Notas iniciais
Música: NXzero – Cedo ou tarde

Ela me beijou.

Os lábios dela eram macios.

Ela era perfumada, delicada...

Foram estes pensamentos com relação à Yuuki que me fizeram despertar para uma nova manhã. Shizuka chegaria, verdadeiramente queria que ficasse em Tóquio. E foi com uma imensa ansiedade e preocupação que fui trabalhar.

-Bom dia. –Disse a turma.

-Bom dia. –Se pronunciou o coro de vozes. Quando todos estavam calados...

-Bom dia. –Eu me virei e a vi, sorrindo. Tinha sido ela a dar o bom dia atrasado, como se quisesse se destacar dos demais. Eu a olhei por alguns segundos, os olhos brilhavam.

-Continuemos nossa aula. –Eu prossegui. Meus olhos encontravam casualmente seus olhos. Ela continuava a sorrir. Isso não deveria acontecer. Ela certamente está se iludindo com relação ao que aconteceu... Será só ela? Eu me senti aliviado ao sair daquela sala e seguir com minhas outras salas.

...

Aulas dadas. Seguia para o estacionamento dos professores. Eu a vi ali, parada. Ela caminhava para o portão, os olhos fixos em alguma bibliografia. Ela levantou a cabeça e me olhou. Primeiro ficou surpresa, seu rosto logo foi tomado pelo sorriso.

-Oi meu amor! –NÃO! NÃO PODE SER ELA!

Era ela: Shizuka, minha noiva.

Ela se aproximou e me beijou. Meus olhos estavam abertos ainda fixos em Yuuki. Yuuki olhou a tudo espantada e então sua feição ficou retorcida pela dor. Ela saiu mais rapidamente que o necessário.

-Então... Feliz em me ver?

-Pensei que só chegaria à noite, Shizuka.

-Consegui chegar mais cedo. Vim de taxi. Vamos juntos para casa, está bem?

-Tudo bem. –Fui para casa... Com um mau pressentimento.

E os dias foram passando...

...Sete dias em que não vi Yuuki. Sete dias em que ela não se incomodou em ir para a escola. Sete dias em que eu não pensava em mais nada, a não ser Yuuki. Sete dias em que eu fiquei com Shizuka sentindo um forte desconforto. Mas eu não deixei a situação perdurar. No sábado, depois das aulas, aproveitando que Shizuka ficaria fora da cidade por uma semana, eu fui visitá-la. Talvez não fosse certo, não queria que ela pensasse que eu a estou tratando de forma especial.

Eu conhecia o endereço. Fui para lá no meu Camaro. Era fim de tarde. Eu toquei a campainha uma, duas, três vezes. Pensei: Talvez ela não esteja em casa. Talvez esteja aproveitando as férias. Enquanto isso eu me encho de remorso achando que sou eu o culpado por passar sete dias fora da escola. Eu nunca havia me sentido tão estúpido.

-Melhor ir embora. –Eu caminhei até o carro, parei ao ouvir o barulho do portão sendo aberto. Eu virei e a vi, estava de pijama, olhou para mim com uma surpresa cômica.

-Professor?

-Yuuki Kuran… Sua família está? –Essa era uma boa tática. Fingir falar com a família para saber o porquê de tantas faltas.

-Por que quer ver minha família? –Ela olhava-me certamente aborrecida.

-Bem... Você tem faltado muitas aulas. Estou aqui em nome da escola para saber a causa de suas faltas. –Ela riu do que disse. Permaneci sério. Eu poderia representar a escola, não poderia?

-Então... Quer me dedurar para meus pais, senhor Kiryuu? –Ela falava zombando de mim.

-Por quê? Por um acaso seus pais não sabem que está cabulando? Por isso usou o termo “dedurar” para nomear o que estou fazendo aqui? –Eu já estava ficando nervoso. Ela ainda ria, mas com escárnio.

-Quer entrar?

-Quero. –Entrei em sua casa.

A casa de Yuuki era pequena, porém muito limpa e organizada, decoração de bom gosto. Sentei-me em um sofá.

-Quer algo para beber? Chá talvez.

-Sim. –Estudei atentamente o lugar. Yuuki foi para a cozinha certamente preparar o chá. Levantei-me e olhei atentamente a uma prateleira com fotografias. Todas elas eram de Yuuki em diferentes idades com uma bela mulher, pela aparência devia ser sua mãe.

