impressionados eram os próprios guerreiros anfitriões, pois a pele manchada desses recém-chegados era tão linda, mas tão linda, que amores à primeira vista explodiram como a pólvora. As mulheres eram tão fascinantes com suas manchas, que todos queriam passar a mão, para ver se eram suaves como as cobras. O homem cobra era então, maravilhoso. Cheios de musculatura, fortes, cabelos curtíssimos, fascinantes com sua pele cheia de desenhos coloridos e o olhar penetrante, amarelo, como quem atravessa as pessoas com o olhar. Melhor, derretia as mulheres com a mirada. E não havia nenhum casado. E como as guerreiras não sabiam o que era a timidez, se falava entre elas com telepatia: — Esse moreno é meu, ou: -Esse alto eu vi primeiro! Enquanto os guerreiros gritavam entre si, aos gritos: — Eu a vi primeiro, com licença, e grudavam junto de uma mulher-cobra como chiclete.
Enquanto os solteiros começavam a bagunça costumeira, Fernando e seus tenentes levaram os sábios a uma sala de reunião, e se debruçavam sobre os mapas estelares, analisando distâncias, fazendo cálculos de tempo, para ir e voltar até o Mundo dos iguanas. Além disso, as cobras trouxeram junto um mapa estelar de todo o Sistema TETHA. Um sábio mostrou seus dois planetas, ligeiramente perto um do outro, o lugar do Mundo dos lagartos, e finalmente assinalou o mais perto, o Planeta dos gorilas. Homens gigantes de 2 metros, em pleno estado pré-histórico. Também havia 50 planetas em estado de evolução, com plantas gigantes, paisagens pantanosas, e cheias de animais ferinos.
E entre todo esse trabalho, Guilherme e Alberta apareceram de surpresa, com todos os espiões. Eles invadiram essa sala, enlouquecendo o ambiente. Entre os espiões, Fernando Júnior e seus filhos iguanas, agora convertidos em adolescentes altos, magros, elegantes, com um sorriso na boca.
Nohiki correu para abraçar Eva, lágrimas escorregando, junto de sua filha adotiva, de pele verdinha, mas vestida como princesa. Uma adolescente com sorriso de anjinho, cabelos sedosos e longos. Os garotos, vestidos de preto como um espião, abraçaram os avós, os tios, os amigos dos tios, e os cinco filhos de Amon-rá, que tinham mais ou menos a mesma idade deles. Sabiam falar a língua dos guerreiros, lutavam Box, caratê, e se consideravam parte dessa família.
Em seguida, Guilherme cumprimentou as sábias cobras, e entregou para Fernando um dossiê que trouxera embaixo do braço, para esclarecer todas as dúvidas que eles tivessem.
Fernando decidiu suspender essa reunião, para festejar o reencontro, acalmar as emoções, afinal havia virado avô de 4 iguanas, do dia para noite.
Caminharam até uma praça, sentaram em redor de uma mesa gigante, e os robôs se encarregaram de trazer as delícias para o paladar. Enquanto Fernando se dividia atendendo os sábios, Mônica ficava junto a Eva curtindo os netos adotivos, ao lado dos primos. Os filhos de Amon-rá estavam encantados. Os filhos de Nohiki nunca foram tão beijados, abraçados, mimados, como naquele instante. Adoraram os avós, os tios, os primos, e tarde do dia, os rapazes aceitaram um jogo de boliche com Jorge, Dennis e Rubinho.
No dia seguinte, Fernando Júnior e Guilherme estavam mais uma vez no salão de reuniões, lado a lado das cobras, de Fernando, e dos tenentes principais. Sérios, pois uma guerra os estava esperando. Fernando deixou a palavra com Guilherme, o homem que mais sabia sobre os iguanas, para narrar tudo sobre o inimigo.
