Adão e Eva, na guerra dos iguanas. PARTE I
1 1. O time de futebol
Notas iniciais
Num mar gigante de águas profundas, num outro mundo muito além da Via Láctea, um iate branco viaja em busca de aventuras, brilhando embaixo do Sol e se mexendo com elegância entre as ondas do mar. O navio possui a forma de um peixe gigante, (como a de uma orca terrestre) com uma cauda levantada, boca aberta na frente, mostrando uns dentes alinhados e assustadores. Na parte interna do iate, três suítes paradisíacas, com televisão em 360º, música ambiental, luzes coloridas, davam um encanto especial ao ambiente íntimo. E na parte superior, uma piscina rodeada de plantas fazia parte do entretenimento do casal durante a viagem.
Um par de robozinhos, além de manusear o timão do barco, preparava as delícias gastronômicas para os humanos. Balcão, garrafas de vinho, copos de cristal translúcido penduradas no teto, e comida farta, tudo estava pronto para fazer a felicidade dos viajantes.
João, um velho marinheiro de outras encarnações, olhou para o horizonte desse mar sem fim, e encheu o peito de orgulho. Nascera um homem belo, forte, e mais uma vez fora abençoado com uma formidável descendência. Já era pai de três filhas, e esse passeio havia-o programado com um único fim, engravidar mais uma vez sua esposa, mas desta vez de um menino.
Nesta encarnação, João era faxineiro da Universidade de guerra. Uma profissão muito admirável nesse mundo evoluído, onde os afazeres mais delicados eram realizados pelos homens.
A Universidade era um edifício de 20 andares rodeado com fontes, piscinas olímpicas, praças para sentar-se, ou, dar um cochilo durante as horas de descanso. Os ginásios onde transcorriam as competições entre os alunos estavam no térreo, e era nesse canto que se mediam, dia após dia, na aptidão para as lutas. Acima dos ginásios, num primeiro andar, se localizavam os refeitórios, rodeados de janelas, do teto até o chão, com sacadas com plantas, onde os passarinhos, borboletas e abelhas deambulavam enfeitiçando o ambiente. Tinha os que entravam em voos rasantes para esse salão e pousavam sobre saladas, ou ficavam presos num pudim, ou numa geleia. Mas isso não era sinal de confusão nesse planeta. O mosquitinho era apenas retirado do prato e devolvido ao jardim.
João examinava diariamente os vergéis dessa Universidade, em cujo lugar as árvores possuíam formas de garças, rãs, em arranjos de extrema beleza. E ele desintegrava com um olhar tudo que havia de inútil. Sujeiras, pedregulhos, e, em seguida, examinava a terra. Mexia-a com o olhar, com psicosinesse, colocava vitaminas, e regava-as suavemente. Também observava as plantas, se havia algum parasito incomodando, ou alguma doença. Na continuação, ele apreciava os caminhos, todos de pedrinhas miúdas, coloridas, fazendo desenhos geométricos, serpenteando nesse chão. Com sua visão ele desintegrava o pó, o musgo, a ferrugem, os fungos, deixando as pedras brilhando. Depois disso João limpava as salas. Ficava em pé em frente da porta, e com a vista destruía a poeira, as sacolas de comidas deixadas por alunos, como restos de pipocas ou de bolachas. Por último, eliminava a sujeira dos quadros, vidros, num trabalho que demorava alguns segundos. Para se locomover entre os andares ele utilizava o ascensor iluminado. Subia numa plataforma que voejava no ar, e que desafiava a gravidade terrestre, ascendendo e descendo conforme as ordens telepáticas de seus ocupantes.
Dina, a esposa de João, era professora. Mas a escola havia-a liberado de seus labores, desde o dia em que sua primeira filha nascera, e, desde então, sua única preocupação era cuidar de sua prole. Ela só voltaria ao batente quando todos os filhos que haveria de ter, não dependessem mais de seus cuidados.