-Aqui está. –Disse Yuuki colocando o bule e duas xícaras na mesinha de centro. Serviu-me e se serviu. Ficamos calados sorvendo o chá, eu tentava elaborar algo para dizer. Ao termino do chá, Yuuki recolheu a louça suja e prontamente a lavou.

-Então professor... Quer falar com minha mãe sobre meus problemas de ausência na escola?

-Eu gostaria, senhorita Yuuki.

-Espere um pouco então. –Eu a vi sumir para dentro da casa. Aguardei ainda sem saber o que iria falar. Yuuki veio arrumada para sair.

-Aonde vai?

-Eu vou levá-lo até minha mãe.

-Ela não está em casa?

-Ela não mora aqui. Então professor, já que veio aqui só para falar com um responsável sobre eu e a escola creio que virá comigo.

...

-Desculpe a demora em visitá-la mãe. Trouxe flores do campo. –Yuuki estendeu lentamente o pequeno buquê para o tumulo de Juuri Kuran.

-Sinto muito. Eu não sabia. –Era só o que poderia dizer.

-Tudo bem.

-Onde está seu pai?

-Não sei.

-Não tem ninguém, Yuuki?

-Não... Zero. –Ela virou-se e me olhou. –Então não tem para quem falar que sou uma aluna relapsa. Que pena para você. Fez a viagem em vão.

-Não. Eu não fiz em vão. –Disse abruptamente. Yuuki olhou-me aturdida com minhas palavras. Eu mantive um semblante sério. Ela voltou seus olhos para o túmulo da mãe.

-Então professor... Quer jantar comigo?

...

Yuuki cozinhava muito bem, disso eu já sabia. Foi muito prazeroso comer com ela.

-Do que sua mãe morreu?

-Doença no coração. –Ela dava toda atenção ao que estava comendo.

-Há quanto tempo foi isso, Yuuki?

-Dois anos atrás. Eu tinha quatorze.

-Não tem mais nenhum parente? –Eu não conseguia parar de perguntar. Queria saber coisas sobre ela.

-Apenas um tio, irmão de meu pai, seu nome é Rido. Ele não quis cuidar de mim, mas pelo menos fez o favor de ser legalmente meu tutor e me passar à pensão que recebo.

-Isso é cruel da parte dele.

-Eu não acho. Seria mais cruel se o meu tio Rido me aceitasse contra a sua vontade a minha permanência em sua casa e viesse a me tratar mal. –Yuuki levantou-se pegando a louça suja, eu a ajudei.

-Não precisa professor.

-Não me importo em ajudar até por que você está doente, não é?

-Eu melhorei. Acho que foi sua presença que fez isso. –Ela sorriu. Ficamos em silencio lavando os pratos. Eu sabia que após esse momento eu teria que ir. Eu não queria ir. Eu tinha que pedir desculpas a ela, falar algo.

-Sobre o que aconteceu há sete dias, eu...

-Tudo bem professor. Não precisa falar nada sobre aquilo. Então... Sua esposa é muito bonita.

-Ela é... Minha namorada. –Shizuka era minha noiva, mas não consegui pronunciar isso.

-Ela deve ser alguém incrível para ter o senhor. –Disse Yuuki sorrindo. –Acho que já vai, não é?

-Sim. –Yuuki caminhou para a porta e a abriu.

-Agente se vê na aula.

-Você irá Yuuki?

-Eu vou.

-Boa noite.

-Boa noite professor.

-Me chame de Zero. Não precisa desse tipo de formalidade, pelo menos não fora da escola.

-Tudo bem. –Eu saí, o céu indicava que iria chover. Eu entrei em meu carro, coloquei a chave na ignição, mas não liguei o carro. Eu não tinha ido para delatar Yuuki aos pais, eu tinha ido para falar o que eu queria falar, ser sincero. Eu sai do caro, o tranquei. Fui para a porta de Yuuki e toquei a campainha. Yuuki atendeu com os olhos confusos.

-Meu carro não quer ligar. –Eu disse. Esperava que ela não percebesse minha mentira. –Posso... Ficar aqui? Minha casa é longe para ir a pé e está tarde para pegar uma condução. –Yuuki sorriu.

-Entre. –Ela me deu passagem. –Se vai dormir aqui posso oferecer o meu antigo quarto.

