Adeus, Carolina do Sul
1 Capítulo 1
Cap. 01
Corria a notícia que o Circo Barnum & Bailey's vindo da Pensilvânia chegara a cidade. Os moradores tinham esperado meses por aquele evento. Não era de estranhar que todos estivessem especialmente animados nos dias antecedentes quando o circo estava a caminho, e que estivessem principalmente 'agora' que chegara.
Toda a pujança coletiva não se dava somente a chegada da diversão muito aguardada. Estava estritamente relacionada a um fatídico evento. O assassinato de Abraham Lincoln. Os cidadãos mais antigos da Carolina do Sul nutriam um ódio velado pelo falecido presidente. Um ódio que passara de pai para filho. Um sentimento que com o tempo perdera a força, mas que era deveras presente no coração dos Sulistas mais conservadores. Com o tempo o povo sulista passara a pensar diferente — principalmente depois de entenderem a importante das decisões do ex-presidente.
Contrario ao povo em geral, existia uma pessoa que simplesmente não encaixava-se no grupo dos excitados pela chegada do Circo ou dos regozijados pelo aniversário de morte de Lincoln. E essa pessoa era a esposa do banqueiro Finn Hudson. Que às 11h da manhãlocomovia-se pela calçada ladrilhada de volta para casa após cumprir compromissos de domingo com a igreja. Ela acenava cordialmente vez ou outra quando alguém a reconhecia. Em cada um dos moradores por quem passava percebia o entusiasmo — atéo clérigo reverendo Carey estivera diferente durante a celebração aquela manhã.
Queria, mas não recriminava os conterrâneos por parecerem tão infantis com a chegada de um circo. Compreendia-os. Era raro que tivessem alguma diversão na pequena cidade. E depois da retomada econômica, tudo que queriam era ter com o que gastar.
Os homens normalmente tinham alguma diversão — com as rsparigas da Casa de Charpentier. Podia apostas que o marido Finn também estivera fazendo visitas às profanas. Quando o via pegar o chapéu e sair tarde da noite com alguma desculpa, sabia o destino do marido. No fundo ficava feliz. Significava que não precisaria satisfazê-lo ànoite.
No entanto, as mulheres não tinham uma Casa de Charpentier para divertirem-se. Distrações para mulheres eram as aulas de bons modos, aulas de costura e aulas de inglês, ou ir à missa. Era o máximo de distração que tinham. E nada daquilo parecia muito divertido se parassem para pensar.
Noah — um mulato bem vestido — a seguia de perto para garantir a proteção de sua Senhora. Ele fora escravo da família Hudson, os pais de Finn. Mas ainda quando criança, com o Ato de Emancipação decretado por Lincoln, tornara-se um homem livre. Entretanto, apesar de ser liberto, permanecera ao lado dos Hudson. Ex-escravos ou descendentes deles viviam com dificuldades. Corriam perigo constantemente. Eram humilhados, passavam fome... Entre outras privações. Ficar ao lado dos Hudson fora no fim, a melhor escolha para Noah.
— Minha Senhora não parece animada. — Noah falou baixo. Cuidara para que nenhuma palavra soasse ofensiva em seu tom de voz.
— Mesmo que tente ser sutil, ainda conseguirei lê-lo, Noah. O que quer realmente saber é se seu Senhor e sua senhora vão ao Circo.
Noah empalideceu, ficando quase como um senhor de fazendo tal era sua rapidez.
— Senhora, eu não...
Mas a esposa de Finn riu baixinho do nervosismo do rapaz, um riso que mais parecia um tilintar de sinos.
— Tudo bem. Entendo que queira ir. Aparentemente todos querem. Você deve estar animado para ver o Circo. É perfeitamente normal. Mas eu não estou realmente desejando por isso. Talvez meu marido queira ir. Então, aí quem sabe. Em todo caso, Noah, tudo dependerádo humor de seu Senhor.
Finn Hudson — o Senhor de Noah — tinha um humor bastante instável. Ninguém nunca sabia o que esperar dele. Ele poderia estar muito alegre ou irritado demais até para manter uma simples conversa.
Era fim da tarde de domingo. Os empregados estavam de pé em completo silêncio ao redor da mesa aguardando caso os patrões precisassem deles.
— Hum... — Finn fez, chamando atenção da esposa, enquanto limpava boca.
— Sim, querido.
— Vista-se bem hoje. Nós vamos sair. Quero que venha comigo conhecer o circo que está na cidade. — Falou animado apertando a mão sobre a mesa, com um olhar brilhante no rosto amadurecido, o deixando mais jovem de repente.
— Claro. Estarei pronta. — Ofereceu um sorriso meigo ao marido e depois lançou um olhar rápido e sugestivo para Noah, que conteve o sorriso. Ele veria o Circo.