E durante essa viagem, estendida sobre a coberta do iate, numa cadeira macia, Dina viu chegando de perto o seu marido, com seus olhos brilhando. Estava mais lindo do que nunca, e apaixonado por ela até a alma. Abriu seus braços e ele desceu beijando-lhe a boca com doçura. E João lhe disse:
— Amor, vamos ter nosso primeiro filho macho... Gostou?
— Adorei... Quantos deles serão que vão nos seguir, meu querido?
— Poucos... Sangue de guerreiro eles não têm, não... E nesta vida, estamos no mundo da guerra. Aliás, eu tenho medo dessa futura missão. Só de pensar que uma filha minha pode viajar rumo a um massacre, me arrepia todo...
— Então vai se preparando, pois Eva com certeza vai ser uma guerreira...
— Que nada, ela já começou a pintar. Vai ser outra vez uma excelente artista plástica...
A cidade onde João e Dina viviam se chamava Dabelheim.
Vista do ar, Dabelheim tinha o desenho de um sol marinho. Além da urbe, a mata nativa se estendia até a civilização mais próxima, que pela sua vez possuía uma figura diferente. Cada cidade tinha construções que pareciam arraias gigantes, polvos, lulas, aranhas, centopeias, enfim. Poder-se-ia dizer que voando por cima desse mundo e olhando-o para baixo se via um conjunto de bichos estendidos, descansando sobre um tapete verde. Essa era a anatomia geral do “Mundo L de ALPHA”, o planeta dos guerreiros intergalácticos. O lugar do Cosmos onde os mais bravos soldados do Universo chegavam a encarnar.
No centro da cidade de Dabelheim — no núcleo desse sol marinho — se localizavam os altos edifícios com apartamentos, as Escolas, a Prefeitura, a Universidade de guerra, o hospital, os cinemas, os cafés, as danceterias, alguns supermercados, lojas com roupas, e os laboratórios de pesquisas. Essas edificações possuíam formas estranhas que competiam em beleza entre si. Havia edifícios em forma de pássaros, árvores, cobertas por plantas e flores, mas também as haviam de silhuetas abstratas, belíssimas nos seus contornos ondulantes.
Mas se no centro da cidade tudo era sofisticação, as mansões que se alinhavam nos tentáculos desse sol marinho, possuíam telhas douradas. Também eram douradas as alamedas asfaltadas que se alastravam como cobras entre as casas. À medida que as ruas infindáveis se perdiam no horizonte, o tamanho das residências ia diminuindo em altura. Quando se chegava à ponta dessas alamedas só havia casas de um andar, pequenas, próprias para recém-casados sem filhos. As paredes eram translúcidas para refletirem a beleza da mãe natureza. E em redor dessas casas havia apenas duas coisas, bichos e flores. Jardins encantados com animaizinhos deitados ao Sol, ou à procura de uma folha para mordiscar.
Dina e João moravam numa avenida de 50 quilômetros. Como ambos desejavam ter uma grande família, a Prefeitura lhes proporcionara uma mansão de 10 cômodos com piscina, jardins e pomares.
Em meio a essas ruas douradas e asfaltadas, estavam as fazendas agrícolas, com seus telhados verdes (a maioria com plantas e flores) onde os homens produziam as verduras que a cidade consumia. As moradias dessas fazendas agrícolas eram casas unidas por estradas com pedrinhas miudinhas, também da cor verde, que serviam para escoar as chuvas.
E era numa enorme chácara que Eva, a filha caçula de Dina e João, se encontrava, pois era naquela fazenda que vivia Mônica, sua melhor amiga. Uma estância onde 20 robôs faziam de tudo um pouco. Lavavam o chão da casa com panos, recolhiam ovos das galinhas no quintal, supriam a cozinha com legumes frescos, faziam a manteiga e o queijo, colocavam o pão no forno, cozinhavam banquetes, enfim.
