Adotada!
16 Será que ele vem?
Ocupada em varrer a sala, Bia perguntava-se, será que ele vem? Os irmãos tinham saído, estavam só ela e a mãe em casa. Bia procurou concentrar-se em seus afazeres. Pensou, se ele não vier, tudo bem. Se vier, vai ver ela ali de vestidinho curto e pés no chão, posição em que se encontrava desde que fora rebaixada do posto de filha para serviçal. E o pior: com toda a justiça. Será que ele ia relevar isso? Ora, mas que bobagem, ele já sabia de tudo, as colegas com certeza já lhe haviam contado. Fofoqueiras! Mas que ela merecia, isso Bia não tinha como negar.
O coração de Bia bateu mais forte quando escutou a campainha tocar. Deixou a vassoura a um canto. Tinha vontade de vestir outra coisa, mas não tinha acesso a seu guarda roupa, e sabe-se lá quando voltaria a ter. A mãe foi abrir a porta, e não pareceu surpresa. Com certeza a mãe de Marcela já havia falado com ela, conforme prometido. Percebeu que trocavam palavras agradáveis, e aguçou os ouvidos esforçando-se para escutar. Por que conversavam tanto? Mas de súbito a mãe aparece pela porta, sorridente como havia muito Bia não a via, seguida por Cláudio.
— Esse rapaz quer falar com você. Vou deixar os dois à vontade.
Cláudio trouxe-lhe uma caixa de bombons, o que deixou Bia acanhada. Tinha a impressão de que não merecia tanta deferência. ficou alisando a barra do vestidinho de faxina, como se pudesse distende-la para baixo, e sentou-se ao lado dele com as pernas bem fechadas. Levou algum tempo até que conseguisse falar com fluência. Ele mostrou-se gentil.
— Eu estou gostando muito de você, sabia? Eu sempre te achei muito legal, mas teve muitas vezes que você não deu bola para mim...
— Eu estava muito desorientada... sabe... essas coisas que aconteceram... mas eu estou melhor agora...
— Pois isso não me importa. Eu queria namorar você! Te acho linda! E se está desorientada, vou te ajudar a te orientar! Topas?
Os olhos de Bia se arregalaram. Ela tentou dizer alguma coisa, mas a boca que abriu aproximou-se da boca de Cláudio, e trocaram um longo beijo. Bia fechou os olhos. Nunca antes havia beijado assim, com tanta paixão. Nem nunca antes suspeitara que um beijo pudesse ser carregado de tanto significado. Só agora entendia que nunca antes havia se sentido atraída por alguém na base do puro sentimento. Queria livrar-se do passado como de uma casca velha. Ansiava por explicar a Cláudio tudo o que acontecera.
— Sabe... é que eu fui adotada... mas nunca me conformei... eu sempre achava que as pessoas me desprezavam, e que eu valia mais...
— Ôh Bia, você pensa que eu não conheço a Marcela desde muito tempo? É o mesmo caso!
Bia riu e abraçou o namorado. Não mais sentia ânsia de explicar, agora tinha certeza de que ele a entendia.
— Você quer ir comigo ao cinema amanhã? A gente passeia pelo shopping e depois vai ver o filme!
— Precisa falar com a mamãe...
Dona Silvana sorriu, mas esforçou-se por fazer um ar severo. Levou as mãos à cintura e dirigiu-se a Cláudio:
— Você soube dos problemas que eu tive com a Bia, não soube?
— Soube sim senhora!
— Então sabe que eu tive que tomar certas providências. A Bia está sob vigilância, e eu não tenho deixado ela sair. Mas se eu puder confiar em você, eu posso estudar o caso.
— A senhora pode confiar em mim!
— Muito bem! Estou gostando da firmeza! Mas para ganhar a minha confiança, tem que mostrar que é um rapaz sério, que cumpre o que prometeu. Então, se eu deixar vocês irem em um lugar, vocês têm que ir só naquele lugar. Se eu der uma hora para vocês voltarem, vocês têm que voltar naquela hora. Isso pode ser chato para você às vezes, mas se você gosta da Bia, tem que valer o sacrifício!
— A senhora pode ter certeza que eu gosto mesmo!
Bia tudo escutava sem dizer palavra. Naquela noite foi dormir sonhando com Cláudio.
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