— Tenho certeza que será uma noite incrível! — O banqueiro falou voltando-se ao jantar.
O mulato — Noah não era realmente negro, era filho de uma escrava com o dono de uma Taverna -, vestido como homem da sociedade estava sentado na frente conduzindo a charrete pelas estradas tortuosas enquanto Finn e a esposa conversavam sobre uma possível viagem que o homem queria fazer.
Mal perceberam quando finalmente chegaram. Finn desceu primeiro e estendeu uma mão para que a esposa pudesse descer em segurança. Comentou galante quanto a esposa ficava graciosa vestindo lilás. Ganhou um beijo leve nos lábios. Ofereceu o braço para a esposa que o aceitou normalmente. Noah os acompanhava de perto.
— O que pensa estar fazendo nos acompanhando? — O banqueiro falou sério, como sempre falava com os empregados.
O mulato tremeu de medo e abaixou imediatamente a cabeça temendo a reação de seu Senhor. Finn respirou raivoso e disse mais calmo, porém incisivo:
— Volte e nos espere na charrete até voltarmos.
Noah obedeceu. O banqueiro voltou a andar como se nada acontecera. Sua esposa lançou um olhar compadecido na direção do mulato. Queria dizer algo mas preferiu não contestar a autoridade do marido. Sentiu-se péssima por não poder ajudá-lo. Queria ter feito algo, mas calou-se como sempre fazia, e prosseguiu ao lado do marido ainda pensando no que acontecera. Queria ter tido uma atitude, queria ver a felicidade de Noah, ele merecia. Queria não ser tão covarde.
Finn e a esposa caminharam uns poucos metros e então as luzes e o barulho do que parecia ser milhares de pessoas falando estavam diante deles. Parecia que toda cidade estava reunida ali. Luzes e o som de instrumentos sendo entoandos com músicas agitadas estavam por toda parte. Várias lonas imesas armadas fazendo um longo corredor no que antes era um campo aberto de capim batido. Era realmente algo muito impressionante.
Finn sorria admirado enquanto andavam. Homens vestidos com muita cor chamavam as pessoas para apreciarem as atrações, todos ao mesmo tempo. Um parecia querer ser melhor que o outro. Cor era o que mais havia em todo lado. O banqueiro parou para assistir um homem que engolia facas. E aplaudiu com admiração assim como os demais espectadores.
— Hudson?
Um homem louro surgiu diante dos olhos do casal. Ele era mais baixo que Finn, mas ainda parecia alto para a esposa do banqueiro. Isso era porque seu marido Finn era mesmo muito alto.
Finn abriu um sorriso antes de abraar o velho amigo dando alguns tapinhas nas costas dele.
— Samuel! Você está mesmo vivo! Quando chegou!?
Samuel Evans — ou apenas Sam. Como os que conheciam o chamavam. Um homem de lábios grandes demais para o rosto era o amigo mais próximo de Finn. O homem passara um tempo em uma viagem para a Espanha. Fora para conhecer a família da esposa.
— Faz pouco tempo que chegamos. — disse o homem e então pareceu notar a presença da esposa de Finn. Abriu um sorriso tão grande que poderia facilmente iluminar todo aquele lugar. — Rachel Berry Hudson!
— Sam. Que bom vê-lo novamente. — Tentou parecer realemente sincera, apesar de não estar feliz.
O louro alto tomou as mãos da esposa de Finn e beijou-as levemente. Então perguntou com ironia:
— Como um calhorda como Finn Hudson terminou com uma mulher tão encantadora?
O elogio distorcido acabou fazendo a jovem mulher sorrir levemente. Sentira falta do humor doce de Sam.
— Sorte. — Finn disse e os dois sorriram. — E Santana?
— Também está aqui. Viemos juntos — Sam comentou.
Rachel sentiu vontade de revirar os olhos. Havia esperado que alguma doença durante a viagem pudesse ter sido capaz de matar a esposa de Sam. Mas aparentemente não tivera tanta sorte. Ela devia contar a Sam que odiava Santana e que o sentimento era recíproco? Ou devia deixar as coisas como estavam? Ouviu Finn perguntar:
— Onde Santana está?
— Foi ver as gêmeas Pip e Flip. Depois ela vai conversar com uma amiga importante. Venham, ela vai adorar revê-los.