Guilherme iniciou seu relatório com um documentário para mostrar o tamanho desse mundo. Um gigante. Mostrou-lhes os rios, serpenteando os vales com águas fazendo barulho, as montanhas nevadas, os desertos, as selvas, pois havia uma grande diversidade geográfica. Em seguida falou das desgraças ambientais. Nesse canto do universo, todos os anos morriam mais pessoas em acidentes do que de doenças fatais. De carro batido faleciam uns 50.000, por ano, em cada país industrializado. Alagamentos de cidades davam em média umas 2.000 vítimas cada vez, pois os rios as invadiam com suas águas turbulentas. Olhando para o mundo todo, os terremotos matavam uns 30.000 por ano, seguindo a rota das placas tectônicas e das montanhas desse planeta. Nos países pobres, com infraestrutura decadente, os desmoronamentos de morros matavam uma média de 1000 desafortunados em cada ocasião. Também tinham os afogados, tanto em rios quanto nas praias das cidades costeiras, os alpinistas que caíam de montanhas, outros que se matavam com esportes violentos, e para acabar havia os “imprevistos domésticos”. Existia um índice de morte infantil altíssimo por causa de acidente caseiro. Crianças que bebiam querosene, ou engoliam botão, ou despencavam pela varanda, sem falar de queimados em incêndios.
Fernando falou sobre tudo isso:
— Isso significa que o planeta os repele. Não há harmonia entre o astro e o homem. Pior, não há sintonia. O planeta tem seu ritmo, e os iguanas têm outro. Nossa! Tem mais excentricidades?
Guilherme sorriu, pois isso era só o começo, e apontou para um mapa desse mundo, dividido em três cores. O de cores vermelhas eram países ricos e industrializados. Os verdes eram países em desenvolvimento. Já os lugares pintados de amarelo eram miseráveis, acrescentando que isso não significava que nos países ricos não houvesse gente humilde.
Fernando indagou:
— Mas, como é que se fica rico? Trabalhando, roubando, eu gostaria mais detalhes sobre isso...
Guilherme sorriu e falou-lhe:
— De variadas maneiras. Os homens ligados à criminalidade ficam milionários vendendo drogas, prostitutas, pois acredite comandante, eles vendem seres humanos, desde bebês de berço, para adoção, até meninas para prostituição. Mas os verdadeiros ricos ficam bilionários com a especulação. Na “Bolsa de valores” eles fazem correr boatos falsos. Os incautos compram ações pensando que elas vão dar lucros e caem em golpes fraudulentos. Se o boato for bem bolado, se pode enriquecer do dia para noite, através de uma transação inteligente.
Fernando interrompeu-o:
— Me explica como se eu fosse imbecil...
As gargalhadas foram gerais, pois a “transação” era desconhecida. Guilherme riu junto, pois Olaf havia demorado um dia inteiro explicando no passado como se ganhava grana com investimentos. E falou mais uma vez sobre transações nesse planeta. Para terminar, Alberta entrou na conversa e disse:
— Quem trabalha neste mundo é pobre a vida toda, comandante. E, quem não possui emprego morre de fome. Quem é rico, é cada dia mais rico. Metade de toda a riqueza do planeta pertence a uns 200 bilionários. E dessa gangue, apenas 40% está ligado à geração de empregos, empresas, enfim. 60% restante é investidor, comerciante, senhores de bancos, homens de mídia, doutores do entretenimento, e donos de construtoras. Mas, o mais tenebroso está nas Universidades. Os estudantes gênios são garimpados como ouro. São invitados a trabalhar nas grandes corporações para inventar achados, geralmente ao serviço da morte. Os obrigam a criar artefatos mortíferos, drogas alucinógenas, naves espaciais, objetos de espionagem, que fazem os empresários ainda mais ricos, e, os gênios são convertidos em escravos eternos. Eu diria, aliás, que 80% da população está totalmente escravizada. Trabalham de Sol a Sol por uma grana míngua, para esses 200 bilionários, donos da vida de todos os homens.
Como a plateia estava muda, Alberta apagou as luzes e ligou a filmadora falando que a coisa ia engrossar ainda mais, pois o horror dessa civilização, só estava no início.
