Notas iniciais
Música: Robert Pattinson – I’ll be you my Queen

Acordei atordoado. Demorei a notar onde estava, era o quarto de Yuuki. Tudo o que havia acontecido me tomou, mas eu não me senti tão desesperado como antes. Ainda permaneci deitado naquela cama macia, encostei meu nariz nos lençóis e aspirei o doce perfume dela. Então eu me toquei que deveria ir. Levantei-me, ajeitei minhas roupas e sai do quarto. Pensei que Yuuki não estava no quarto, mas eu a encontrei na cozinha arrumando a mesa para um café da manhã.

-Bom dia Zero. Ta com fome? Ah! Posso te chamar assim? De Zero?

-Pode. –Foi tudo o que disse. Yuuki veio na minha direção e pegou minha mão. Levou-me até uma das cadeiras.

-Toma café comigo, Zero?

-Tudo bem. –Yuuki era uma cozinheira de mão cheia. Disso eu já sabia. Apreciei absolutamente tudo o que preparou com gosto. Yuuki comeu bem pouco, seus olhos em mim. Eu não ousava olhar.

-Gostou da comida?

-Sim, você cozinha muito bem.

-Obrigada. E então Zero, o que vai fazer hoje?

-Eu vou preparar os planos de aula dessa semana.

-Sério? Que pena. Ia convidar você para passar o dia comigo. –Ela pegou a louça suja. –Eu vou ao museu, vai haver uma exposição de fotografias. Quem sabe outro dia, não é? Eu apenas assenti. Será que só era eu que achava o clima estranho? Eu a havia beijado não uma, mas duas vezes. Ontem dormirmos juntos, dividindo apenas a mesma cama, é claro. Ainda sim Yuuki agia normalmente.

-Eu preciso ir. Tenho muitas coisas para fazer. –Eu disse levantando-me.

-Quer que eu ligue para um mecânico ver seu carro?

-Meu carro?

-Sim. Você disse que ontem ele não tinha pegado.

-Eu vou de taxi para casa. Vou ligar para o meu mecânico pegar meu carro, não se preocupe. Eu estou indo. Agente... –Eu a olhei. –Agente se vê, na aula.

-Tudo bem. –Eu a olhei, quis memorizar, por algum motivo, seu sorriso. Dei um breve sorriso de volta e parti.

...

Nem sei por que fui para casa. Ela estava vazia, arrumada, limpa. Fiz o plano de aula da semana inteira em meia hora. Não liguei para meu mecânico pegar meu carro.

Às onze e meia tomei meu banho.

Ao meio dia e vinte e três almocei.

A uma e quinze eu estava em frente à casa de Yuuki pegando meu carro e indo para o Museu de Tóquio vê-la.

Eu sei, eu também estava me perguntando por que estava fazendo isso. Eu não sei. Eu não queria saber.

Inicialmente eu não quis encontrá-la. Eu entrei no Museu, me escondi em um boné e óculos escuros e andei cautelosamente pelo grande Museu. Fui à exposição de fotos de um fotografo americano qualquer e procurei pelos corredores imensos. Cheguei a pensar que talvez ela tivesse ido embora. Eu a vi em frente a uma fotografia de uma garota sozinha em uma casa, a garota da fotografia olhava para frente, os olhos com lágrimas. Uma fotografia deprimente eu diria. Yuuki ficou ali olhando para aquela fotografia. Eu me aproximei dela.

-Boa fotografia.

-É. –Ela virou-se pra mim. Sorriu. –Me lembra eu mesma.

-Não gosto de ouvir isso. Então você é como essa garota? Sozinha e triste?

-Sozinha? Talvez. Triste? Não.

-Talvez não esteja mais sozinha também. –Eu disse e nossos olhos se encontraram, embora ela não tenha visto os meus com nitidez pelo uso dos óculos escuros. Ela riu. –O que foi Yuuki?

-Está estranho com essas roupas. Nem dá para reconhecê-lo. Queria vir aqui, mas não queria que eu o reconhecesse? –Eu voltei meu olhar para a fotografia.

-A idéia era essa. Mas eu tenho burlado minhas próprias regras. Entende o que digo, Yuuki? –Ela sorriu. Voltou seu olhar para a fotografia e segurou minha mão. A princípio eu estremeci, se algum conhecido visse seria meu fim. Ela pareceu perceber.

-Não se preocupe, você está irreconhecível e... –Ela pegou óculos escuros da bolsa e um lenço. Colocou os óculos nos olhos e o lenço na cabeça. –Eu também estou agora. Pareço com Yuuki Kuran? –Ela se afastou e deu uma voltinha graciosa. Eu ri.

-Não. Mas continua tão bonita quanto. –Eu juro, não deu para não falar e que se danasse se ela ia interpretar isso como uma confissão de amor. Ela se aproximou de mim e falou em meu ouvido:

-Nós podermos ser quem você quiser hoje, sem pressão, sem comprometimento. Então o que vai querer ser hoje, Zero?

-Eu... Eu quero ser o seu marido. –Coloquei tanta intensidade em minha voz que até eu me surpreendi.

-Pensei que diria que queria ser meu namorado. –Ela se afastou um pouco e sorriu.