Logo os dois viram-se acompanhando Sam. O homem falava animado como era a Espanha. Como eram pessoas incríveis e de grande coração os pais de Santana. E a esposa de Finn perguntou-se como pessoas descritas daquela forma puderam ter uma filha tão indigesta como Santana. Ou quem sabe os pais da espanhola tinham conseguido enganá-lo assim como a filha fizera? Pobre Sam. Se ele suspeitasse o tipo de esposa que tinha. Se soubesse que a espanhola tivera um caso com o médico da família Evans — esperava que ele nunca soubesse, ou se soubesse que não fosse por ela. Ficou triste ao imaginar os doces e felizes olhos azuis de Sam Evans decepcionados. Quem seria capaz de magoar esses olhos? Claro... Santana.
— Meu bem, onde estava?
Foi arrancada de seus pensamentos pela voz animada de Sam. Era ela, a malditamente atraente e desprezível espanhola. Santana beijou a bochecha do marido que sorriu para a esposa com o melhor sorriso que tinha.
— Gostou do que viu? — Sam perguntou referindo-se ao show das irmãs Pip e Flip.
— Vi coisas melhores em nossa viagem. Mas até que foi divertido. Elas são mesmo horrendas... — Riu de forma debochada.
Tão esnobe. Pensou Rachel.
Santana a cumprimentou com o sorriso mais falso que tinha. Claro que não seria diferente. Também nutria um ódio pela esposa de Finn. Cumprimentou o marido da inimiga, mas ele ela não odiava. Pelo contrário. Se tivesse uma chance, teria Finn para ela também sem pensar duas vezes.
Enfim Sam voltou a dar atenção ao casal de amigos perguntando casualmente se eles gostariam de ver a atração mais importante da noite. Santana tomou a frente, sugerindo que fossem onde estava a Estranha Mulher-Homem. Finn imediatamente aceitou, enquanto que Sam apenas sorriu — ele aceitaria qualquer coisa que Santana quisesse. De qualquer forma o voto de Rachel não foi pedido e ela também não se pronunciou. Acompanharia o marido.
Um homem calvo e baixo falava muito alto com entusiasmo pedindo que as pessoas se aproximassem para ver a atração. Uma e outra pessoa aproximava-se do homem aos poucos formando um meio círculo ao redor dele. O homem fazia o que podia para que as pessoas demonstrassem interesse — e estava dando certo.
— Venham e vejam algo que ninguém pode explicar. Que precisa ser visto para ser crido. A estranha Mulher-Homem. Não percam a chance!
Não foi preciso muito para que as pessoas fossem atraídas para acompanhar o show. Santana demonstrava uma animação incomum, ela falara bastante acerca da atração, o que deixou Finn ancioso. Rachel permaneceu ao lado do marido com uma postura falsamente relaxada. Com o tempo ela aprendeu a mentir seus sentimentos e aperfeiçoara essa habilidade com os anos.
Os quatro pessaram por uma abertura na lona e entraram num compartimento propositalmente mal iluminado. Havia uma cortina espessa vermelho-escuro que separava a platéia da atração principal do show. Entre si, as pessoas comentavam em murmurios excitados. Quando todos já tinham passado pela entrada e tomado seus lugares, um homem apareceu diante da platéia em um palco de um pouco mais de meio metro acima do chão. Este homem tinha os cabelos ruivos curtos e um rosto magro cheio de sardas. Limpou a garganta e passou a falar de uma forma cadenciada.
— Senhoras e Senhores. O que vocês estão para ver não se compara a nada. NADA! — Enfatizou encarando momentaneamente cada rosto. Continuou:
— O que verão quando esta cortina for aberta não se compara a qualquer coisa que possam ter visto antes. Diante de vocês aparecerá agora. Ela, a... ESTRANHA LUCY MULHER-HOMEM.
De repente todos ficaram apreensivos. Houve um breve momento onde tudo ficou escuro e silencioso. E então a cortina foi aberta e uma luz no meio do palco acendeu-se. O coração de cada pessoa ali presente falhou.
Uma mulher apareceu. O rosto calmo como se ela estivesse muito acostumada com a situação, bastante relaxada. Então um som conjunto de surpresa foi ouvido. Ela estava nua da cintura pra cima. Era possível ver os seios da mulher. Medianos com mamilos rosados. Todos estavam boquiabertos. E ficaram mais quando a mulher deu mais um passo para onde estava o foco da luz, enquanto tirava a parte de baixo que cobria-lhe o quadril. Entre as pernas da mulher um longo apêndice descansava flácido. Exatamente como de um homem.
Com as mãos sobre a boca, a esposa de Finn encontrava-se completamente surpresa. De repente ela estava de volta às suas núpcias com Finn. Quando os dois viram-se nus pela primeira vez. O constrangimento profundo que sentiu ao ver o marido despido. Então algo aconteceu. Os olhos surpresos da esposa de Finn encontraram brevemente os olhos da mulher sobre o palco emprovisado.
Calma, a mulher olhava diretamente para os olhos da esposa de Finn.
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