-Tudo bem.

-Vem comigo. –Eu a segui pela casa, me deparei com uma porta rosa. Ela abriu o quarto e eu entrei. Não tinha nada a não ser uma cama, uma mesa de cabeceira e um abajur.

-Eu me mudei para o quarto de minha mãe. Só deixei o básico nesse quarto. É como um quarto de hospedes. –Yuuki falava. O lugar tinha o seu perfume impregnado em cada móvel. –Quer uma toalha? Posso lhe emprestar algo para vestir. Minha mãe tem algumas roupas que supostamente pertenceram ao meu pai.

-Não precisa. Obrigado por oferecer.

-Tudo bem. Qualquer coisa eu estarei no quarto ao lado. Boa noite. –Yuuki saiu. Eu olhei para o quarto iluminado e me perguntei: o que eu estava fazendo?

Eu deveria ir embora. Deveria deixar que Yuuki tirasse a conclusão que quisesse. Deveria voltar à posição de professor e aluna, mas eu não conseguia. Não era isso que queria. Sentei-me na cama e olhei para um ponto fixo pensando no que deveria dizer. Eu estava me sentindo em cima do muro e tinha de pender para um lado. Ou eu escolheria o afastamento de Yuuki ou...

O que poderia ser esse “ou”? Então eu levantei e rumei para o quarto em que Yuuki estava. Fiquei em minhas lutas internas por uma hora. Eu a encontrei deitada, os olhos fechados. Certamente dormiria. Eu poderia ser covarde e dizer o que queria dizer com Yuuki inconsciente. Não foi isso que fiz. Eu me aproximei, sentei na cama e fiquei pensando na melhor forma de conversar. Eu nem sequer olhava para ela. Mantive meus olhos fixos no chão. E então eu senti sua mão macia cobrindo a minha. Me virei um pouco a vi Yuuki com os olhos abertos olhando-me. Voltei minha atenção para sua mão ainda em cima da minha.

-Eu sempre fui tão responsável...

-Não é mais, professor?

-Não sei. Eu não me reconheço mais. Eu nunca havia me envolvido com ninguém que fosse do meu trabalho, nem mesmo uma professora. E agora...

-Me desculpe se eu o perturbo professor. Acreditaria em mim se dissesse que essa não era a minha intenção? –Eu coloquei minha mão livre sobre a mão de Yuuki que ainda estava em cima de minha mão. Acariciei a costa de sua mão, tão macia!

-Você não me perturba, nunca perturbou. Acho que sou eu que a perturbo destratando-a.

-Professor, o senhor não me destrata. Apenas está sendo franco.

-Não Yuuki, eu não estou sendo franco. Não pense que estou sendo franco quando me afasto de você. Isso é tudo rum ardil para esconder a confusão eu estou sentindo. –Yuuki retirou sua mão, o que me frustrou. Ela se afastou um pouco da cama de casal que pertenceu sua mãe dando espaço para alguém deitar ao seu lado e esse alguém era eu. Eu não protestei por que era exatamente isso o que queria. Deitei ao seu lado, fiquei de lado para que pudesse ver o seu rosto. Yuuki olhava-me.

-Zero, eu não espero que fique comigo, sei o que isso lhe custaria. Gostaria que pelo menos soubesse o que sinto. Eu amo você. –Não havia duvida em suas palavras.

-Não está confundindo isso com a típica paixonite por um professor, Yuuki? –Tentei sorrir o sorriso de escárnio.

-Não. Eu tenho certeza do que digo. Apesar de ter dezesseis anos, eu sou madura para minha idade. –Ela estava séria, não houve hesitação em sua confissão de sentimentos para comigo.

-Yuuki, eu... –Ela colocou o dedo indicador na minha boca.

-Não precisa dizer nada. Você disse que está confuso então só diga algo quando tiver certeza. Ainda sim... Eu gostaria de algo.

-O que? –Yuuki se aproximou e aninhou-se em meus braços.

-Posso ficar assim com você? –Yuuki era macia, perfumada, tinha um calor que irradiava. Eu nada falei. Apenas permiti que ela ficasse ali, em meus braços.

-Ah Yuuki! O que vou fazer com você! –Murmurei sabendo que ela já havia dormido. A beijei na testa e nos lábios e adormeci junto a ela.