E essa câmera foi mesmo fiel à realidade, pois mostrou as crianças tristes, desnutridas, roupas fedorentas, cabelos cheios de piolhos, curvadas embaixo de sacolas num aterro sanitário. Tinham aqueles que comiam sobras. Geralmente comida de restaurantes, em sacos bem-fechados. Depois das cenas do lixo, se mostrou os Orfanatos, hospitais, presídios, favelas, e guerras, sem poupar detalhes. Havia carnificinas em lugares diferentes. Soldados que lançavam mísseis de longo alcance contra civis indefesos. Morriam criancinhas, velhos, e as casas eram convertidas em escombros.
Mas o que chocou realmente a plateia foram os filmes pornográficos.
Além das cenas filmadas por Nohiki, Olaf mostrou vídeos comprados em locadoras. O sadomasoquismo chegava a tal ponto, que mulheres morriam de verdade durante as cenas. Crianças também. Existia uma rede criminosa que assassinava adolescentes e garotinhos durante essas filmagens. Havia culpados na cadeia condenados à morte por causa disso. Mas, o negócio era tão vantajoso que eles continuavam a serem produzidos na clandestinidade, pois eram ainda mais lucrativos do que a venda de drogas e a prostituição.
Guilherme terminou contando que a cada 30 segundos um ser humano era estuprado e assassinado no mundo todo, e apenas 0,1% dos agressores era preso e condenado à morte. As autoridades não faziam grande coisa, para equilibrar a superpopulação mundial. Resumindo, em lugar de vasectomia para controlar a natalidade, se permitia hipocritamente o assassinato em massa. Nessa estatística oficial, ainda deveria ser somado o número de abortos. Os Espiões não tinham cifras ao respeito, pois ele era clandestino. Mas, olhando por cima deveriam ser uns 5 milhões a cada ano no mundo todo.
Como essa reunião estava cheio de estatuas petrificadas, Alberta fechou a câmara.
As cobras sábias, então, mostraram os documentários com as invasões a outros mundos. Cenas de luto, de dor, de crianças órfãs, de viúvas, e de plantações disseminadas pelas chamas. Também mostravam o petróleo saindo como chafariz, pois os iguanas depois que enchiam as naves, abandonavam os poços e o petrolífero ficava inundando o chão deixando uma mancha preta que matava bichos, plantas, e o que era pior, ardia em incêndios terríveis.
Quando as filmagens terminaram e Alberta ligou a luz, um silêncio invadia o ambiente. As damas estavam mudas, e mumificadas. Estátuas. Mal respiravam. A verdade crua e nua era terrível. Eles estudaram anos sobre tudo isso na Universidade da Guerra. Mas, na teoria não havia emoção. Era só teoria. Ciências humanas. Uma matéria como qualquer outra. E agora, uma sensação de nojo invadia o estômago com crueldade. Muitos desintegraram a comida dentro do corpo, colocando a mão sobre a barriga com discrição.
Fernando não conseguia falar nada, pois não podia entender como um macho, um homem, podia assassinar um menino através do estupro, ou trucidar o filho antes de nascer. Eram piores que as bestas na selva.
Um sábio manchado, que lia a mente de todos como livro aberto, lhes disse:
— Mas as bestas gozam, Comandante Fernando. Os porcos passam por orgasmos profundos e muito longos. Uma leoa recebe, em média, 20 orgasmos intensos por dia, pois o leão a cobre muitas vezes, para garantir o nascimento do filhote. Já os homens-iguanas que estupram, não sentem nada. São completamente estéreis de prazer. Eles buscam a felicidade, mas é em vão, pois o corpo não lhes dá nenhum deleite. O prazer deles deve ser equivalente a nossa masturbação infantil, e deve durar no máximo 3 segundos. Eles, com certeza, sentem apenas cócegas. Nós chegamos à conclusão, que tanto o vício quando o crime tem sua origem na ausência de orgasmos densos. Orgasmos profundos, longos, desses que deixam a alma flutuando. Se os conhecessem, não seriam estupradores. E os drogados não fumariam ervas alucinógenas. Vou mais longe ainda. Eu acho que nem as putas gozam.