Filomena e Eugênio, pais de Mônica, eram agricultores, outra profissão desse mundo de grande responsabilidade. Eles tinham por trabalho semear as colheitas, cuidar que nenhum parasito as infetasse, e distribuir os produtos para as lojas de autosserviço. Eles preenchiam uma camionete voadora, e em seguida iam para a cidade a repartir nas feiras, onde robôs os esperavam prontos para o batente. Cada vez que uma remessa de verduras chegava voando, eram imediatamente doados para bares, supermercados, escolas, enfim. Os que estavam murchando, imediatamente eram levados para serem desidratados em laboratórios, ou, nas Universidades dessa cidade.
Recompor a terra depois das colheitas era também um trabalho delicado e realizado só pelos homens. Filomena e Eugênio subiam numa bicicleta e adentravam em meio das plantações secando ao Sol. Cortavam galhos, folhas, puxavam raízes, tudo com o olhar, e os espalhavam por ali mesmo. O chão ficava cheio de milho seco, ou folhas murchas de mandioca. Finalmente os robôs perdiam-se em busca de cocô animal. Quando a terra estava coberta pelo estrume, Eugênio e Filomena mexiam e misturavam, fazendo a terra se soltar, pular no ar, até que estrume, folhas e terra formassem uma camada uniforme.
E a natureza fazia o resto. Com a chuva tudo virava terra negra, enquanto o capim começava a florescer dessa podridão. A terra, então, se enchia de vida. Lagartas, minhocas, mosquitinhos, formigas, mostravam aos humanos que a vida estava florindo.
No dia em que o capoeirão selvagem alcançava a altura de um metro, só então semeavam mais uma vez. Abriam os sulcos da terra, com o olhar, deixando entre cada fenda um metro de capoeirão. Os robôs colocavam as sementes, uma a uma, em espaços calculados matematicamente. Nos dias subsequentes, Filomena e Eugênio examinavam as mudas, o frescor do chão, como quem cuidasse de algo sagrado. Quando chovia torrencialmente, eles olhavam para as nuvens e as desintegravam para deixar o Sol iluminar a terra. Mas, se não chovesse, voavam em busca de nuvens e as faziam viajar até a fazenda para molhar os brotos. Assim que os legumes amadureciam, era chegada a colheita, e a camionete voltava a se entupir, para que nunca faltassem suprimentos na cidade.
Eva chegou a essa residência quando os girassóis estavam abrindo, lado a lado das fileiras de tomates, milhos, melancias, cebolas, num cultivo múltiplo fantástico. Só deixou de admirar a paisagem quando Mônica apareceu correndo para abraçá-la.
Eva entrou no dormitório de Mônica, e deixou numa mesinha seu caderno de desenhos, seus pincéis, sua aquarela, e as roupas penduraram-nas nos armários. E foi ali que sentiu os berros de uns guris, que chamavam sua amiga, sem nenhuma educação. Mônica esticou a cabeça fora da janela, e gritou para eles um – tó indo! E, em seguida. se vestiu com uniforme de futebol. Calça curta e apertadíssima, luvas nas mãos, blusa sem mangas, joelheiras e cotovelarias, e um boné na cabeça. Eva, que estava vestida como uma rainha, vestido cor de rosa cheio de bordados, sandálias com flores até os tornozelos, metade do cabelo para cima entre uma coroa de esmeraldas, arregalou os olhos e falou-lhe:
— Não! Vais me dizer que tu gostas dessa diversão ridícula?
— Claro... Sou o melhor goleiro desta cidade... E desta vez tu vais vir comigo... Vamos...
Eva caminhou atrás, resignada, com seu ursinho peludo nos braços, pois detestava ver pessoas chutando num campo aberto, onde levantavam poeira, ou se lambuzavam como porcos na lama. Não conseguia entender a graça dessa peleja. Um bando de desmiolados correndo atrás de uma bola de couro. Parecia a nova febre desse mundo.
