Adotada!
17 Promovida
Estava uma manhã radiosa. Bia caprichou no coro da igreja, animada pela presença de Cláudio, que também cantava muito bem. Depois do sermão do pastor, que foi um diálogo bem agradável sobre os problemas da juventude, o pessoal se pôs a conversar descontraído e combinar o que iam fazer. A novidade era um baile em um clube novo que ela não conhecia, mas se muita gente da igreja ia lá, devia ser legal.
O clube era bem grande, com vários ambientes, e uma música suave que convidava às danças lentas. O pessoal era legal, mas Bia não conhecia a maioria. De repente sentiu-se meio atemorizada e apertou mais forte a mão de Cláudio. Aquele ambiente a atraía, mas também a assustava, pois estava na dúvida de pertencer ou não a ele. Na verdade, aquela sensação era recorrente: em casa, sempre estivera na dúvida de pertencer ou não à família. De repente, riu: ela nunca se sentira constrangida por circular em lugares mal frequentados na companhia de marginais, e no entanto, descobrira da pior maneira que seu lugar não era aquele. Então talvez fosse este onde estava agora.
— Cláudio...
— Hum?
— Você gosta de mim?
— Ôh meu bem, por que você fica tanto na dúvida?
Bia ficou sem graça. Passou as mãos em volta do pescoço de seu parceiro de dança, e aproximou-se mais do rosto ele.
— Insegurança...
— Já sei. Você está achando que não tem valor suficiente para me merecer.
Bia ficou sem graça. Era aquilo mesmo. Cláudio era capaz de ler seus pensamentos.
Pois fique sabendo que você vale muito, sim, garota! Você enfrentou provas muito duras, e passou em todas! Diferente de umas garotinhas metidas que eu já conheci.
Um longo beijo selou o diálogo, e Bia experimentou um êxtase tão intenso que nem sentiu o tempo passar. Só acordou para a realidade quando a mãe admoestou-os à porta.
— Eu dei um horário para vocês voltarem, e vocês chegam meia hora depois! Eu avisei vocês dois que estavam sob teste, com tolerância zero!
Bia e Cláudio olharam um para a cara do outro. Tinham mesmo esquecido. Foi Cláudio quem tomou a palavra:
— A culpa foi minha, dona Silvana! A Bia queria voltar, mas eu fiquei enrolando!
— Não é verdade não, mãe! — Replicou Bia de bate pronto — Eu esqueci totalmente!
Bia olhou para a cara da mãe, que abriu um sorriso meio inescrutável e cruzou os braços. Tinha falado sem pensar, mas não estava arrependida.
— Muito bem! Gostei muito da sua atitude, minha filha, de não mentir. Mas os dois falharam ao não obedecer ao horário, não foi?
— Foi...
— Então, um bom castigo é não deixar vocês dois saírem no próximo final de semana. Vale tanto para um quanto para o outro!
— É... isso mesmo, mãe.
— Mas dona Silvana, eu posso vir para fazer companhia para a Bia, mesmo sem a gente poder sair?
Bia viu o sorriso da mãe alargar-se, e ela descruzou os braços.
— Pode, sim. Agora vão dormir, que vocês devem estar cansados!
No dia seguinte, ocupada em seus serviços domésticos diários, Bia sentia uma grande paz de espírito. Estava segura de seu lugar naquela casa: no momento não estava igual a uma filha, mas isso era parte de uma prova pela qual devia passar. Percebia agora o quanto a mãe era sábia e justa, sempre capaz de calcular o castigo adequado para cada falta. Achava de todo justo que ficasse um fim de semana sem sair com Cláudio. Súbito, notou que naquele dia a mãe não colocara a lista de tarefas na geladeira, estava trabalhando porque já sabia de cor. Quando terminou de varrer a sala, perguntou:
— O que eu faço agora, mãe?
— É você quem resolve, filha!
Bi riu. Era dia de lavar as vidraças, e isso ela já sabia. Tinha até vontade de cantar quanto trabalhava.
O sábado chegou, e Cláudio veio vê-la, conforme prometido. Trouxe um livro para ela ler, e ficaram sentados escutando música, mãos dadas e cabeças encostadas no ombro um do outro. Dona Silvana chegou de repente, e perguntou:
— Amanhã vocês não querem ir na festa da Analice, que vai ser no sítio?
Os olhos de Bia brilharam, mas ela ficou confusa.
— Ué, mãe, mas a senhora não colocou a gente de castigo?
— Só no sábado. Amanhã é domingo!
A frase foi terminada com uma risada. Bia ficou radiante. Estava mesmo ansiosa para ir naquela festa, e não tinha mais esperanças. Em meio à euforia, perguntou:
— Mãe, posso pedir uma coisa para a senhora?
— O que?
No instante seguinte Bia arrependeu-se. A mãe havia sido muito magnânima em dispensa-la do castigo, e agora ela já estava abusando. Quem mandou abrir a boca? A voz saiu meio gaguejada:
— Eu queria que a senhora liberasse aquela minha roupa country, sabe?
— Minha filha, hoje você escolhe. E pode ir pegar suas roupas todas e colocar no seu armário!
O coração de Bia bateu mais forte ao receber da mãe a chave do guarda-roupa. Agora tinha certeza: fora promovida de volta a filha.
Fale com o autor