Uma risada suave saiu da boca, mas depois o silêncio continuou como uma nuvem negra sobre essa reunião.
Finalmente Fernando falou com firmeza:
— Eu estou com vontades de descer a dar patadas nas bolas, em todos os homens...
Todos os homens responderam em coro: — EU também!
Mas, Tiago falou que tomar o poder, e derrubar os reis para fazer as mudanças sociais era a coisa mais fácil de fazer. O risco consistia no fato dos novos governantes repetirem tudo igual. Garimpar pessoas honestas para lhes oferecer o poder, estava em primeiro lugar. E depois, haveria que os assessorar e dar-lhes orientação por longos anos, para virar essa sociedade de cabeça para baixo.
Madalena disse que ela suspeitava que existisse esse poder oculto, que não aparecia nos vídeos. Essa organização escondida devia ser composta por gente que se fazia ama pelo povo, mas só para enganar. Pessoas que já deveriam saber que estavam sendo invadidos por alienígenas. Era possível que os espiões estivessem marcados para morrer. Sugeriu que a espionagem mudasse de rosto. Ela própria se oferecia para descer a se infiltrar. E concordava com Tiago, havia que garimpar gente do bem para lhes oferecer o poder. Pois, para mudar tudo se requeria passar borracha em todas as estruturas sociais, e construir um mundo novo.
Fernando Júnior falou que concordava que estava chegada a hora de Guilherme e os espiões a fazer outro trabalho. Desde que abordaram haviam sabotado todas as viagens espaciais. Esses astronautas iguanas estavam presos e congelados dentro das naves pretas. Teriam que buscar um lar para eles. E Guilherme com os espiões podiam fazer esse trabalho, e descansar por um tempo.
Todos começaram a aplaudir o bom trabalho de Guilherme e de sua equipe. E as sábias cobras imediatamente colocaram à disposição seu mundo mais antigo para ser visitado como paraíso de férias. Teriam as mordomias que quisessem. Esse planeta possuía atóis, com 500 ilhas encantadoras. Deu a sugestão para isolar os prisioneiros nelas. Seria uma prisão a céu aberto, com robôs femininos como acompanhantes. Afinal, os iguanas eram machistas, e só os homens iam para a guerra.
A seguir, Reginaldo se ofereceu para armar os iguanas de bem. Mais cedo ou mais tarde, teriam uma guerra corpo a corpo. Ele sugeria uma engenharia diferente, algo assim como um brinquedo em cujo interior a arma ficaria escondida.
Adão falou que haveria de se deslocar a riqueza. O dinheiro deveria mudar para o lado certo, dos justos. Dos iguanas de bem, dos trabalhadores de verdade. Havia que empobrecer os bilionários. O dinheiro teria que se transformar em moeda de compra. De troco. Apenas isso. Devia sair dos Bancos a circular pelo mundo gerando a felicidade geral. Era isso!
Guilherme interveio:
— Bem, no meu passado muito longínquo, durante “A guerra dos 3 mundos”, Areti me enviou um sócio milionário. Depois de vários anos eu fiquei sabendo que tinha 3.000 alienígenas trabalhando para mim na minha empresa. Quase morri de susto quando meu sócio puxou a máscara... E deu certo. Podemos copiar a receita. Enviar um trabalhador que ganhe a confiança de um empresário, e pouco a pouco vamos colocando pessoas dentro.
Foi à vez de Maláqui abrir a boca. Timidamente, encorajada por Jesus, que lhe dava cotoveladas e repetia baixinho: — Vai, fala, amor!