Mas quando Eva viu os jogadores, ela quase se esqueceu de respirar.
Havia seis rapazes tão lindos, que só podiam ser encarnações de anjos. Fernando, o maior deles, olhou Mônica com cara de peixe morto, e Eva o descartou imediatamente. Examinou um preto, que estava tão múmia quanto ela, mirando-a como quem vê um fantasma em pleno dia. Para mais incrível ainda, ele veio correndo, abraçou-a, beijou no rosto, e perguntou-lhe:- Não se lembra de mim? Eva negou mexendo a cabeça. Nunca o vira em lugar nenhum. Em seguida, sentou sobre a grama, embaixo de um jacarandá, para ver a turma de adolescentes começar a correr, gritar, dar cabeçadas, e percebeu logo que sua delicada amiga Mônica, como goleiro, realmente não deixava passar nenhuma bola. Eva começou a rir. Na verdade, era tudo muito divertido.
Depois do jogo, os futebolistas pularam na piscina, que se encontrava entre os jardins da casa. Os rapazes com bermuda e as meninas com um maiô. Eva soube os nomes, e observou que todos eram apaixonados uns pelos outros. Afinal, o time de futebol estava cheio de mulher. Mário namorava a Nina, Tiago a Fernanda, Abelardo a Marlene, Reginaldo a Rosa. Todas as moças eram vizinhas de Mônica, e inseparáveis. Com seus namorados formavam um grupo de oito pessoas que estavam sempre juntas. E nas brincadeiras com a bola, a casa de Mônica era a preferida por causa do espaço.
Filomena e Eugênio adoravam esses guris. Principalmente Tiago, que entrava na cozinha correndo, e perguntando: — Oi, tem algo bom para comer? Em seguida sentava no colo de Eugênio, e o abraçava com carinho. E Eugênio sempre repetia: — Amor, acho que este menino foi nosso filho em vidas anteriores. Depois ria às gargalhadas, pois Filomena não engravidara mais, e Mônica era filha única.
Adão saiu da piscina e sentou ao lado de Eva, que se negou a entrar na água. Entre sorrisos, falou-lhe que era a menina mais linda desse mundo, e que ele estava se apaixonando por ela. Corada como nunca, Eva lhe disse:
— Mas é a primeira vez que a gente se vê...
— Nesta existência sim, mas em outras vidas, você era minha esposa...
Eva começou a rir com vontade. Suas irmãs, Tatiana e Mariuska, já a tinham prevenido contra esse papo furado. Nesse mundo, era comum o homem conquistar uma mulher alegando que eram “casados” de outras encarnações. Mas ela se deixou enganar. Permitiu que Adão tomasse sua mão direita e a beijasse educadamente. A seguir, Adão deu-lhe um beijo na orelha e falando baixinho a convidou para ir ao cinema.
— Não posso, meu pai me proibiu sair daqui até ele voltar... Vais ter que pedir permissão para ele...
— Seu pai por acaso se chama João, o ciumento?
Eva gargalhou alto desta vez.
— Sim... E o nome de minha mãe é Dina... Também tenho uma irmã Tatiana e outra que é Mariuska... Elas estão na cidade com nossa avó materna.
— Então só estão faltando seus irmãozinhos...
— Isso! A viagem de meus velhos foi programada para engravidar de um irmão desta vez... Falaram que tenho 18 irmãos homens, mas eu não acredito muito nisso, não... Eles só querem namorar e ficar sozinhos em alto mar...
Adão mexeu a cabeça com resignação. Tinha que se acostumar. A família de Eva era uma gangue indissolúvel, e com certeza pela eternidade. Pegou a mão de Eva novamente e desta vez não a soltou mais. Teria que esperar com paciência que ela se relembrasse das existências anteriores. Além do que, estava adorando a ideia de ter que conquistá-la e fazê-la o amar, como se fosse a primeira vez em todas suas vidas.
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