-Namorado não é grande coisa. Eu não te teria por completo como quero. –Sim, eu estava me sentindo como a donzela que confessa todos os meus pecados para um padre, eu não conseguia, naquele mundo de fantasia, dizer outra coisa que não fosse à verdade.

-Então tudo bem, nós estamos casados. Então... Quer ir para outro lugar? –Ela perguntou.

-Quero.

...

-Nunca veio aqui antes? –Ela me perguntou enquanto estávamos olhando a jaula do Leão do zoológico.

-Não.

-Por que Zero?

-Acho que é trauma de infância. –Ela me fitava na certa querendo mais esclarecimentos. –Eu tinha um irmão gêmeo chamado Ichiru. Certa vez nós armamos uma fulga da nossa casa para irmos sozinhos ao zoológico, coisa de criança. Não chegamos a ir até o zoológico. Ichiru se feriu no caminho em um pedaço de ferro enferrujado. Com medo que nossos pais brigassem por termos escapado de casa, ele não falou sobre o ferimento. O mesmo ferimento se agravou.

-Ele morreu de tétano. –Ela disse. Limitei-me a assentir. –Sinto muito Zero.

-Tudo bem. Faz tempo, eu tinha nove anos.

-E o que aconteceu aos seus pais Zero?

-Eles me culparam pelo que aconteceu após descobrirem. Tive uma infância difícil por isso. Eu amadureci rapidamente a fim de impressioná-los, conquistar o seu carinho. Isso não aconteceu. Eu saí de casa assim que tive a chance. Quando voltei para tentar uma reconciliação com eles, meus pais tinham se mudado para os Estados Unidos.

-Eu sinto muito Zero. Que cruel dos seus pais te deixarem.

-Eu já superei. –Começamos a caminhar a fim de ver outras jaulas. Eu e Yuuki estávamos de mãos dadas. –E você? Qual a sua historia?

-Minha mãe nunca falou do meu pai. Descobri por conta própria que, após uma briga com minha mãe, ele pensou que ela pediria separação e cometeu suicídio. Ela nada me contou por que tinha medo que eu a odiasse.

-E a sua mãe Yuuki?

-Ela tinha um problema no coração, mas me escondeu isso. Eu só soube quando ela teve que ser internada. Meu tio Rido, irmão do meu pai, se colocou como meu tutor. Ele manda todos os meses pelo correio o dinheiro que ele pega do banco. Mas ele não quis que morássemos juntos, ele brigou com meu pai e passou a odiá-lo assim como toda a sua família, mesmo sem agente ter feito algo contra ele. Bom... Pelo menos ele não rouba meu dinheiro. Acho até bom que ele não tenha feito questão de morarmos juntos, eu não iria suportar viver com alguém que me odeia. –Yuuki falava a sua triste vida com naturalidade. Isso realmente me deixou pasmo, ela era mais forte do que eu imaginava.

-Sente falta de sua mãe? Você... Se sente sozinha? –Perguntei enquanto parávamos para olhar uma jaula de macacos.

-Minha mãe me preparou para me acostumar com a solidão. Mesmo em seus dias de folga no trabalho ela não ficava em casa. Ela me deixava sozinha para que eu aprendesse a ficar sozinha, ela estava me preparando. –Eu fiquei calado. Ela tinha passado por tanta dor, tanto quanto eu. Nós éramos iguais. Talvez, mesmo que inconscientemente, eu já soubesse disso. E as horas foram passando. Quando nos tocamos já eram seis e meia da tarde.

-E então Zero? Para onde vamos?

-Estava pensando naquela caixa de água do antigo parque de Tóquio onde você costuma ir para ver estrelas.

-Ótima idéia.

...

Estávamos deitados em uma manta que Yuuki lembrou-se de trazer. Ela admitiu que esperava que eu fosse até ela e eu admiti que menti sobre o carro. Olhávamos o céu estrelado. Conversamos sobre mais coisas a nosso respeito. Como quando Yuuki disse por que vinha naquele lugar. Ela foi com a mãe só uma vez e adorou aquilo. A mãe gostava d olhar as estrelas por que se lembrava do pai. Yuuki gostava de olhar as estrelas por que elas eram bonitas. E eu gostava de olhar as estrelas por que via com ela.

-Acho que o pedido se concretizou. –Ela murmurou do nada.

-Que pedido?

-Aquele que fiz a estrela cadente.

-Você desejou que eu fosse feliz. É... Acho que se realizou. –Eu disse e sorri. Realmente eu estava feliz.

-Não foi esse o meu pedido. Eu menti pra você. Eu não desejei que nós dois encontrássemos a felicidade ou algo do tipo. –Eu me virei para encará-la, ela olhava para o céu escuro.

-O que você pediu então, Yuuki? –Ela se virou e me olhou intensamente, um sorriso nos lábios finos.

-Desejei que você fosse meu. Desculpe, sou meio egoísta. –Aquela confissão me paralisou. Recuperado do choque de suas palavras eu sorri. Voltamos a olhar para o céu e eu quebrei o silencio.

-Yuuki? Até que horas eu serei seu marido?

-Até as duas horas da tarde do outro dia, assim completa um dia. Por quê? –Eu me virei, coloquei meu corpo sobre o dela e a beijei. Nada mais precisava ser dito.

Notas finais
Deixem coments e se possivel divulguem essa fic para eu ter mais leitores. =***