E ela disse que deveriam mudar os materiais pesados desses edifícios, e aposentar o ferro e o cimento. A metalponita, feita de carvalho e madeiras nobres, era baratíssima. Só havia que plantar. Os empresários que investissem na metalponita economizariam dinheiro, gerariam empregos, e reflorestariam o planeta.
Jesus falou só para chateá-la:
— Empresário do bem... Né, amor...
Todos riram, pois Maláqui ficou vermelha com tanta atenção por cima dela. E Jesus deu-lhe um beijo na frente de todos, pois no fundo ele tinha um grande orgulho da genialidade de sua amada. Era tímida só para disfarçar. Na intimidade, virava a deusa da sexualidade, e de dia ela era o gênio dos inventos.
Depois, falou Amon-rá. Achou tudo muito bem planejado, lindo, sonhador, mas os iguanas eram tontos, ambiciosos, e teriam que cuidar deles como babá, para não fazerem asneiras. Teriam que usar e abusar das hipnoses. Ou então lutariam contra a corrente. Nada impediria um empresário honesto, perfeito, ficar ambicioso e se corromper, ou fazer maus negócios e ficar pobre do dia para a noite. Ele sugeria que todos os faxineiros como ele vestissem com o macacão vermelho, e se misturassem na multidão. Ele ia ficar lindo com uma vassoura na mão. Todos os faxineiros teriam trabalho garantido recolhendo lixo.
Guilherme voltou a falar que enviar alguém como um trabalhador desempregado, estava em primeiro lugar. O empresário Benjamim, um amigo de Olaf, era dono de uma fábrica de robôs, e possuía 30.000 operários. Alguém descia lá, e pedia emprego para ele. Depois, descia todo mundo.
Fernando falou alto:
— Adão? Não conheço um cara de pau maior do que tu...
Adão respondeu:
— Aceito. Mas, quem vai ralar serão os engenheiros. No máximo, vou ser o homem de confiança desse indivíduo...
E entre gargalhadas, essa primeira reunião terminou. Um otimismo havia tomado o lugar da tristeza. Seria uma guerra diferente. Uma revolução silenciosa, que duraria longos anos, com mudanças dia após dia. De ano após ano. Ninguém fazia ideia de quanto tempo isso iria durar.
Enquanto Adão fazia as malas com empolgação, seus netos iguanas se ofereciam para lhes mostrar a cidade, as escolas onde estudavam, e a mansão onde moravam com Nohiki e Olaf. Afinal, seria nessa mansão onde eles viveriam dali em diante. Nohiki pela sua vez mostrava-lhes no mapa onde estava sua casa, e principalmente como encontrar Benjamim, o homem mais rico dessa cidade.
Mas a pior parte foi colocar o disfarce.
A pele falsa possuía poros microscópicos, para respiração e esfriamentos, e ela descia até os mamilos. Nas pernas, uma meia subia até a virilha. Sustentava-se com botão a pressão, ajustada à calcinha. Ou da cueca. Essa parte inferior podia ser retirada diariamente. E era auto higiênica. Mas a parte de cima se ajustava em redor dos olhos e das unhas, como uma maquiagem perfeita. Por tanto, nunca deveriam tirá-la.
Eva deixou o robô vesti-la de iguana, enquanto se olhava em frente ao espelho. Sentia-se uma atriz antes de fazer uma filmagem de ficção. Depois, soltou seus cabelos pretos, colocou brincos, colar, um vestido justo, sapatos tacos agulhas, e teve que se apoiar em Adão, pois ela não conseguia manter o equilíbrio. Nohiki e seus meninos ao seu lado riram até engasgar. Depois pegou a bolsa, que se pendurava no ombro, sempre rindo. Sua neta iguana tentava-a ajudar a ser uma mulher desse outro mundo, enquanto lhe falava como matraca: — Não tenha medo, vovó, pois não vai cair, é só se acostumar...
E apoiada em todos em redor, caminhou os primeiros passos por cima desses calçados, a caminho do hangar.
Outra vida estava-a a esperar.
Fim da primeira parte
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